O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.
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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Compreendendo a soberania divina e o coração humano

 


Ao ler as Escrituras, podemos nos deparar com passagens que parecem apresentar direções opostas. De um lado, no Evangelho de João, lemos a afirmação de que Deus não ouve pecadores. De outro, o livro de Atos relata que Deus ouviu as orações do centurião romano Cornélio, um gentio pecador. Esta aparente divergência pode causar estranheza, mas, quando analisada sob a ótica da teologia, revela uma profunda consistência no caráter de Deus e na sua forma de se relacionar com a humanidade.

No Evangelho de João 9:31, após ser curado da cegueira, um homem diz aos fariseus: Sabemos que Deus não ouve pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve. Para compreender essa fala, é preciso lembrar que, no contexto dos evangelhos, o termo “pecador” muitas vezes não se refere à condição universal do ser humano (o pecado como natureza), mas àqueles que vivem em rebelião deliberada, impenitência e hipocrisia contra a vontade de Deus.

O teólogo e comentarista bíblico Matthew Henry, ao analisar essa passagem, pontua que a oração daqueles que deliberadamente se apegam ao pecado com o coração é um obstáculo para a comunhão. A expressão reflete o princípio do Antigo Testamento (como em Provérbios 28:9) de que a recusa em alinhar-se com a vontade divina gera um distanciamento relacional. Deus não é surdo, mas Ele rejeita a falsa aproximação daqueles que ignoram a Sua Lei e mantêm o amor pelo pecado.

Em contrapartida, o capítulo 10 do livro de Atos apresenta o centurião Cornélio, descrito como um homem piedoso, temente a Deus, que orava continuamente e fazia muitas esmolas. O anjo diz a ele: As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus. Surgem então as perguntas: Como Deus ouve a oração de um gentio — alguém que, pelas categorias da lei, seria considerado “afastado” ou pecador?

Presumimos que esse fenômeno exemplifica a ação prévia de Deus no coração humano, preparando Cornélio para a pregação do Evangelho. Como um “temente a Deus”, é provável que ele já possuísse algum conhecimento das profecias do Antigo Testamento sobre o Messias. Diante disso, o princípio bíblico do temor revela que a busca sincera e a devoção demonstradas por Cornélio não eram méritos humanos para alcançar a salvação, era o resultado do próprio Deus trabalhando em sua vida e despertando sua consciência antes mesmo do encontro com Pedro. O clamor de Cornélio não era o de alguém endurecido no erro, mas o de uma alma que, movida por esse auxílio divino inicial, buscava ao Senhor com sinceridade antes de conhecer plenamente o Evangelho de Cristo.

Portanto, asseveramos que não há contradição entre as orientações de Jesus e o relato de Atos, pois a diferença crucial reside na atitude do coração. Quando as Escrituras apontam que Deus rejeita uma oração, referem-se àqueles que buscam ao Senhor retendo o pecado deliberado, vivendo em hipocrisia ou tentando impor a própria vontade. Em contrapartida, Deus acolhe prontamente o clamor de quem o busca com sinceridade, honestidade e temor, mesmo que essa pessoa ainda não possua o pleno conhecimento teológico acerca da salvação.

O pastor Hernandes Dias Lopes, ao comentar a história de Cornélio, reforça que a sinceridade do centurião não passou despercebida por Deus. O Senhor, em sua infinita misericórdia, inclina-se para ouvir aqueles que o buscam genuinamente, e responde a essa busca providenciando os meios para que a pessoa alcance a plenitude da graça — que no caso de Cornélio resultou na vinda do apóstolo Pedro e na sua conversão ao Evangelho.

As Escrituras nos mostram um Deus que é intrinsecamente justo ao se afastar da rebelião deliberada, mas que é incrivelmente gracioso e atento à busca humilde, utilizando o clamor sincero como ponto de partida para revelar o Seu amor e a Sua salvação. Mais do que reagir à busca humana, a Bíblia revela que o desejo ardente de Deus é salvar o homem acima de qualquer outra coisa. Esse anseio redentor supera as barreiras culturais, os preconceitos religiosos e até mesmo as limitações teológicas de quem o procura. Deus não aguarda passivamente que o ser humano alcance uma perfeição doutrinária ou uma pureza ritual para manifestar-se; pelo contrário, Ele mesmo toma a iniciativa de ir ao encontro da criatura. Sua justiça exige santidade, mas Seu amor infinito providencia o caminho, provando que o Seu maior prazer não está em condenar o pecador, mas em resgatá-lo e reconciliá-lo consigo através de uma graça que busca, encontra e transforma.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Princípios bíblicos e a anticoncepção

Métodos sobre o controle de natalidade podem ser um assunto controverso entre muitos cristãos, mas, lembremo-nos, antes de qualquer controvérsia deve prevalecer a resposta objetiva da Bíblia Sagrada. Essa controvérsia surge em razão de alguns dizerem que a Bíblia não traz abordagens específicas sobre as formas permanentes e modernas de impedimento da concepção natural, como laqueadura ou vasectomia, sendo desnecessário o debate porque a deliberação sobre o assunto seria de livre aceitação quanto a intervenção humana ou não. Todavia, como outros, não compactuamos com o referido argumento. Antes, acreditamos existir obviedade na questão de a Bíblia não ser específica e procuramos ensinar a fé em Deus e confiança em seus propósitos para reger essa situação. Tais procedimentos eram inconcebíveis nos tempos da Igreja Primitiva e na Antiguidade. Pensá-los e ensinar contra eles no contexto bíblico, então, seria impróprio e extemporâneo. Contudo, o Santo Espírito inspirou coerentemente os escritores do cânon revelando princípios bíblicos poderosos capazes de revelar o perfeito entendimento os quais devem reger nosso entendimento, coração e ação quanto a preservação da virtude cristã e da fé ante a mutilação ou impedimento do corpo. Citaremos apenas dois.

Devemos reconhecer, primeiramente, que os filhos são um presente de Deus (Salmo 127:3-5). Os filhos não são fardos para carregar, mas bênçãos para receber com alegria. De uma perspectiva bíblica, todo casal deve querer ter filhos. A incapacidade de ter filhos, por outro lado, era considerada uma maldição, mas poderia ser remediada pela providência divina, enquanto a capacidade de conceber uma bênção. Lembremo-nos bem dessas afirmações porque o fato de Deus intervir em mulheres estéreis para fins de concepção demostra a grande contrariedade divina quanto ao impedimento de tê-los.

