O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

sexta-feira, 27 de março de 2026

O apolítico

É possível ser apolítico — no sentido de não se envolver em partidos ou disputas de poder — por convicções religiosas e, ao mesmo tempo, criticar a política e a corrupção de autoridades?

A postura apolítica frequentemente se refere à recusa em participar da política partidária ou da "disputa de poder". No entanto, isso não impede um indivíduo de ter consciência social e ética, baseada em valores religiosos, que o leva a repudiar a corrupção e a injustiça. 

Muitas pessoas que se dizem apolíticas não desgostam da política em si, mas da corrupção e da desonestidade que observam no sistema. A crítica à corrupção pode ser vista como um ato de justiça e moralidade, e não de envolvimento partidário.

A convicção religiosa muitas vezes exige um alto padrão de conduta ética, o que naturalmente gera aversão a práticas corruptas que prejudicam a coletividade, como o abuso de poder e o desvio de verbas. No entanto, o ser apolítico não se restringe à convicção religiosa. É também uma escolha filosófica: a postura política de John Locke, considerado o "pai do liberalismo", defendia que os indivíduos possuem direitos naturais inalienáveis (vida, liberdade e propriedade). A liberdade de poder opinar e criticar estão no conjunto da liberdade. Além disso, a função do Estado, criado através de um contrato social, é proteger esses direitos, justificando o direito de discordar das autoridades e ser contra governos tiranos.

A crítica feita com base em princípios sólidos (verdade, justiça) é um compromisso com o "Reino" ou com valores morais, independentemente de quem esteja no poder. Portanto, a postura de "apolítico" por motivação religiosa geralmente significa a recusa em instrumentalizar a fé para fins de poder (ou seja, não se envolver na "salvação política"), sem que isso signifique aceitar ou silenciar diante da corrupção institucional. 

A desumanização do adversário político

 


A desumanização do adversário político é uma prática que ultrapassa os limites do debate de ideias e se configura como uma ação sem ética, desrespeitosa e perigosa para a democracia. Esse fenômeno ocorre quando, em vez de discordar das propostas de um oponente, o discurso político passa a atacar a sua humanidade, tratando-o como inferior, mau, "lixo" ou subumano. 

Charlie Kirk, por exemplo, ativista conservador americano e fundador da organização Turning Point USA, tornou-se um tema central de debate após seu assassinato em setembro de 2025. Após Kirk ser baleado fatalmente enquanto palestrava na Utah Valley University, observou-se uma onda de comentários em redes sociais que relativizavam ou justificavam o crime com base em suas ideias políticas. Analistas apontam que a "lógica de guerra" na política moderna transforma o oponente em um "inimigo absoluto", o que apaga a empatia básica. No caso de Kirk, sua identidade como homem branco, cristão e conservador foi usada por grupos radicais para enquadrá-lo como um alvo legítimo dentro de uma estratégia de combate a opressões sistêmicas. O podcast O Assunto (G1) e colunas na Gazeta do Povo destacaram que essa desumanização sinaliza uma crise democrática profunda, onde o debate de ideias é substituído pela eliminação física do discordante. O consumo de conteúdo extremista na internet é citado como um agravante, criando ambientes onde a morte de um adversário é vista "como um videogame", perdendo-se a noção das consequências reais fora do mundo digital. 

A desumanização transforma adversários políticos em inimigos morais ou ameaças existenciais. É um ataque ad hominem que evita o debate lógico sobre propostas, utilizando termos caricaturais para desacreditar o outro. Ao reduzir o oponente a um "não-humano", essa retórica retira as barreiras morais contra a violência. A história demonstra que a desumanização é frequentemente um precursor de atos de violência física e segregação. A desumanização é uma tática de manipulação da linguagem que associa grupos políticos a conceitos históricos negativos (como fascistas ou ditadores), muitas vezes usando ofensas ("petralhas", "bolsominions") que visam o silenciamento e a destruição da reputação do outro.

Quando a política é vista como uma guerra entre "bem e mal" e não como uma divergência de opiniões, o diálogo é substituído pelo ódio, pondo em risco a convivência democrática. Essa retórica explora medos profundos, criando estereótipos que levam seguidores a tratar o grupo oposto como ameaças perigosas, o que inibe a empatia e aumenta a polarização.  O combate a essa prática exige o resgate da civilidade, reconhecendo a humanidade e a dignidade do oponente, mesmo quando se discorda firmemente de suas posições. A divergência política é saudável, mas a sua desumanização é um sinal de caráter malformado e uma ameaça à sociedade.

