O
fenômeno do afastamento de fiéis das igrejas evangélicas, muitas vezes motivado
por mágoas contra a liderança, é um tema complexo que merece uma análise à luz
das Escrituras. Embora existam falhas humanas no ministério, há um padrão
recorrente de decepção que nasce não do erro do pastor, mas da expectativa
equivocada do liderado.
Muitas
pessoas chegam às comunidades de fé buscando uma figura que valide todos os
seus desejos ou que preencha carências emocionais profundas. Ocorre, então, a
idolatria da liderança: o pastor deixa de ser um mestre da Palavra para se
tornar um “pai substituto” que não pode falhar. Quando esse líder, agindo com
base em princípios bíblicos ou limitações práticas, diz um “não”, o castelo das
firmezas e confianças desmoronam. Contudo, a Bíblia nos alerta a nunca
colocarmos nossa confiança em um homem, ainda que ele seja alguém espiritual. Em
Jeremias 17:5 está escrito: “Maldito o homem que confia no homem”. Quando o
foco do fiel sai de Cristo e se fixa no homem, qualquer divergência de vontade
é interpretada como traição ou falta de amor, gerando repulsa e o eventual
abandono da fé comunitária.
O
papel do pastor, segundo o Novo Testamento, é o de despenseiro dos mistérios de
Deus e guardião da sã doutrina. O apóstolo Paulo foi enfático ao instruir
Timóteo sobre a pressão que os líderes sofreriam para agradar ao público:
Pois
virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo
coceira nos ouvidos, juntarão em torno de si mestres segundo os seus próprios
desejos. (2 Timóteo 4:3)
Muitas
vezes, a decepção que o fiel sente é, na verdade, uma resistência à correção
bíblica. Um pastor fiel não pode moldar o texto sagrado para satisfazer o ego
ou os projetos pessoais de quem quer que seja. Ele deve obediência aos
institutos bíblicos, mesmo que isso custe a simpatia de membros da igreja. O “não”
pastoral, nesses casos, não é um ato de desamor, mas de fidelidade teológica e
a correção é a mais pura demonstração de compaixão e amor cristão.
Como
forma de consolo ao pastor, a Bíblia reconhece a carga pesada que os líderes
carregam e orienta como a igreja deve tratá-los. Conforme Hebreus 13:17, lemos:
Obedeçam
aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles. Eles cuidam de vocês como
quem deve prestar contas. Obedeçam-lhes para que o trabalho deles seja uma
alegria, e não um peso, pois isso não seria proveitoso para vocês.
Apesar
da boa orientação do ensino apostólico, há quem não o entenda e acabe por tomar
decisões equivocadas. Quando alguém sai da igreja criticando o pastor por ele
não ter feito “o que se queria”, ignora-se que a autoridade pastoral não é um
serviço de conveniência personalizada. Críticas ácidas e o abandono do corpo de
Cristo por motivações egoístas revelam, muitas vezes, uma imaturidade
espiritual que prefere o isolamento à submissão bíblica.
Lembramos
que pastores são falíveis, mas a decepção baseada na quebra de uma idolatria
pessoal ou na recusa de um líder em ser conivente com desejos particulares não
justifica o afastamento. A igreja é o lugar do tratamento de Deus, e isso
inclui ouvir negativas. A idolatria ao pastor é um dos erros mais sutis e
perigosos dentro do ambiente eclesiástico, pois muitas vezes se disfarça de “honra”
ou “zelo”. No entanto, quando um líder é colocado em um pedestal, cria-se um
sistema frágil que inevitavelmente levará à decepção e ao pecado.
A
idolatria pastoral substitui o Sumo Pastor (Jesus) pelo “subpastor” (o homem).
O fiel passa a depender da oração do pastor, da presença do pastor e da
aprovação do pastor para se sentir perto de Deus, ignorando que o véu foi
rasgado e temos acesso direto ao Pai por meio de Cristo. O erro da idolatria é
esquecer que o pastor é um ser humano “sujeito às mesmas paixões” que qualquer
outro (Tiago 5:17). Quando as pessoas idolatram um líder, elas retiram dele o
direito de ser humano e de dizer “não”.
Se
o pastor comete um erro comum ou toma uma decisão que desagrada o membro, o
ídolo cai. Como a fé estava baseada no homem e não na Palavra, a queda do ídolo
geralmente arrasta a fé da pessoa para o abismo. Esse problema não é novo. Em Corinto,
as pessoas estavam dividindo a igreja com base em qual líder preferiam. A
resposta do apóstolo Paulo em I Coríntios 3:4-7 é um corretivo direto contra a
idolatria ministerial:
Pois,
quando alguém diz: 'Eu sou de Paulo', e outro: 'Eu sou de Apolo', não estão
sendo mundanos? [...] Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer.
De modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente
Deus, que efetua o crescimento.
Paulo
deixa claro: o pastor é apenas um instrumento, um servo por meio de quem os
membros creram. Elevá-lo acima disso é um sinal de imaturidade espiritual e mundanismo.
Para
quem acha que o problema não era uma idolatria pessoal do membro, a prova de
que existia idolatria costuma aparecer no momento da contrariedade. Quem ama o
pastor com amor cristão aceita sua correção e respeita sua autoridade bíblica.
Quem o idolatra, sente-se traído quando não é atendido. Como o ídolo “falhou”
em satisfazer o desejo do membro, o amor se transforma em repulsa. É a mesma
dinâmica da idolatria pagã: se o ídolo não traz a chuva, ele é quebrado. No
contexto da igreja, isso resulta em críticas ácidas, fofocas e saída da
congregação sob o pretexto de decepção, quando, na verdade, foi apenas o fim de
uma fantasia egocêntrica.
O
caminho para evitar essa frustração é entender que o pastor é um guia que
aponta para Cristo; se o líder permanece fiel às Escrituras, sua fidelidade
deve ser honrada, ainda que suas decisões não atendam a todas as nossas
expectativas humanas. A honra é bíblica (I Timóteo 5:17), mas a idolatria é
pecado. O pastor deve ser respeitado por causa da obra que realiza, mas nunca
ocupando o lugar de Cristo no coração do crente. Uma igreja saudável é aquela
onde o pastor diminui para que Cristo apareça, e onde as ovelhas conhecem a voz
do Pastor Supremo o suficiente para não se tornarem dependentes emocionais de
homens.