Outro ponto, o útero é frequentemente referenciado na Bíblia como um espaço sagrado e significativo, frequentemente descrito como estando sob a alçada da vontade de Deus. As gestações intervencionais (Sara, Raquel, Ana e Isabel) e a milagrosa (Maria) enfatizam a percepção do parto como entrelaçado com o propósito divino. A Bíblia afirma repetidamente que a conjugação da santidade de vida e a orquestração divina da concepção e do nascimento propicia a realização dos propósitos de Deus e não dos nossos. Dada essas informações, alguém poderia argumentar que qualquer intervenção para privar a concepção por meio de métodos que incapacitam o corpo, como a laqueadura e vasectomia, pode parecer interferir no plano de Deus para uma nova vida em potencial. Disto não temos dúvida, pois qualquer interferência humana no corpo ocasiona a inviabilidade da ação programada naturalmente e providencialmente preparada para um dos mais belos atos da vida: a chegada de mais um ser humano ao mundo.

Se cristãos evangélicos pensam que podem agir administrando o propósito divino como se donos dele fossem, vai um grande exemplo do catolicismo romano para eles. Muito embora tenhamos muitas divergências doutrinárias com o catolicismo porque seus dogmas prejudicam a salvação, no supracitado quesito, dão uma aula de fé e honra aos princípios bíblicos. Vejamos um pequeno trecho abordando a questão das consequências espirituais e do arrependimento moral:

Pois bem: a vasectomia e a laqueadura violam diretamente a primeira finalidade do matrimônio, já que alteram o funcionamento do sistema reprodutivo para que o indivíduo continue tendo relações sexuais, mas seja incapaz de gerar filhos. Isso é um pecado mortal, sim; mas não apenas porque “a Igreja disse que é”. Trata-se, como vimos, de uma conduta frontalmente contrária à hierarquia de valores do matrimônio.

— Quem cometeu esse pecado e se arrependeu, deve mesmo procurar a reversão do procedimento? De onde surge esse dever?

Sim, quando alguém se arrepende, tem o dever moral de procurar a reversão dessas operações, dever este que decorre da própria natureza do verdadeiro arrependimento: assim como o ladrão arrependido tem o dever moral de restituir a coisa roubada, quem fez vasectomia ou laqueadura tem o dever de, ao menos, procurar a reversão.[1]

Concluindo, vimos apenas dois princípios bíblicos porque julgamos suficientes para nos lembrar dos métodos anticonceptivos como fugas da vontade e dos propósitos divinos. Entender sua prática como uma liberdade opcional e circunstancial fere a firme convicção de dependência em Deus e da guarda de sua Palavra. Ora, se tantos outros (católicos, pessoas comuns e sem religião) acreditam na exaltação da concepção natural quanto mais se espera de cristãos que falam em nome do Criador da vida. Seria vergonhoso se não agissem nem pensassem assim.

 

Pr. Heládio Santos     



[1] https://padrepauloricardo.org/blog/esta-verdade-cai-como-uma-bomba-nas-familias

domingo, 5 de dezembro de 2021

IV Simpósio Cristão-Acadêmico da COMUNIE


Neste último sábado (04/12/2021), a COMUNIE realizou seu IV Simpósio cristão universitário. Palestraram no evento os professores Rui Martinho, Débora Leite e Glauco Barreira Magalhães Filho. Os grupos de evangelização universitária CRU e Vidas para Cristo também tiveram oportunidade de apresentar seus projetos e estratégias para alcançar universitários a fim de leva-los a Cristo. A temática abordada pelos palestrantes, apesar de distinta e específica em seus assuntos, foi de encontro, principalmente, à maneira pela qual as Universidades estão cedendo às ideologias globalizantes de uma agenda específica, prioritariamente, a de um marxismo cultural. Pelas entrelinhas das falas, percebeu-se uma preocupação comum numa tentativa de encorajar os cristãos participantes a não se submeterem a esse conteúdo, pois representam um agravo ao Cristianismo bíblico. Não há compatibilização entre as ideologias mundanas que desconstroem a ideia da ética cristã, da família, da privação de liberdade e da negação aos valores das Escrituras e de Deus com as convicções emanadas de Cristo. Por isso, crentes não devem envolver-se no partidarismo político porque o reino aguardado pelo cristão não é deste mundo e porque é incompatível com sua fé, mas devem ser perspicazes para entenderem as circunstâncias e, dentro da perspectiva cristã, levantarem o brado do Evangelho para anunciar a Cristo contra as anomalias culturais, sociais e políticas das quais não podemos nos separar. Assim, reavivou-se unicamente a potencialidade da pessoa de Cristo e de sua Palavra como a solução para o enfrentamento ao dilema do obscurantismo e da vereda tortuosa apresentados pelas “mentes brilhantes” dessa onda ideológica que conseguem persuadir muitos desavisados, inclusive, cristãos ingênuos.

Pelos vistos, as palestras cumpriram seu papel. Pelo menos para os que estavam congregados para ouvir cada exposição profunda, coerente e debaixo da cosmovisão cristã. Dentre as muitas perguntas sugeridas aos palestrantes, cada uma com uma articulação de ideias muito bem formuladas, podemos dizer que uma chamou bastante atenção. Um participante perguntou sobre o método Alfalit cujas raízes estão fincadas na Andragogia, ou seja, na alfabetização de jovens e adultos. Esse método foi desenvolvido pelo missionário Frank Charles Laubach, em 1915, nas Filipinas, e estava centrado na experiência adulta, partindo do uso de palavras chaves como base para alcançar os códigos linguísticos. Para tanto, a teoria colocou em prática aspectos educacionais de Jean Piaget e Lev S. Vigotsky. Pode alguém até lembrar de Paulo Freire neste momento. De fato, o método de Freire parece muito com o de Laubach. Eis aí o porquê da questão ter chamado bastante atenção na hora dos questionamentos e discussões e ter suscitado novas reflexões e comentários, pois: “teria Paulo Freire, o patrono da educação no Brasil, se apropriado indevidamente do método Protestante e rotulado como seu?”. Dentre os muitos comentários, destacamos a citação do historiador David Gueiros Vieira que foi apresentada e extraída do site Mídia sem máscara, publicado em 9 de março de 2004:

 

Não há dúvida que a luta contra o analfabetismo, em todo o mundo, encontrou seu instrumento mais efetivo no Método Laubach. Ainda que esse método hoje tenha sido encampado sob o nome do Sr. Paulo Freire. Os que assim procederam não apenas mudaram o seu nome, mas também o desvirtuaram, modificando inclusive sua orientação filosófica. Concluindo: o método de alfabetização de adultos, criado por Frank Laubach, em 1915, passou a ser chamado de “Método Paulo Freire”, em terras tupiniquins. De tal maneira foi bem-sucedido esse embuste que hoje será quase que impossível desfazê-lo”[1].   

