O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

A inversão de valores na educação brasileira: quando ensinar latim, piano e virtudes vira crime de Estado

 


A recente decisão da 2ª Vara Criminal de Jales (SP), que condenou um casal cristão a 50 dias de detenção em regime semiaberto sob a acusação de “abandono intelectual”, expõe uma ferida profunda na relação entre o Estado brasileiro e a família tradicional. O “crime” dos pais? Escolher o homeschooling (ensino domiciliar) para proteger e elevar a formação espiritual, moral e acadêmica de suas duas filhas, de 11 e 15 anos.

Para além da discussão técnica sobre a falta de regulamentação federal do tema, a fundamentação do veredito acende um alerta vermelho para todos os cristãos. O magistrado justificou a condenação criticando a ausência de pautas de gênero, diversidade e, de forma inacreditável, o fato de as meninas preferirem música cristã e não consumirem gêneros seculares como o funk e o sertanejo. Estamos diante de uma clara tentativa de criminalizar o desejo dos pais de edificar um lar moldado pela fé, pelas artes e pela alta cultura.

Como falar em “abandono intelectual” quando a realidade factual aponta para o absoluto oposto? No lar dessa família, as jovens não apenas cumpriam as disciplinas tradicionais de matemática e ciências, mas também estudavam inglês, latim, piano, teoria musical e canto coral. Mais do que isso, os relatórios da defesa demonstram que as adolescentes leem cerca de 30 livros por ano — uma marca que supera em quase seis vezes a vergonhosa média nacional de 5,6 livros por habitante.

Para oferecer esse ambiente de excelência, a própria mãe graduou-se em Matemática e Pedagogia. Houve zelo, investimento de tempo, sacrifício financeiro e entrega amorosa. Rotular esse empenho como crime é um insulto à inteligência e uma inversão brutal de prioridades em um país onde o sistema público de ensino amarga os piores índices do PISA e frequentemente falha em alfabetizar crianças na idade certa.

O Mandamento Bíblico e o Direito Natural da Família

A perspectiva cristã sobre a educação é inegociável: a primazia da instrução dos filhos pertence aos pais, não ao Estado. Esse princípio está solidificado no Direito Natural e expressamente ordenado nas Sagradas Escrituras: Instrui a criança no caminho em que deve andar, e, até quando envelhecer, não se desviará dele (Provérbios 22:6).

No livro de Deuteronômio 6:6-7, Deus ordena que Seus preceitos sejam ensinados pelos pais aos filhos nos “assentos” em casa, no andar pelo caminho, ao deitar e ao levantar. O papel do governo deve ser subsidiário. Quando o Estado tenta usurpar o papel da família para se tornar o único e soberano doutrinador de mentes, ele assume contornos absolutistas e ditatoriais.

Exigir que uma família cristã inclua obrigatoriamente pautas de ideologia de gênero ou force suas filhas a conviver com manifestações culturais que agridem seus valores de santidade e recato é uma violação escancarada da liberdade religiosa e de consciência.

A Perseguição Ideológica Disfarçada de “Socialização”

O argumento de que o homeschooling prejudica a “socialização” cai por terra quando analisamos a fundamentação da sentença. O que o tribunal parece lamentar não é o isolamento social das meninas que participavam ativamente de corais e atividades comunitárias, mas a imunidade delas contra o processo de Doutrinação Woke que tomou conta de muitas salas de aula pelo país.

A punição a esses pais é um recado pedagógico do ativismo judicial: se você se recusar a entregar a mente de seu filho para a agenda secular do Estado, você será tratado como criminoso. Enquanto o próprio Ministério Público pediu a absolvição do casal, a sanha punitiva prevaleceu para impor uma visão de mundo onde o sagrado é empurrado à margem e o profano é transformado em requisito obrigatório de cidadania.

