O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.
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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

O ofício da mulher na Igreja

 


Desde a criação do homem e da mulher o Senhor designou, para cada um, funções específicas. Ao homem cabe o exercício de domínio (Gênesis 1:26) e à mulher ser sua ajudadora (Gênesis 2:18). Por ser uma regra absoluta, enquadrada dentro do padrão moral divino, importa reconhecermos sua perpetuidade. Contudo, nesses tempos contemporâneos, tais conceitos foram depreciados e, em ritmo acelerado, suscitaram-se exigências para as quais a mulher cristã, por exemplo, deveria ocupar e exercer funções tipicamente masculinas na Igreja, muito embora não haja prescrição bíblica para tanto. Por esta razão e através de uma sucinta reflexão, tentaremos mostrar onde a mulher cristã se encaixa melhor com seus inspirativos talentos.

O “magnificat” (Lucas 1:46-55) de Maria demonstrou qual o grau de envolvimento possível dentro do propósito de Deus para a serva do Senhor, ou seja, através do sentimento de sujeição quanto a vontade divina, da devoção e da sensibilidade para comunhão; todas extraindo suas virtudes como referencial da graciosa espiritualidade, servindo, deste modo, como retaguarda extremamente necessária para o efetivo trabalho de auxílio. Como desdobramento, o servir de apoio para aqueles que segundo a vontade de Deus foram vocacionados para ministérios específicos, qualificam-nas como personalidades de grande referencial no contexto eclesiástico. Por exemplo, foi registrado que a sogra de Pedro servia a Cristo e a seus discípulos (Marcos 1:31). Da mesma forma quando a mulher com vaso de alabastro (Lucas 7:36-49) “banhou” a Cristo, antes de sua morte, preparando-o para o momento fatídico de sua missão, revelou seu apreço e o cuidado de seu coração pelo Salvador. Ação semelhante foi notificada no domingo da ressurreição, enquanto os discípulos ficaram acuados num cenáculo, mulheres foram revestir o corpo de Cristo de acordo com prática dos rituais fúnebres, mais uma vez, demonstrando singeleza de coração, ousadia e fé para o servir (não foi sem motivo que foram privilegiadas por terem sido as primeiras testemunhas da ressurreição de Cristo). Ou seja, a mulher tem uma sensibilidade e virtudes tão preciosas para auxiliar que a idoneidade lhe identifica definitivamente melhor com os propósitos de sua criação. Assim, ela foi designada por Deus para o exercício de atividades mais relacionadas às suas virtudes porque requerem delas sua perspicácia inata, não sendo assim tão robustas e espinhosas como foram aquelas destinadas a homens.

No desdobramento do Reino de Deus, no período apostólico, a ênfase de Paulo quanto ao trabalho feminino dá sequência ao mesmo modus praticado pelo Senhor. De semelhante modo, sentiu-se privilegiado pelo apoio feminino e exalta este trabalho com a grandeza que as cristãs das diversas Igrejas de seu trabalho mereciam (Romanos 16:1, 6, 12; Filipenses 4:3).  

Desta maneira, atribuições que são destinadas aos homens, inclusive, ensinadas nas Escrituras, jamais deveriam ser praticadas pelas mulheres, pois são incompatíveis com a natureza do seu ser. Mulheres pastoras, exercendo autoridade como a de homem, realizando batismos, ensinando como se tivesse uma vocação específica para isto contrariam o ensino bíblico e a própria atribuição. Não queremos menosprezar a potencialidade feminina, contudo, procuramos tecer alguns comentários breves para uma reflexão sobre onde a mulher cristã se enquadra melhor em virtude de quem é. As vocações e as ordenanças, por exemplo, estão referenciadas na Bíblia e foram praticadas apenas por homens (Efésios 4:11 e João 4:1-2), restando para nós o pensamento de que somente eles podem exercer tais papéis. Preocupando-se com este problema e pela disseminação de ensinos contrários às Escrituras, contidos no apócrifo de Paulo (Atos de Paulo e Tecla), em sua época Tertuliano fez algumas recomendações e alertas:

Mas a petulância da mulher, que já usurpou o direito de ensinar, não se arrogue também o direito de batizar. Não! A menos que surgissem algumas novas bestas semelhantes à antiga. Aquela pretendia suprimir o batismo; uma outra quer administrá-lo ela mesma. E se essas mulheres invocam os escritos, que erroneamente levam o nome de Paulo, e citam o exemplo de Tecla para defender o direito de ensinar e batizar, saibam que foi um presbitério da Ásia que elaborou este escrito, como que cobrindo sua própria autoridade com a de Paulo. Depois de conhecida a fraude e tendo confessado que agiu por amor a Paulo, foi deposto. De fato, como seria fidedigno que o apóstolo desse à mulher o poder de ensinar e batizar, ele, que só com restrição permitiu às esposas que se instruíssem? Disse: devem silenciar e perguntar a seus maridos em casa. (De Baptismo, XVII)

   

Pr. Heládio Santos       


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Cabelos naturais e a falácia midiática

Uma suposta valorização do indivíduo passou a ocupar a pauta midiática quando a mesma fala da conservação de cabelos naturais, enfatizando, principalmente, cacheados e crespos como selo identitário de quem a mulher é de fato e de verdade. Pelos meios de comunicação, agora, ouve-se uma defesa com espírito militante desses dons naturais e da sua essência numa oposição severa à agregação de determinadas ações para alterá-los. Essa fala também pretende resgatar o prestígio das mulheres “desvalorizadas” em décadas passadas por não consentirem com a alteração de sua naturalidade em meio à crise instaurada pela moda corrente daquele momento. Antigamente, cabelos loiros, longos e brilhantes, estirados, pintados e frisados (alguns ainda hoje) eram os que ganhavam maior notoriedade com status de beleza, enquanto os demais, principalmente os crespos, eram ridicularizados e coagidos às sombras para nem serem notados, mas a adesão à modificação de sua essência capilar inseriria a mulher em outro patamar: o do reconhecimento e o de estar na moda efervescente, como diria madame C.J.Walker. De fato, uma situação explícita de exclusão social e de manipulação cujo real intento era apresentar sempre a prevalência de determinados modelos de cabelos tidos como perfeitos em detrimento de outros, seguramente, menosprezando esses outros por questões raciais.

Por outro lado, na genuína Igreja cristã sempre houve apreço pelos aspectos naturais do cabelo e pela sua composição. Pedro, inclusive, inibe a prática manipuladora do seu tempo ao falar que o adorno da mulher não deveria ser o frisado de cabelos, antes o padrão natural (I Pedro 3:3). Duas razões específicas nos motivam a pensar na doutrinação de Pedro: a valorização da naturalidade e a da simplicidade. Em ambos os aspectos, destaca-se o verdadeiro sem ocultação ou fabricação da falsidade. Via-se, desta maneira, o caráter honesto da fé na qual a mulher cristã deveria conduzir-se para agradar a Deus naquilo que Ele lhe proporcionou, sendo-lhe grata e contentando-se com a dádiva divina, muito embora houvesse o peso da coerção social tentando lhe desviar das perspectivas cristãs.

Mas, a crítica midiática não pretendia reconhecer nosso comportamento cristão, talvez por vergonha do seu erro ou por alegar extremismo religioso na disciplina e no comportamento adotados pelas fiéis e símplices seguidoras do Cristo. Mas são exatamente nessas manifestações das discípulas que encontramos a valorização consciente pelo que são, sentindo prazer e gratidão pela composição desta parte de seus corpos que as tornam únicas.