 

No mais, a participação de muitos universitários, professores acadêmicos e pré-universitários, de áreas como humanas, saúde, tecnológicas, exatas e direito de diversas instituições (UFC, UECE, UNIFOR, UNILAB, URCA, Unichristus, Estácio, Fametro, Senac e de escolas secundaristas) abrilhantaram o evento durante o dia. Desde às 9h até às 17h30, houve o que podemos denominar de engajamento pela causa. Muitos cristãos universitários, para não utilizarmos o termo irmãos em Cristo, mas agora usando, interagiram para perceberem a causa comum pela qual devem estar engajados.

Por isso, alardeamos para quem sabe podermos ser ouvidos nos mais longínquos cantos: universitários cristãos, participem das atividades da COMUNIE para ser preparados para os desafios enfrentados em ambientes hostis à fé, bem deveras precioso para nossa caminhada em qualquer lugar onde estamos, seja encorajado e encoraje outros. Acompanhe as programações da COMUNIE pelo site e redes sociais: https://comunie.wixsite.com/comunie, https://www.facebook.com/comuniece/ e https://www.instagram.com/comunie.ce/.

   

      























[1] Para maiores informações sobre o assunto, foi proposto o site a seguir: https://jovempan.com.br/opiniao-jovem-pan/comentaristas/jorge-serrao/uma-deshomenagem-a-paulo-freire.html











 

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Regeneração: antes ou depois da fé?

Mesmo contrário ao bom senso da interpretação bíblica, existe no meio evangélico o movimento calvinista que assevera ser o novo nascimento anterior ao crer. Para justificar sua visão, citam, dentre outros textos, Efésios 2:1 que diz: “Ele vos vivificou, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” e 1 Cor 2:14, no qual está escrito: “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”.

Assim, dizem que uma pessoa não pode crer sem antes experimentar o novo nascimento, já que está morta espiritualmente. Todavia, esquecem-se de que Jesus disse que esse mesmo morto pode perfeitamente crer nele, veja: "Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e agora é, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão" (João 5:25). No caso o crer é substituído pelo ouvir, pelo dar crédito e pelo atender ao chamado, etc.

Ao contrário do que dizem os calvinistas, o descrente não entende as coisas do Espírito de Deus, por isso é necessário que creia pelo conhecimento básico para depois entender todo o complexo processo da salvação. No primeiro momento, basta o convencimento pelo Espírito Santo do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8). Se a regeneração é anterior à fé porquê o Espírito Santo iria ter esse trabalho, já que a fé seria consequência dessa regeneração? Ficam sem resposta os defensores do calvinismo, assim como não conseguem responder o porquê uma pessoa pode ser iluminada pelo Espírito, dele participar, provar a Boa palavra, provar os poderes do mundo vindouro (Hebreus 6: 4-6), e ainda assim não ser crente. Por que mesmo depois dessa ação do Espírito a pessoa ainda pode não ser um regenerado? Não seria uma ação desnecessária do Espírito agir dessa forma em quem não foi regenerado? Isso se analisarmos pela lógica calvinista de que a regeneração é anterior à fé.

A ação do Espírito Santo para convencer o mundo, consequentemente o homem natural, visa uma resposta favorável (ROMANOS 10:6-11) à graça preveniente disponibilizada por meio da cruz do Senhor, sem a qual não haveria salvação. No texto de Romanos, podemos perceber que: "...a palavra pregada está perto, na  boca e no coração..." e tem todas as possibilidades para confessar Jesus depois de crer, assim usufruindo da salvação. Percebam que ele diz "será salvo" (regenerado) após o crer e a prova é o confessar com a boca.

No evangelho de Marcos 10: 17-22, o jovem rico recebeu o convite para seguir o SENHOR, mas não o atendeu. Contudo, a bíblia diz que Jesus O AMOU. A questão é: como o Espírito Santo não regenerou alguém que recebeu o convite para seguir o SENHOR mesmo tendo Jesus o amado? A resposta é simples, ele não creu a ponto de ter Jesus como uma joia mais preciosa do que seus bens (MT 13:46). Além disso, Jesus depois de dizer que a palavra não permanecia nos fariseus por não crerem e que deveriam examinar as escrituras, pois testificavam dele, acrescenta: "mas não quereis vir a mim para terdes vida!" (João 5:40). Apenas esse versículo é o suficiente para destruir toda argumentação calvinista, pois Jesus dá a ordem certa: primeiro ir a ele (pela fé, é claro) depois ter vida (salvação).

Por fim, em Efésios 1:13, diz: “no qual também vós, tendo ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, e tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa”. Esse texto mostra a ordem perfeita da salvação: ouvir a palavra, crer em Jesus e ser selado pelo Espírito Santo (regeneração que é o novo nascimento). Ninguém com uma consciência pura pode dizer que essa não é a ordem cronológica e lógica dos fatos requeridos para a salvação. Ilustrativamente, basta pensarmos na moeda com suas duas faces para daí conseguirmos enxergar que na salvação ocorre o crê e o arrependimento. Diante disso, podemos tirar muitas outras conclusões consequentes como: a expiação geral (já que a Bíblia mostra que Deus exige uma resposta do homem quando ele ouvir a Palavra), a necessidade de pregarmos a palavra, o amor de Deus por todos (revelado através da entrega de seu único filho por amor a nós) e a não existência de determinismo fatalista.

 

Pr. Jander Lira

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O ofício da mulher na Igreja

 


Desde a criação do homem e da mulher o Senhor designou, para cada um, funções específicas. Ao homem cabe o exercício de domínio (Gênesis 1:26) e à mulher ser sua ajudadora (Gênesis 2:18). Por ser uma regra absoluta, enquadrada dentro do padrão moral divino, importa reconhecermos sua perpetuidade. Contudo, nesses tempos contemporâneos, tais conceitos foram depreciados e, em ritmo acelerado, suscitaram-se exigências para as quais a mulher cristã, por exemplo, deveria ocupar e exercer funções tipicamente masculinas na Igreja, muito embora não haja prescrição bíblica para tanto. Por esta razão e através de uma sucinta reflexão, tentaremos mostrar onde a mulher cristã se encaixa melhor com seus inspirativos talentos.