STF: vergonha nacional?

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de rejeitar a prorrogação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, ocorrida em 26 de março de 2026, gerou severas críticas sobre a postura da Corte em relação ao combate à corrupção e à proteção dos aposentados e pensionistas. Por 8 votos a 2, o plenário do STF derrubou a liminar que estendia a comissão, encerrando de forma prematura as apurações sobre esquemas de descontos indevidos que somam cerca de R$ 6,3 bilhões e afetaram milhões de beneficiários.

A medida foi criticada por reverter o entendimento de que a prorrogação é uma ferramenta de fiscalização parlamentar, mesmo que a maioria da comissão desejasse continuar. Ao derrubar a liminar do ministro André Mendonça que permitia a continuidade dos trabalhos, o plenário do STF foi acusado de ferir o direito constitucional das minorias parlamentares de investigar. O STF, em especial através de decisões monocraticamente criticadas (como de Gilmar Mendes, ao conceder habeas corpus a investigados, e o isolamento de André Mendonça, que tentou manter a prorrogação), foi acusado de interferir no Poder Legislativo para paralisar as investigações que chegavam a figuras influentes (políticos, juízes e parentes) e ao Banco Master, suspeito de irregularidades.

A rejeição da prorrogação alimenta a percepção pública de que a cúpula do Judiciário age para proteger um sistema corrompido, em vez de punir os fraudadores que se aproveitam de aposentados e pensionistas. A maioria dos ministros, seguindo o voto de Nunes Marques, alegou que a prorrogação é uma questão interna do Congresso. Críticos, porém, veem nisso uma manobra para ajudar a cúpula do Congresso (como Davi Alcolumbre) a enterrar a investigação. A CPMI, contudo, aprovou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de "Lulinha", filho do presidente Lula, após suspeitas de que ele teria movimentado R$ 19,5 milhões entre 2022 e 2026[1]. O ministro Flávio Dino chegou a suspender a quebra de sigilo requisitada pela CPMI[2]. A defesa de Lulinha acionou o STF diversas vezes para limitar o acesso da comissão aos seus dados. Relatos indicam que ex-dirigentes do INSS teriam citado Lulinha em acordos de delação premiada, ligando-o a operadores do esquema de descontos abusivos[3].

Parlamentares da comissão, como o relator Alfredo Gaspar, reagiram duramente, sugerindo que o fim da CPMI atende a interesses escusos e desmoraliza as instituições ao blindar os responsáveis pelas fraudes. A crítica popular enfatiza que, enquanto o STF impede a continuidade da CPMI, milhões de aposentados continuam sofrendo pela humilhação. A percepção é de que a Corte[4] prioriza a estabilidade política e a proteção de aliados em detrimento da justiça para as vítimas das fraudes previdenciárias.



[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/03/05/cpmi-do-inss-lulinha-movimentou-r-195-milhoes-entre-2022-e-2026-defesa-diz-que-fontes-de-renda-sao-legais-e-legitimas.ghtml

[2] https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-03/dino-suspende-decisao-da-cpmi-do-inss-que-quebrou-sigilos-de-lulinha

[3] https://www.metropoles.com/colunas/andreza-matais/ex-dirigentes-do-inss-fecham-delacao-e-entregam-lulinha-e-politicos

[4] Pesquisas recentes indicam que o Supremo Tribunal Federal (STF) atingiu níveis recordes de desconfiança entre os brasileiros, com levantamentos de março de 2026 apontando que 60% da população desconfia da Corte. A percepção de parcialidade e a influência de fatores políticos em julgamentos são apontadas como causas centrais do desgaste. A pesquisa AtlasIntel/Estadão indicou 60% de desconfiança, a maior da série histórica. Outros estudos, como o Genial/Quaest, também apontaram recordes de impopularidade. Cerca de 77% dos brasileiros acreditam que fatores externos, como interesses políticos ou grupos poderosos, influenciam as decisões do STF. A repercussão do "caso Master" e os inquéritos relacionados ao 8 de janeiro aumentaram o desgaste. Mais da metade dos entrevistados (59,5%) considera que a maioria dos ministros não age com competência e imparcialidade. Cerca de 70% discordam que o STF trate todos os investigados da mesma forma. A pesquisa também aponta que, em contraste com a desconfiança generalizada, o ministro André Mendonça foi o único a registrar saldo positivo de imagem.