Apesar de algumas Igrejas evangélicas não respeitarem esses limites, existem muitas outras que preferiram a fidelidade e a observância da naturalidade ofertada por Deus, permitindo, desde antes dessa nova moda, a valorização dos cabelos naturais (sejam eles quais forem), opondo-se a essa “preocupação” da mídia mundana que alega rompimento com preconceitos raciais, mas, quem sabe, pode ser, na verdade, uma tremenda iniciativa para uma campanha publicitária cujo real intento seria alavancar vendas com produtos que realçam essa naturalidade, confirmando mais um capricho egoísta e mercadológico. 

Pastor Heládio Santos


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Respeite seus pastores

Em 1 Tessalonicenses 5: 12-13, Paulo escreveu: “E rogamo-vos, irmãos, que reconheçais os que trabalham entre vós e que presidem sobre vós no Senhor, e vos admoestam”.

Paulo acreditava que os anciãos de cada congregação local mereciam respeito e honra por causa de seu trabalho, e incentivou os crentes em Tessalônica a mostrar respeito e honra a seus anciãos. Hoje, receio que essas instruções simples sejam frequentemente ignoradas. Receio que muitos pastores locais e líderes cristãos, centrados no evangelho, que cuidam da igreja e que sirvam as pessoas, não estejam recebendo a honra e o respeito que merecem daqueles a quem servem. Por quê? Creio que a resposta (em parte) é a capacidade de acessar facilmente grandes pregações e ensinos on-line. Os membros da igreja podem ouvir on-line pastores e líderes cristãos conhecidos e serem "discipulados" digitalmente.

O perigo do discipulado digital

Um dos benefícios da tecnologia é a capacidade de seguir pastores, igrejas e ministérios à distância. Temos acesso instantâneo a sermões, podcasts, blogs e artigos de pessoas que nunca conhecemos pessoalmente, mas que respeitamos muito. Isso é realmente uma bênção. Mas o que acontece quando nosso amor e apreço por esses líderes cristãos articulados e conhecidos nos fazem subestimar os pastores e líderes espirituais que Deus colocou em nossas vidas? Devido à excelente pregação, ensino e escrita desses respeitados líderes cristãos, os membros da igreja podem ficar tão apaixonados por esses líderes que deixam de apreciar seus anciãos.

Isto aconteceu-lhe? Talvez você frequente uma igreja com um pastor mais jovem que não tem muita experiência. Ele ainda está aprendendo a pregar (não somos todos pastores?). Comparado a Piper, MacArthur ou Chandler, ele parece estar aquém (não é verdade?). Portanto, seu amor por Jesus, seu amor por sua igreja e seu desejo de apontar as pessoas para Cristo através da pregação da Palavra não são apreciados. 

Talvez você vá a uma igreja com um pastor mais velho. Ele nunca participou do T4G. Ele não segue o blog de Tim Challies. Ele nunca leu Desiring God, de John Piper. Ele não visita o site da Coalizão do Evangelho todas as manhãs. Ele não escuta o podcast de Matt Chandler toda semana (Quero dizer, o que ele poderia saber?!?) Ele amou a igreja e pregou o evangelho por anos; ele simplesmente não acompanha as últimas celebridades evangélicas. Então, questionamos sua relevância e minimizamos sua fidelidade, e ele não é apreciado.

Talvez você frequente uma igreja com um pastor estabelecido. Ele serviu fielmente à igreja e pregou o evangelho por anos, mas não viu um crescimento numérico explosivo. Ele aprimorou suas habilidades de pregação ao longo dos anos, mas ainda não pode pregar com paixão ou articulação como David Platt. Ele é sólido, mas não é excepcional (comparado a outros pastores de celebridades). Então, ele é visto como médio ou medíocre, e não é apreciado. 

Receio que este seja o perigo dos pastores de celebridades e do discipulado digital. Vemos os pontos fortes de um líder cristão à distância e apreciamos seu ministério, mas não estamos perto o suficiente para ver falhas. Por outro lado, estamos tão próximos de nossos anciãos e líderes que vemos suas falhas e deixamos de apreciar suas forças e seu coração por nós. Nossa exposição a grandes pregadores e líderes inadvertidamente nos levam a deixar de apreciar aqueles em nossa própria igreja que estão sobre nós e nos advertem.

