O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.
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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Comentários sobre o novo livro do pastor Glauco Barreira Magalhães Filho

 


Já conhecia a história de Girolamo Savonarola, mas nem tanto. Li livros com sua biografia que testemunham quão bravo e solitário foi na luta pela exposição das verdades cristãs para convencer seus ouvintes a adotarem um padrão de vida piedoso, diferente daquele experimentado entre os prazeres e devaneios mundanos da cidade de Florença, na Itália, no século XV. Savonarola era um arauto e tocava a trombeta da denunciação contra o pecado sem temer a sociedade, os príncipes, os reis e até o papa, personalidade cuja influência superava aos dos monarcas locais.

Mas, não quero discorrer sobre aspectos deste gigante da fé; pretendo mostrar como a leitura do novo livro do reverendo Glauco Barreira Magalhães Filho poderá servir para ampliar e majorar a instrução sobre o assunto, estimulando maior ousadia, aprimorando a maneira e a forma de pregar e, acima de tudo, levando o leitor (inclusive eu), tanto pelo objeto da obra como pelo espírito aguçado e espiritual do autor em revelar suas nuances, a estar posicionando-se melhor na presença de Deus.

Recentemente, conversando com o autor lhe disse: “quando pego seu livro para ler, ‘sinto’ minhas mãos ‘pegando fogo’, pois fazia tempo que queria ler um livro que me impactasse também a alma e o coração”. Destaquei, dentre outros, como o pastor soube ler a alma de Savonarola e de seu comportamento, destacando-o muito acertadamente de “extremos simultâneos”, ou como ele mesmo explica: “Assim como Jesus não era meio homem e meio Deus, mas totalmente homem e totalmente Deus, Savonarola era intenso no intelecto e nas emoções, o mestre o pregador, o radical moral e o conselheiro sensível, o profeta e o reformador das instituições, o filósofo e o biblicita” (pgs.9-10). Talvez, quem não esteja ambientado a determinados termos teológicos e usados pelas ciências humanas com fins de categorização dos objetos de estudos pode pensar ser algo que torna a obra de difícil leitura e entendimento. O conteúdo do livro é sensivelmente democrático, pois atende as expectativas do leitor convencional e também as de teólogos. É uma obra rica na língua portuguesa cujo assunto era quase escasso, contudo, agora o público evangélico se torna privilegiado por ter um aprofundamento muito bem direcionado nas páginas desta publicação da Fonte Editorial.

Aproveitando nossa conversa, disse-lhe também que à medida que leio, sinto vontade de voltar a ler novamente, já projetando uma nova leitura da obra. Às vezes, sentimos tanta curiosidade sobre o assunto que ficamos “afoitos” (referindo-me à pressa de ler logo o conteúdo desconhecido, conhecer o olhar clínico do autor e entender os porquês da “revolução” savonaroliana) que perdemos determinadas conteúdos pelo caminho. Razão que nos motiva a um retorno sem enfado para uma segunda e até uma terceira leitura consequente, pois a obra é muito instigante, atrativa e agradável.

Por fim, a Igreja Batista Renovada Moriá, onde o pastor Glauco Barreira Magalhães Filho exerce seu ministério, tem uma pérola de considerável valor à sua disposição. Fica a dica tanto para a membresia como para os demais obreiros adquirirem a obra. Façam bom uso como estou fazendo.

 

Pr. Heládio Santos

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Águas da fonte


As fontes de águas são verdadeiros referenciais de pureza. Em seu nascedouro, jorram sem acréscimos de impurezas, tornando aconselhável o beber e o saciar a sede despreocupadamente. Uma obra tão singela, mas tão robusta pelos seus efeitos, foi feita com o toque do Criador: “Fez sair fontes das rochas, e fez correr as águas como rios” (Salmos 78:16). O ribeiro formado conduz o frescor e a pureza das primeiras águas, caso não sofra qualquer interferência ao longo de sua jornada. Mas, quando as águas da fonte começam a sofrer acréscimos de resíduos da flora e da fauna sem vida, com possibilidades de outros resíduos da ação humana também se juntarem à corrente, o nível de pureza reduz sensivelmente devido à poluição, desencorajando qualquer um de fazer uso da água conspurcada.
Quando nos referimos aos princípios bíblicos, devemos ter em mente algo desta natureza. Examinarmos os postulados neotestamentários como sendo as águas da fonte permite-nos conhecer diretamente o ensino, inquieta-nos a refletir sobre a conduta a ser pratica após o exame e torna-nos, ou não, autênticos seguidores de Cristo. Concluímos sob essa perspectiva porque vemos a clareza das verdades contidas no texto sagrado, entendendo que o livre acesso ao texto deverá também nos conduzir pela interpretação coerente do Espírito que ilumina o coração piedoso para sair das sombras e das dúvidas. A busca pelo conhecimento cristão de forma individual foi ensinada por Cristo, mas também foi censurada quando não se fazia uso desta significante oportunidade: “Porventura não errais vós em razão de saberdes as Escrituras nem o poder de Deus?” (Marcos 12:24). Cristo também ensinou a dependência do Espírito para que a interpretação precisa fosse observada: “Mas, quando vier aquele, o Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade...” (João 16:13). A relevante crítica sobre a referida maneira de interpretação (individual) gerou uma celeuma teológica na qual se enfatizou a possibilidade de uma diversidade de interpretações. Certamente, existe a possibilidade em razão da má propensão de alguns homens, mas também uma garantia divina que se estes homens forem sujeitos à graça e à inspiração do Espírito a história terá o fim em conformidade com os anseios divinos de unidade e de mesma mentalidade. Afinal, está escrito: “E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum” (Atos 2:44), “E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações” (Atos 2:42), e “Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Efésios 4:3).


