Ao
ler as Escrituras, podemos nos deparar com passagens que parecem apresentar
direções opostas. De um lado, no Evangelho de João, lemos a afirmação de que
Deus não ouve pecadores. De outro, o livro de Atos relata que Deus ouviu as
orações do centurião romano Cornélio, um gentio pecador. Esta aparente
divergência pode causar estranheza, mas, quando analisada sob a ótica da
teologia, revela uma profunda consistência no caráter de Deus e na sua forma de
se relacionar com a humanidade.
No
Evangelho de João 9:31, após ser curado da cegueira, um homem diz aos fariseus:
Sabemos que Deus não ouve pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a
sua vontade, a esse ouve. Para compreender essa fala, é preciso lembrar
que, no contexto dos evangelhos, o termo “pecador” muitas vezes não se refere à
condição universal do ser humano (o pecado como natureza), mas àqueles que
vivem em rebelião deliberada, impenitência e hipocrisia contra a vontade de
Deus.
O
teólogo e comentarista bíblico Matthew Henry, ao analisar essa passagem, pontua
que a oração daqueles que deliberadamente se apegam ao pecado com o coração é
um obstáculo para a comunhão. A expressão reflete o princípio do Antigo
Testamento (como em Provérbios 28:9) de que a recusa em alinhar-se com a
vontade divina gera um distanciamento relacional. Deus não é surdo, mas Ele
rejeita a falsa aproximação daqueles que ignoram a Sua Lei e mantêm o amor pelo
pecado.
Em
contrapartida, o capítulo 10 do livro de Atos apresenta o centurião Cornélio,
descrito como um homem piedoso, temente a Deus, que orava continuamente e fazia
muitas esmolas. O anjo diz a ele: As tuas orações e as tuas esmolas têm
subido para memória diante de Deus. Surgem então as perguntas: Como Deus
ouve a oração de um gentio — alguém que, pelas categorias da lei, seria
considerado “afastado” ou pecador?
Presumimos
que esse fenômeno exemplifica a ação prévia de Deus no coração humano,
preparando Cornélio para a pregação do Evangelho. Como um “temente a Deus”, é
provável que ele já possuísse algum conhecimento das profecias do Antigo
Testamento sobre o Messias. Diante disso, o princípio bíblico do temor revela
que a busca sincera e a devoção demonstradas por Cornélio não eram méritos
humanos para alcançar a salvação, era o resultado do próprio Deus trabalhando
em sua vida e despertando sua consciência antes mesmo do encontro com Pedro. O
clamor de Cornélio não era o de alguém endurecido no erro, mas o de uma alma
que, movida por esse auxílio divino inicial, buscava ao Senhor com sinceridade
antes de conhecer plenamente o Evangelho de Cristo.
Portanto,
asseveramos que não há contradição entre as orientações de Jesus e o relato de
Atos, pois a diferença crucial reside na atitude do coração. Quando as
Escrituras apontam que Deus rejeita uma oração, referem-se àqueles que buscam
ao Senhor retendo o pecado deliberado, vivendo em hipocrisia ou tentando impor
a própria vontade. Em contrapartida, Deus acolhe prontamente o clamor de quem o
busca com sinceridade, honestidade e temor, mesmo que essa pessoa ainda não
possua o pleno conhecimento teológico acerca da salvação.
O
pastor Hernandes Dias Lopes, ao comentar a história de Cornélio, reforça que a
sinceridade do centurião não passou despercebida por Deus. O Senhor, em sua
infinita misericórdia, inclina-se para ouvir aqueles que o buscam genuinamente,
e responde a essa busca providenciando os meios para que a pessoa alcance a
plenitude da graça — que no caso de Cornélio resultou na vinda do apóstolo
Pedro e na sua conversão ao Evangelho.
As
Escrituras nos mostram um Deus que é intrinsecamente justo ao se afastar da
rebelião deliberada, mas que é incrivelmente gracioso e atento à busca humilde,
utilizando o clamor sincero como ponto de partida para revelar o Seu amor e a
Sua salvação. Mais do que reagir à busca humana, a Bíblia revela que o desejo
ardente de Deus é salvar o homem acima de qualquer outra coisa. Esse anseio
redentor supera as barreiras culturais, os preconceitos religiosos e até mesmo
as limitações teológicas de quem o procura. Deus não aguarda passivamente que o
ser humano alcance uma perfeição doutrinária ou uma pureza ritual para
manifestar-se; pelo contrário, Ele mesmo toma a iniciativa de ir ao encontro da
criatura. Sua justiça exige santidade, mas Seu amor infinito providencia o
caminho, provando que o Seu maior prazer não está em condenar o pecador, mas em
resgatá-lo e reconciliá-lo consigo através de uma graça que busca, encontra e
transforma.