Honrando Seus Anciãos

Como podemos resistir à tentação de subestimar os líderes que Deus colocou em nossas vidas devido à nossa visão idealizada de certas celebridades evangélicas? Como apreciamos oradores e escritores cristãos conhecidos, enquanto ainda honramos nossos anciãos e líderes da igreja? Aqui estão algumas sugestões práticas:

1. Avalie a mensagem, não o mensageiro. Não fique apaixonado pelo mensageiro. Fique apegado à beleza da mensagem do evangelho. O evangelho é da maior preocupação, não aquele que entrega o evangelho. Os pregadores são apenas mordomos do mistério do evangelho; são apenas arautos entregando uma mensagem para o rei. Portanto, não seja pego celebrando o homem que está entregando a mensagem... seja pego glorificando na cruz de Cristo!

2. Pare as comparações. Pare de comparar seu pastor e líderes espirituais a pregadores conhecidos e celebridades evangélicas e apenas aprecie sua fidelidade ao evangelho e à sua igreja. Eles não podem pregar como Piper ou Platt ou Chandler, mas se estiverem proclamando fielmente o evangelho e amando sua congregação, reconheçam seu compromisso com o evangelho e a igreja local e os honrem. 

3. Concentre-se em seus pontos fortes. Pare de se concentrar nas áreas excepcionais dos pastores de celebridades e reconheça os pontos fortes de seu pastor ou líderes da igreja. Embora seu pastor possa não ter as mesmas habilidades que seu líder cristão favorito, sem dúvida ele tem áreas nas quais se destaca. Preste atenção nessas áreas e agradeça a Deus por um pastor que possui essas características e habilidades específicas.

4. Orem por suas fraquezas. Todo pastor tem uma área (ou áreas!) na qual eles lutam. Eles têm deficiências e fraquezas. Em vez de reclamar dessas fraquezas ou menosprezá-las por suas deficiências, ore por elas. Ore para que Deus os faça crescer e transforme suas fraquezas em forças. 

5. Aprecie as coisas "pequenas". Os pastores fazem muitas coisas que passam despercebidas. As orações diárias oferecidas à congregação... a liderança fornecida a outros membros da equipe ou líderes da igreja... os esforços de evangelismo e divulgação na comunidade... as sessões de aconselhamento para casamentos desfeitos e famílias feridas ... as visitas ao hospital... os funerais... os casamentos... os sermões preparados... os eventos presentes. Você entendeu a ideia. Pastores fazem muito. Graças a Deus por um pastor que ama as pessoas e está com elas. Aprecie as coisas "pequenas" que não acontecem atrás do púlpito. 

Conclusão: honre e respeite os líderes que Deus colocou em sua igreja e em sua vida. Paulo não diz reconhecer aqueles que pregam grandes sermões, escrevem excelentes blogs ou supervisionam ministérios de sucesso. Ele disse para "respeitar aqueles que trabalham entre vocês e estão sobre você no Senhor e admoestar você...". Aqueles que trabalham em sua igreja merecem respeito. Quem lidera você merece respeito. Aqueles que o advertem merecem respeito. Então, cristão, pare de bajular o "pastor de celebridades" e respeite os mais velhos. 

Jared Bumpers

O Dr. Jared Bumpers é o Diretor de Vida e Eventos Estudantis no Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste e no Spurgeon College. Ele obteve seu PhD em Pregação pelo The Southern Baptist Theological Seminary. Ele é casado com Kimberly e tem quatro filhos: McCartnie, Rush, Maverick e Jett.

fonte: https://ftc.co/resource-library/blog-entries/respect-your-elders/

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A confissão e as tecnologias




As Escrituras Sagradas nos ensinam a prática de confessar nossos pecados uns aos outros (Tiago 5:16). Diferente da interpretação do catolicismo romano — que compreende o texto como uma confissão sacramental ao sacerdote para a concessão de perdão —, a linguagem bíblica aponta para o exercício da sinceridade e da honestidade mútua. Essa prática estreita laços e aprofunda a comunhão, fundamentada na premissa de que somente Cristo possui autoridade para perdoar pecados mediante o arrependimento (Lucas 5:24).