O caso de Jales, que já motivou uma denúncia contra o magistrado no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) devido a posturas inadequadas nas redes sociais, reforça a urgência máxima para que o Congresso Nacional tire da gaveta o PL 1.338/2022. O projeto, já aprovado pela Câmara, aguarda votação no Senado e dará o respaldo legal definitivo para que as famílias exerçam seu direito sagrado de educar em casa com supervisão justa, sem o medo do cárcere ou de multas confiscatórias.

Não podemos aceitar passivamente que a virtude seja punida e a mediocridade seja imposta por decreto. Orar pelas famílias que sofrem essa perseguição e lutar pela legítima defesa da autoridade paterna e materna é um dever de todo cristão que preza pelo futuro da igreja e da sociedade. Os filhos pertencem a Deus e foram confiados às famílias, nunca ao Estado.

Os infiltrados da Igreja

 


A Igreja evangélica contemporânea enfrenta um dos embates mais profundos de sua história institucional e teológica: a presença de indivíduos que se declaram convertidos, mas operam como agentes de subversão interna. Este fenômeno não constitui apenas uma divergência doutrinária; trata-se de um esforço deliberado para introduzir ideologias seculares, como a ideologia de gênero, o comunismo, o feminismo radical, o aborto e, em casos extremas de deterioração moral, a relativização ou tolerância a crimes como a pedofilia, dentro do corpo doutrinário cristão. A defesa da fé exige uma denúncia clara da hipocrisia desses agentes infiltrados, cuja conduta contradiz a essência do Evangelho.

Como exemplo escancarado, a ordenação e o exercício do pastorado por mulheres servem como um marcador visível dessa tentativa de reconfigurar a estrutura eclesial a partir de moldes seculares. Quando a liderança espiritual ignora os pré-requisitos estabelecidos nas Escrituras, a autoridade da Palavra é subordinada ao pragmatismo e ao politicamente correto. As diretrizes expressas em cartas apostólicas, como em I Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9, não são construções culturais datadas e descartáveis; elas delineiam o padrão divino para o governo da Igreja, limitando o presbiterado e o episcopado ao homem qualificado. Afastar-se desse modelo sob o pretexto de “modernização” ou “igualdade” descaracteriza a ordem divina e abre precedentes para que outras pautas antibíblicas ganhem espaço nos púlpitos.

Pela via acadêmica, insufladora, em muitos casos, de uma repulsa ao Evangelho e ao Cristianismo, o conceito de patriarcado é frequentemente alvo de severas críticas antropológicas e sociológicas que o definem como uma estrutura puramente opressiva ou uma “máscara para o machismo”. Contudo, há uma distinção fundamental entre as distorções do pecado humano e o padrão instituído por Deus na Criação.

O patriarcado, sob a perspectiva bíblica, baseia-se na responsabilidade espiritual atribuída ao homem desde o Éden para a proteção feminina. Este modelo impõe ao homem o dever de proteger, prover e liderar sacrificialmente sua família e a comunidade de fé. Longe de autorizar a humilhação ou o comportamento violento, as Escrituras ordenam que os maridos amem suas esposas “como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Efésios 5:25).

O machismo é uma patologia decorrente da queda humana com índices alarmantes no mundo secular, ou seja, em homens sem convicções profundas da fé cristã. Por isso, o patriarcado bíblico é entendido como uma barreira de proteção para a dignidade da mulher, conferindo-lhe honra e cuidado.

Agora, a atuação de pessoas infiltradas dentro das congregações constitui um ato de profunda falsidade. Ao utilizarem a linguagem da fé, a liturgia e o ambiente sagrado para promover agendas como a legalização do aborto ou a desconstrução da moralidade sexual judaico-cristã, esses indivíduos revelam uma desconexão absoluta com o Espírito Santo. Trata-se de um engano planejado: eles desfrutam da comunhão dos santos enquanto trabalham ativamente para destruir os alicerces teológicos da comunidade que os acolheu. Essa hipocrisia é severamente condenada por Deus, pois tenta camuflar a rebelião espiritual com um verniz de piedade formal.