O “magnificat” (Lucas 1:46-55) de Maria demonstrou qual o grau de envolvimento possível dentro do propósito de Deus para a serva do Senhor, ou seja, através do sentimento de sujeição quanto a vontade divina, da devoção e da sensibilidade para comunhão; todas extraindo suas virtudes como referencial da graciosa espiritualidade, servindo, deste modo, como retaguarda extremamente necessária para o efetivo trabalho de auxílio. Como desdobramento, o servir de apoio para aqueles que segundo a vontade de Deus foram vocacionados para ministérios específicos, qualificam-nas como personalidades de grande referencial no contexto eclesiástico. Por exemplo, foi registrado que a sogra de Pedro servia a Cristo e a seus discípulos (Marcos 1:31). Da mesma forma quando a mulher com vaso de alabastro (Lucas 7:36-49) “banhou” a Cristo, antes de sua morte, preparando-o para o momento fatídico de sua missão, revelou seu apreço e o cuidado de seu coração pelo Salvador. Ação semelhante foi notificada no domingo da ressurreição, enquanto os discípulos ficaram acuados num cenáculo, mulheres foram revestir o corpo de Cristo de acordo com prática dos rituais fúnebres, mais uma vez, demonstrando singeleza de coração, ousadia e fé para o servir (não foi sem motivo que foram privilegiadas por terem sido as primeiras testemunhas da ressurreição de Cristo). Ou seja, a mulher tem uma sensibilidade e virtudes tão preciosas para auxiliar que a idoneidade lhe identifica definitivamente melhor com os propósitos de sua criação. Assim, ela foi designada por Deus para o exercício de atividades mais relacionadas às suas virtudes porque requerem delas sua perspicácia inata, não sendo assim tão robustas e espinhosas como foram aquelas destinadas a homens.

No desdobramento do Reino de Deus, no período apostólico, a ênfase de Paulo quanto ao trabalho feminino dá sequência ao mesmo modus praticado pelo Senhor. De semelhante modo, sentiu-se privilegiado pelo apoio feminino e exalta este trabalho com a grandeza que as cristãs das diversas Igrejas de seu trabalho mereciam (Romanos 16:1, 6, 12; Filipenses 4:3).  

Desta maneira, atribuições que são destinadas aos homens, inclusive, ensinadas nas Escrituras, jamais deveriam ser praticadas pelas mulheres, pois são incompatíveis com a natureza do seu ser. Mulheres pastoras, exercendo autoridade como a de homem, realizando batismos, ensinando como se tivesse uma vocação específica para isto contrariam o ensino bíblico e a própria atribuição. Não queremos menosprezar a potencialidade feminina, contudo, procuramos tecer alguns comentários breves para uma reflexão sobre onde a mulher cristã se enquadra melhor em virtude de quem é. As vocações e as ordenanças, por exemplo, estão referenciadas na Bíblia e foram praticadas apenas por homens (Efésios 4:11 e João 4:1-2), restando para nós o pensamento de que somente eles podem exercer tais papéis. Preocupando-se com este problema e pela disseminação de ensinos contrários às Escrituras, contidos no apócrifo de Paulo (Atos de Paulo e Tecla), em sua época Tertuliano fez algumas recomendações e alertas:

Mas a petulância da mulher, que já usurpou o direito de ensinar, não se arrogue também o direito de batizar. Não! A menos que surgissem algumas novas bestas semelhantes à antiga. Aquela pretendia suprimir o batismo; uma outra quer administrá-lo ela mesma. E se essas mulheres invocam os escritos, que erroneamente levam o nome de Paulo, e citam o exemplo de Tecla para defender o direito de ensinar e batizar, saibam que foi um presbitério da Ásia que elaborou este escrito, como que cobrindo sua própria autoridade com a de Paulo. Depois de conhecida a fraude e tendo confessado que agiu por amor a Paulo, foi deposto. De fato, como seria fidedigno que o apóstolo desse à mulher o poder de ensinar e batizar, ele, que só com restrição permitiu às esposas que se instruíssem? Disse: devem silenciar e perguntar a seus maridos em casa. (De Baptismo, XVII)

   

Pr. Heládio Santos       


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

A política condenou Jesus


Edição e apoio do irmão Paulo (membro da IBRM de Joaquim Távora)

Os dons espirituais hoje?


O argumento comum dos que negam a atualidade da operação dos dons espirituais é falar de período de milagres. Será que isso tem base bíblica?

Jesus disse que estaria com seus discípulos até a consumação dos séculos. Sabemos que isso é por meio do outro consolador, o Espírito Santo. Segundo o texto de 1Co 12.4-6 as três pessoas da Trindade fazem obras específicas. O Espírito dá a manifestação dos dons para o que for útil (1Co 12.4). Ele é soberano nisso, como destaca Paulo em 1Co 12.11. Os dons de serviços (pastor, evangelista e mestre) são dados por Cristo (1Co 12.5; Ef 4.11) não cessaram, já os apóstolos e profetas que puseram o fundamento doutrinário fixado no texto do Novo Testamento (Ef 2.20; 3.5 e 1Co 3.10, 11) cessaram, mas sobrevivem pelo texto sagrado, enquanto os outros três ministérios restantes são ricos e abundantes na igreja e no Reino de Deus. Já as operações ou realizações por Deus-Pai (1Co 12.6) em sinais, prodígios, visões, sonhos, e na direção geral e harmoniosa de tudo ainda se destaca, e nada impede que possam ocorrer, e logo virão, em grande intensidade quando vier o dia da sua ira, a chamada Grande Tribulação, mas os carismas, os chamados dons espirituais, dados pelo Espírito (1Co 12.4, 7-11) não poderiam ter cessado. Eles são para edificação da Igreja, e essa ainda está aqui. A atuação deles sempre ocorreu e ocorrerá, mas muito mais agora. Se os dons ministeriais são vigentes, quanto mais os espirituais. E Deus-pai na Pessoa de Jesus Cristo é o Deus vivo Todo-poderoso que Jesus e O Espírito Santo nos dá acesso, então, temam, filhos de Adão e filhas de Eva. Deus é o mesmo, ontem, hoje e o será eternamente! Toda glória a Ele por Jesus Cristo seu Filho!

Não podemos dizer o que Deus fará ou deixará de fazer. Dizer que Deus não opera mais, em qualquer uma das pessoas da Trindade é estúpido, tolo e grosseiro. Isso é afirmar que Deus não é soberano. Ironicamente quem ousa dizer essas abobrinhas, sem fundamento, são os que vivem a enfatizar a soberania divina em suas doutrinas. Enfatizam tanto a soberania que a virtude divina que é de fato mais enfatizada pelo próprio Deus em suas Escrituras fica em segundo plano, que é o amor.