Portanto, a essência desse ensino visa promover a proximidade entre os irmãos. Fortalecer a relação pessoal no contexto cristão permite que olhemos nos olhos uns dos outros com atenção e cuidado, buscando o aperfeiçoamento tanto individual quanto congregacional. Contudo, em meio ao avanço tecnológico, novas interfaces têm surgido, dificultando a vivência prática desse princípio. Sobre isso, cabem breves reflexões.

É comum o recebimento de cartas anônimas, mensagens em redes sociais sem identificação e e-mails de remetentes ocultos. Embora os autores dessas mensagens possam acreditar que o anonimato seja uma via eficaz para apontar problemas, tal prática acaba por revelar dilemas ainda maiores, tais como:

1.    A impossibilidade do aconselhamento eficaz;

2.    A instalação de uma desconfiança generalizada;

3.    A fragilidade (ou covardia) do remetente;

4.    A percepção de que não se busca a solução, mas apenas o conflito;

5.    O isolamento do indivíduo que carece de cuidado pastoral.

Em suma, a privação da identidade e do diálogo direto gera transtornos desnecessários ao corpo de Cristo.

A confissão, em sentido amplo, não se restringe à revelação de culpa, mas abrange o compartilhamento de ideias, desabafos e visões. Um diálogo com um ministro, quando pautado na cosmovisão cristã, é transformador, pois o crente entende-se integrado à sua igreja local para o desenvolvimento de sua vocação. É indispensável praticar as virtudes esperadas do cristão; do contrário, as premissas bíblicas sobre a convivência perderiam o sentido. Como exorta o apóstolo Pedro: “Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isso, nunca jamais tropeçareis” (2 Pedro 1:10).

Chama a atenção a expressão “nunca jamais”. No mundo, ouvimos que “nunca se deve dizer nunca”, talvez porque os projetos humanos sejam maleáveis e incertos. O Evangelho, porém, não sofre essa influência. O "nunca" bíblico é absoluto. Note que essa expressão antecede a prevenção de um dos piores dramas da caminhada: a queda. Para não tropeçar, é preciso fazer valer a vocação com honestidade, pureza, humildade e piedade.

Jesus estabeleceu um princípio relacional claro para evitar que o mal ganhasse terreno: “Se trouxeres a tua oferta ao altar e ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão” (Mateus 5:23-24). Há aqui uma incitação à quebra do paradigma da indiferença. A solução surge apenas "após o ter ido até ele", ou seja, através de uma relação direta e objetiva. No distanciamento impessoal, as mágoas apodrecem o coração.

Sobre a necessidade do afeto, Zygmunt Bauman afirmou que amigos são aqueles capazes de estabelecer uma relação mútua sem que as diferenças criem distância ou inimizade, agindo com gentileza sem abandonar sua própria distinção.

Por fim, as tecnologias não podem substituir o encontro presencial e o pertencimento. Muitas vezes, o uso de meios digitais para tratar de questões sensíveis evidencia o distanciamento e a frieza. Quando não há sentimento de pertencimento, falta coragem para a exposição honesta, pois não se luta por aquilo em que não se está plenamente engajado.

As relações impessoais via aplicativos devem ser desconsideradas para assuntos de alta relevância, servindo apenas como ferramentas de agilidade burocrática. Valorizemos a comunhão pessoal: o aperto de mãos, o calor da compaixão e a harmonia de um ambiente que integra diferentes gerações e classes. Saibamos vencer os obstáculos da tecnologia para resgatar o "frente a frente", hoje e sempre.