Ao longo da História do Cristianismo, muitos movimentos chamaram para si o ilustre título de únicos e verdadeiros intérpretes das Escrituras, proclamando a necessidade de seus seguidores observarem estritamente suas conclusões sobre os ensinos cristãos. Foi assim com o catolicismo romano que hoje defende a ideia de que qualquer interpretação fora do que as encíclicas papais determinam torna o suposto intérprete um herege. Aliás, é fazendo menção aos escritos patrísticos de Cipriano, no século III, de onde vem a máxima: extra Ecclesiam nulla salus (fora da igreja não há salvação), que o clero católico reclama o direito de ser sua instituição aquela formada por Cristo em Atos dos Apóstolos. Porém, o grande responsável pela sua criação foi o Imperador Constantino, sob a égide de que Cristo lhe tinha dado a vitória sobre seus inimigos através de um sinal nos céus de uma cruz. O percurso histórico católico revela a forma como foi se consolidando enquanto religião oficial do Estado romano para em seguida seguir os ideais expansionistas, todos orientados pela mentalidade imperial de César. Sua formação agregou às suas convicções religiosas: crendices populares, rituais de outras religiões, superstições, perseguições, obscurantismo, sangue derramado (homicídios inquisitoriais), acréscimos doutrinários e mentalidade circunstancial e sintonizadas com ideais políticos. Não é à toa que essa mistura de confusão classificou o catolicismo de a Grande Babilônia, como fora revelada em Apocalipse. Fica então evidente que o rio de onde o catolicismo partiu já estava contaminado, comprometendo todo o restante de seu percurso. Desta forma, não adianta qualquer outra ação, tipo ecumenismo, para remediar sua situação diante de Deus. Na verdade, o catolicismo já está julgado e condenado, pois o livro da revelação já indica sua situação no porvir.


Em meio a esse rio de barbáries religiosas foi que no fim da Idade Média surgiu a Reforma Protestante. Porém, surgiu com aspirações contaminadas pelo fermento farisaico do romanismo, tentando reformar o que não poderia ser reformado. As estruturas religiosas estavam comprometidas e a quem dos valores bíblicos, necessitando serem “destruídas” e não reformadas. Ulrich Zwinglio, Martinho Lutero e João Calvino exerceram um grande papel ao retiraram de Roma a autonomia e a centralização do Cristianismo, mas pecaram ao conservarem conceitos católicos, esquecendo-se dos princípios bíblicos. Quando recorreram a esses, embaraçaram-se criando uma nova perspectiva religiosas associada a dilemas do seu tempo, apesar de terem guardado o fundamental acerca da fé. Questões relacionadas ao batismo, a ceia do Senhor e a sistemas políticos tornaram a teologia protestante num misto entre ideais espirituais, sociais e políticos. A equiparação entre temas antagônicos (Reino de Deus e reino deste mundo), imposições circunscricionais na qual havia coação de civis a uma confissão protestante e a observância de uma herança parcial do dogmatismo papal privou as pessoas de exercerem plena autonomia e plena liberdade social, política e religiosa, apesar de essas ações terem sido bem cristalizadas no catolicismo medieval que deveria servir de referencial para a não prática dos resquícios observados pelos reformadores. De certa forma, essa “imitação” protestante de alguns elementos católicos tornou-se objeto de possibilidades para adesão ecumênica, de reivindicações sociais e políticas atualmente. Mais uma vez, um rio que se deixou contaminar por ideais distintos dos ideais de sua origem.
Caminhando contra a corrente, sem focar diretrizes religiosas ou políticas, segmentos de grande autoridade e força como mencionados, os anabatistas suíços distinguiram-se em razão de seu lema: “restauração do Cristianismo”. Eles não pretenderam criar mais um ramo da árvore religiosa cristã, preferiram caminhar paralelamente aos dogmas e teologias surgidas, seguindo fielmente os postulados bíblicos. Para demonstrar com maestria a conduta deste povo fiel, John Drive (p. 45-46) nos traz informações preciosas para refletirmos:
O movimento anabatista do século XVI herdou muito da tradição monástica espiritual da Idade Média, especialmente o seu entendimento e as suas práticas que nitidamente separaram a Igreja e o mundo. Mas os anabatistas rejeitaram a duradoura tradição litúrgico-sacramental assim como as traduções hierárquicas da igreja e do monastério. Ao invés disso, eles promoveram um estudo intenso da Bíblia em estruturas mais familiares, nas quais os seus encontros eram realizados nas suas casas e os seus relacionamentos eram como de família. Eles viam a si mesmos como irmãos e irmãs. Aqui, eles desenvolveram um senso forte de um chamado universal à missão e ao discipulado cristão, junto com a visão de livre arbítrio que isso implicava.
A visão anabatista foi modelada a partir da sua experiência de uma nova leitura das Escrituras no contexto das suas comunidades de fé. Ao invés de enfatizar a tão contemplada vida de meditação e oração, comum entre as ordens católicas, ou enfatizar a doutrina certa, como protestantes convencionais têm a tendência de fazer, os anabatistas perguntaram, “Como podemos ser obedientes ao evangelho de Jesus Cristo?”
Apesar do fato de que o monasticismo medieval e o anabatismo tinham muito em comum, os seus entendimentos diferentes a respeito da comunidade cristã, ou da igreja, resultaram em espiritualidades diferentes. Ao invés de um misticismo abstrato de outro mundo, os anabatistas enfatizaram a prática da obediência, do amor ativo, e da integração da fé e das obras. O seu foco não estava tanto na cultivação de uma vida espiritual em comum através da contemplação, quanto na prática de uma vida de oração, paz, integridade e humildade no contexto de relacionamentos sociais radicalmente coletiva. Era uma busca por conhecer e louvar a Deus centrada em Cristo. Além disso, a espiritualidade dos anabatistas era um presente da graça concedida pelo Espírito, não o resultado de esforços humanos.
Apesar de o movimento anabatista do século XVI ter sido claramente diverso, poucos grupos expressaram interesse na contemplação ou na introspecção solitária, ou em práticas ascéticas como essas. O que interessava a eles era a perspectiva de “andar em uma vida nova”. Graças à regeneração experimentada através da maravilhosa graça de Deus que se expressou através da integração da fé e as obras, do individual e da comunidade, e do serviço e do testemunho.
Em outra parte do livro Drive (p.48) expressa:
Ao insistir no papel poderoso do Espírito na interpretação bíblica, essas pessoas simples, não estudadas, estavam, pelo menos em parte, protestando contra o monopólio de uma religião estabelecida e as suas restrições sobre as interpretações das Escrituras à hierarquia da Igreja e o seu clero. Na tradição católica, a autoridade do clero se concentrava nos sacramentos. No clero do protestantismo a autoridade residia no poder do seu conhecimento acadêmico.
Depoimentos de anabatistas de todas as regiões onde o movimento teve início, em contraste, concordaram de forma unânime que era impossível entender as Escrituras por completo sem o batismo do Espírito.