A presença de um infiltrado que utiliza o ambiente eclesial para propagar o comunismo e o movimento woke representa uma tentativa direta de substituir a centralidade do Evangelho por uma cosmovisão puramente materialista e revolucionária. Sob o disfarce de um falso altruísmo e de uma suposta justiça social, esse indivíduo opera de forma estratégica para minar os valores absolutos da fé cristã, promovendo a luta de classes, o relativismo moral e a desconstrução da família tradicional. Ao instrumentalizar o púlpito e os pequenos grupos para validar pautas seculares que destroem a herança judaico-cristã, esse infiltrado comete a maior das hipocrisias: usa o nome de Cristo para guiar as ovelhas em direção a ideologias ateístas e anticristãs, cujo histórico e objetivos reais visam o enfraquecimento e a posterior subjugação da própria Igreja.

Para preservar sua integridade, a Igreja deve reativar o seu senso de alerta espiritual por meio das advertências contidas no Novo Testamento. Em 2 Coríntios 11:13-15, o apóstolo Paulo adverte que “tais homens são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo”, lembrando que o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Jesus, no Sermão do Monte, exorta em Mateus 7:15: “Acautelem-se dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores”. A avaliação de qualquer liderança ou ensinamento deve basear-se na fidelidade à verdade e na retidão de vida. O livro de Judas 1:4 reforça a realidade desse perigo ao afirmar que “certos homens, cuja condenação já estava registrada há muito tempo, introduziram-se secretamente no meio de vocês”, caracterizando-os como ímpios que transformam a graça de Deus em libertinagem.

A defesa da fé cristã contra a infiltração ideológica exige firmeza doutrinária, apego intransigente às Escrituras e a coragem de confrontar o erro. Somente por meio do discernimento espiritual e da aplicação rigorosa da verdade bíblica a Igreja poderá se manter purificada e protegida contra os ardis dos enganadores.

 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Liberdade de expressão: um direito divino e natural

 


A liberdade de expressão é uma das faculdades mais elevadas da condição humana, frequentemente compreendida como uma dádiva divina inerente à própria existência e à consciência. Por originar-se da capacidade natural de pensar e julgar, essa prerrogativa não advém de uma concessão do Estado, mas de uma dimensão que transcende o ordenamento jurídico meramente temporal. Sendo um direito natural, ela possui uma validade universal que anula qualquer tentativa de o poder político se colocar como o proprietário ou o distribuidor desse direito, tornando ilegítimo o ato governamental de usurpar o fluxo livre das ideias.

Sob essa ótica, o governo não possui justificativa moral ou filosófica para privar os cidadãos de manifestarem publicamente seus pensamentos. A autoridade pública existe para garantir a ordem e a justiça, e não para tutelar as mentes ou ditar quais opiniões são aceitáveis no debate público. Quando o poder político decide o que pode ou não ser dito, ele ultrapassa suas funções legítimas e assume um papel autoritário, sufocando a pluralidade e impedindo o desenvolvimento intelectual e social que só o livre embate de visões pode proporcionar.

No entanto, a defesa intransigente da manifestação do pensamento não implica em uma autorização para a impunidade. O limite da liberdade individual encontra-se justamente no respeito aos direitos alheios e na preservação da integridade dos membros da sociedade. Se um indivíduo instrumentaliza a sua fala para cometer crimes tipificados, como a calúnia, a difamação ou a incitação direta à violência, ele deve responder legalmente por suas ações no devido processo legal, assegurando a responsabilidade posterior pelos abusos praticados.

Portanto, o caminho para o equilíbrio social reside na aplicação rigorosa das leis penais e civis já existentes, criadas especificamente para resguardar os direitos de quem possa ser agredido ou prejudicado. Punir o crime após a sua ocorrência protege as vítimas sem recorrer à censura prévia, que destrói o direito de todos. Dessa forma, preserva-se o direito sagrado da livre expressão para a coletividade, ao mesmo tempo em que se responsabiliza o infrator de maneira justa, técnica e pontual.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Quando o pastor é idolatrado

 



O fenômeno do afastamento de fiéis das igrejas evangélicas, muitas vezes motivado por mágoas contra a liderança, é um tema complexo que merece uma análise à luz das Escrituras. Embora existam falhas humanas no ministério, há um padrão recorrente de decepção que nasce não do erro do pastor, mas da expectativa equivocada do liderado.