 

Luiz Souza


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Livro "Girolamo Savonarola e a República de Florença" de autoria do pastor Glauco Barreira Magalhães Filho

 


Uma das maiores virtudes de excelentes escritores é sua inquietação para produção de novos escritos, mormente, em razão do domínio e do conhecimento sobre os assuntos que desejam escrever. Sendo exímio escritor, caracteriza-se também pelo bom senso, pelo espírito apurado, pelo olhar atento às nuanças pelas quais passará sua discussão e abordagem para que possa apresentar sempre algo não percebido, talvez até ignorado anteriormente, preocupando-se, sobretudo, com o conteúdo veraz de sua obra. Versando com a singularidade ou com a peculiaridade que o tema requererá, pretende expressar sua afinidade com o tema e honestidade literária, principalmente porque em assuntos de relevância histórica cujo eco ainda persiste com audível clamor entre nós, há, constantemente, uma mensagem para ser dita, para ser compreendida e para resgatar o que foi esquecido. Muito embora venha do passado, faz-se presente em vistas de sua essência profundamente profética.

Foi nesse ambiente que o pastor e prof. Dr. Glauco Barreira Magalhães Filho produziu e publicou mais uma preciosa obra: “Girolamo Savonarola e a República de Florença”, trazendo à tona a vida intensa de um gigante da fé cristã que é considerado precursor da Reforma Protestante. Não é uma obra tão somente biográfica. É também uma obra na qual Savonarola tem liberdade de falar ao leitor e sem arrodeios revelar quem foi e o que pretendia. A chama da sensatez e do apelo à conservação da moral constituiu-se a base de suas pregações nas suas idas e vindas pelas cidades italianas, no final do século XV. Sua pregação teve uma característica muito particular, pois alertava e condenava com profunda veemência as práticas de perdição de sua sociedade, não temendo, contudo, as consequências pelas quais poderia passar e passou até chegar ao dissabor das torturas e do martírio as quais se redenram a ele, porquanto as encarou com fortitude e grandeza.

Elevando a pregação de Savonarola ao patamar de inspirativa para os momentos atuais, o pastor Glauco Barreira assevera:

É inconcebível que o cristianismo que criou as universidades, deu plausibilidade para a ciência moderna e formou as instituições do Ocidente deva agora se calar. Precisamos voltar ao passado e ouvir as vozes daqueles que, depois de mortos, ainda falam. Girolamo Savonarola é uma dessas vozes, uma poderosa voz! (p.99)

Mensagens como as de Girolamo Savonarola precisam ser ouvidas hoje. Conheça sua história e adquira logo seu examplar. Em Fortaleza-Ce, está disponível com o próprio autor no templo da Igreja Batista Renovada Moriá, situada à rua Nogueira Acioli, 2195, Joaquim Távora, nos momentos anteriores e posteriores aos cultos de Quinta-feira (19h30) e domingo (18h30). A Fonte Editorial disponibilizará o livro em breve para venda on-line nos sites com os quais trabalha.

 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Cabelos naturais e a falácia midiática

Uma suposta valorização do indivíduo passou a ocupar a pauta midiática quando a mesma fala da conservação de cabelos naturais, enfatizando, principalmente, cacheados e crespos como selo identitário de quem a mulher é de fato e de verdade. Pelos meios de comunicação, agora, ouve-se uma defesa com espírito militante desses dons naturais e da sua essência numa oposição severa à agregação de determinadas ações para alterá-los. Essa fala também pretende resgatar o prestígio das mulheres “desvalorizadas” em décadas passadas por não consentirem com a alteração de sua naturalidade em meio à crise instaurada pela moda corrente daquele momento. Antigamente, cabelos loiros, longos e brilhantes, estirados, pintados e frisados (alguns ainda hoje) eram os que ganhavam maior notoriedade com status de beleza, enquanto os demais, principalmente os crespos, eram ridicularizados e coagidos às sombras para nem serem notados, mas a adesão à modificação de sua essência capilar inseriria a mulher em outro patamar: o do reconhecimento e o de estar na moda efervescente, como diria madame C.J.Walker. De fato, uma situação explícita de exclusão social e de manipulação cujo real intento era apresentar sempre a prevalência de determinados modelos de cabelos tidos como perfeitos em detrimento de outros, seguramente, menosprezando esses outros por questões raciais.

Por outro lado, na genuína Igreja cristã sempre houve apreço pelos aspectos naturais do cabelo e pela sua composição. Pedro, inclusive, inibe a prática manipuladora do seu tempo ao falar que o adorno da mulher não deveria ser o frisado de cabelos, antes o padrão natural (I Pedro 3:3). Duas razões específicas nos motivam a pensar na doutrinação de Pedro: a valorização da naturalidade e a da simplicidade. Em ambos os aspectos, destaca-se o verdadeiro sem ocultação ou fabricação da falsidade. Via-se, desta maneira, o caráter honesto da fé na qual a mulher cristã deveria conduzir-se para agradar a Deus naquilo que Ele lhe proporcionou, sendo-lhe grata e contentando-se com a dádiva divina, muito embora houvesse o peso da coerção social tentando lhe desviar das perspectivas cristãs.

Mas, a crítica midiática não pretendia reconhecer nosso comportamento cristão, talvez por vergonha do seu erro ou por alegar extremismo religioso na disciplina e no comportamento adotados pelas fiéis e símplices seguidoras do Cristo. Mas são exatamente nessas manifestações das discípulas que encontramos a valorização consciente pelo que são, sentindo prazer e gratidão pela composição desta parte de seus corpos que as tornam únicas.

Apesar de algumas Igrejas evangélicas não respeitarem esses limites, existem muitas outras que preferiram a fidelidade e a observância da naturalidade ofertada por Deus, permitindo, desde antes dessa nova moda, a valorização dos cabelos naturais (sejam eles quais forem), opondo-se a essa “preocupação” da mídia mundana que alega rompimento com preconceitos raciais, mas, quem sabe, pode ser, na verdade, uma tremenda iniciativa para uma campanha publicitária cujo real intento seria alavancar vendas com produtos que realçam essa naturalidade, confirmando mais um capricho egoísta e mercadológico. 