      A grande diferença entre a água da fonte e as águas do rio formado é a interferência. Quanto mais estivermos próximos da água da fonte maior será a clareza e a pureza que constataremos. Entretanto, quanto maior for a distância da fonte, maior também será a possibilidade de elementos estranhos comprometerem a integridade do rio, transformando-o num depósito de tantas mazelas que suas águas turvadas e sujas revelarão suas impurezas. Por isso, bebamos sempre das águas da fonte!

Referência
Drive, John. Life Together in the Spirit. Institute for the Study of Global Anabaptism: 2018

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Um arauto do despertamento espiritual


“Vamos assar o ganso!” 
Essa expressão faz referência a um homem cujo sobrenome (em seu idioma nativo, tcheco) significa “ganso” - John Hus era esse homem. Ele foi literalmente queimado na fogueira - mas, ao ser queimado, acendeu o fogo da reforma da igreja.
John (Jan in Tcheco) nasceu em 1374 em uma família humilde. Foi ordenado sacerdote em 1401 e passou grande parte de sua carreira ensinando na Universidade Charles em Praga, na Boêmia (na atual República Tcheca). Ele também foi o pregador da Capela de Belém em Praga (Três mil pessoas lotavam a capela para ouvir seus sermões).
Os escritos centrados na reforma de John Wycliffe encontraram o caminho para a Boêmia. Estudando nos dias que antecederam a imprensa, Hus copiou meticulosamente os livros de Wycliffe para seu próprio uso. Como Wycliffe, Hus enfatizou a piedade pessoal e a pureza da vida. Ele enfatizou o papel da Bíblia como autoridade na igreja e, consequentemente, elevou a pregação bíblica a um status importante nos cultos da igreja.
A própria Capela de Belém era uma ilustração tangível dos ensinamentos de Hus. Em suas paredes havia pinturas contrastando o comportamento dos papas e de Cristo. Por exemplo, o papa montou um cavalo enquanto Cristo andava descalço, e Jesus lavou os pés dos discípulos enquanto o papa beijava seus pés. Muitos dos clérigos sentiam, com razão, que seu estilo de vida estava sendo questionado. Mas Hus era popular entre as massas e com alguns membros da aristocracia, inclusive a rainha.
O arcebispo de Praga disse a Hus para parar de pregar e pediu à universidade que queimasse os escritos de Wycliffe. Hus se recusou a obedecer, e o arcebispo o condenou. Enquanto isso, Hus pregava contra a venda de indulgências que estavam sendo usadas para financiar a expedição do papa contra o rei de Nápoles. O papa excomungou Hus e colocou Praga sob um interdito - o que significa que a cidade inteira foi excomungada e não pôde receber os sacramentos. Para aliviar esta situação, Hus deixou Praga, mas continuou pregando em várias igrejas e ao ar livre. E, como Jesus, “as pessoas comuns o ouviam com prazer”.
Por que a hierarquia era tão contrária a Hus? Ele não apenas denunciou os estilos de vida muitas vezes imorais e extravagantes do clero (incluindo o próprio papa), mas também fez a afirmação ousada de que somente Cristo é o cabeça da igreja. Em seu livro On the Church, ele defendeu a autoridade do clero, mas afirmou que somente Deus pode perdoar pecados. Ele também alegou que nenhum papa ou bispo poderia estabelecer doutrina contrária à Bíblia, nem poderia qualquer cristão verdadeiro obedecer a ordem de um clérigo se estivesse claramente errado.
Hus só poderia encontrar problemas para tais ensinamentos. Em 1415, ele foi convocado ao Conselho de Constança para defender seus ensinamentos. Ao ser conduzido para lá foi vítima de um dos truques mais sujos já jogados em um cristão. Prometeram-lhe um salvo conduto, avalizado pelo imperador Sigismundo. E ele tinha a garantia papal: “Mesmo que ele tenha matado meu próprio irmão ... ele deve estar seguro enquanto estiver em Constance”. No entanto, Hus foi preso logo depois que ele chegou. Foi confinado em uma cela sob um convento dominicano. Sua cela estava bem ao lado de um sistema de esgoto. Com efeito, o Conselho já havia decidido sobre esse rebelde Hus. O Conselho condenou os ensinamentos de Wycliffe e Hus foi condenado por apoiar esses ensinamentos.
Hus, doente e fisicamente debilitado por longo encarceramento, além da falta de sono, protestou contra sua “culpa” e recusou-se a renunciar a seus supostos erros, a menos que pudesse ser mostrado o contrário nas Escrituras. Ao concílio ele disse: “Eu não iria, por uma capela cheia de ouro, recuar da verdade”.
Formalmente condenado, foi entregue às autoridades seculares para ser queimado na fogueira em 6 de julho de 1415. A caminho do local da execução, ele passou por um cemitério e viu uma fogueira de seus livros. Ele riu e disse aos espectadores para não acreditarem nas mentiras que circulavam sobre ele. Chegando ao local de execução, foi perguntado pelo marechal do império se ele finalmente retrataria suas visões. Hus respondeu: “Deus é minha testemunha de que a evidência contra mim é falsa. Eu nunca pensei nem preguei, exceto com a única intenção de ganhar os homens, se possível, de seus pecados. Hoje eu vou morrer de bom grado”. 
Lutero mais tarde admitiu, em debate com Johannes Eck em Leipzig, que “somos todos hussitas sem saber”. Por isso, é fascinante que duas fontes relatem que a mesma profecia foi feita por Hus quando ele morreu. O martirólogo protestante John Foxe, em seus Atos e Monumentos , é (talvez sem surpresa) um deles. Mas o outro, Poggius Floretini, era um padre católico romano. Veja como ele descreveu a morte de Hus em uma carta a um amigo, Leonhard Nikolai:
Então Hus cantou em verso, com uma voz exaltada, como o salmista do trigésimo primeiro salmo, lendo um papel em suas mãos: “Em ti, ó Senhor, eu confio e inclina os teus ouvidos para mim”. Com tais orações cristãs Hus chegou à fogueira, olhando sem medo. Ele subiu em cima da plataforma, depois que dois ajudantes do carrasco rasgaram suas roupas e o vestiram em uma camisa encharcada de piche. Naquele momento, um dos eleitores, o príncipe Ludwig do Palatinado, subiu e implorou a Hus que se retratasse, para que ele pudesse ser poupado de uma morte nas chamas. Mas Hus respondeu: “Hoje você assará um ganso magro, mas daqui a cem anos ouvirá um cisne cantar, que não será queimado e nenhuma armadilha ou rede o pegará”. Cheio de pena e cheio de muita admiração o príncipe se virou.
Hus há muito era popular entre os leigos, e sua morte heróica só aumentou seu prestígio. Seus seguidores saíram em franca rebelião, tanto contra a igreja católica quanto contra o império dominado pelos alemães com o qual não queriam participar. Apesar dos esforços repetidos de papas e governantes para erradicar o movimento, ele sobreviveu como uma igreja independente, conhecida como Unitas Fratrum ou os Irmãos Unidos.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

