O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.
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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A Desconstrução de Nárnia e de Aslan

 


A expectativa em torno da nova adaptação de As Crônicas de Nárnia pela Netflix, sob a direção de Greta Gerwig, vem acompanhada de intensos debates sobre fidelidade e a essência da obra de C.S. Lewis. Para os leitores mais atentos e os chamados “narnianos”, as primeiras informações e escolhas criativas sobre o design e a concepção do Leão Aslan têm acendido alertas de que o clássico literário está passando por um processo de desconstrução ideológica, afastando-se deliberadamente dos pilares teológicos estabelecidos por seu criador.

Para compreender o descontentamento de parte do público, é preciso retornar aos fundamentos da obra. C.S. Lewis que concebeu Aslan não apenas como um herói, mas como a figura simbólica de Jesus Cristo. Na teologia narniana, Aslan representa a própria encarnação do divino. Lewis idealizou e retratou o Leão estritamente como um ser do sexo masculino porque, histórica e biblicamente, Jesus veio ao mundo como homem.

A escolha de escalar uma mulher para ceder a voz à personagem é vista por muitos críticos da nova produção como uma “profanação” daquilo que o autor considerava sagrado. Ao alterar a identidade vocal de uma figura que espelha o Cristo bíblico, a direção da série sinaliza que não há um esforço real em preservar a integridade teológica da obra, muito pelo contrário, intenciona-se reescrevê-la sob lentes contemporâneas.

Acrescente-se, ainda, que ao substituir a presença masculina e puramente leonina por uma figura híbrida (com escamas e traços exóticos) e com voz feminina, neutraliza-se o simbolismo do “Leão da Tribo de Judá” (Ap 5:5). Retirar a identidade masculina mitiga a conexão direta com a encarnação histórica de Cristo como homem. O resultado crítico é a transformação de um Deus encarnado e soberano em uma “força da natureza” genérica, cósmica e desprovida de autoridade pactual, esvaziando o peso teológico da Mesa de Pedra.

Esses detalhes são outros pontos de forte controvérsia, pois residem numa reinvenção da antiga aparência física de Aslan. Na visão original de Lewis, Aslan deveria ser retratado com a majestade simples e pura de um leão normal — imponente justamente por sua natureza real e descomplicada. No entanto, as descrições da nova versão da Netflix causam espanto ao trazer um design carregado de múltiplos detalhes exóticos, incluindo escamas, olhos de cores diferentes (heterocromia) e até mesmo homenagens estéticas a roqueiros seculares.

A introdução de heterocromia e estéticas que remetem a subculturas seculares modernas (como o rock) simboliza visualmente o sincretismo e o relativismo cultural. Em vez de Aslan transformar o mundo, é o mundo secular que molda a aparência de Aslan. Críticos apontam que essa estética múltipla sugere que a verdade também é múltipla e subjetiva. Isso destrói o simbolismo da exclusividade de Cristo (“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”), rebaixando o Criador de Nárnia ao status de um ídolo pop maleável, desenhado para validar o narcisismo e as agendas da cultura atual.

Logo, a escolha por adornar o leão com detalhes excessivos, como escamas, flerta com o grotesco e o quimérico. Na tradição iconográfica cristã e na própria literatura de Lewis (como a transformação do garoto Eustáquio em dragão), escamas e traços reptilianos são frequentemente associados à queda, ao pecado ou à figura da serpente. Impor esses elementos ao Redentor de Nárnia, sob o pretexto de modernização, opera como uma inversão de valores simbólicos. O que deveria evocar adoração e pureza passa a gerar estranhamento visual, redefinindo o sagrado através da estética do bizarro.

Por isso, essa modificação estética vai além do mero capricho visual; ela atinge a essência metafísica do personagem. Ao transformar o Leão em uma colcha de retalhos de referências diversas e excentricidades visuais, a produção tende a demonstrar que Aslan pode ser uma figura plural, fluida e múltipla. Essa abordagem entra em choque direto com a mensagem de Lewis e com as próprias Escrituras Sagradas, que afirmam a natureza única, imutável e soberana de Jesus.

