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domingo, 31 de maio de 2026

O Eco do Sagrado: o prazer de ler a Bíblia pelo viés das Crônicas de Nárnia

 


Para muitos leitores, abrir as páginas de “As Crônicas de Nárnia” de C.S. Lewis e mergulhar nas Escrituras Sagradas são experiências que, embora distintas em natureza, compartilham uma ressonância emocional e espiritual profunda. O prazer encontrado em ambas as leituras reside na capacidade de C.S. Lewis de traduzir a grandiosidade bíblica para uma linguagem de encantamento e imaginação.

A redescoberta do “Simples” e do “Grandioso”

Um dos maiores prazeres de ler Nárnia é a forma como Lewis humaniza conceitos teológicos complexos. Enquanto a Bíblia apresenta a soberania de Deus e a redenção de forma direta, Lewis convida o leitor a sentir essas verdades através de uma suposição imaginativa. O prazer de ler sobre o sacrifício de Aslam na Mesa de Pedra (Isaías 53:5) ecoa o impacto emocional do sacrifício de Cristo, permitindo que o leitor experimente a gratidão e o alívio da redenção antes mesmo de processar a doutrina (Romanos 5:8).

O prazer central em ambas as obras gira em torno de uma presença central. Na Bíblia, é Jesus Cristo; em Nárnia, é Aslam, o “Cristo de Nárnia”. Assim como os Evangelhos descrevem Jesus como o “Leão da Tribo de Judá” (Apocalipse 5:5), Lewis apresenta Aslam como alguém que “não é um leão domesticado”, mas que é bom (Salmo 100:5). O prazer da leitura bíblica muitas vezes vem do reconhecimento de promessas cumpridas (Josué 21:45, II Coríntios 1:20). Em Nárnia, esse prazer é espelhado quando os leitores identificam em Aslam os atributos de justiça e amor que conhecem das Escrituras (Salmo 89:14 e João 1:14).

A imaginação como ponte para a fé

C.S. Lewis acreditava profundamente que a imaginação não era uma fuga da realidade, mas a faculdade humana fundamental para a apreensão da realidade divina, funcionando como o canal que dá significado à razão. Sob essa perspectiva, o prazer de ler as Crônicas de Nárnia vai muito além do mero entretenimento; ele atua como um arado espiritual que prepara o “solo” do coração, quebrando a dureza da rotina e do ceticismo para que a semente da verdade possa germinar, em perfeito alinhamento com o clamor do profeta em Oséias 10:12: Semeai para vós em justiça, colhei segundo a misericórdia; lavrai o campo de lavoura; porque é tempo de buscar ao Senhor.

As histórias de Nárnia possuem a capacidade única de contornar e quebrar a resistência intelectual e as defesas armadas que muitos adultos sentem ao abrir textos estritamente religiosos. Ao embalar verdades eternas em roupagens mitológicas, Lewis permitia que a “verdade” entrasse sorrateiramente pelas portas da fantasia, desarmando o preconceito do leitor antes que ele pudesse erguer suas barreiras lógicas. Esse método pedagógico ecoa diretamente as estratégias divinas nas Escrituras: vemos isso quando o profeta Natã usa uma parábola fictícia em 2 Samuel 12:1-4 para fazer o rei Davi enxergar a gravidade do seu próprio pecado sem que sua autodefesa bloqueasse a mensagem, e no próprio ministério de Jesus, retratado em Marcos 4:33, que com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender, usando o poder da narrativa para acessar o íntimo do ser humano.

Para o leitor atento, há um prazer intelectual e teológico indescritível em perceber os paralelos intencionais que Lewis teceu entre o seu mundo imaginário e a Revelação Cristã. Basta lembrarmos como a criação de Nárnia pelo canto imponente de Aslam em O Sobrinho do Mago ecoa perfeitamente o relato do Gênesis, onde o universo salta para a existência não por um processo mecânico, mas pela emissão da voz do Criador, como descrito em Gênesis 1:3: E disse Deus: Haja luz; e houve luz. Da mesma forma, a trágica traição de Edmundo por causa do desejo egoísta pelo Manjar Turco em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa nos remete imediatamente à queda humana no Éden, ilustrando a fragilidade da nossa vontade e a universalidade do pecado que Paulo sintetiza em Romanos 5:12 ao lembrar que por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte.

Por fim, o desfecho da saga em A Última Batalha não deixa o leitor no vazio da destruição, mas reflete com precisão a gloriosa esperança escatológica do Apocalipse. Ao ver a velha Nárnia passar e os personagens serem introduzidos à “Verdadeira Nárnia” — um reino eterno onde cada capítulo que se segue é melhor do que o anterior —, o coração do leitor experimenta o mesmo vislumbre de Apocalipse 21:1: E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, consolidando a promessa consoladora descrita em 2 Pedro 3:13, de que nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça. Assim, a fantasia de Lewis cumpre seu papel mais nobre: ela limpa os nossos olhos para que possamos enxergar a beleza do Evangelho com o deslumbramento de quem o vê pela primeira vez.

A nostalgia do lar eterno

Ao final de “As Crônicas de Nárnia”, os personagens descobrem que a “verdadeira Nárnia” é apenas o começo de uma história que nunca acaba — uma clara alusão à promessa bíblica do Céu. O prazer de ler ambas as obras residem, em última análise, na alimentação de uma “saudade” de um mundo perfeito e da presença constante do Criador. Ler a Bíblia e Nárnia é, para o leitor atento, um exercício de ver a mesma luz através de janelas diferentes: uma clara e histórica, a outra colorida e mítica, mas ambas apontando para o mesmo Rei.

 

Um sussurro lewisiano: Se tão somente tivéssemos tempo para ler um pouco mais! Pela restrição que o tempo nos impõe, ficamos largos e rasos ou estreitos e profundos. (Como cultivar uma boa leitura, p.157)

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