É possível ser apolítico — no sentido
de não se envolver em partidos ou disputas de poder — por convicções religiosas
e, ao mesmo tempo, criticar a política e a corrupção de autoridades?
A postura apolítica frequentemente se
refere à recusa em participar da política partidária ou da
"disputa de poder". No entanto, isso não impede um indivíduo de
ter consciência social e ética, baseada em valores religiosos, que
o leva a repudiar a corrupção e a injustiça.
Muitas pessoas que se dizem
apolíticas não desgostam da política em si, mas da corrupção e da desonestidade
que observam no sistema. A crítica à corrupção pode ser vista como um ato
de justiça e moralidade, e não de envolvimento partidário.
A convicção religiosa muitas vezes
exige um alto padrão de conduta ética, o que naturalmente gera aversão a
práticas corruptas que prejudicam a coletividade, como o abuso de poder e o
desvio de verbas. No entanto, o ser apolítico não se restringe à convicção
religiosa. É também uma escolha filosófica: a postura política de John Locke,
considerado o "pai do liberalismo", defendia que os indivíduos
possuem direitos naturais inalienáveis (vida, liberdade e propriedade). A
liberdade de poder opinar e criticar estão no conjunto da liberdade. Além
disso, a função do Estado, criado através de um contrato social, é proteger
esses direitos, justificando o direito de discordar das autoridades e ser
contra governos tiranos.
A crítica feita com base em
princípios sólidos (verdade, justiça) é um compromisso com o "Reino"
ou com valores morais, independentemente de quem esteja no poder. Portanto, a
postura de "apolítico" por motivação religiosa geralmente significa a
recusa em instrumentalizar a fé para fins de poder (ou seja, não se envolver na
"salvação política"), sem que isso signifique aceitar ou silenciar
diante da corrupção institucional.






