quinta-feira, 18 de junho de 2026

O erro de reduzir Jesus Cristo a um ativista de esquerda

 


Por ser o próprio Deus encarnado, a figura de Jesus exige reverência absoluta. Atribuir a Ele palavras que jamais proferiu não é apenas um anacronismo histórico, mas configura uma violação direta do mandamento de não tomar o nome do Senhor em vão. De uma perspectiva estritamente teológica e interpretativa dos Dez Mandamentos, associar Jesus Cristo a uma ideologia política moderna — como a esquerda — pode ser considerado uma forma de tomar o nome de Deus em vão, conforme argumentam diversos teólogos e juristas bíblicos. O segundo mandamento (Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, Êxodo 20:7) proíbe muito mais do que o uso de palavras profanas. Ele veda o uso do nome e da autoridade de Deus para legitimar interesses humanos, ambições políticas ou discursos partidários.

Desta forma, Jesus Cristo jamais pode ser rotulado como comunista ou esquerdista, pois sua figura histórica e teológica transcende completamente as categorias políticas e ideológicas modernas. Atribuir a Jesus o rótulo de esquerda — como fez o Presidente Lula em declarações públicas, como a seguinte: A gente não tem medo de dizer que é de esquerda, porque ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo. Ninguém brigou mais pelos pobres do que Jesus Cristo. E exatamente por brigar pelos pobres, cuidar dos doentes e atender aos mais necessitados que os ricos da época mandaram crucificar Jesus Cristo[1] — constitui um profundo anacronismo histórico e um equívoco teológico. A essência do ministério de Cristo não residia na reestruturação socioeconômica do Império Romano, mas na inauguração de uma realidade espiritual e eterna: o Reino de Deus.

Jesus Cristo não absorveu as correntes filosóficas ou políticas de sua época, como o ativismo dos zelotes ou o legalismo dos fariseus. Ele estabeleceu uma doutrina própria, baseada no arrependimento, no amor sacrificial e na filiação divina. Jesus não ostentou riquezas, conservando-se em um patamar social de profunda simplicidade, como Ele mesmo afirmou: O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça (Lucas 9:58). Contudo, Ele jamais recriminou quem possuía bens. Cristo entendia que o trabalho honesto poderia gerar prosperidade, mas advertiu severamente contra o perigo de o coração ser absorvido pela ganância e pela avareza: E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui (Lucas 12:15).  

Sua mensagem central sempre apontou para fora das estruturas deste mundo. O argumento bíblico definitivo sobre a natureza do Seu Reino ocorre durante o Seu julgamento perante o governador romano Pôncio Pilatos:

Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)

Ao afirmar categoricamente que Seu Reino não provém da terra, Jesus rejeita qualquer tentativa de instrumentalização de Sua mensagem para fins de poder estatal, revolução armada ou redistribuição compulsória de bens — pilares fundamentais do pensamento comunista. Assim, a narrativa de que Jesus era comunista baseia-se na leitura superficial de Sua atenção voltada aos pobres, enfermos e marginalizados. No entanto, o cuidado de Jesus pelos necessitados não possuía uma motivação ideológica ou de luta de classes. Como o Deus encarnado, a motivação de Jesus era a expressão pura do amor divino e da verdade.

A solidariedade de Jesus com os excluídos e aflitos, evidenciada em passagens como o Sermão da Montanha, nunca teve o propósito de incitar uma revolta social ou uma luta de classes contra os ricos, mas o de oferecer consolo eterno e cura espiritual. Enquanto o comunismo impõe a coletivização de bens por meio da força coercitiva do Estado, Cristo sempre defendeu a generosidade voluntária operada pela transformação do coração individual. Essa distinção fica clara no episódio do Jovem Rico (Mateus 19:16-22), onde o chamado para vender os bens funcionou como um teste específico para o apego espiritual daquele homem, e não como uma diretriz doutrinária para a abolição da propriedade privada. Jesus curou e acolheu porque Ele é a própria Verdade e Vida, manifestando o caráter misericordioso do Pai na Terra. Reduzir essa dinâmica espiritual a um manifesto partidário empobrece o Evangelho.

O comunismo é uma ideologia materialista e ateia nascida no século XIX com Karl Marx e Friedrich Engels, fundamentada no materialismo histórico. Jesus viveu no século I e Sua mensagem é essencialmente teocêntrica. C.S. Lewis, em sua obra clássica Cristianismo Puro e Simples, argumenta que o Cristianismo não fornece um programa político detalhado, justamente porque sua mensagem deve se aplicar a todas as eras e sistemas. Ele enfatiza que o erro moderno é tentar recortar partes do ensinamento de Cristo para contrabandear ideologias humanas. Até o papa João Paulo II, conhecido por sua forte oposição aos regimes totalitários comunistas, reiterou na encíclica Centesimus Annus que o erro fundamental do socialismo/comunismo é de natureza antropológica. O comunismo reduz o homem a uma engrenagem estatal, enquanto Jesus coloca o ser humano como um indivíduo livre, com dignidade transcendente dada por Deus. Em sua literatura teológica profunda, especialmente no capítulo “O Grande Inquisidor” de Os Irmãos Karamazov, Dostoievski demonstra como a tentativa humana de criar um paraíso terrestre focado apenas no “pão material” (a promessa comunista) corrompe a liberdade espiritual que Jesus veio trazer.

Dizer que ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo demonstra desconhecimento tanto da teologia bíblica quanto da teoria política. Jesus nunca foi comunista ou esquerdista. O comunismo busca a salvação do homem por meio do Estado e da economia; Jesus oferece a salvação do homem por meio da fé e do sacrifício na cruz. A missão de Cristo foi resgatar a humanidade do pecado e conectá-la ao Pai celeste. Rotulá-lo com ideologias humanas é tentar prender o Criador do universo dentro das limitações de uma caixa política terrena.

 



[1] O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez essa declaração associando a figura de Jesus Cristo ao espectro político progressista em 17 de outubro de 2024, durante um comício de campanha eleitoral municipal no município de Camaçari, na Bahia. O discurso ocorreu durante um ato político para apoiar a candidatura de Luiz Caetano (PT) à prefeitura de Camaçari.

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