sexta-feira, 27 de março de 2026

O apolítico

É possível ser apolítico — no sentido de não se envolver em partidos ou disputas de poder — por convicções religiosas e, ao mesmo tempo, criticar a política e a corrupção de autoridades?

A postura apolítica frequentemente se refere à recusa em participar da política partidária ou da "disputa de poder". No entanto, isso não impede um indivíduo de ter consciência social e ética, baseada em valores religiosos, que o leva a repudiar a corrupção e a injustiça. 

Muitas pessoas que se dizem apolíticas não desgostam da política em si, mas da corrupção e da desonestidade que observam no sistema. A crítica à corrupção pode ser vista como um ato de justiça e moralidade, e não de envolvimento partidário.

A convicção religiosa muitas vezes exige um alto padrão de conduta ética, o que naturalmente gera aversão a práticas corruptas que prejudicam a coletividade, como o abuso de poder e o desvio de verbas. No entanto, o ser apolítico não se restringe à convicção religiosa. É também uma escolha filosófica: a postura política de John Locke, considerado o "pai do liberalismo", defendia que os indivíduos possuem direitos naturais inalienáveis (vida, liberdade e propriedade). A liberdade de poder opinar e criticar estão no conjunto da liberdade. Além disso, a função do Estado, criado através de um contrato social, é proteger esses direitos, justificando o direito de discordar das autoridades e ser contra governos tiranos.

A crítica feita com base em princípios sólidos (verdade, justiça) é um compromisso com o "Reino" ou com valores morais, independentemente de quem esteja no poder. Portanto, a postura de "apolítico" por motivação religiosa geralmente significa a recusa em instrumentalizar a fé para fins de poder (ou seja, não se envolver na "salvação política"), sem que isso signifique aceitar ou silenciar diante da corrupção institucional. 

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