Pastor Heládio Santos


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O Evangelho inegociável


Afinal, a pretensão do Evangelho consiste em ser a máxima prevalecente ou não? A verdade contida nas suas muitas doutrinações são de fato a verdade ou o homem tem a capacidade de redefiní-lo, indo além ou mutilando o que está escrito como que tendo o poder para fazê-lo? Se o homem pode determinar a maneira de ser do Evangelho, não seria o Evangelho apenas um objeto utilitário com rótulo dogmático ou até mesmo ideológico? Se o Evangelho pode ser vivenciado de uma maneira determinada numa cultura e de outra noutra cultura, não seria o Evangelho, então, um possível subproduto cultural gerado pelo próprio homem em decorrência de sua necessidade “espiritual” para expressar-se diante do Sagrado e também um manual sagrado multifacetado (pensa-se assim na Antropologia)? Apesar de muitos cristãos não se auto definirem com semelhantes pensamentos é exatamente assim como tratam o Evangelho; seja no seu consciente ou no seu inconsciente o entendem como objeto maleável e subjugado ao querer humano e não o contrário. Lembremo-nos de que o Evangelho é inspirado por Deus e todo direcionamento proposto por ele tem a finalidade de trazer um alinhamento do homem com as virtudes divinas. Baseado nessa premissa, ponderaremos sobre algumas impressões sobre o verdadeiro Evangelho e o que ele propõe, tentando desmistificar e denunciar o suposto poderio humano.

         O Evangelho não pode ser pensado como uma quantidade limitada, referindo-se somente aos quatro livros que narram a História do Messias. O Evangelho concentra sua mensagem neles, mas extrapola para os demais conteúdos bíblicos, sendo, desta maneira, um “portal” pelo qual poderemos atingir toda a revelação divina para esta vida. A exemplo, vejamos o apóstolo Paulo informando sobre a experiência de Abraão no Evangelho: “Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar pela fé os gentios, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: todas as nações serão benditas em ti” (Gálatas 3:8), e o apóstolo João narrando evento dos finais dos tempos ao dizer: “E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para o proclamar aos que habitavam sobre a terra, e a toda a nação, e tribo, e língua, e povo,” (Apocalipse 14:6). Ambos fazem indiretamente menção ao dimensionamento temporal do Evangelho, ou seja, de Gênesis a Apocalipse. Portanto, podemos dizer que a mensagem do Evangelho abrange toda a História da Humanidade.

         Perscrutando um pouco mais, a mensagem do Evangelho tem a finalidade de mudança. Lemos do precursor de Cristo as palavras ainda vigentes: “Arrependei-vos, e crede no Evangelho” (Marcos 1:15). Arrependimento consiste na contrição verdadeira que é um misto de tristeza pela vida de desobediência a Deus com a súplica pelo favor divino para poder caminhar-se de modo diferente a partir do encontro com a verdade. À luz do Santo Espírito, mentes transformadas pelo arrependimento aprendem que perder a vida de pecados, paixões e ilusões do mundo por amor de Cristo e do Evangelho permite-as adentrar a dimensão da salvação eterna da qual nem o injusto acusador será capaz de roubá-las daquele que as sustenta. Ademais, investidos na dimensão espiritual gozam da certeza inviolável da fé, da renúncia voluntária ao malfazejo e da alegria refulgente emanada da comunhão com o Senhor. Emocionalismo religioso barato? Não, a segura certeza da paz com Deus!

A experiência cristã pelo Evangelho é transformadora e consequentemente o redimido ruma desviando-se da vida pecaminosa e endireitando-se através da palavra restauradora de Cristo porque é incapaz de realizar por si só uma obra dessa envergadura. É também bem-aventurada e gera uma satisfação indizível e indescritível por uma razão apenas: revela o poder do legítimo Evangelho de Cristo, como diria Paulo: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Romanos 1:16)! Este é o Evangelho antigo que é sempre novo, continuando capaz de fazer com que um homem seja curado de lepra e volte glorificando a Deus em alta voz (Lucas 17:15), uma pecadora caia aos pés do Salvador em prantos suplicando sem palavras por perdão e encontre-o (Lucas 7:37-38), haja reconhecimento pelo carisma de um grupo de pessoas desconhecidas na grande maioria, mas que vivem a experiência do Evangelho sem preconceitos ou restrições e conseguem levar outros para Cristo pelo seu exemplo (Atos 2:47) e é capaz de nos fazer obedientes a Deus sem oposições aos postulados bíblicos, assim como ensinado pelo santo apóstolo ao dizer: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados” (Efésios 5:1).

O amor a Cristo pode ser elencado como a principal razão pela qual o cristão sente profunda paixão pela obediência, como o apóstolo atestou: “o amor de Cristo nos constrange” (I Coríntios 5:14). Não entenda o leitor “o amor de Cristo” como um sentimento romantizado, como supõem algumas correntes cristãs contemporâneas. Entenda-o como a causa da nossa sujeição voluntária, gerando prazer pela obediência a Ele, conforme Paulo complementa: “E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (I Coríntios 5:15). Apesar de soar como um dever e obrigação de retribuição, o autêntico cristão encontrou a graça imerecida que o faz sensível à prédica apostólica de querer agradar a Cristo, desvencilhando-se de todas as formas de pecados censuradas pelas Escrituras.

Entretanto, em alguns casos, líderes religiosos ensinam e preferem fazer diferente, ou seja, manipulam o conteúdo santo do Evangelho como se fossem seus donos para permitirem um modo de vida licencioso, sem a devida piedade de Cristo e impossibilitando seus seguidores de provar o manancial de Deus. Basta compreendermos a licenciosidade como a propagação de um comportamento distinto daquele do Evangelho como a mundanização dos comportamentos e dos modos de vida dos cristãos modernos. Dentre alguns poderíamos elencar: a dessacralização do modo de vida cristão, a rejeição ao exame bíblico cotidiano e individual que formaria o caráter sob a perspectiva bíblica (jovens cristãos são mais influenciados por livros de ficção do que pela Bíblia), a permissividade de estereótipos caracterizados pelos padrões seculares e não pelos evangélicos, a abstinência dos ritos individuais como jejum, oração individual e confissão, o desapego pela renúncia aos prazeres, o consentimento e permissividade para audição de músicas mundanas, praticar danças, namoros indecentes, divórcios etc. Esses “teólogos” trôpegos e cegos não conseguem aceitar a obediência plena e restrita ao sagrado Evangelho nem alcançar a experiência de satisfação cristã porque nunca souberam olhar humildemente para a cruz de Cristo, por isso, tentam fazer arranjos dos quais maculam suas vidas além do que já estão diante de Deus, além de formarem um grupo de seguidores pelo mesmo caminho de rebeldia. A nós, cabe a recusa à exposição apostática, sem vida e aliciada pelos paradigmas seculares destes emissores de falas estranhas. Eles que modificam e reinterpretam o Evangelho são chamados de fonte sem água e nuvens levadas pela força do vento, ou seja, não falam do Evangelho porque não o tem e são levados pelas tendências mundanas de tal modo que suas falas são mui arrogantes (arrogam pra si o legítimo conhecimento sem tê-lo), cheias de vaidades, e engodam com as concupiscências da carne; prometem liberdade, mas se auto aprisionam como servos da corrupção; são eles de quem se diz: deixaram o mundo, mas foram envolvidos e vencidos novamente; sobre eles está escrito: “o cão voltou ao seu próprio vômito, e a porca lavada ao espojadouro de lama” (II Pedro 2:22). Homens simples, humildes servos e piedosos são de fato aqueles que devemos querer ouvir porque valorizam o Evangelho como ele é e não como outros gostariam que fosse. Consentir com este termo, assegura o alinhamento com a verdade.

