Por
ser o próprio Deus encarnado, a figura de Jesus exige reverência absoluta.
Atribuir a Ele palavras que jamais proferiu não é apenas um anacronismo
histórico, mas configura uma violação direta do mandamento de não tomar o nome
do Senhor em vão. De uma perspectiva estritamente teológica e interpretativa
dos Dez Mandamentos, associar Jesus Cristo a uma ideologia política moderna —
como a esquerda — pode ser considerado uma forma de tomar o nome de Deus em
vão, conforme argumentam diversos teólogos e juristas bíblicos. O segundo
mandamento (Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão, Êxodo 20:7)
proíbe muito mais do que o uso de palavras profanas. Ele veda o uso do nome e
da autoridade de Deus para legitimar interesses humanos, ambições políticas ou
discursos partidários.
Desta
forma, Jesus Cristo jamais pode ser rotulado como comunista ou esquerdista,
pois sua figura histórica e teológica transcende completamente as categorias
políticas e ideológicas modernas. Atribuir a Jesus o rótulo de esquerda — como
fez o Presidente Lula em declarações públicas, como a seguinte: A gente não
tem medo de dizer que é de esquerda, porque ninguém foi mais de esquerda do que
Jesus Cristo. Ninguém brigou mais pelos pobres do que Jesus Cristo. E
exatamente por brigar pelos pobres, cuidar dos doentes e atender aos mais
necessitados que os ricos da época mandaram crucificar Jesus Cristo[1] — constitui um profundo
anacronismo histórico e um equívoco teológico. A essência do ministério de
Cristo não residia na reestruturação socioeconômica do Império Romano, mas na
inauguração de uma realidade espiritual e eterna: o Reino de Deus.
Jesus
Cristo não absorveu as correntes filosóficas ou políticas de sua época, como o
ativismo dos zelotes ou o legalismo dos fariseus. Ele estabeleceu uma doutrina
própria, baseada no arrependimento, no amor sacrificial e na filiação divina. Jesus
não ostentou riquezas, conservando-se em um patamar social de profunda
simplicidade, como Ele mesmo afirmou: O Filho do Homem não tem onde reclinar
a cabeça (Lucas 9:58). Contudo, Ele jamais recriminou quem possuía bens.
Cristo entendia que o trabalho honesto poderia gerar prosperidade, mas advertiu
severamente contra o perigo de o coração ser absorvido pela ganância e pela
avareza: E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza; porque a vida
de qualquer não consiste na abundância do que possui (Lucas 12:15).
Sua
mensagem central sempre apontou para fora das estruturas deste mundo. O
argumento bíblico definitivo sobre a natureza do Seu Reino ocorre durante o Seu
julgamento perante o governador romano Pôncio Pilatos:
Respondeu
Jesus: O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo,
pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; mas agora
o meu reino não é daqui. (João 18:36)
Ao
afirmar categoricamente que Seu Reino não provém da terra, Jesus rejeita
qualquer tentativa de instrumentalização de Sua mensagem para fins de poder
estatal, revolução armada ou redistribuição compulsória de bens — pilares
fundamentais do pensamento comunista. Assim, a narrativa de que Jesus era
comunista baseia-se na leitura superficial de Sua atenção voltada aos pobres,
enfermos e marginalizados. No entanto, o cuidado de Jesus pelos necessitados
não possuía uma motivação ideológica ou de luta de classes. Como o Deus
encarnado, a motivação de Jesus era a expressão pura do amor divino e da
verdade.
A
solidariedade de Jesus com os excluídos e aflitos, evidenciada em passagens
como o Sermão da Montanha, nunca teve o propósito de incitar uma revolta social
ou uma luta de classes contra os ricos, mas o de oferecer consolo eterno e cura
espiritual. Enquanto o comunismo impõe a coletivização de bens por meio da
força coercitiva do Estado, Cristo sempre defendeu a generosidade voluntária
operada pela transformação do coração individual. Essa distinção fica clara no
episódio do Jovem Rico (Mateus 19:16-22), onde o chamado para vender os bens
funcionou como um teste específico para o apego espiritual daquele homem, e não
como uma diretriz doutrinária para a abolição da propriedade privada. Jesus
curou e acolheu porque Ele é a própria Verdade e Vida, manifestando o caráter
misericordioso do Pai na Terra. Reduzir essa dinâmica espiritual a um manifesto
partidário empobrece o Evangelho.
O
comunismo é uma ideologia materialista e ateia nascida no século XIX com Karl
Marx e Friedrich Engels, fundamentada no materialismo histórico. Jesus viveu no
século I e Sua mensagem é essencialmente teocêntrica. C.S. Lewis, em sua obra
clássica Cristianismo Puro e Simples, argumenta que o Cristianismo não fornece
um programa político detalhado, justamente porque sua mensagem deve se aplicar
a todas as eras e sistemas. Ele enfatiza que o erro moderno é tentar recortar
partes do ensinamento de Cristo para contrabandear ideologias humanas. Até o papa
João Paulo II, conhecido por sua forte oposição aos regimes totalitários
comunistas, reiterou na encíclica Centesimus Annus que o erro
fundamental do socialismo/comunismo é de natureza antropológica. O comunismo
reduz o homem a uma engrenagem estatal, enquanto Jesus coloca o ser humano como
um indivíduo livre, com dignidade transcendente dada por Deus. Em sua
literatura teológica profunda, especialmente no capítulo “O Grande Inquisidor”
de Os Irmãos Karamazov, Dostoievski demonstra como a tentativa humana de criar
um paraíso terrestre focado apenas no “pão material” (a promessa comunista)
corrompe a liberdade espiritual que Jesus veio trazer.
Dizer
que ninguém foi mais de esquerda do que Jesus Cristo demonstra
desconhecimento tanto da teologia bíblica quanto da teoria política. Jesus
nunca foi comunista ou esquerdista. O comunismo busca a salvação do homem por
meio do Estado e da economia; Jesus oferece a salvação do homem por meio da fé
e do sacrifício na cruz. A missão de Cristo foi resgatar a humanidade do pecado
e conectá-la ao Pai celeste. Rotulá-lo com ideologias humanas é tentar prender
o Criador do universo dentro das limitações de uma caixa política terrena.
[1]
O presidente Luiz Inácio Lula
da Silva fez essa declaração associando a figura de Jesus Cristo ao espectro
político progressista em 17 de outubro de 2024, durante um comício de campanha
eleitoral municipal no município de Camaçari, na Bahia. O discurso ocorreu
durante um ato político para apoiar a candidatura de Luiz Caetano (PT) à
prefeitura de Camaçari.
Nenhum comentário:
Postar um comentário