A
recente intimação do ministro Alexandre de Moraes pela Justiça dos Estados
Unidos, em processos movidos por empresas como a Trump Media e a
plataforma Rumble, escancarou uma profunda crise institucional e gerou
um debate incontornável sobre o estado do Estado Democrático de Direito no
Brasil.
O
fato de uma corte federal norte-americana ter autorizado a citação do
magistrado brasileiro por e-mail, e o andamento processual de uma ação que
manifestamente aponta práticas de censura e extrapolação de limites
constitucionais, coloca o Brasil em uma situação de vulnerabilidade diplomática
e jurídica sem precedentes.
A
reação das instituições brasileiras, no entanto, tem sido marcada por uma
defensiva corporativista. O silêncio ou a recusa sistemática em reconhecer
qualquer excesso por parte do Supremo Tribunal Federal (STF) alimentam a
desconfiança pública. Por que as instâncias de controle do país têm tanta
resistência em avaliar esses erros?
A
resposta para essa hesitação reside no temor de admitir uma falha processual
que poderia, por tabela, validar a narrativa da oposição. Reconhecer que houve
abusos e decisões de alcance desproporcional pode significar, indiretamente,
dar razão aos críticos que apontam um viés persecutório contra o campo político
de centro-direita e, em especial, contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
É
inegável que Jair Bolsonaro cometeu inúmeras falas equivocadas, ataques
infundados ao sistema eleitoral e declarações que tensionaram a democracia
durante o seu mandato. Contudo, em um sistema republicano, a resposta a crimes
de opinião e desinformação deve seguir estritamente o devido processo legal, os
ritos processuais e a proporcionalidade das penas.
A
utilização de inquéritos de relatoria própria, muitas vezes sigilosos e de
longa duração, gerou o que diversos juristas e críticos internacionais passaram
a classificar como lawfare — o uso do aparato jurídico para perseguir e
neutralizar adversários políticos e ativistas. Ao centralizar as investigações,
a Suprema Corte brasileira assumiu um protagonismo punitivista que apagou as
linhas que separam a defesa da ordem democrática de uma perseguição ideológica
sistemática.
O
Brasil vive uma grave crise institucional marcada por insegurança jurídica e
reflexos internacionais, impulsionada pela percepção de excessos no STF, como
evidenciado por ações movidas nos EUA. A blindagem corporativa das decisões
judiciais afasta investimentos, gerando um ambiente de imprevisibilidade que
submete garantias individuais a decisões monocráticas, afetando a confiança no
ambiente de negócios.
Quando
o guardião máximo da Constituição passa a ser visto — tanto por cortes
estrangeiras quanto por uma parcela expressiva da população — como o próprio
agente violador de direitos e garantias fundamentais, a democracia entra em
colapso na sua essência. A falta de freios e contrapesos na atuação do STF gera
um vácuo onde a lei passa a depender do intérprete, e não do texto codificado.
As
instituições brasileiras falham gravemente ao ignorar as advertências externas.
A teimosia em não reconhecer os excessos perpetuados nos últimos anos apenas
aprofunda a polarização e consolida a percepção de que a justiça, no Brasil,
possui lados e interesses políticos definidos.

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