Muitas pessoas chegam às comunidades de fé buscando uma figura que valide todos os seus desejos ou que preencha carências emocionais profundas. Ocorre, então, a idolatria da liderança: o pastor deixa de ser um mestre da Palavra para se tornar um “pai substituto” que não pode falhar. Quando esse líder, agindo com base em princípios bíblicos ou limitações práticas, diz um “não”, o castelo das firmezas e confianças desmoronam. Contudo, a Bíblia nos alerta a nunca colocarmos nossa confiança em um homem, ainda que ele seja alguém espiritual. Em Jeremias 17:5 está escrito: “Maldito o homem que confia no homem”. Quando o foco do fiel sai de Cristo e se fixa no homem, qualquer divergência de vontade é interpretada como traição ou falta de amor, gerando repulsa e o eventual abandono da fé comunitária.

O papel do pastor, segundo o Novo Testamento, é o de despenseiro dos mistérios de Deus e guardião da sã doutrina. O apóstolo Paulo foi enfático ao instruir Timóteo sobre a pressão que os líderes sofreriam para agradar ao público:

Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão em torno de si mestres segundo os seus próprios desejos. (2 Timóteo 4:3)

Muitas vezes, a decepção que o fiel sente é, na verdade, uma resistência à correção bíblica. Um pastor fiel não pode moldar o texto sagrado para satisfazer o ego ou os projetos pessoais de quem quer que seja. Ele deve obediência aos institutos bíblicos, mesmo que isso custe a simpatia de membros da igreja. O “não” pastoral, nesses casos, não é um ato de desamor, mas de fidelidade teológica e a correção é a mais pura demonstração de compaixão e amor cristão.

Como forma de consolo ao pastor, a Bíblia reconhece a carga pesada que os líderes carregam e orienta como a igreja deve tratá-los. Conforme Hebreus 13:17, lemos:

Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes para que o trabalho deles seja uma alegria, e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.

Apesar da boa orientação do ensino apostólico, há quem não o entenda e acabe por tomar decisões equivocadas. Quando alguém sai da igreja criticando o pastor por ele não ter feito “o que se queria”, ignora-se que a autoridade pastoral não é um serviço de conveniência personalizada. Críticas ácidas e o abandono do corpo de Cristo por motivações egoístas revelam, muitas vezes, uma imaturidade espiritual que prefere o isolamento à submissão bíblica.

Lembramos que pastores são falíveis, mas a decepção baseada na quebra de uma idolatria pessoal ou na recusa de um líder em ser conivente com desejos particulares não justifica o afastamento. A igreja é o lugar do tratamento de Deus, e isso inclui ouvir negativas. A idolatria ao pastor é um dos erros mais sutis e perigosos dentro do ambiente eclesiástico, pois muitas vezes se disfarça de “honra” ou “zelo”. No entanto, quando um líder é colocado em um pedestal, cria-se um sistema frágil que inevitavelmente levará à decepção e ao pecado.

A idolatria pastoral substitui o Sumo Pastor (Jesus) pelo “subpastor” (o homem). O fiel passa a depender da oração do pastor, da presença do pastor e da aprovação do pastor para se sentir perto de Deus, ignorando que o véu foi rasgado e temos acesso direto ao Pai por meio de Cristo. O erro da idolatria é esquecer que o pastor é um ser humano “sujeito às mesmas paixões” que qualquer outro (Tiago 5:17). Quando as pessoas idolatram um líder, elas retiram dele o direito de ser humano e de dizer “não”.

