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terça-feira, 29 de outubro de 2019

LINGUAGEM: A PORTA DE ENTRADA PARA O HUMANO


Por Henrique Ventura
(Mestre da igreja anabatista em Fortaleza)

A linguagem pode ser conceituada como um instrumento que nos permite pensar e comunicar o pensamento. Por meio dela, estabelecemos diálogos com nossos semelhantes e damos sentido à realidade que nos cerca.
Em meio a pretensa argumentação, a grande questão a ser problematizada é a seguinte: a linguagem é a principal distinção entre a alma humana e a “inteligência” animal? Demonstrando assim que só o homem é portador de uma alma na qual reside a razão, enquanto os animais são apenas seres vivos biologicamente programados?
          Para encontrarmos uma resposta válida para o problema apresentado, analisemos logo de início a criação do homem e dos animais. Segundo o relato bíblico os animais foram criados do pó da terra como almas viventes, ou seja, não receberam nenhuma centelha divina distinta de seu corpo, isto é, o animal não recebeu em si uma parte intangível e imortal. Eles já saíram do pó como apenas criaturas viventes.

“E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie; gado, e répteis e feras da terra conforme a sua espécie; e assim foi” (Gênesis 1:24).

No caso da criação do homem, Deus o criou à sua imagem e à sua semelhança de Deus, sendo feito do pó da terra, recebendo primeiramente o corpo para depois receber o sopro da vida proveniente de Deus. Essa ordenação fez com que o corpo do homem passasse a ser portador de uma parte imaterial e intangível, ou seja, uma alma, sede da razão e do intelecto.

E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gênesis 2:7).

          Tomando como pressuposto o relato da criação fica evidente que Deus deu ao homem o que não deu ao animal, residindo no ato criador uma diferença abismal entre ambos, pois, por possuir uma alma o ser humano é capaz de produzir a linguagem verbal e não verbal dotada de cultura.
          O que vimos de modo teológico pode ser demonstrado também filosoficamente por meio de uma análise acerca da linguagem humana. Através da linguagem, claramente percebemos que as diferenças entre humanos e animais não estão apenas nos graus diferentes de inteligência pois, enquanto os animais continuam mergulhados na natureza, nós seres humanos somos capazes de transformá-la em cultura. A cultura torna-se possível devido à nossa capacidade de simbolizar elementos da vida, passando esse símbolo ao status de arte através da linguagem, que por sua vez, é reflexo da razão encontrada na sua sede, na alma.
          A linguagem é o elemento que caracteriza fundamentalmente a cultura humana e distingue o ser humano dos animais. Interessante observar que mesmo desencarnada a alma utiliza-se da linguagem, inclusive da simbólica para se comunicar. O rico da história registrada em Lucas 16, usou da linguagem simbólica quando se referiu a chama, água, dedo etc. Em outro texto registrado em Apocalipse 6: 9, 10, as almas desencarnadas que estão debaixo do altar, usaram da linguagem para expressar o desejo de ressuscitarem. Os exemplos citados mostram que a linguagem humana é uma das faculdades da alma, tanto dentro como fora do corpo.
          Mas alguém pode argumentar: os animais também não utilizam certo tipo de linguagem? Não seria isso um sinal de que os animais também possuem uma alma?
          Sabe-se que os animais utilizam um tipo de linguagem. As abelhas utilizam uma espécie de dança para indicar umas às outras onde encontraram pólen, o que caracteriza um tipo de comunicação. Outros animais como macacos e cães, organismos mais complexos que os insetos, podem surpreender com reações semelhantes às dos seres humanos. Tais animais são capazes de demonstrar amor, raiva, alegria, tristeza, além de outras tantas características comuns aos humanos. Por isso, podemos indagar: será que o animal pensa? E se pensa, em que o pensamento dele se distingue do meu?
          Embora se possa identificar nas respostas dadas pelos animais algo semelhante à comunicação humana, trata-se de uma linguagem inferior que não alcança o nível de elaboração simbólica da qual somente um ser possuidor de uma alma é capaz. Desse modo, alguns animais mais complexos, têm uma “inteligência” que lhes permite agir no mundo natural. Trata-se, porém, de um tipo de inteligência concreta, porque depende da experiência vivida “aqui e agora”. Mesmo quando o animal repete mais rapidamente o teste já aprendido, seu ato não domina o tempo, pois a cada momento em que é executado esgota-se no seu movimento. Em outras palavras, o animal não inventa o instrumento, não o aperfeiçoa, nem o conserva para uso posterior. Portanto, o gesto útil não tem sequência e não adquire o significado de uma experiência propriamente dita. Mesmo que alguns animais organizem “sociedades” mais complexas e até aprendam formas de sobrevivência e as ensinem a suas crias não há nada que se compare às transformações realizadas pelo homem enquanto criador de cultura. Todos os animais são programados biologicamente, por isso eles estão mergulhados na natureza. 
          Apenas o ato humano é voluntário e consciente da finalidade, ou seja, o ato existe antes como pensamento, possibilidade e a execução resulta da escolha de meios necessários para atingir os fins a que se propõe. Tal realidade só é possível porque a inteligência humana utiliza-se da linguagem simbólica.