VIII COMUNIE e Reforma Protestante

A expectativa era grande. Os organizadores preocupados em recepcionar bem todos os visitantes na capela Moriá. O lugar reformado e preparado ao estilo medieval remetia ao cenário da Reforma e propunha um olhar direcionado para aquele contexto. Percebia-se nos olhos dos visitantes, ao adentrarem no templo, um ar de surpresa e encantamento, talvez estivessem internalizando a sensação de participar de um dos movimentos mais emblemáticos da História da Igreja e do mundo: a Reforma Protestante, constatando seus efeitos duradouros. Muitos ministros, muitos estudantes universitários crentes, muitos cristãos convictos, muitos visitantes... Foi essa presença grandiosa que abrilhantou o VIII culto da COMUNIE cujo objetivo foi estabelecer um vínculo entre a capelania evangélica para universitários cristãos e o entendimento de um dos grandes pilares da Reforma: Sola Scriptura.
Como de costume, o grupo musical de louvor da Igreja Batista Renovada Moriá prestou a honra esperada ao Cristo bendito com cânticos que tocam a alma. Fabiano, Lívia, Ivanilson e Daniel, o quarteto cujas vozes fizeram soar um som de coral, foram convincentes em suas expressões de adoração, prestando ao Deus de toda glória a adoração em Espírito e em verdade que se espera dos autênticos adoradores. Eles conseguiram contagiar a multidão de cerca de 500 pessoas congregadas na noite desta quinta (02/11/2017), no templo da IBR Moriá. Os cânticos entoados foram os tradicionais do cantor cristão, mas que remetiam aos ideais do Protestantismo clássico. O hino No. 323 (Castelo Forte de autoria do próprio Lutero) e o Hino em comemoração aos 500 anos da Reformar também foram entoados, deixando uma rica impressão da musicalidade e espiritualidade do Reformador.
Porém a noite reservava mais. Foi assim que em clima reverente começamos a ouvir a pregação que ficou a cargo do reverendo Glauco Barreira. Não é à toa que muitos consideram o reverendo Glauco uma autoridade em matéria de Escritura e de Reforma Protestante. A sua fala expositiva é recheada de versatilidade e argumentação que não deixa ninguém ficar enfadado de sua explanação. De fato, é um mestre da Palavra e da História da Igreja. Sua exposição versou sobre a importância de nos apegarmos estritamente ao que está postulado nos escritos bíblicos, pois a Bíblia é a autoridade que governa a Igreja, não se submetendo a possíveis autoridades de homens. Essa crítica ficou evidente quando tratou com sólida argumentação do nefasto desígnio do catolicismo administrar e ordenar os dogmas que deveriam ser seguida à luz de uma interpretação tendenciosa e equivocada, não inspirada e cheia de artifícios de crueldades, tanto por vias de indulgências como da inquisição encabeçada pelos jesuítas, culminando exatamente com crítica Luterana. O pastor Glauco abordou questões como a tradição oral católica, os livros apócrifos, a hermenêutica bíblica, os ideais da Reforma, a crítica ao ecumenismo, a simplicidade do exame das Escrituras e outros pertinentes ao tema.
Como se não bastasse, no final, foi disponibilizado o novo livro do pastor Glauco, A Reforma Protestante e o imaginário de sua época, no qual é analisada a mentalidade que gerou os grandes momentos da Reforma Protestante. Um livro extraordinário! Indispensável para os estudiosos da Reforma, mas também para aqueles que não comungam de tanta simpatia com a leitura. A forma envolvente da escrita do pastor Glauco conduz o leitor ao prazer pelo conhecimento.
Deram a honra de sua presença, os pastores Ricardo (Igreja Presbiteriana da Aldeota), Pádua Aguiar (Assembleia de Deus Hebrom), Geovani (Moriá de Apunharés) e outros; irmãos das Igrejas Assembleia de Deus Hebrom, Presbiteriana, Comunidade Bíblica da Graça, Assembleia de Deus-Maracanaú, Batista Regular, Batista Bíblica do Planalto, Assembleia de Deus Canaã, Assembleia de Deus Montese, Batista Aliança, dentre outras.
Em breve, disponibilizaremos vídeos do culto e da pregação.
Soli Deo Gloria!

irmão Fabiano

Lívia, Ivanilson e Daniel









Pastor Ricardo (PIB - Aldeota)


pastor Glauco Barreira




Pr. Geovani, Pr. Pádua, Pr. Ricardo, Pr. Edimilson, Diácono Airton







Reverendo Glauco Barreira e Fabiano Santiago

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Culto de comemoração pelos 500 anos da Reforma - Caucaia (CE) - pregador: Reverendo Glauco Barreira Magalhães Filho

Caucaia presenciou nesta quarta (31/10/2017) o culto em comemoração aos 500 anos da Reforma. Com a participação das igrejas evangélicas do munícipio, todos se congregaram na praça central onde assistiram a apresentação de coral com 500 vozes cujos hinos faziam menção à Reforma Protestante. Quem participou pode se sentir no clima daqueles áureos dias em que o reformador alemão Martinho Lutero levantou o estandarte da fé para “denunciar” os erros do catolicismo. Ontem, com voz de trovador, o pastor Glauco Barreira Magalhães Filho, pregador da noite, teve a ousadia de elucidar muitos dos princípios da Reforma e seus ideais, demonstrando a necessidade de o discurso da fé permanecer, muito embora alguns acreditem que o movimento luterano possa se unir ao romanismo estabelecendo laços ecumênicos. Para quem pensa assim, a pregação serviu de alerta já que o catolicismo continua sua empreitada de não renunciar seu dogmatismo mesclado, mas pretende “dominar” os movimentos que dela saiu. Obviamente, seu discurso aparente é de solidariedade, no entanto, velado, apresenta-se como uma lábia de lobo devorador.
O pastor Glauco Barreira, Igreja Batista Renovada Moriá, é uma das maiores autoridades no assunto Reforma Protestante que temos quem sabe no Brasil. No doutorado estudou profundamente elementos da perspectiva luterana, inteirando-se sobre questões do Direito e da Política. Seu trabalho rendeu uma obra literária, “A Reforma Protestante e o Estado de Direito”, publicado pela Fonte Editorial e está disponível em diversas lojas virtuais na internet. Entretanto, seu labor de estudos não se concentrou para apresentar um trabalho específico. O reverendo Glauco Barreira dedica-se ao estudo da Reforma desde sua conversão, em meados da década de 80. Quem o vê pregar e ensinar percebe o volume de informações pertinentes e convincentes, fomentando um interesse entre os espectadores para descobrir maiores informações sobre o movimento da Reforma.