Se o pastor comete um erro comum ou toma uma decisão que desagrada o membro, o ídolo cai. Como a fé estava baseada no homem e não na Palavra, a queda do ídolo geralmente arrasta a fé da pessoa para o abismo. Esse problema não é novo. Em Corinto, as pessoas estavam dividindo a igreja com base em qual líder preferiam. A resposta do apóstolo Paulo em I Coríntios 3:4-7 é um corretivo direto contra a idolatria ministerial:

Pois, quando alguém diz: 'Eu sou de Paulo', e outro: 'Eu sou de Apolo', não estão sendo mundanos? [...] Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer. De modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento.

Paulo deixa claro: o pastor é apenas um instrumento, um servo por meio de quem os membros creram. Elevá-lo acima disso é um sinal de imaturidade espiritual e mundanismo.

Para quem acha que o problema não era uma idolatria pessoal do membro, a prova de que existia idolatria costuma aparecer no momento da contrariedade. Quem ama o pastor com amor cristão aceita sua correção e respeita sua autoridade bíblica. Quem o idolatra, sente-se traído quando não é atendido. Como o ídolo “falhou” em satisfazer o desejo do membro, o amor se transforma em repulsa. É a mesma dinâmica da idolatria pagã: se o ídolo não traz a chuva, ele é quebrado. No contexto da igreja, isso resulta em críticas ácidas, fofocas e saída da congregação sob o pretexto de decepção, quando, na verdade, foi apenas o fim de uma fantasia egocêntrica.

O caminho para evitar essa frustração é entender que o pastor é um guia que aponta para Cristo; se o líder permanece fiel às Escrituras, sua fidelidade deve ser honrada, ainda que suas decisões não atendam a todas as nossas expectativas humanas. A honra é bíblica (I Timóteo 5:17), mas a idolatria é pecado. O pastor deve ser respeitado por causa da obra que realiza, mas nunca ocupando o lugar de Cristo no coração do crente. Uma igreja saudável é aquela onde o pastor diminui para que Cristo apareça, e onde as ovelhas conhecem a voz do Pastor Supremo o suficiente para não se tornarem dependentes emocionais de homens.

terça-feira, 5 de maio de 2026

A fé inabalável de Timóteo de Gaza, um fervoroso montanista

 

Imagem ilustrativa de Timóteo

Neste breve artigo, proporemos uma análise de um relato de Eusébio sobre o martírio de um montanista, focando na sua postura solidária diante desse fato. Questiona-se se tal sentimento foi motivado estritamente pelo martírio, ou se derivava de uma percepção de superioridade espiritual do cristão em questão uma vez que Eusébio é conhecido por censurar e desprezar os frígios ou catafrigas (montanistas).

 

No decorrer do segundo ano, a perseguição contra nós aumentou grandemente. E naquele tempo, sendo Urbano governador da província, éditos imperiais foram primeiramente emitidos a ele, ordenando por um decreto geral que todo o povo deveria sacrificar imediatamente nas diferentes cidades e oferecer libações aos ídolos.

Em Gaza, cidade da Palestina, Timóteo suportou inúmeras torturas, sendo posteriormente submetido a um fogo lento e moderado. Tendo dado, por sua paciência em todos os sofrimentos, a mais genuína evidência de piedade sincera para com a Divindade, ele obteve a coroa dos atletas vitoriosos da religião. Ao mesmo tempo, Agápio e nossa contemporânea, Tecla, tendo exibido a mais nobre constância, foram condenados como alimento para as feras.

 

Este trecho narra o martírio de Timóteo, Agápio e Tecla, ocorrido em Gaza, Palestina, durante a perseguição de Diocleciano (iniciada em 303 d.C.), e faz parte da obra Sobre os Mártires da Palestina (ou Martírios da Palestina), anexada ao Livro VIII da História Eclesiástica de Eusébio de Cesareia, no capítulo 3.

O texto descreve a perseguição como intensa ("aumentou grandemente") e menciona éditos imperiais que exigiam sacrifícios a ídolos. Isso alinha o relato com o início do quarto edito de Diocleciano (c. 304), que tornou obrigatório o sacrifício público, não apenas para o clero, mas para toda a população.