Essa alteração na essência de Aslan é apontada por analistas culturais como mais um exemplo da insistência na chamada agenda woke. Para muitos, a insistência em inserir pautas de diversidade identitária e desconstrução em clássicos literários funciona como uma propaganda de uma vertente ideológica que, no mercado audiovisual recente, já vem demonstrando sinais de saturação e rejeição pelo público consumidor.

Ao forçar pautas de gênero e estéticas progressistas na formação do personagem, a nova roupagem destrói a sutileza do mito literário. Aslan deixa de ser um símbolo do Transcendente para virar um manifesto político ambulante. A crítica mais severa reside no fato de que a produção sacrifica a imortalidade da obra de Lewis em favor de um ativismo com data de validade, trocando o “eterno” pelo “efêmero” da atual cultura de cancelamento e reconstrução identitária. O prejuízo para o legado de Nárnia pode ser imenso. Investimentos milionários correm o risco de resultar em uma produção que perde o coração da história em troca de um modernismo estéril. No fim, a insistência em agradar a nichos ideológicos em detrimento da rica bagagem teológica e literária deixada por C.S. Lewis pode afastar justamente aqueles que mantiveram a chama de Nárnia viva por décadas: os verdadeiros fãs.

domingo, 31 de maio de 2026

O Eco do Sagrado: o prazer de ler a Bíblia pelo viés das Crônicas de Nárnia

 


Para muitos leitores, abrir as páginas de “As Crônicas de Nárnia” de C.S. Lewis e mergulhar nas Escrituras Sagradas são experiências que, embora distintas em natureza, compartilham uma ressonância emocional e espiritual profunda. O prazer encontrado em ambas as leituras reside na capacidade de C.S. Lewis de traduzir a grandiosidade bíblica para uma linguagem de encantamento e imaginação.

A redescoberta do “Simples” e do “Grandioso”

Um dos maiores prazeres de ler Nárnia é a forma como Lewis humaniza conceitos teológicos complexos. Enquanto a Bíblia apresenta a soberania de Deus e a redenção de forma direta, Lewis convida o leitor a sentir essas verdades através de uma suposição imaginativa. O prazer de ler sobre o sacrifício de Aslam na Mesa de Pedra (Isaías 53:5) ecoa o impacto emocional do sacrifício de Cristo, permitindo que o leitor experimente a gratidão e o alívio da redenção antes mesmo de processar a doutrina (Romanos 5:8).

O prazer central em ambas as obras gira em torno de uma presença central. Na Bíblia, é Jesus Cristo; em Nárnia, é Aslam, o “Cristo de Nárnia”. Assim como os Evangelhos descrevem Jesus como o “Leão da Tribo de Judá” (Apocalipse 5:5), Lewis apresenta Aslam como alguém que “não é um leão domesticado”, mas que é bom (Salmo 100:5). O prazer da leitura bíblica muitas vezes vem do reconhecimento de promessas cumpridas (Josué 21:45, II Coríntios 1:20). Em Nárnia, esse prazer é espelhado quando os leitores identificam em Aslam os atributos de justiça e amor que conhecem das Escrituras (Salmo 89:14 e João 1:14).

A imaginação como ponte para a fé

C.S. Lewis acreditava profundamente que a imaginação não era uma fuga da realidade, mas a faculdade humana fundamental para a apreensão da realidade divina, funcionando como o canal que dá significado à razão. Sob essa perspectiva, o prazer de ler as Crônicas de Nárnia vai muito além do mero entretenimento; ele atua como um arado espiritual que prepara o “solo” do coração, quebrando a dureza da rotina e do ceticismo para que a semente da verdade possa germinar, em perfeito alinhamento com o clamor do profeta em Oséias 10:12: Semeai para vós em justiça, colhei segundo a misericórdia; lavrai o campo de lavoura; porque é tempo de buscar ao Senhor.