Enfim, para comemorar a data, que é o marco do movimento, com a honra que ela merece, o pastor Glauco realmente foi a melhor escolha para ocupar o palanque e dar aquele brado sobre a Reforma da Igreja. Pastor Glauco também palestrou na câmara municipal de Caucaia no dia 30/10/17 como parte da programação do evento. Parabéns à Ormece (Ordem de Ministros do Estado do Ceará) e às Igrejas evangélicas de Caucaia que organizaram o evento. O evento também contou com outros brilhantes pregadores (Pr. João Gonçalves, Ev. Anderson Freitas, Pr. Paixão (presidente da ORMECE), Pr. Selmo Ramos e Pr. Fernando Gonçalves). Essa programação teve início desde o dia 26/10. 

Pastor Glauco Barreira discursar sobre Reforma Protestante na Câmara Municipal de Caucaia-CE


terça-feira, 31 de outubro de 2017

A Reforma Protestante e o imaginário de sua época

Novo livro do pastor Glauco Barreira Magalhães Filho, A Reforma Protestante e o imaginário de sua época, estará disponível para venda nesta quinta (02/11/17) no culto da COMUNIE cujo tema será “Sola Escriptura e seus adversários”, previsto para ser realizado na capela Moriá, situado na rua Nogueira Acioli, 2195 – Joaquim Távora, às 19h.

A Reforma Protestante foi um evento histórico e uma revolução paradigmática. Conhecer o imaginário anterior e posterior a esse momento ajuda a enxergar o impacto causado por ele. Nessa obra, procuraremos conhecer o perfil de cada reformador, as suas convergências e divergências, as suas influências e as suas categorias de pensamento. Consideraremos a história de cada um, as suas propostas institucionais e os seus conflitos. Faremos isso, examinando tudo a partir do quadro cultural, político e religioso da época. Veremos como crenças motivaram ações e inspiraram mudanças, sendo que, algumas delas, precisaram de tempo para germinar. Episódios pouco conhecidos são revelado e influências teóricas costumeiramente não salientadas vem à tona. Acusações de um catolicismo conservador recente, bem como dos herdeiros do iluminismo, são pesadas na balança e examinadas à luz da fundamentação doutrinária e histórica. Acompanhe-nos numa viagem ao passado que aterrissará no Presente!


Não perca a oportunidade de adquirir seu exemplar e receber uma dedicatória do autor.


