O
apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos, descreveu um dos maiores dilemas da
experiência humana: "Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não
quero, esse faço". No entanto, para o cristão genuíno, o Espírito Santo cria uma situação perfeitamente inversa. À medida que
amadurecemos na fé, descobrimos que não conseguimos deixar de fazer o bem,
pois a sensibilidade do Espírito Santo passa a governar nossa vontade,
alinhando-a à soberana vontade divina.
Nosso
objetivo fundamental é fazer o bem tanto ao irmão quanto ao inimigo. Essa não é
uma resposta baseada no esforço humano ou no mero moralismo, mas o resultado de
uma invasão de graça que transforma o nosso querer e o nosso efetuar. Mesmo
quando a nossa carne hesita ou tenta recuar diante da ingratidão, o Espírito
Santo impera com uma decisão inspiradora, guiando-nos irresistivelmente ao
caminho do amor e da reconciliação.
O
modelo bíblico da graça constrangedora
A
Escritura está repleta de histórias onde a vontade humana foi subjugada pela
orientação do Espírito para a prática do bem, mesmo quando o cenário favorecia
o julgamento ou a vingança.
O
exemplo de José do Egito ilustra essa realidade de forma vívida. Diante
de seus irmãos, que o haviam vendido como escravo, José tinha todo o poder para
aplicar uma punição severa. Humanamente, a justiça retributiva seria a escolha
natural. Contudo, ao revelar sua identidade, suas palavras demonstraram um
coração totalmente alinhado à perspectiva divina: “Não fostes vós que me
enviastes para cá, senão Deus”. A sensibilidade de José à soberana vontade de
Deus o impediu de pagar o mal com o mal, constrangendo-o a sustentar e proteger
aqueles que o haviam ferido.
No
Novo Testamento, encontramos o diácono Estêvão. Enquanto era apedrejado
por uma multidão enfurecida, a reação natural de preservação ou clamor por
justiça terrena foi substituída por uma oração inspirada pelo Espírito: “Senhor,
não lhes imputes este pecado”. Estêvão não conseguiu odiar seus algozes; a
presença do Espírito Santo em sua vida era tão avassaladora que sua última ação
terrena foi interceder pelo bem de seus inimigos.
Testemunhos
na história da igreja
Essa
mesma dinâmica espiritual ecoou através dos séculos na história da igreja,
moldando o caráter de homens e mulheres que se tornaram prisioneiros da bondade
de Deus.
Ao
ser caçado e finalmente capturado por soldados romanos, o idoso bispo Policarpo
de Esmirna não demonstrou rancor. Em vez de resistir ou amaldiçoar seus
captores, Policarpo pediu que lhe dessem uma hora para orar e, demonstrando a
hospitalidade de Cristo, ordenou que servissem uma refeição farta aos soldados
que o levariam para o martírio na fogueira.
Após
sobreviver aos horrores de um campo de concentração nazista onde sua irmã
faleceu, Corrie ten Boom passou a pregar sobre o perdão. Anos mais tarde, em
uma igreja na Alemanha, ela foi abordada por um dos guardas mais cruéis daquele
campo, que agora lhe pedia perdão. Corrie relata que, num primeiro momento, seu
braço travou e ela sentiu uma frieza na alma. Contudo, ao clamar
silenciosamente pelo Espírito Santo, uma força sobrenatural impulsionou sua
mão. Ao segurar a mão daquele homem, ela foi inundada por um amor divino que
sua própria capacidade humana jamais seria capaz de produzir. Ela não conseguiu
reter o perdão.
A
sensibilidade que governa a vontade
Esses
exemplos nos mostram que a vida cristã não se resume a seguir regras externas,
mas a ser habitado por uma Pessoa. O Espírito Santo atua como um freio soberano
contra os nossos impulsos egoístas e, ao mesmo tempo, como um motor inesgotável
para o amor sacrificial.
Quando
somos tentados a ignorar a necessidade do próximo ou a reter o bem de quem nos
ofendeu, o Espírito gera um santo desconforto. Ele nos lembra de que fomos
perdoados quando ainda éramos inimigos de Deus. Diante dessa realidade, o
cristão descobre uma incapacidade bendita: a incapacidade de permanecer
indiferente. Guiados por essa bússola divina, confessamos alegremente que já
não vivemos para nós mesmos, e que fazer o bem se tornou a nossa única e
inevitável resposta ao amor que nos alcançou.

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