“O mundo do animal é um mundo sem conceito. Nele nenhuma palavra existe para fixar o idêntico no fluxo dos fenômenos, a mesma espécie na variação dos exemplos, a mesma coisa na diversidade das situações. Mesmo que a recognição seja possível, a identificação está limitada ao que foi predeterminado de maneira vital. No fluxo, nada se acha que se possa determinar como permanente e, no entanto, tudo permanece idêntico, porque não há nenhum saber sólido acerca do passado e nenhum olhar claro miram o do futuro. O animal responde ao nome e não tem um eu, está fechado em si mesmo e, no entanto, abandonado; a cada momento surge uma nova compulsão, nenhuma ideia a transcende (...)”
(Th. Adorno e M. Horkheimer, Dialética do esclarecimento, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985, p. 230 -231.)

           Concluímos que a linguagem é a porta de entrada para o humano, pois por meio dela o homem cria a cultura e se distingue assim dos animais. Afirmamos, portanto, que essas características tipicamente humanas ocorrem pela presença da alma, ou seja, é na alma humana que reside a capacidade de humanização e razão. Isso não é coincidência, mas o projeto de um criador que não quis nivelar o homem ao animal, elevando-o, por isso diz a Escritura: “Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Pois pouco menor o fizeste do que os anjos, e de glória e de honra o coroaste” (Salmo 8:4,5). Portanto, afirmar que o animal possui uma alma é elevá-lo a uma condição que ele não tem e reduzir o homem feito à imagem e à semelhança de Deus como coroa da criação.

2 comentários:

  1. Adorno, Horkheimer Habermas e demais postulantes da Teoria Crítica, da Escola de Frankfurt, são grandes inimigos da família, dos valores morais e do cristianismo.

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    1. O fato de a Escola de Frankfurt ser opositor ao Cristianismo não desmerece o artigo, muito pelo contrário, se a argumentação deles serve de apoio para aquilo que o autor pretendeu explicar. Vemos, na verdade, a percepção do prof. Henrique em extrair ante a adversidade algo proveitoso. Não se admire, podemos fazer uso da argumentação de Marx, de Engels, de Nietzsche, de Foucault etc, para resguardar ainda mais os valores cristãos, apesar de esses não precisarem disso. Tanto a argumentação filosófica como a sociológica podem gerar subsídios proveitosos para o Reino de Deus, basta saber usá-los. Entretanto, não estou afirmando a aceitação de suas ideologias ou teorias, mas que a partir delas podemos desenvolver algo dentro do contexto cristão para refutá-las, para demonstrar o cumprimento das Escrituras e mostrar outras possibilidades, mas nunca rejeitando os pilares da fé.

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