As histórias de Nárnia possuem a capacidade única de contornar e quebrar a resistência intelectual e as defesas armadas que muitos adultos sentem ao abrir textos estritamente religiosos. Ao embalar verdades eternas em roupagens mitológicas, Lewis permitia que a “verdade” entrasse sorrateiramente pelas portas da fantasia, desarmando o preconceito do leitor antes que ele pudesse erguer suas barreiras lógicas. Esse método pedagógico ecoa diretamente as estratégias divinas nas Escrituras: vemos isso quando o profeta Natã usa uma parábola fictícia em 2 Samuel 12:1-4 para fazer o rei Davi enxergar a gravidade do seu próprio pecado sem que sua autodefesa bloqueasse a mensagem, e no próprio ministério de Jesus, retratado em Marcos 4:33, que com muitas parábolas tais lhes dirigia a palavra, segundo o que podiam compreender, usando o poder da narrativa para acessar o íntimo do ser humano.

Para o leitor atento, há um prazer intelectual e teológico indescritível em perceber os paralelos intencionais que Lewis teceu entre o seu mundo imaginário e a Revelação Cristã. Basta lembrarmos como a criação de Nárnia pelo canto imponente de Aslam em O Sobrinho do Mago ecoa perfeitamente o relato do Gênesis, onde o universo salta para a existência não por um processo mecânico, mas pela emissão da voz do Criador, como descrito em Gênesis 1:3: E disse Deus: Haja luz; e houve luz. Da mesma forma, a trágica traição de Edmundo por causa do desejo egoísta pelo Manjar Turco em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa nos remete imediatamente à queda humana no Éden, ilustrando a fragilidade da nossa vontade e a universalidade do pecado que Paulo sintetiza em Romanos 5:12 ao lembrar que por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte.

Por fim, o desfecho da saga em A Última Batalha não deixa o leitor no vazio da destruição, mas reflete com precisão a gloriosa esperança escatológica do Apocalipse. Ao ver a velha Nárnia passar e os personagens serem introduzidos à “Verdadeira Nárnia” — um reino eterno onde cada capítulo que se segue é melhor do que o anterior —, o coração do leitor experimenta o mesmo vislumbre de Apocalipse 21:1: E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, consolidando a promessa consoladora descrita em 2 Pedro 3:13, de que nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça. Assim, a fantasia de Lewis cumpre seu papel mais nobre: ela limpa os nossos olhos para que possamos enxergar a beleza do Evangelho com o deslumbramento de quem o vê pela primeira vez.

A nostalgia do lar eterno

Ao final de “As Crônicas de Nárnia”, os personagens descobrem que a “verdadeira Nárnia” é apenas o começo de uma história que nunca acaba — uma clara alusão à promessa bíblica do Céu. O prazer de ler ambas as obras residem, em última análise, na alimentação de uma “saudade” de um mundo perfeito e da presença constante do Criador. Ler a Bíblia e Nárnia é, para o leitor atento, um exercício de ver a mesma luz através de janelas diferentes: uma clara e histórica, a outra colorida e mítica, mas ambas apontando para o mesmo Rei.

 

Um sussurro lewisiano: Se tão somente tivéssemos tempo para ler um pouco mais! Pela restrição que o tempo nos impõe, ficamos largos e rasos ou estreitos e profundos. (Como cultivar uma boa leitura, p.157)

quinta-feira, 3 de julho de 2025

Aslan com voz feminina?



Recentemente (03/04/2025), o site “Omelete” (https://www.omelete.com.br/filmes/as-cronica-de-narnia-netflix-greta-gerwig-pode-ter-meryl-streep-como-aslan-diz-site) divulgou a informação de que na nova produção da Netflix sobre “As crônicas de Nárnia” o grande Leão Aslan poderá ter voz feminina. A conceituada atriz Meryl Streep, ganhadora do Oscar, seria a escolha para a nova proposta. Essa ideia de Aslan ter uma voz feminina, no entanto, é uma interpretação que pode gerar discussões acaloradas uma vez que Aslan é frequentemente associado à figura messiânica de Jesus, portanto, assumindo uma característica masculino. Sua voz e aparência masculinas são importantes para a caracterização tradicional do personagem e alterá-la geraria prejuízo à obra.  

Uma crítica segura

Em "As Crônicas de Nárnia", Aslan é frequentemente visto como uma alegoria de Jesus Cristo e sua voz e aparência masculinas são necessárias na intenção de C.S. Lewis para a interpretação cristã do personagem. A masculinidade de Aslan é um elemento importante para demonstração de um líder forte e protetor, além de reforçar sua conexão com as características assumidas por Jesus ao longo de sua trajetória. 

