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sexta-feira, 26 de junho de 2026

Compreendendo a soberania divina e o coração humano

 


Ao ler as Escrituras, podemos nos deparar com passagens que parecem apresentar direções opostas. De um lado, no Evangelho de João, lemos a afirmação de que Deus não ouve pecadores. De outro, o livro de Atos relata que Deus ouviu as orações do centurião romano Cornélio, um gentio pecador. Esta aparente divergência pode causar estranheza, mas, quando analisada sob a ótica da teologia, revela uma profunda consistência no caráter de Deus e na sua forma de se relacionar com a humanidade.

No Evangelho de João 9:31, após ser curado da cegueira, um homem diz aos fariseus: Sabemos que Deus não ouve pecadores; mas, se alguém é temente a Deus e faz a sua vontade, a esse ouve. Para compreender essa fala, é preciso lembrar que, no contexto dos evangelhos, o termo “pecador” muitas vezes não se refere à condição universal do ser humano (o pecado como natureza), mas àqueles que vivem em rebelião deliberada, impenitência e hipocrisia contra a vontade de Deus.

O teólogo e comentarista bíblico Matthew Henry, ao analisar essa passagem, pontua que a oração daqueles que deliberadamente se apegam ao pecado com o coração é um obstáculo para a comunhão. A expressão reflete o princípio do Antigo Testamento (como em Provérbios 28:9) de que a recusa em alinhar-se com a vontade divina gera um distanciamento relacional. Deus não é surdo, mas Ele rejeita a falsa aproximação daqueles que ignoram a Sua Lei e mantêm o amor pelo pecado.

Em contrapartida, o capítulo 10 do livro de Atos apresenta o centurião Cornélio, descrito como um homem piedoso, temente a Deus, que orava continuamente e fazia muitas esmolas. O anjo diz a ele: As tuas orações e as tuas esmolas têm subido para memória diante de Deus. Surgem então as perguntas: Como Deus ouve a oração de um gentio — alguém que, pelas categorias da lei, seria considerado “afastado” ou pecador?

Presumimos que esse fenômeno exemplifica a ação prévia de Deus no coração humano, preparando Cornélio para a pregação do Evangelho. Como um “temente a Deus”, é provável que ele já possuísse algum conhecimento das profecias do Antigo Testamento sobre o Messias. Diante disso, o princípio bíblico do temor revela que a busca sincera e a devoção demonstradas por Cornélio não eram méritos humanos para alcançar a salvação, era o resultado do próprio Deus trabalhando em sua vida e despertando sua consciência antes mesmo do encontro com Pedro. O clamor de Cornélio não era o de alguém endurecido no erro, mas o de uma alma que, movida por esse auxílio divino inicial, buscava ao Senhor com sinceridade antes de conhecer plenamente o Evangelho de Cristo.

Portanto, asseveramos que não há contradição entre as orientações de Jesus e o relato de Atos, pois a diferença crucial reside na atitude do coração. Quando as Escrituras apontam que Deus rejeita uma oração, referem-se àqueles que buscam ao Senhor retendo o pecado deliberado, vivendo em hipocrisia ou tentando impor a própria vontade. Em contrapartida, Deus acolhe prontamente o clamor de quem o busca com sinceridade, honestidade e temor, mesmo que essa pessoa ainda não possua o pleno conhecimento teológico acerca da salvação.

O pastor Hernandes Dias Lopes, ao comentar a história de Cornélio, reforça que a sinceridade do centurião não passou despercebida por Deus. O Senhor, em sua infinita misericórdia, inclina-se para ouvir aqueles que o buscam genuinamente, e responde a essa busca providenciando os meios para que a pessoa alcance a plenitude da graça — que no caso de Cornélio resultou na vinda do apóstolo Pedro e na sua conversão ao Evangelho.

As Escrituras nos mostram um Deus que é intrinsecamente justo ao se afastar da rebelião deliberada, mas que é incrivelmente gracioso e atento à busca humilde, utilizando o clamor sincero como ponto de partida para revelar o Seu amor e a Sua salvação. Mais do que reagir à busca humana, a Bíblia revela que o desejo ardente de Deus é salvar o homem acima de qualquer outra coisa. Esse anseio redentor supera as barreiras culturais, os preconceitos religiosos e até mesmo as limitações teológicas de quem o procura. Deus não aguarda passivamente que o ser humano alcance uma perfeição doutrinária ou uma pureza ritual para manifestar-se; pelo contrário, Ele mesmo toma a iniciativa de ir ao encontro da criatura. Sua justiça exige santidade, mas Seu amor infinito providencia o caminho, provando que o Seu maior prazer não está em condenar o pecador, mas em resgatá-lo e reconciliá-lo consigo através de uma graça que busca, encontra e transforma.

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