Pr. Heládio Santos


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Interpretação bíblica



O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. (Oséias 4:6)

O livro de Oséias narra a relação entre Deus e Israel expondo as “angústias” do Senhor em decorrência do sofrimento causado pela infidelidade do povo, pela sua idolatria (adultério espiritual) e, principalmente, pelo motivador destas ardilosas condutas, a falta de conhecimento. Israel rejeitou a premissa veterotestamentário de Salomão que dizia: “inclina o teu ouvido e ouve as palavras dos sábios, e aplica o teu coração ao meu conhecimento” (Provérbios 22:17), por isso, foi acometido pela apatia e frieza, gerando enormes prejuízos espirituais porque não se deixou influenciar pelos estatutos divinos. Provocados pela instrução bíblica, podemos reconhecer a necessidade do conhecimento de Deus e de sua Palavra, mas também de como será nossa relação com Ela e como deveremos tratar a interpretação do outro.
O relato da revelação bíblica pretende alertar a Igreja para rejeitar conduta semelhante à de Israel, ou seja, desprezar o conhecimento. É prerrogativa da Ecclesia tanto o conhecimento como o aperfeiçoamento na doutrina de Cristo, conforme o próprio Senhor mencionou: “Examinais as Escrituras...” (João 5:39). Pela exposição apostólica é explicitado a outra pretensão: “querendo o aperfeiçoamento dos santos” (Efésios 4:12). Por assim dizer, o exame das Escrituras é muito diferente de sua leitura. A leitura remete para algo mais leve e descompromissado, sem demonstração plena de interesse, de modo que Jesus assevera o modo pelo qual deveremos tratar o conhecimento bíblico: examinando-o. Isto estabelece uma relação de tratamento mais minucioso com o texto, a fim de que nos comportemos com a expectativa de o conhecermos em sua essência. Para tanto, a investigação bíblica deverá ser o objetivo do crente. Não obstante, essa investigação não é uma crítica ao texto em si, segundo uma racionalidade contemporânea, antes a forma de desvendar pela luz e pela orientação do Santo Espírito a expressa verdade para nós oportunizada. Com virtuosa ação, alcançamos a boa consciência da verdade: “Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade” (Efésios 6:14).
O autoexame é uma bênção para o crente, pois poder examinar a Escritura, extraindo dela sua verdade, nos coloca no ápice da possibilidade para conhecermos efetivamente a Palavra. A ponte para a verdade da Palavra foi estabelecida por Cristo. Nele, há um elogio à pequenez desvendando o mistério para o esclarecimento e nos elevando à estatura que torna possível o conhecimento de sua vontade. Foi em breve oração, robustecida pelo sincero agradecimento ao Pai, que assim demonstrou: “... graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos” (Mateus 11:25). A pequenez dos discípulos expressou a submissão diante da grandeza de Deus e a humildade encontrada entre os virtuosos fiéis a Cristo que anelavam o conhecimento de Deus. Portanto, pequenez simboliza a sujeição a Deus pela qual se alcança o seguro entendimento da Palavra.  
Causa-nos estranheza, no entanto, as divergências teológicas de interpretação que mais afastam do que agregam e criam um ufanismo denominacional. Dentre outros fatores, muitos não sentem desprazer na conduta da sobreposição, antes, procuram refinar seus argumentos para sempre imporem suas concepções em decorrência da ânsia de verem o outro superado. O autoexame de fato possibilitou certa independência aos interpretes, de modo que inúmeras concepções teológicas têm surgido ao longo dos tempos. É plausível dizermos que a maioria está errada na arte interpretativa, causando determinados percalços para o Evangelho, para a Igreja e para os descrentes. O remédio, entretanto, para todas elas é a univocidade da Escritura e a uniformidade doutrinária (não entenda isso como uma forma de ecumenismo, não o é, mas simplesmente a guarda do fiel depósito pela Igreja de Cristo). Não há várias interpretações para a doutrina de Cristo, somente uma. Reprovados os altaneiros de vaidosos espíritos, estão tendentes à perfeita interpretação os símplices de coração que com alento tratam a doutrina não como sua, mas como de Deus, para si e para o outro. Na verdade, a Igreja deveria compreender que somos o resultado da operação de Cristo e de sua Palavra, não seus proprietários. Essa mentalidade nos aperfeiçoa para saber lhe dar com as tantas circunstâncias onde a Palavra é colocada em questão para assim podermos redarguir através da Verdade. Daí Paulo nos orientar: “Retendo firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina, como para convencer os contradizentes” (Tito 1:9).
Nossa conduta como cristãos anabatistas é interpretarmos as Escrituras com a receita que nos foi dada: com simplicidade de coração e de espírito, permitindo sermos levados pela precisa orientação do Santo Consolador, a fim de agirmos com a mansidão e paz, virtudes que assistem ao que está revestido do perfeito conhecimento. Esse conhecimento é partilhado e multiplicado com gratuidade e simpatia, visando o crescimento de cada parte, inclusive, de alguns que se acham despreparados para internalizarem o ensino. Por isso, busquemos com afinco conhecer a Deus e sua Palavra sempre com humildade e sujeição, não nos achando os melhores, mas os menores.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Nunca é tarde para estudar