A ideia de uma voz feminina para O PRINCIPAL personagem do conto, Aslan, abre espaço para uma nova interpretação do personagem, tornando a peça uma obra apócrifa haja vista o teor de sua origem e a carga sagrada contida na obra principal. C.S. Lewis ao retratar Aslan com masculinidade não pretendia e nem pensava em uma característica feminina para o personagem. Isso já seria o suficiente para ignorar qualquer proposta nesse sentido. E essa nova interpretação consiste em mais uma tomada da propaganda “woke” para descaracterização do tradicional. É a tal chamada desconstrução que em vias de querer assumir um papel relevante cai em meio ao descrédito. Há coisas que não devem ser mudadas porque causam mais prejuízo do que bem.   

Antes de alguém gemer com nossa opinião, o feminino é bastante exaltado na obra original. Basta olharmos para a singularidade de Lúcia e Suzana desde sua infância até a fase adulta na realeza. Não foi à toa que foram chamadas de as grandes rainhas dos áureos tempos de Nárnia.  

O elogio ao feminino

 


Lúcia Pevensie é frequentemente caracterizada como uma personagem sensível, um dos aspectos mais vislumbrantes do ser feminino. De igual modo, verificamos uma natureza gentil, uma forte crença em Nárnia e em Aslan e uma capacidade de enxergar aquilo que seus irmãos não conseguem ver. Assim, Lúcia é bem mais intuitiva e sensível, capaz de perceber a presença de Aslan mesmo quando os outros não conseguem. Ela demonstra grande empatia e cuidado com as criaturas de Nárnia, estabelecendo laços de amizade com muitas delas. Lúcia, por ser perseverante e ter um coração sempre centrado no que aprendeu, nunca perde a fé em Nárnia e em Aslan, mesmo quando confrontada com a descrença dos outros, o que pode ser visto como uma manifestação de sua sensibilidade e intuição. Apesar de sua sensibilidade, Lúcia também demonstra coragem e determinação, especialmente quando se trata de defender seus amigos e proteger Nárnia. Não foi sem razão que num diálogo com Aslan, em “O Príncipe Caspian”, nos deparamos com uma rica argumentação sobre coragem, crê e continuar a crê mesmo diante das dúvidas (nesse momento Nárnia estava tomada de falta de esperança e fé):

“Aslam! Eu sabia que era você, o tempo todo eu sabia! Mas os outros não acreditaram em mim. — Lúcia afagava a juba do leão que tanto esperava. — E por que isso a impediu de vir até a mim? — Aslam se pôs de pé e sua juba brilhava ao sol como ela jamais tinha visto. Ele também crescera, estava maior. — Desculpa! Eu estava com medo de vir sozinha. Por que você não se mostrou? Por que não chegou rugindo e se mostrou como na última vez? — Nada acontece duas vezes da mesma maneira. — Ele respondeu, antes de continuar. — E se eu estivesse vindo antes… Todos que morreram… Eu teria impedido? — Aslam adiantou-se, balançando a juba e olhando a garotinha nos olhos — Nunca saberemos o que teria acontecido, Lúcia. O que vai acontecer, no entanto, é bem diferente. Então você vai ajudar? — Lúcia parecia confusa. — Mas é claro. E você também. — Hã… eu queria ter mais coragem. — Se tivesse mais coragem, você seria uma leoa, e bom, suas amigas já dormiram bastante, não acha? — Dito isso, Aslam emitiu um rugido que fez toda Nárnia estremecer. Era um rugido de libertação. As árvores voltariam a dançar.” 

Essas características tornam a personagem Lúcia alguém sensível, forte e corajosa, uma genuína inspiração feminina para os outros personagens que a cercam e para nós leitores. 

A obra original deve ser respeitada

 


É importante manter a voz masculina de Aslan porquanto é um elemento importante da obra de C.S. Lewis. Mudanças drásticas alterarão a percepção do personagem e da história. Não fará sentido! Além do mais, o conto trouxe o encantamento que temos hoje exatamente pelo que ele é e foi imaginado. Tanto crianças como adultos foram contagiados pela essência infantil das histórias com a orientação da figura “paterna” que protege, orienta, tem cuidado dos seus e foi capaz de oferecer um sacrifício de si mesmo em substituição de uma criança. Perder esse ar e esse clima simbólico mais voltado para o masculino rompe para o descrédito.   