 

Ministros do STF mostraram de que lado estão!


 

quinta-feira, 31 de julho de 2025

Primeiro eles mataram meu pai

 


O filme “First They Killed My Father”[1], baseado em um livro de memórias, relata as experiências de uma criança-soldado no governo do Khmer Vermelho no Camboja. A produção cinematográfica foi dirigida pela atriz Angelina Jolie.

A história de Loung Ung, uma menina de 5 anos, se passa em meio a “revolução” do Khmer Vermelho quando este assume o poder no Camboja em 1975. Logo, inicia-se um governo de terror e genocídio de quatro anos, no qual quase 2 milhões de cambojanos morrem, cerca de um quarto da população. Expulsa da casa de sua família em Phnom Penh, Ung é treinada como criança-soldado, enquanto seus irmãos são enviados para campos de trabalho forçado.

Na verdade, um filme muito dramático cuja história revela a loucura de uma revolução chamada KHMER VERMELHO dos membros do partido comunista do Kampuchea[2] - CPK usurpando o poder no Camboja. O regime do Khmer Vermelho assassinou centenas de milhares de seus supostos oponentes políticos, e sua ênfase racista na pureza nacional resultou no genocídio das minorias cambojanas. Seus revolucionários executaram e torturaram sumariamente elementos considerados subversivos, ou os mataram durante expurgos genocidas de suas próprias fileiras entre 1975 e 1978. 

Na década de 1970, o Khmer Vermelho foi amplamente apoiado e financiado pelo Partido Comunista Chinês, recebendo aprovação de Mao Zedong; estima-se que pelo menos 90% da ajuda externa fornecida ao Khmer Vermelho veio da China. O regime foi removido do poder em 1979, quando o Vietnã invadiu o Camboja e rapidamente destruiu a maioria de suas forças. O Khmer Vermelho, então, fugiu para a Tailândia. O Khmer Vermelho continuou a lutar contra os vietnamitas e o governo da nova República Popular do Kampuchea até o fim da guerra em 1989. Os governos cambojanos no exílio (incluindo o Khmer Vermelho) mantiveram a cadeira do Camboja nas Nações Unidades (com considerável apoio internacional) até 1993, quando a monarquia foi restaurada e o nome do estado cambojano foi alterado para Reino do Camboja. Um ano depois, milhares de guerrilheiros do Khmer Vermelho se renderam em uma anistia do governo.

O filme é recomendado, sobretudo, para quem critica ditaduras. Quem gostou de “Ainda estou aqui”, ganhador do Oscar, não pestanejará ao constatar que “First they killed my Father” é muito melhor e deveria ter ganhado muitos prêmios. Serve-nos para refletir sobre a ideologia comunista cujas manifestações políticas e revolucionárias ao longo da História sempre demonstraram ser tiranas e opressivas. No filme, fica evidente seu lema da crueldade no qual é "melhor condenar um inocente do que livrar um inimigo", sendo tal insulto uma inversão do princípio jurídico e moral que prioriza a proteção do inocente, mesmo que isso signifique deixar um culpado impune, pois segundo a máxima original, frequentemente atribuída a Voltaire, e parafraseando a Constituição Federal e o Código Penal brasileiros: "é melhor correr o risco de salvar um homem culpado do que condenar um inocente".  Por isso, impor um regime por força e violência em qualquer lugar, seja através da luta armada seja pelo incremento das instituições em favor do nefasto regime, sempre será uma forma de opressão ditatorial sem qualquer humanidade ou respeito à Democracia.    


