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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

A PLENITUDE DOS TEMPOS DA REFORMA PROTESTANTE


Por Henrique Ventura

Afirmamos que o Cristianismo é uma religião histórica porque possui um Deus que intervém na História. Inúmeros casos nos quais Deus agiu para executar seus planos em favor de seu povo dentro do contexto humano poderão ser elencados para justificar nossa afirmação, inclusive, aqueles ocorridos entre os limiares históricos dos homens.
Quando Deus libertou Israel do cativeiro babilônico, intervindo em favor de seu povo do Antigo Testamento, usou Ciro, o Grande, em um contexto marcado pela disputa territorial e econômica entre impérios nos quais o mais poderoso prevalecia. Naquele momento, o império persa possuía o exército mais eficaz da terra, sendo capaz de subjugar qualquer inimigo sem pestanejar. Outro traço marcante das conquistas persas era o de permitir a liberdade religiosa para os povos sob seu domínio. Alguns historiadores afirmam que o grande império persa se constituía de um enorme caldeirão cultural. Assim, percebemos uma intervenção de Deus protegendo seu povo através da qual uma marca indelével de sua ação ficou registrada na História dos homens.
Seguindo para apogeu dos tempos, visando cumprir seu plano de salvação, Deus enviou Cristo no momento histórico certo, ou seja, em um contexto no qual haveria todos os elementos que possibilitaria, por exemplo, o tipo de morte capaz de causar grande sofrimento na vítima a ponto de literalmente ser castigado no ápice da dor e da agonia; referimo-nos à morte de cruz praticada pelo império romano à época. Em nenhum momento da história da humanidade a morte de cruz foi tão emblemática ao ponto de ser capaz de satisfazer as exigências do plano salvador de Deus por meio da morte de seu filho: “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades” (Isaías 53:5).
Após nossa contextualização, afirmamos categoricamente que a Reforma Protestante do século de XVI representa mais uma das intervenções de Deus na História da humanidade, seguindo o mesmo modus operandi, ou seja, valendo-se do contexto histórico para assim permitir aos seus servos a execução do plano de Deus no campo terreno. Analisaremos agora de que modo o contexto histórico na época da Reforma possibilitou o movimento reformador, principalmente o luterano, na Alemanha.
O movimento Renascentista foi fundamental sob todos os aspectos para a Reforma, pois surge como um movimento humanista e racional no final da Idade Média, apresentando os primeiros sinais de uma cultura laica e científica. O Protestantismo, em meio a esse despertar cultural, promoveu uma ruptura com a cristandade daquela época, tradicionalmente católica e espúria, isto é, em Lutero verificamos a valorização do indivíduo e da capacidade de gestão da própria vida, estimulando a alfabetização e educação, por exemplo. A Reforma Protestante teve um papel importante e decisivo na mentalidade (ou redefinição dela) dos indivíduos modernos estimulando um pensamento crítico. Sem dúvidas, a liberdade cultural promovida pelo movimento Renascentista foi crucial para que Lutero tivesse como elaborar sua contestação teológica aos dogmas da Igreja.
Interessante que Jan Huss antecipou várias críticas às doutrinas e à prática da Igreja Católica que ficariam célebres com Lutero e Calvino. No entanto, o contexto histórico no qual ele viveu a igreja católica estava no auge do seu domínio político e cultural manifestados, em partes, por meio da cruel inquisição. Razão pela qual o próprio Huss compreendeu que o seu tempo não era o momento oportuno sob o ponto de vista histórico para a eclosão de um movimento restaurador, por isso, antes de morrer e inspirado afirmou: “Hoje vocês assam um ganso, porém daqui a cem anos cantará um cisne...”. Esse cisne foi Lutero cujas bases no Renascimento iriam abrir caminho para a Reforma que iniciaria no século XVI.
Quando se estuda o período do Renascimento, geralmente, se destaca o advento de algumas invenções: o telescópio e o relógio de precisão. Mas, uma dessas invenções que provocaram uma verdadeira revolução no terreno da escrita e da leitura foi a imprensa: a máquina de impressão tipográfica inventada pelo alemão Johann Gutenberg no século XV foi um dos diferenciais do final do Medievo. O Advento da imprensa foi fundamental para a divulgação das ideias de Lutero e por que não dizer a principal propaganda para divulgar as ideias reformadoras pela Europa da época? Como exemplo, citamos a Bíblia de Gutenberg (também conhecida como a Bíblia de 42 linhas) que foi aclamada pela sua alta estética e qualidade técnica. Portanto, com a invenção da imprensa proporcionou ao movimento reformista um amplo alcance entre as regiões nas quais ele penetrou.
Outro fator importante foi o contexto político da época no qual o fim do Feudalismo enfraquecia a igreja, possibilitando a muitos monarcas que tinham interesse comum nesse sistema, via de regra descentralizado e subjugado pelas ideias da igreja católica, fosse substituído por um novo modo de pensar a sociedade. Vale a pena salientar que no século XVI a Alemanha ainda era uma das poucas regiões da época que possuíam fortes resquícios do Feudalismo. Assim, a doutrina luterana teve duplo alcance; de um lado, interessou à nobreza que viu a oportunidade de se libertar da autoridade de Roma e de confiscar terras e bens pertencentes à igreja. De outro lado, agradou aos camponeses que viram na divisão da igreja a oportunidade de se livrar dos tributos devido ao clero.
Portanto, a Reforma Protestante foi sem dúvida um grande agir de Deus na história que proporcionou um legado riquíssimo para propagação do Evangelho. Porém, Deus o fez no momento historicamente certo, ou seja, na plenitude de um período no qual Lutero teria a possiblidade de usar o contexto social e cultural no qual vivia em favor do Reino de Deus. Nosso Deus é o Deus da História governando sobre tudo. Por isso afirmamos como Lutero “Castelo forte é o nosso Deus. Espada e bom escudo”.



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