Como historiador, Eusébio busca registrar a "nobre constância" e a "piedade sincera" dos mártires, enaltecendo suas virtudes e coragem, convertendo o sofrimento em um ato de vitória (a "coroa dos atletas").

Timóteo é descrito suportando uma morte lenta (fogo moderado) com paciência, evidenciando uma piedade sincera. O relato foca na resistência física e espiritual. Embora Eusébio não chame Timóteo explicitamente de "montanista", neste trecho específico, o montanismo era um movimento profético cristão com forte presença na Ásia Menor e em partes da Palestina, caracterizado por um ascetismo rigoroso e busca fervorosa pelo martírio.

O que pensam autores contemporâneos sobre Timóteo

A identificação de Timóteo de Gaza (e outros na região) como montanista tem sido debatida por historiadores da igreja que analisam as fontes de Eusébio, especialmente dada a tendência de Eusébio de minimizar ou ocultar grupos considerados cismáticos se eles demonstrassem um comportamento exemplar de mártir.

Timothy David Barnes, em sua obra seminal Constantine and Eusebius, argumenta que a "heresia frígia" (montanismo) estava ativa na época e que muitos dos relatos de martírio daquela região na Palestina trazem as marcas do extremo fervor ascético montanista, que Eusébio tentava "catolizar" em sua narrativa.

William Telfer, em seus estudos sobre a Igreja primitiva, sugere que os mártires de Gaza que exibiram formas de ascetismo cismático, ou que não estavam em comunhão plena com os bispos ortodoxos, eram frequentemente associados ao montanismo.

Christine Trevett, em Montanism: Prophecy, Authority and Gender in the Early Church, discute como os grupos montanistas de fato enfrentaram perseguições e que relatos de "fogo lento" ou resistência extrema em locais periféricos, como descrito por Eusébio, correspondem à espiritualidade montanista de que o Paráclito (Espírito Santo) capacitava o mártir.

A narração de Eusébio busca santificar o martírio cristão, mas historiadores modernos tendem a ler nas entrelinhas de Sobre os Mártires da Palestina a influência do montanismo, argumentando que a "piedade" de Timóteo era, com alta probabilidade, uma manifestação do "novo profetismo" montanista, que era muito atraente para os cristãos que buscavam provar sua fé através do sofrimento extremo.

 

Heládio Santos

Pesquisador

A virtude da abstinência: o jejum na espiritualidade montanista

imagem ilustrativa de Montano, Maximila e Priscila

O movimento montanista, surgido no século II d.C. na Frígia (atual Turquia), propunha uma reforma ascética e carismática do cristianismo, reagindo ao que considerava uma "mundanização" da Igreja. Na visão dos montanistas, o jejum não era apenas uma prática de devoção pessoal, mas um imperativo espiritual rigoroso para preparar os fiéis para o retorno iminente de Cristo.

Para os montanistas, o jejum era essencial para “purificar” a igreja e torná-la digna da Nova Jerusalém. O jejum contínuo e rigoroso era visto como um modo de vida que mantinha o fiel em estado de prontidão espiritual constante, alinhando a alma com a vinda do Noivo (Cristo).

Acreditando que viviam a "dispensação do Espírito", os montanistas valorizavam o jejum como meio de silenciar os apetites carnais para ouvir com mais clareza as revelações provenientes do Paráclito. Tertuliano defendeu que jejuns mais frequentes e rigorosos (incluindo a xerofagia, ou alimentação seca) permitiam uma maior intimidade espiritual, facilitando o recebimento de visões, sonhos e comunicações espirituais.

Além disso, o corpo deve ser constantemente submetido a disciplina para que o espírito possa elevar-se. Porquanto, o jejum era entendido como uma forma de combate à "carne" (os desejos materiais e paixões), tornando o indivíduo mais espiritual e menos "psíquico" (natural/racional), termos que usavam para se diferenciar dos outros cristãos.

O jejum era, portanto, parte de um estilo de vida que visava a santidade diferenciada, a renúncia aos prazeres terrenos e a contrição profunda, separando os verdadeiros fiéis da conduta "tíbia" do resto da cristandade.