Heládio Santos
Sociólogo

[1] Primeiro eles mataram meu pai

[2] foi o nome oficial do estado cambojano de 1976 a 1979, sob o governo de Pol Pot e do Partido Comunista do Kampuchea (CPK), comumente conhecido como Khmer Vermelho. A captura da capital Phnom Penh pelo Khmer Vermelho em 1975 efetivamente pôs fim à República Khmer de Lon Nol (governador nacionalista de Direita), apoiada pelos Estados Unidos.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Um juiz perseguidor e sanguinário

 


A Inquisição lançou um regime de terror na Espanha. Pessoas podiam ser convocadas de suas casas e levadas a um local secreto para interrogatório simplesmente com base em uma denúncia anônima feita às autoridades da Inquisição. Os acusados eram mantidos no escuro para que não pudessem ver seus acusadores ou juízes, e depoimentos que normalmente seriam desconsiderados em um tribunal – de ladrões, excomungados ou criminosos – eram aceitáveis. O acusado não tinha permissão para ter um advogado ou assistente jurídico para ajudá-lo em seu caso, uma vez que eles também seriam vistos como cúmplices de heresia pelo tribunal. Eles também eram obrigados a fazer um juramento de verdade antes de depor, e a recusa em proferir o juramento era motivo automático para prisão. O auto-de-fé, ou uma fogueira pública em massa de descrentes, começou a ocorrer com frequência alarmante.

Em 1483, Torquemada tornou-se Grande Inquisidor de Castela e, em 17 de outubro de 1483, Fernando o nomeou inquisidor-chefe de Aragão. Ele convocou uma assembleia geral dos outros inquisidores em 1484, em Sevilha, e deu-lhes um esboço com 28 pontos para conduzir suas investigações. Em 1488, foi nomeado chefe do “Consejo de la Suprema y General Inquisicion”, o que lhe concedeu poderes papais virtuais sobre grande parte da Espanha. Nada poderia ocorrer sem sua aprovação, incluindo uma pena de prisão, uma ordem de excomunhão ou um auto de fé; ele também controlava os padres e bispos, e até mesmo perseguiu alguns deles como hereges. A oposição permaneceu forte em muitos lugares; em algumas cidades, famílias judias ou conversos haviam alcançado destaque na política e nas finanças e se manifestado contra os métodos da Inquisição, que incluíam formas hediondas de tortura, embora sem derramamento de sangue, segundo a lei da Igreja. Os judeus, no entanto, eram imunes à acusação da Inquisição, já que era um tribunal eclesiástico encarregado de determinar heresia dentro de suas próprias fileiras.

Abuso de poder

O terror e a ilegalidade oficialmente sancionados da Inquisição eram o resultado da violação de vários princípios de direitos humanos. O promotor e o juiz eram a mesma pessoa, o que o obrigava a manter as acusações contra o réu a todo custo. Em segundo lugar, todos os suspeitos eram presumidos culpados, e Torquemada instruiu seus juízes que uma pessoa poderia ser aparentemente muito devota, mas em seu coração poderia ser descrente; era papel do juiz fazer uma série de perguntas sobre tópicos teológicos para determinar sua verdadeira crença. Se o réu ainda professasse sua inocência – ou seja, sua crença no cristianismo conforme ditado pela Igreja – ele poderia ser preso por um período indeterminado. Aqueles que sobreviviam, confessavam e eram libertados eram forçados a usar um sanbenito, ou vestimenta penitencial especial com um grande "X". Os condenados e excomungados podiam apelar à Santa Fé em Roma, mas Torquemada também tinha jurisdição sobre todos os recursos. Os bens dos condenados eram apreendidos pelos inquisidores em nome do Estado e, em outros casos, subornos eram pagos para sua libertação.

imagem do site: https://historiablog.org/2023/07/04/a-intolerancia-assassina-de-tomas-de-torquemada/

O papel de Torquemada como Grande Inquisidor permitiu-lhe implementar implacavelmente essas políticas em toda a Península Ibérica. Estudiosos estimam que, sob a liderança de Torquemada, entre 2.000 e 8.800 espanhóis foram queimados na fogueira. Seus poderes às vezes invocavam a ira de Roma, mas ele era aliado próximo de Fernando e Isabel, determinados a erradicar os problemas religiosos da Espanha, livrando completamente os reinos dos não cristãos. Um grande número dos convocados perante os tribunais da Inquisição era conversos; na Catalunha, 1.199 foram julgados entre 1488 e 1505, e 1.191 deles eram conversos. Alguns judeus resolveram antigas contas, mentindo sobre conversos que os tratavam com desdém e acusando os novos cristãos de praticarem costumes judaicos em segredo.