Você nunca fará nada neste mundo sem coragem.
É a melhor qualidade da mente ao lado da honra.
Aristóteles

O sonho era antigo. Talvez remonte a juventude quando por influência da irmã Helena (formada em Letras e professora de línguas antigas na Assembleia de Deus) foi instigada a prestar vestibular para ingressar na faculdade e ter uma profissão. Algo um tanto quanto inusitado na época para muitos evangélicos cujas igrejas não consideravam o estudo acadêmico importante. Era o final da década de 80, instante no qual essas mesmas Igrejas ainda usufruíam de espiritualidade intensa e devotada para o fiel cumprimento da vocação inspirada pelo bom Salvador. Por isso, o sonho não se realizou naquele momento, na verdade, foi substituído por um “chamado” de Deus para ajudar o pai (José Silva Tôrres) numa ousada investida: abrir um trabalho missionário em lugar avesso à pregação do puro Evangelho, rebelde e tantas vezes perseguidor.
Passaram-se anos e através de sua ajuda incansável o trabalho prosperou, ganhando aquela obra considerada referência na região; passando a ser, então, uma Igreja e não mais um ponto de pregação, apesar da existência de um templo desde o começo. Durante aqueles anos, também serviu nos negócios da família, tendo dores de cabeça e alegrias como frutos do labor secular, mas sempre prestando o melhor trabalho possível. Foi de fato um grande apoio para o pai. Uma década passou laborando na região de Beberibe, aproveitando também as belezas naturais das ensolaradas praias ali existentes, ainda puras e não tocadas pela exploração turística e imobiliária. Um bálsamo para quem lutava desde o raiar do dia (literalmente falando) até à noite, no apagar da luz do quarto quando era vencida pelo cansaço já na madrugada.
Este tempo só cessou quando retornou para a capital devido seu enlace matrimonial. A labuta passou a ser a da sua própria casa, mas como sempre se mostrou uma pessoa com muita resiliência queria algo mais. Retornou ao SENAC para aprender a trabalhar com o pacote OFFICE da Microsoft. Recebeu seu certificado após a conclusão de seu curso. Vieram as filhas para as quais dedicou cada momento, aproveitando o vínculo e exercendo o papel de mãe com esmero. Em nenhum momento pestanejou ou relutou pelas dádivas que o Senhor Deus havia lhe confiado. Quando as meninas cresceram, tornando-se um pouco mais independentes, resolveu buscar cursos de formação de nível médio para, quem sabe, cursar uma graduação. Foi em busca do CEJA (Centro de Educação de Jovens e Adultos) em Messejana, local no qual recebeu grandes estímulos para realizar seu antigo sonho. Nesse ínterim, sentiu-se na responsabilidade de fazer um curso de secretariado (CETREDE) para que no final pudesse buscar um emprego e ajudar em casa, uma vez que naquele momento seu marido não gozava de vínculo empregatício. Foi resoluta em seu curso. Aproveitou oportunidades como secretária na PRF (Polícia Rodoviária Federal) tirando a folga de uma amiga de curso para ganhar algum dinheiro e assim poder ajudar nas despesas do lar. Mas, não esquecia de seu sonho. Prestou vestibular na UECE. Não foi aprovada. Fez suas primeiras tentativas no ENEM, mas sem uma boa preparação também não logrou êxito. Conciliou a ida para deixar as filhas