Pressupostos da Reforma Protestante


O diferencial do anabatismo emergente na época da Reforma Protestante

No início do século XVI, a maioria dos protestantes pertencia, em termos gerais, aos movimentos luteranos ou reformados. No entanto, muitas outras ramificações cristãs minoritárias se desenvolveram rapidamente sem usufruírem prestígio e fama.
Quando Lutero fixou suas teses na porta da capela de Wintenberg, iniciando a Reforma em 1517, ele não imaginava a dimensão que suas ações iriam alcançar, apesar de haver movimentos anteriores ao Protestantismo reivindicando fidelidade aos princípios cristãos estabelecidos nas Escrituras cuja disposição para instaurar suas convicções dependia apenas de liberdade.
Os discursos dos reformadores sustentavam que a autoridade do papa e a tradição católica defendidas pelo clero majoritário não eram confiáveis ​​para uma teologia pura que incentivasse práticas cristãs fidedignas. Isso possibilitou um redirecionamento desse olhar crítico para a Bíblia isoladamente como fonte de autoridade e teologia para os protestantes.
Essa compreensão inusitada diante do domínio católico permitiu uma ampliação da disputa sobre a autenticidade dos livros apócrifos, ora bastante utilizados pelo romanismo. Deveriam ser compatibilizados com a Bíblia ou deveriam ser desconsiderados como normas de fé e conduta? A resposta estaria no anseio de muitos protestantes que ao analisar os conceitos doutrinários também se apegavam a uma conduta de análise acadêmica, transformando aquele exame num misto entre o descobrimento do sentido escriturístico e a maneira pela qual deveria se moldar a sociedade da perspectiva social, política e econômica.  
A Reforma “Magisterial”, como se convencionou denominar aquela atitude luterana e calvinista - asseverava a necessidade de a igreja coexistir com o estado (os “magistrados”), criando uma relação de interdependência na qual ambas poderiam interferir em assuntos um do outro. Por exemplo, os magistrados poderiam decidir quem assumiria cargos eclesiásticos, enquanto a igreja se beneficiária das benesses protetivas de um Estado Protestante. No cantão de Zurique, na Suíça zwingliana, a igreja e o estado estabeleceram esse modelo.
O resultado dessa ação mista, Igreja e Estado, pelo viés Protestante, demonstrou ser uma tentativa para assegurar êxito sobre as novas diretrizes emancipatórias do movimento. Aliar poder espiritual ao temporal foi a solução encontrada para barrar qualquer interferência estranha aos seus interesses, de modo que o assédio e as típicas perseguições católicas seriam barradas pela proteção dos príncipes amigos da Reforma.  
Emergindo desse contexto, os Radicais aparecem com uma pregação dissonante dos dois maiores expoentes do contexto reformista. Não foram assim chamados por serem extremistas religiosos, mas porque sua causa buscava um retorno às raízes do profundo Cristianismo. Confirmavam a necessidade não apenas de uma reforma teológica da igreja, mas a desvinculação entre o que era de Deus e o que era de César, fazendo um trocadilho da pronunciação de Jesus. Visavam a promoção da convicção individual, ou seja, tirar suas próprias conclusões sobre suas convicções sem a coerção estatal. Era a chamada consciência individual. Além disso, a proposta estava associada à liberdade de expressão que deveria ser respeitada em vistas de ser uma decisão de foro individualizada, fosse o Estado católico ou Protestante.
O componente convicção (fé) era típico do pensamento da Reforma Radical ou Anabatista. Sua insistência nesse quesito representava que cada indivíduo poderia assumir suas responsabilidades enquanto cristão autêntico, cumprindo como os requisitos pautados nas Escrituras para poder reivindicar o batismo por convicção e não por imposição, como era nos territórios católicos e protestantes. Para os Anabatistas, o batismo infantil era ineficiente para cumprir com o real simbolismo apresentado nos Evangelhos, enquanto necessário para o censo populacional nos países dominados pelo papa e pelos reformadores. Certamente por isso os anabatistas foram muito perseguidos já que ensinavam a necessidade de um batismo consciente e convicto para adultos outrora batizados na infância. Esse “segundo batismo” era chamado de rebatismo e tido pelos opositores como herético. Entretanto, a mentalidade anabatista era a que estava alinhada com os ditames das Escrituras.
