Para muitos leitores, abrir as páginas de “As
Crônicas de Nárnia” de C.S. Lewis e mergulhar nas Escrituras Sagradas são
experiências que, embora distintas em natureza, compartilham uma ressonância
emocional e espiritual profunda. O prazer encontrado em ambas as leituras
reside na capacidade de C.S. Lewis de traduzir a grandiosidade bíblica para uma
linguagem de encantamento e imaginação.
A redescoberta do “Simples” e do “Grandioso”
Um dos maiores prazeres de ler Nárnia é a
forma como Lewis humaniza conceitos teológicos complexos. Enquanto a Bíblia
apresenta a soberania de Deus e a redenção de forma direta, Lewis convida o
leitor a sentir essas verdades através de uma suposição imaginativa. O prazer
de ler sobre o sacrifício de Aslam na Mesa de Pedra (Isaías 53:5) ecoa o
impacto emocional do sacrifício de Cristo, permitindo que o leitor experimente
a gratidão e o alívio da redenção antes mesmo de processar a doutrina (Romanos
5:8).
O prazer central em ambas as obras gira em
torno de uma presença central. Na Bíblia, é Jesus Cristo; em Nárnia, é Aslam, o
“Cristo de Nárnia”. Assim como os Evangelhos descrevem Jesus como o “Leão da
Tribo de Judá” (Apocalipse 5:5), Lewis apresenta Aslam como alguém que “não é
um leão domesticado”, mas que é bom (Salmo 100:5). O prazer da leitura bíblica
muitas vezes vem do reconhecimento de promessas cumpridas (Josué 21:45, II Coríntios
1:20). Em Nárnia, esse prazer é espelhado quando os leitores identificam em
Aslam os atributos de justiça e amor que conhecem das Escrituras (Salmo 89:14 e
João 1:14).
A imaginação como ponte para a fé
C.S. Lewis acreditava profundamente que a
imaginação não era uma fuga da realidade, mas a faculdade humana fundamental
para a apreensão da realidade divina, funcionando como o canal que dá
significado à razão. Sob essa perspectiva, o prazer de ler as Crônicas de
Nárnia vai muito além do mero entretenimento; ele atua como um arado espiritual
que prepara o “solo” do coração, quebrando a dureza da rotina e do ceticismo
para que a semente da verdade possa germinar, em perfeito alinhamento com o
clamor do profeta em Oséias 10:12: Semeai para vós em justiça, colhei
segundo a misericórdia; lavrai o campo de lavoura; porque é tempo de buscar ao
Senhor.
As histórias de Nárnia possuem a
capacidade única de contornar e quebrar a resistência intelectual e as defesas
armadas que muitos adultos sentem ao abrir textos estritamente religiosos. Ao
embalar verdades eternas em roupagens mitológicas, Lewis permitia que a
“verdade” entrasse sorrateiramente pelas portas da fantasia, desarmando o
preconceito do leitor antes que ele pudesse erguer suas barreiras lógicas. Esse
método pedagógico ecoa diretamente as estratégias divinas nas Escrituras: vemos
isso quando o profeta Natã usa uma parábola fictícia em 2 Samuel 12:1-4
para fazer o rei Davi enxergar a gravidade do seu próprio pecado sem que sua
autodefesa bloqueasse a mensagem, e no próprio ministério de Jesus, retratado
em Marcos 4:33, que com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra,
segundo o que podiam compreender, usando o poder da narrativa para acessar
o íntimo do ser humano.
Para o leitor atento, há um prazer
intelectual e teológico indescritível em perceber os paralelos intencionais que
Lewis teceu entre o seu mundo imaginário e a Revelação Cristã. Basta lembrarmos
como a criação de Nárnia pelo canto imponente de Aslam em O Sobrinho do Mago
ecoa perfeitamente o relato do Gênesis, onde o universo salta para a existência
não por um processo mecânico, mas pela emissão da voz do Criador, como descrito
em Gênesis 1:3: E disse Deus: Haja luz; e houve luz. Da mesma
forma, a trágica traição de Edmundo por causa do desejo egoísta pelo Manjar
Turco em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa nos remete imediatamente
à queda humana no Éden, ilustrando a fragilidade da nossa vontade e a
universalidade do pecado que Paulo sintetiza em Romanos 5:12 ao lembrar
que por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte.
Por fim, o desfecho da saga em A Última
Batalha não deixa o leitor no vazio da destruição, mas reflete com precisão
a gloriosa esperança escatológica do Apocalipse. Ao ver a velha Nárnia passar e
os personagens serem introduzidos à “Verdadeira Nárnia” — um reino eterno onde
cada capítulo que se segue é melhor do que o anterior —, o coração do leitor
experimenta o mesmo vislumbre de Apocalipse 21:1: E vi um novo céu, e
uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram,
consolidando a promessa consoladora descrita em 2 Pedro 3:13, de que nós,
segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a
justiça. Assim, a fantasia de Lewis cumpre seu papel mais nobre: ela limpa
os nossos olhos para que possamos enxergar a beleza do Evangelho com o
deslumbramento de quem o vê pela primeira vez.
A nostalgia do lar eterno
Ao final de “As Crônicas de Nárnia”, os
personagens descobrem que a “verdadeira Nárnia” é apenas o começo de uma
história que nunca acaba — uma clara alusão à promessa bíblica do Céu. O prazer
de ler ambas as obras residem, em última análise, na alimentação de uma “saudade”
de um mundo perfeito e da presença constante do Criador. Ler a Bíblia e Nárnia
é, para o leitor atento, um exercício de ver a mesma luz através de janelas
diferentes: uma clara e histórica, a outra colorida e mítica, mas ambas
apontando para o mesmo Rei.
Um sussurro lewisiano:
Se
tão somente tivéssemos tempo para ler um pouco mais! Pela restrição que o tempo
nos impõe, ficamos largos e rasos ou estreitos e profundos.
(Como cultivar uma boa leitura, p.157)

Nenhum comentário:
Postar um comentário