Conclusão

Em resumo, uma voz feminina para Aslan desconstruiria o real sentido do personagem, remetendo, principalmente, os telespectadores para aquilo que Aslan não é e nunca foi idealizado para ser. A obra perde o cerne do seu conteúdo. É importante considerar a importância da voz masculina de Aslan na caracterização tradicional do personagem porque foi assim que o autor C.S. Lewis o idealizou. Ceder a uma agenda “woke” só trará prejuízo a obra. Lembremos que a descaraterização de “Branca de Neve” produzida há alguns meses foi um fracasso exatamente devido a mudanças semelhantes. Nosso consolo? Acreditamos que a série da BBC foi a que melhor levou os livros para as telas. É uma ótima opção para quem quer assistir. Mas, sobretudo, ainda bem que temos os livros. Nada melhor do que fazer uso deles e viajarmos pela imaginação coerente de C.S.Lewis.


Heládio Santos

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Aslan era tirano ou ditador?

 


Ouvi, certa vez, pelas mídias que determinada autoridade disse que o grande Aslan de Nárnia era um rei onde não existia democracia. Seria, então, Aslan um tirano, um ditador ou um dominador? Fiquei pasmo diante da assombrosa fala. Por quê? 

Aslan nas Crônicas de Nárnia jamais poderia levar os títulos acima. Pela mente brilhante de C.S.Lewis, o grande leão é retratado como um líder justo, benevolente e bondoso, que busca o bem-estar de seus súditos. Muito embora seja nitidamente revestido de grande autoridade, Aslan nunca abusa de seu poder e sempre age com sabedoria e compaixão, ao contrário dos severos tiranos que imputam alopradas penas aos que lhe contestam.   

Pela reflexão no campo simbólico, Aslan é frequentemente comparado a Jesus Cristo, tanto por causa de sua morte na Mesa de Pedra, o lugar do sacrifício, como por causa de sua ressurreição, sendo revelado, assim, seu papel de Salvador de Nárnia. Desta maneira, Aslan assume diferentes formas como representativos daquilo que Ele É (Eu sou o que sou!), como um grande leão macho e o dócil cordeiro. Autoridade e sacrifício. Por isso, Ele é visto como um sublime herói e símbolo de esperança. 

Além disso, Aslan toma decisões com base na justiça e no amor, e não em medo ou coerção. Ele nada teme porque é justo! Ele se preocupa com o bem-estar de todos os seus súditos, humanos e animais, e busca um futuro melhor para Nárnia. 

Portanto, a comparação com um tirano ou ditador ou dominador não se aplicaria a Aslan, que é retratado como um líder justo e compassivo. Talvez, na ânsia de querer mostrar alguma desenvoltura em sua fala, quem pronunciou a sentença escorregou feio com uma fala fraquíssima e tendenciosa que não colou, tal qual a feiticeira branca do conto que achando ser alguém de poder e autoridade para influenciar acabou sucumbindo diante de um garoto no auge de seus catorze anos. Bravo Pedro!  

 