Muito embora perseguidos pelas suas convicções, os Anabatistas tiveram que amargar perseguição por outros motivos: por difamação, pois quem não era católico nem protestante era chamado de anabatista.
Muitas dessas ramificações pseudo anabatistas eram milenaristas, esperando o retorno iminente de Cristo como previsto no livro de Apocalipse. Os “profetas de Zwickau”, por exemplo, acreditavam em novas revelações do Espírito Santo nos quais eram orientados a se prepararem para o próximo Apocalipse. Apesar de muitos protestantes terem rejeitado esse movimento, é reivindicado como anabatista. Uma falsa suposição.
Thomas Muntzer, um revolucionário que foi inclusive elogiado por Friedrich Engels, parceiro de Karl Marx, propunha uma revolução agressiva, empunhando armas contra seus adversários para instituição de um “reino de paz”. Que contraditório a busca da paz pela guerra! Muntzer promoveu a Guerra dos camponeses alemães (1524-1525), um marco da revolução social armada, na qual milhares de camponeses foram mortos em uma batalha contra grandes exércitos aristocráticos luteranos. O próprio Lutero apoiou os príncipes contra esta revolução no seu tratado “Against the Murderous, Thieving Hordes of Peasants”. Pelas palavras de Lutero sobre os revoltosos:
... esquecendo-se de sua oferta, se envolvem em violência, roubam e se arrebentam e agem como cães loucos. Por isso, é fácil ver o que eles tinham em suas falsas mentes, e que as pretensões que eles fizeram em seus doze artigos, sob o nome do Evangelho, eram nada além de mentiras. É o trabalho do demônio em que estão, e em particular é o trabalho do arquim velho que governa em Mühlhausen, e não faz senão provocar roubo, assassinato e derramamento de sangue; como Cristo diz dele em João VIII: “Ele foi um assassino desde o início”. Desde então, esses camponeses e pessoas miseráveis ​​deixaram-se desviar e, do contrário do que prometeu, eu também devo escrever deles o contrário do que escrevi, e começar por colocar o seu pecado diante deles, como Deus ordena a Isaías e Ezequiel, na possibilidade de que alguns deles possam aprender a se reconhecer. Então eu devo instruir os governantes como eles devem se comportar nessas circunstâncias.
Por isso, alguns protestantes estavam dispostos a usar da violência política para alcançar seus fins religiosos. Por exemplo, o duque francês antiprotestante de Guise foi assassinado por um protestante francês em 1563. Calvino ordenou o assassinato do rival protestante Michael Servetus, queimando-o na fogueira por heresia em Genebra em 1553.
Por outro lado, os autênticos reformadores radicais (anabatistas), eram pacifistas. Michael Sattler demonstrou isso na confissão de Schleitheim. Menno Simons (1496-1561), fundador dos menonitas, também assimilou o conceito acreditando piamente que o pacifismo absoluto era o próprio coração do cristianismo e rejeitava qualquer forma de cristianismo patrocinado pelo Estado. 
Ao colocarmos protestantismo e anabatismo em pauta, verificamos suas tendências para questões de governo, tanto espiritual quanto para temporal. O protestantismo reinventa o modelo católico, substituindo apenas o chefe temporal, dedicando aos príncipes e outras instituições políticas o domínio e o poder do Estado e se solidarizavam com eles. Suas normas passaram a ser restritivas e coercitivas, não permitindo liberdade religiosa em seu território. O apego à segurança religiosa e a preservação dos pilares que instituíram o protestantismo ecoam nesse sentido. Os anabatistas, entretanto, não tinham e nem queriam uma pátria, pois sua pátria está nos céus. Suas reivindicações não priorizavam o reino terreno, visto que sabiam ser este efêmero, mas ensinavam com ousadia e coragem a dedicação ao Reino Eterno, não feito por mãos humanas nem sob seu domínio. Queriam restaurar o pensamento reinante na Igreja Primitiva que era desprovida de apego aos valores terrenos, aos principados e potestades constituídos e ao bem-estar social, muito embora prestassem honra às autoridades e aos estamentos sociais. Apesar de serem arautos da verdade são esquecidos, ridicularizados e menosprezados, mesmo que quisessem apenas valorizar os postulados apostólicos tais quais foram postos, sem intervenções.
Heládio Santos