na escola, na época no Centro, para fazer um cursinho de preparação para o ENEM. Conseguiu um curso acessível para as condições financeiras da família: APESC (Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará). Recebeu muito apoio dos professores. Cumpriu novamente seu papel de estudante 30 (trinta) anos após concluir o ensino médio. Dedicou-se. Estudou. Fez inúmeras redações, ora com notas não tão boas, ora com algumas que motivaram esperanças. Desejou caminhar pelo meio ambiente, tendo a primeira aprovação no IFCE, no curso de Técnico em Meio Ambiente, mas algo mais forte lhe chamava para outro caminho. Enfrentou novamente a fera do ENEM com bravura a fim de derrubar aquele bicho papão que já lhe tinha derrubado em momentos passados, mas não a tinha desanimado... Enfim, a fera não resistiu sua força interior e entregou o prêmio pela sua determinação: a aprovação no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Ceará, um dos cursos cujas notas de corte têm sido muito altas desde que o ENEM foi adotado como forma de ingresso.
Hoje, Maria Luísa (carinhosamente conhecida como Maninha) conclui sua graduação, defendendo seu aprendizado ao longo dos anos na academia. Seu olhar voltou-se para aqueles que como ela tiveram muita dificuldade para ingressar na Universidade. Estudou, para realizar sua monografia e concluir seu curso, “o ensino cooperativo entre surdos”, entendendo seus anseios, suas paixões, seus desafios e suas esperanças. Identificou-se com eles. Adora se comunicar conosco através de sinais. Não gosto porque nada entendo (preciso fazer mais algum curso de libras), mas percebo sua sensibilidade e seu envolvimento com seu objeto de estudo. Nada mais louvável.
A fé, portanto, tem o poder de transportar montes como bem disse Jesus e cumprir nosso papel enquanto cristãos, pois somos instigados a buscar conhecimentos salutares para o desenvolvimento humano para também podermos exercer nossa influência ética, moral, disciplinada e compromissada com valores que exaltam o ser humano enquanto piedosos em Cristo. Como membro da Igreja Batista Renovada Moriá, Maninha passa a ser referência e estimula os congregados que desejam chegar mais longe a sonharem. Aos 50 (cinquenta) anos, começa uma nova fase de sua vida. Agora, com a certeza do dever cumprido e com uma profissão em mãos, alcançada pela pura determinação de um nobre coração; daqui há alguns dias, após o reitor lhe conferir o título, será graduada.
Ao longo de sua caminhada na Universidade fez muitas amizades, certamente pelo jeito simples e cativante de ser. Criou vínculos. Amparou muitas colegas de turma. Aconselhou. Soube caminhar por cada situação confirmando e nunca deixando de ser esta pequena grande mulher cristã.

Agradecimentos à prof(a). Dra. e Diretora (Faculdade de Educação) Maria Isabel Filgueiras Lima Ciasca, ao Prof. Doutorando Hermany Vieira, à Prof(a) e Doutoranda Nágila Rabelo e à Pedagoga Amanda Rodrigues pelo apoio na construção do conhecimento e desenvolvimento da monografia.

Essa matéria é uma singela homenagem de seu marido e de suas filhas (Heládio, Hévila e Lívia)

Glórias, honras e louvor sejam sempre ao nosso grande e amoroso Deus cujo Filho, Jesus, através do Santo Espírito, nos faz triunfar!