O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Não deixo de fazer porque não consigo!

 


O apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos, descreveu um dos maiores dilemas da experiência humana: "Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço". No entanto, para o cristão genuíno, o Espírito Santo cria uma situação perfeitamente inversa. À medida que amadurecemos na fé, descobrimos que não conseguimos deixar de fazer o bem, pois a sensibilidade do Espírito Santo passa a governar nossa vontade, alinhando-a à soberana vontade divina.

Nosso objetivo fundamental é fazer o bem tanto ao irmão quanto ao inimigo. Essa não é uma resposta baseada no esforço humano ou no mero moralismo, mas o resultado de uma invasão de graça que transforma o nosso querer e o nosso efetuar. Mesmo quando a nossa carne hesita ou tenta recuar diante da ingratidão, o Espírito Santo impera com uma decisão inspiradora, guiando-nos irresistivelmente ao caminho do amor e da reconciliação.

O modelo bíblico da graça constrangedora

A Escritura está repleta de histórias onde a vontade humana foi subjugada pela orientação do Espírito para a prática do bem, mesmo quando o cenário favorecia o julgamento ou a vingança.

O exemplo de José do Egito ilustra essa realidade de forma vívida. Diante de seus irmãos, que o haviam vendido como escravo, José tinha todo o poder para aplicar uma punição severa. Humanamente, a justiça retributiva seria a escolha natural. Contudo, ao revelar sua identidade, suas palavras demonstraram um coração totalmente alinhado à perspectiva divina: “Não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus”. A sensibilidade de José à soberana vontade de Deus o impediu de pagar o mal com o mal, constrangendo-o a sustentar e proteger aqueles que o haviam ferido.

No Novo Testamento, encontramos o diácono Estêvão. Enquanto era apedrejado por uma multidão enfurecida, a reação natural de preservação ou clamor por justiça terrena foi substituída por uma oração inspirada pelo Espírito: “Senhor, não lhes imputes este pecado”. Estêvão não conseguiu odiar seus algozes; a presença do Espírito Santo em sua vida era tão avassaladora que sua última ação terrena foi interceder pelo bem de seus inimigos.

Testemunhos na história da igreja

Essa mesma dinâmica espiritual ecoou através dos séculos na história da igreja, moldando o caráter de homens e mulheres que se tornaram prisioneiros da bondade de Deus.

Ao ser caçado e finalmente capturado por soldados romanos, o idoso bispo Policarpo de Esmirna não demonstrou rancor. Em vez de resistir ou amaldiçoar seus captores, Policarpo pediu que lhe dessem uma hora para orar e, demonstrando a hospitalidade de Cristo, ordenou que servissem uma refeição farta aos soldados que o levariam para o martírio na fogueira.

Após sobreviver aos horrores de um campo de concentração nazista onde sua irmã faleceu, Corrie ten Boom passou a pregar sobre o perdão. Anos mais tarde, em uma igreja na Alemanha, ela foi abordada por um dos guardas mais cruéis daquele campo, que agora lhe pedia perdão. Corrie relata que, num primeiro momento, seu braço travou e ela sentiu uma frieza na alma. Contudo, ao clamar silenciosamente pelo Espírito Santo, uma força sobrenatural impulsionou sua mão. Ao segurar a mão daquele homem, ela foi inundada por um amor divino que sua própria capacidade humana jamais seria capaz de produzir. Ela não conseguiu reter o perdão.

A sensibilidade que governa a vontade

Esses exemplos nos mostram que a vida cristã não se resume a seguir regras externas, mas a ser habitado por uma Pessoa. O Espírito Santo atua como um freio soberano contra os nossos impulsos egoístas e, ao mesmo tempo, como um motor inesgotável para o amor sacrificial.

Quando somos tentados a ignorar a necessidade do próximo ou a reter o bem de quem nos ofendeu, o Espírito gera um santo desconforto. Ele nos lembra de que fomos perdoados quando ainda éramos inimigos de Deus. Diante dessa realidade, o cristão descobre uma incapacidade bendita: a incapacidade de permanecer indiferente. Guiados por essa bússola divina, confessamos alegremente que já não vivemos para nós mesmos, e que fazer o bem se tornou a nossa única e inevitável resposta ao amor que nos alcançou.

 

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