Muito embora haja a nítida manipulação do Evangelho pelo mundo afora, sabemos que ele é inegociável. Mesmo que alguém tente arrogar para si o poder de atualizá-lo ou modernizá-lo, ele não aceita a modificação de sua essência absoluta. Constitui-se, desta forma, o de querer mudar a essência do ensino, uma ação apóstata com sérias prescrições contra os que tais coisas praticam. Imaginamos que está em causa à prevalência do intento humano em detrimento ao divino com a consecução de tudo quanto converge em militância para o desaparecimento da ideia Deus. Suplantar sua vontade no Evangelho, se fosse possível, retiraria a potencialidade de haver justiça e equilíbrio no mundo e não causaria somente a repulsa divina que se manifestará em julgamento oportuno e futuro, mas também o desvio intencional de multidões pela fertilização de ideias obstinadas nas mentes vulneráveis ao inimigo de líderes carnais e modernos. Por isso, a regra do Evangelho é uma: ou se aceita como ele é ou não se aceita. Viver pelo Evangelho requer renúncia, sujeição e humildade, enquanto que em oposição ao sublime ensino o mundo propõe um conjunto completo de contrariedades: exigências, autonomia e exaltação do indivíduo. Fiquemos com o Evangelho de Deus e rejeitemos o evangelho dos homens, asseverando também a exortação de C.H.Spurgeon: “Devemos pregar o Evangelho... conforme a mente de Deus, o testemunho de Jeová a respeito de seu próprio Filho, e em referência à salvação para os homens perdidos. Se tivéssemos sido confiados à produção do Evangelho, poderíamos tê-lo alterado para atender ao gosto deste século, mas nunca fomos comissionados a originar a boa notícia, mas apenas a repetí-la, não nos atrevemos a ir além do que está escrito. O que temos sido ensinados por Deus, nós ensinamos. Se não fizermos isso, não somos aptos para nossa posição” (Sermão “A necessidade de decidir-se pela verdade” de 1874).

Pr. Heládio Santos


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

A mulher e o cinto


A doutrina cristã consiste de um conjunto de ensinamentos provenientes de Deus apresentados de forma direta no cânon bíblico, seja por instrução pacífica ou por admoestação, para regular o comportamento e a ética da Igreja. Precisamente, é no Novo Testamento que a Igreja encontra o referencial para sua conduta; contudo, não pode esquecer-se do Antigo Testamento no qual há a revelação de muitos aspectos do caráter de Deus e de sua vontade, todos dignos de cumprimento em razão da imutabilidade do seu ser. Um deles versa sobre a forma pelo qual o fiel deverá se vestir e a possibilidade de agregar elementos à sua indumentária. Especificamente, gostaríamos de tratar e refletir brevemente sobre o uso do cinto, ponderando sobre sua origem como adereço das vestes, sobre quem pode usá-lo e se existe alguma restrição ao seu uso. Bem, talvez essas sejam algumas das questões inquietantes em certas mentes cristãs em cujo exercício racional procuram compreender sua correta aplicação.
Encontramos a primeira referência ao cinto como adereço na veste sacerdotal (Êxodo 28:4). Ao longo de Levítico, inúmeras vezes também é citado (8:7, 8:13, 16:4). O cinto, dentro deste contexto, se apresentava como objeto de ornamento da veste estabelecida por Deus para fins espirituais na condução do povo para o sagrado. As vestes representavam a grandiosidade do sacerdote, mas não para a exaltação do homem, antes como prefiguração da grandeza do verdadeiro sacerdote, Cristo. A grandeza criava na vestimenta um simbolismo para chamar a atenção dos israelistas para motivá-los a olharem atentos os institutos divinos já que nenhum estímulo espiritual existia para impulsioná-los a este fim (como sabemos, o Espírito Santo somente passou a habitar permanentemente no crente após a morte de Cristo). Além do aspecto cerimonial no ofício do sacerdote, o cinto foi também usado por recrutas dos exércitos e pelos profetas (I Reis 2:5 e II Reis 1:8, 3:21).
         Desta maneira, o exame atento das Escrituras nos mostra o cinto como adereço da indumentária masculina e nunca da feminina. Mas, se ousarmos procurar alguma passagem bíblica na qual as vestes femininas recebem o adereço do cinto para justificar sua utilização pela mulher, certamente, não a encontraremos, pois, as muitas passagens bíblicas existentes sobre o assunto estão caracterizadas pela peculiaridade do objeto com a veste masculina (Jeremias 13:11, Mateus 3:4, Marcos 6:8).
Quanto a relação do cinto com a mulher, é possível vermos algo nada louvável nas prédicas proféticas. A utilização do cinto pela mulher despertou, na verdade, um descontentamento divino em razão de o cinto ser objeto peculiar da veste do homem (basta estar atento a todas as passagens bíblicas nas quais o cinto faz parte do ensejo). A repreensão duríssima de Deus, através do profeta Isaías, comprova sua insatisfação com o uso de cinto entre as mulheres em decorrência da desobediência ao princípio estabelecido no ato de sua origem (veste sacerdotal), porquanto disse o profeta: “Naquele dia tirará o Senhor os ornamentos dos pés, e as toucas, e adornos em forma de lua... e os cintos...” (3:18-20). Percebe-se aqui a nítida ideia de diferenciação do adereço no vestuário, ou seja, o que é peculiar ao homem e não é à mulher. Assim, Deus definiu o padrão para um e para o outro.
Ora, se não há nenhuma passagem bíblica na qual encontramos a utilização do cinto pela mulher é porque o seu uso está em desacordo com o propósito de Deus. Além disso, a expressão de Isaías demonstra efetivamente a contrariedade de Deus ao uso feminino do cinto. Contudo cabe salientar que a mulher tem vestimentas peculiares que reforçam e engrandecem o ser feminino, não necessitando de algo rústico e grosseiro como é o cinto do homem. Sua delicadeza exige uma indumentária mais alinhada com a virtuosidade de seu coração, de sua decência e de seu espírito piedoso para que se destaque sua essência e também sua beleza enquanto mulher. Fica, assim, justificada a afirmação de que não é decente à mulher usar um objeto próprio da veste masculina.