Tertuliano, em sua obra Sobre o Jejum, defendeu a prática montanista contra os cristãos carnais, argumentando que o jejum era uma maneira eficaz de sujeitar o corpo no ato de se humilhar diante de Deus. Eles viam as abstinências de alimentos saborosos ou de carne como forma de purificação, permitindo que a cristão montanista ficasse mais livre para orar com leveza e espiritualidade, ganhando, assim, maior poder e virtudes.

A preparação aprimorada, ou melhor, a prática do jejum voluntário, espontâneo e prazeroso para o fim dos tempos significava que o crente deveria viver na terra como se já estivesse na Nova Jerusalém. Como acreditavam que no Reino de Deus não haveria necessidades fisiológicas, o jejum servia como um treinamento antecipado para a vida na realidade futura. Ao dominar a fome, o montanista demonstrava que seu sustento não vinha mais do mundo material que estava prestes a findar, mas do "maná" espiritual proveniente do Espírito, o Paráclito.

Dessa forma, o jejum montanista era uma arma de guerra espiritual e um certificado de santidade. Ele não apenas capacitava o cristão, mas preparava-o para o futuro, ajustando-o aos efeitos da manifestação do Reino que eles tanto aguardavam nas planícies da Frígia.

Corpo e Vida vulneráveis: a perda da privacidade feminina

 


O recente episódio envolvendo a atriz Cássia Kis e uma “mulher” trans em um banheiro de um shopping no Rio de Janeiro, ocorrido no final de abril de 2026, reascendeu um debate intenso e necessário na sociedade brasileira: o limite entre a identidade de gênero e a segurança física em espaços de privacidade coletiva.

O vídeo, que viralizou, mostra a atriz questionando a presença da mulher trans no banheiro feminino, defendendo a ideia de que o espaço deve ser ocupado com base no sexo biológico. Esse posicionamento, embora criticado por setores ativistas, encontra eco em grande parte da população que preza pela segurança, privacidade e intimidade de mulheres e meninas.

A discussão trazida à tona por Cássia Kis não se trata de transfobia, como argumentam alguns, mas sim da defesa de um direito fundamental das mulheres de utilizarem espaços seguros. Sabemos que o banheiro feminino é um espaço de intimidade, muitas vezes ocupado por mulheres que buscam privacidade para trocar roupas, cuidar da higiene pessoal, amamentar ou auxiliar crianças. A presença de pessoas com biologia masculina nesses locais gera, para muitas mulheres, uma sensação de vulnerabilidade e insegurança, independentemente da identificação de gênero da outra pessoa.

Reflitamos, pois, o argumento biológico foca na realidade corporal, ainda que uma pessoa trans passe por cirurgias, a anatomia de nascimento pode apresentar diferenças físicas em termos de força ou estrutura que, em um espaço fechado, podem intimidar. A defesa do "banheiro por sexo biológico" busca assegurar que mulheres, historicamente frágeis a abusos, não tenham sua intimidade violada por homens biológicos, agindo de forma preventiva contra potenciais assédios.

A distinção entre homens e mulheres biológicos para o uso desses espaços não visa segregar, mas sim preservar um ambiente seguro que levou anos para ser consolidado. Contudo, a trans envolvida na discussão, registrou um boletim de ocorrência por transfobia, alegando constrangimento pessoal e constrangimento ilegal. O caso gerou um debate jurídico sobre o direito de usar o banheiro com base na identidade de gênero versus o direito à privacidade no sexo biológico.

O embate entre a atriz e a mulher trans é um reflexo de uma sociedade em ebulição, revelando a tensão entre direitos identitários e direitos biológicos. Porém, a defesa do banheiro por sexo biológico não deve ser vista como ódio, mas sim como uma medida de proteção focada na realidade concreta das mulheres, garantindo que o banheiro feminino continue sendo um espaço seguro, confortável e privado para o público feminino.

Nossa solidariedade à atriz Cássia Kis!