Pr. Heládio Santos


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

As Crônicas de Nárnia na NETFLIX



A NETFLIX assinou, recentemente, contrato com a The C.S. Lewis Company para desenvolver e produzir uma nova série baseada em As Crônicas de Nárnia. A intenção da empresa é bem ousada e anima os fãs de Lewis, pois prometem histórias inéditas, já que irão abordar todo o universo dos contos. Quem ama o grande leão Aslan e as crianças que compõem as histórias (Digory e Polly, Lúcia, Pedro, Suzana, Edmundo, Eustáquio e Jill) criam grande expectativa em poder ver em breve aquele mundo encantado em todos os momentos da saga, desde a sua gênese, contada em O sobrinho do mago, até seu desfecho em A última batalha.
Douglas Gresham (enteado de C.S.Lewis) e Vincent Sieber serão os produtores executivos da série e os produtores dos filmes. Segundo eles, “É maravilhoso saber que pessoas de todo o mundo estão ansiosas para ver mais de Nárnia, e que os avanços na tecnologia de produção e distribuição tornaram possível para nós fazermos as aventuras de Nárnia ganhar vida em todo o mundo”, disse Douglas Gresham. “A Netflix parece ser o melhor meio para atingir esse objetivo, e estou ansioso para trabalhar com eles em direção a esse objetivo”, acrescentou Gresham.
A obra de C.S.Lewis ganhou muita notoriedade desde sua publicação em virtude de abordar um universo encantador, contagiante e empolgante, ao ponto de sermos encorajados a mergulhar naquele mundo (imaginativamente, óbvio). Não é sem razão que gerações diferentes são amantes das histórias. Elas trazem um viés clássico, mas não excludente, e também cristão, C.S.Lewis, consolidando a sua abrangência. Lewis teve grande inspiração na produção de sua obra infantil, conseguindo reunir culturas, personalidades distintas que interagem, dimensões paralelas que são acessíveis, a ideia de remissão, heroísmo e bravura da insignificância. Acredito que ele imergiu na época de sua infância e de forma imaginativa e genial criou cada personagem norteado pelo conhecimento acadêmico. Lewis amava o estudo e a escrita. Foi também um homem de muita visão e acuidade espiritual.
Não sei se por causa da notícia, ou se já fazia parte da sua grade, mas a NETFLIX está exibindo O leão, a feiticeira e o guarda-roupas e O príncipe Caspian na versão estendida (versões da Disney). São aproximadamente 20 minutos a mais que fazem a diferença, porquanto nos permitem visualizar um pouco mais do mundo encantador. Eu, particularmente, estou assistindo com muita calma cada um deles para aproveitar ao máximo a experiência de contato com Nárnia e suas experiências. De fato, algo maravilhoso nestes tempos tão conturbados.   Seguindo a mesma linha, a Amazon também está investindo alto numa produção que encantou o mundo de autoria de J.R.R. Tolkien. Aguardemos que em breve teremos maiores informações.    

domingo, 21 de outubro de 2018

Uma breve meditação sobre "O cavalo e seu menino"


Por Lívia Tôrres dos Santos

Quando comecei a ler O cavalo e seu menino, o terceiro livro da saga de As crônicas de Nárnia, do renomado autor C.S.Lewis, não sabia o que me esperava; claro, conhecendo as outras histórias e os filmes, tinha uma ideia superficial do que me esperava. No decorrer da leitura, surpreendi-me com alguns trechos. Neles, eu me encontrei e me identifiquei. O trecho é o seguinte:
“A coisa (se é que não era uma pessoa) ia tão silenciosa que talvez fosse mera imaginação. Já estava certo disso, quando ouviu ao seu lado um suspiro grande e profundo. Não era imaginação! O fato é que sentiu o hálito quente desse longo suspiro na mão direita.
(...)
— Quem é você? — murmurou baixinho.
— Alguém que esperava por sua voz — respondeu a coisa.
O tom não era alto, mas amplo e profundo.
— Você é... um gigante?
— Pode me chamar de gigante — disse a grande voz. — Mas não me pareço com as criaturas que você chama de gigantes.
— Não consigo vê-lo — falou Shasta, depois de muito tentar.
Uma coisa terrível lhe passou pela cabeça. Com a voz quase trêmula de choro, perguntou:
— Você não é... não é uma coisa morta... é? Vá embora, por favor. Nunca lhe fiz mal. Ó, sou o sujeito mais desgraçado do mundo!
Sentiu novamente o hálito quente da coisa no rosto e na mão.
— Morto não respira assim. Pode me contar as suas tristezas, rapaz.
O hálito deu a Shasta um pouco mais de confiança. Contou então que jamais conhecera pai e mãe, que fora criado por um pescador muito severo. Contou sobre como fugira, sobre os leões que os perseguiram, os perigos em Tashbaan, a noite entre os túmulos, as feras que uivavam no deserto, o calor e a sede durante a caminhada, e o outro leão que surgiu quando estavam quase chegando, Aravis ferida... Contou, por fim, que estava com fome, pois não comia nada havia muito tempo.
— Não acho que seja um desgraçado — disse a grande voz.
— Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?
— Só há um leão — respondeu a voz.
— Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite...
— Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.
— Como sabe disso?
— Eu sou o leão.
Shasta escancarou a boca e não disse nada. A voz continuou:
— Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que assustou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. E fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite, o acolhesse.
— Então foi você que machucou Aravis?
— Fui eu.
— Mas por quê?!
— Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence.
— Quem é você?
— Eu mesmo — respondeu a voz, com uma entonação tão profunda que a terra estremeceu. E de novo: — Eu mesmo — com um murmúrio tão suave que mal se podia perceber, e parecia, no entanto, que esse murmúrio agitava toda a folhagem à volta.
Shasta já não temia que a voz pertencesse a alguma coisa que o devorasse; nem temia que fosse a voz de um fantasma. Uma coisa nova aconteceu, um tremor que lhe deu certa alegria.
(...)
Uma luz dourada surgiu à esquerda, e Shasta pensou que fosse o sol.
Caminhando a seu lado, maior do que o cavalo, estava um Leão. O cavalo não parecia ter medo, ou talvez não o visse. Era dele que vinha a luz dourada. Ninguém jamais viu algo tão belo e terrível.
Felizmente, o menino vivera toda a sua vida no Sul, e não havia escutado os casos, cochichados em Tashbaan, sobre um tétrico demônio de Nárnia que costumava aparecer na forma de leão. E, naturalmente, também tudo ignorava sobre as verdadeiras histórias de Aslam, o Grande Leão, o filho do Imperador-dos-Mares, o Rei dos Grandes Reis de Nárnia. Mas, depois de espiar mais uma vez o Leão, pulou do cavalo. Não conseguia dizer nada, mas também não queria dizer nada, e sabia que nada precisava dizer.
O Grande Rei encaminhou-se para ele. A juba e um perfume estranho e solene, que nela pairava, cercaram o menino. O Leão tocou a fronte de Shasta com a língua. Os olhos de ambos encontraram-se. Depois, instantaneamente, a brancura da névoa misturou-se com o brilho ardente do Leão, num redemoinho de glória, e os dois sumiram.
Shasta se viu só, com o cavalo, na relva de uma colina, sob um céu azul. Todas as aves do mundo cantavam.”