Pr. Heládio Santos



segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Interpretação bíblica



O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. (Oséias 4:6)

O livro de Oséias narra a relação entre Deus e Israel expondo as “angústias” do Senhor em decorrência do sofrimento causado pela infidelidade do povo, pela sua idolatria (adultério espiritual) e, principalmente, pelo motivador destas ardilosas condutas, a falta de conhecimento. Israel rejeitou a premissa veterotestamentário de Salomão que dizia: “inclina o teu ouvido e ouve as palavras dos sábios, e aplica o teu coração ao meu conhecimento” (Provérbios 22:17), por isso, foi acometido pela apatia e frieza, gerando enormes prejuízos espirituais porque não se deixou influenciar pelos estatutos divinos. Provocados pela instrução bíblica, podemos reconhecer a necessidade do conhecimento de Deus e de sua Palavra, mas também de como será nossa relação com Ela e como deveremos tratar a interpretação do outro.
O relato da revelação bíblica pretende alertar a Igreja para rejeitar conduta semelhante à de Israel, ou seja, desprezar o conhecimento. É prerrogativa da Ecclesia tanto o conhecimento como o aperfeiçoamento na doutrina de Cristo, conforme o próprio Senhor mencionou: “Examinais as Escrituras...” (João 5:39). Pela exposição apostólica é explicitado a outra pretensão: “querendo o aperfeiçoamento dos santos” (Efésios 4:12). Por assim dizer, o exame das Escrituras é muito diferente de sua leitura. A leitura remete para algo mais leve e descompromissado, sem demonstração plena de interesse, de modo que Jesus assevera o modo pelo qual deveremos tratar o conhecimento bíblico: examinando-o. Isto estabelece uma relação de tratamento mais minucioso com o texto, a fim de que nos comportemos com a expectativa de o conhecermos em sua essência. Para tanto, a investigação bíblica deverá ser o objetivo do crente. Não obstante, essa investigação não é uma crítica ao texto em si, segundo uma racionalidade contemporânea, antes a forma de desvendar pela luz e pela orientação do Santo Espírito a expressa verdade para nós oportunizada. Com virtuosa ação, alcançamos a boa consciência da verdade: “Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade” (Efésios 6:14).
O autoexame é uma bênção para o crente, pois poder examinar a Escritura, extraindo dela sua verdade, nos coloca no ápice da possibilidade para conhecermos efetivamente a Palavra. A ponte para a verdade da Palavra foi estabelecida por Cristo. Nele, há um elogio à pequenez desvendando o mistério para o esclarecimento e nos elevando à estatura que torna possível o conhecimento de sua vontade. Foi em breve oração, robustecida pelo sincero agradecimento ao Pai, que assim demonstrou: “... graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” (Mateus 11:25). A pequenez dos discípulos expressou a submissão diante da grandeza de Deus e a humildade encontrada entre os virtuosos fiéis a Cristo que anelavam o conhecimento de Deus. Portanto, pequenez simboliza a sujeição a Deus pela qual se alcança o seguro entendimento da Palavra.  
Causa-nos estranheza, no entanto, as divergências teológicas de interpretação que mais afastam do que agregam e criam um ufanismo denominacional. Dentre outros fatores, muitos não sentem desprazer na conduta da sobreposição, antes, procuram refinar seus argumentos para sempre imporem suas concepções em decorrência da ânsia de verem o outro superado. O autoexame de fato possibilitou certa independência aos interpretes, de modo que inúmeras concepções teológicas têm surgido ao longo dos tempos. É plausível dizermos que a maioria está errada na arte interpretativa, causando determinados percalços para o Evangelho, para a Igreja e para os descrentes. O remédio, entretanto, para todas elas é a univocidade da Escritura e a uniformidade doutrinária (não entenda isso como uma forma de ecumenismo, não o é, mas simplesmente a guarda do fiel depósito pela Igreja de Cristo). Não há várias interpretações para a doutrina de Cristo, somente uma. Reprovados os altaneiros de vaidosos espíritos, estão tendentes à perfeita interpretação os símplices de coração que com alento tratam a doutrina não como sua, mas como de Deus, para si e para o outro. Na verdade, a Igreja deveria compreender que somos o resultado da operação de Cristo e de sua Palavra, não seus proprietários. Essa mentalidade nos aperfeiçoa para saber lhe dar com as tantas circunstâncias onde a Palavra é colocada em questão para assim podermos redarguir através da Verdade. Daí Paulo nos orientar: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tito 1:9).
Nossa conduta como cristãos anabatistas é interpretarmos as Escrituras com a receita que nos foi dada: com simplicidade de coração e de espírito, permitindo sermos levados pela precisa orientação do Santo Consolador, a fim de agirmos com a mansidão e paz, virtudes que assistem ao que está revestido do perfeito conhecimento. Esse conhecimento é partilhado e multiplicado com gratuidade e simpatia, visando o crescimento de cada parte, inclusive, de alguns que se acham despreparados para internalizarem o ensino. Por isso, busquemos com afinco conhecer a Deus e sua Palavra sempre com humildade e sujeição, não nos achando os melhores, mas os menores.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Nova Teologia do Domínio


É patente que a religião nos Estados Unidos desempenha um importante papel nos desdobramentos políticos. Até mesmo crentes em Cristo que crêem na Bíblia mergulharam nessa onda da Nova Teologia do Domínio. O que vem a ser essa Nova Teologia do Domínio? Em poucas palavras, é uma vertente teológica defensora da crença de que recebemos um mandato para mudar o mundo, principalmente nosso país. Os adeptos da Nova Teologia do Domínio propõem que a paz, a justiça e a equidade serão estabelecidas na sociedade quando um governo cristão for instituído. Muitos cristãos bem-intencionados acreditam que se o governo estiver repleto de crentes em Cristo, isso propiciaria a aprovação de leis favoráveis ao cristianismo. Eles, obviamente, desconsideram o fato de que qualquer lei motivada por religião, seja de que espécie for, será aproveitada por outros. Esquecem que a Igreja não pode ser legislada por influências políticas. Essa já tem sido a experiência da Igreja Católica Romana, que empregou o poder político ao extremo durante a maior parte de sua história. Se o Cristianismo assume o controle da autoridade governamental, deixa de ser cristianismo e passa a ser anticristianismo.

Extraído do livro “666: Preparação para a marca da Besta” de Arno Froese, Atual Edições.