Referências
EG Rupp e Benjamin Drewery, Martin Luther, Documents of Modern History (Londres: Edward Arnold, 1970), pp. 121-6.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A Essência da Reforma

Para muitos, a Reforma Protestante foi um movimento grandioso que atingiu países europeus na Idade Moderna. Levam em consideração a amplitude e os diversos efeitos que culminaram com o declínio do domínio católico e estabeleceram um novo momento histórico para a Europa. Mas, qual a essência da Reforma?
Acredito que a grande máxima de Lutero responde, sem dúvida, esse questionamento. A busca de alento para o sofrimento da alma pecadora em Lutero é apontado como marco. Através das angústias vivenciadas no claustro, inspiradas pelo anelo de certeza de salvação e pela plena liberdade dos grilhões do pecado, Lutero transmiti-nos as origens e os fundamentos do movimento. Afinal, sua intenção era modificar o quadro interior em trevas e somente pela orientação precisa das Escrituras abandonaria definitivamente aquela circunstância. Sentiu a pura e a celestial orientação quando teve a oportunidade de meditar nas Escrituras e assim poder livrar-se de tão horrendo fardo. O resultado? A descoberta da simplicidade no ensino de Cristo incentivando Lutero a afirmar e a experimentar o texto paulino de que “o justo viverá pela fé!”. Sua reflexão o fez perceber a necessidade de retorno ao sentido primeiro para a salvação que é desprovida de obras e cerimônias, demonstrando, assim, a importância da Bíblia que nos assiste na necessidade fundamental de redenção.
Após o esclarecimento de que “o justo viverá pela fé”, Lutero passou pelo processo de regeneração. A regeneração produz salvação, mas é desenvolvida na efetivação diária da nova vida em Cristo, ocasionando uma visão mais apurada e verdadeira da realidade. Lutero depois de superar seus conflitos passou a ver com maior atenção as sugestões católicas de exploração do povo, afinando a pena para escrever criticamente contra aquelas ações contrassenso e contra Deus. Num primeiro momento não quis romper com a igreja apóstata, quis restaurá-la aos padrões neotestamentários. Por isso, com bom coração tentou ensinar o clero romano sobre a natureza da penitência, uma forma de atenuar sua crítica à venda de indulgências. Fixou na porta de Wittenberg suas 95 teses com a seguinte introdução:

Debate para o esclarecimento do valor das indulgências pelo Dr. Martin Luther, 1517
Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Ademais, no singelo ato do reformador alemão percebe-se explicitamente a mudança de atitude que ele via como necessária, primeiramente para o Lutero indivíduo, pois a reforma do eu vem em primeiro lugar. A segunda reforma era para o coletivo, testemunhando sobre a necessidade de todos buscarem o que o próprio Martinho buscou para uma posterior realização do intento divino na vida interior geral. Não queremos dizer que Lutero acertou em todos os pontos doutrinários, mas sua ação foi um avanço em questão de fé e livre exame das Escrituras.

domingo, 3 de setembro de 2017

A Reforma Protestante e o imaginário de sua época

Pastor Glauco Barreira Magalhães Filho lança mais um livro pela Editora Reflexão com o título “A Reforma Protestante e o imaginário de sua época”. A convite da Editora, o pastor e escritor Glauco Barreira traz mais uma vez um trabalho rico em informações e em reflexões amparados nos seus profundos conhecimentos sobre a Reforma. Não é um livro exclusivo para Luteranos, mas para todos os evangélicos, muito embora alguns não sejam oriundos do Protestantismo clássico. Desvendar a mentalidade que motivou a Reforma foi o objetivo da presente obra, de modo que o leitor terá subsídios para entender melhor as nuanças do movimento para além do que já foi publicado.




EM BREVE, DISPONÍVEL NAS LIVRARIAS EVANGÉLICAS DE FORTALEZA E COM O AUTOR.