O encontro de Shasta com Aslan me faz lembrar o nosso encontro com Deus. Tudo que Shasta sente, todo seu passado guiado por Aslam, me faz lembrar como Deus faz coisas semelhantes em nossas vidas: ajudando-nos, guiando-nos e livrando-nos de todo o mal. A presença que Shasta sente ao falar com Aslam e comunicar a Ele seus problemas, o alivio e felicidade que ele sente depois de tudo e a maneira como ele expressa o cantar de todas as aves do mundo pode ser interpretado como a maneira pela qual se demonstrou a plenitude do seu ser e como ele passou a ver o mundo depois do encontro com Aslam. Esse livro é maravilhoso e ótimo para aprendermos valores cristãos.

Referência

Lewis, C.S. O cavalo e seu menino. Martins Fontes: São Paulo, 1997.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

A Cadeira de Prata

Para os amantes da obra de C. S. Lewis, a boa notícia é sobre as filmagens do novo filme: A Cadeira de Prata (The Silver Chair).
O diretor Joe Johnston falou em entrevista que sua equipe está reescrevendo o roteiro do filme para que em julho próximo comece a filmá-lo. A Nova Zelândia, país muito favorável ao contexto narniano com sua exuberante paisagem, servirá de palco para a gravação da película. Não foi sem motivos que os filmes de Peter Jackson, O Senhor dos Anéis e O Hobbit também fizeram uso dos atributos daquele lugar que remete ao imaginário dos contos, sendo perceptível um alinhamento de elementos medievais e de natureza entre a obra de J. R. R. Tolkien e de C. S. Lewis que se expressam muito bem no ambiente neozelandês.
Para o diretor, The Silver Chair é uma obra clássica e o mais sombrio de todos os livros da série, apesar de ter sido escrito para crianças. Revela também que a impressão dos fãs não será a mesma dos filmes anteriores já que o estúdio mudou. Será uma nova perspectiva, mas obviamente dentro do contexto de Nárnia. Talvez a impressão será mais com respeito ao efeito visual do que propriamente a essência do enredo.
Esperemos para ver!