O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.
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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Um só corpo, uma só fé: resgatando a unidade da Igreja em tempos de autonomia e disputas de poder

 


Está registrado em Mateus 12:30 e Lucas 11:23 a célebre expressão de Jesus: Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. Para muito além de uma reprimenda circunstancial aos fariseus — que cegos pelo preconceito religioso o acusaram de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, demonstrando total aversão à restauração daquele homem cego e mudo —, essa declaração estabelece o princípio absoluto da unidade de propósito no Reino de Deus. Aqueles líderes religiosos não compartilhavam do desejo de Cristo de fazer o bem ao próximo, tampouco suportavam ver a operação genuína dos milagres divinos, o que os colocava em oposição direta à missão do Messias. Diante disso, Jesus ensina com clareza cirúrgica que não existe neutralidade espiritual ou isenção no cenário da fé: ou um indivíduo está ativamente submisso ao Senhor e cooperando com a Sua obra (ajuntando), ou ele está, deliberadamente ou não, trabalhando contra o avanço do Seu Reino e sabotando a comunhão (espalhando). Sob essa ótica, compreende-se que qualquer atitude que promova divisões infundadas, partidarismos ou vaidades nada mais é do que o ato espiritual de “espalhar” aquilo que Cristo duramente conquistou com alto preço, fornecendo-nos a chave necessária para fazer incursões profundas nos textos bíblicos subsequentes que tratam sobre a urgência da unidade da igreja.

A unidade da igreja é essencial porque reflete a própria natureza de Deus, fortalece espiritualmente os fiéis e é o principal testemunho para atrair o mundo a Cristo. Ela transforma os cristãos em um corpo coeso que opera junto. A necessidade de união fundamenta-se em alguns aspectos tais como segue. Jesus orou para que os discípulos fossem um (João 17:11, 21-23), para que o mundo cresse que Ele foi enviado, pois a divisão afasta as pessoas, enquanto o amor mútuo comprova a veracidade do evangelho. A igreja é o Corpo de Cristo (I Coríntio 12:12-27) assim como um organismo, se os membros estiverem desarticulados, o corpo não consegue avançar, cumprir sua missão ou se defender. Sozinhos, os cristãos ficam vulneráveis (Salmo 133:1, I Coríntios 1:10) já que a convivência desenvolve o amor, a humildade e o caráter cristão, além de permitir o exercício dos dons espirituais para a edificação de todos e a unidade da igreja é um reflexo da união perfeita existente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Em Efésios 4:1-6, o apóstolo Paulo estabelece que a unidade da igreja não é uma meta humana a ser alcançada. É uma realidade espiritual já criada pelo próprio Deus que os cristãos têm o dever urgente e diligente de preservar através do vínculo da paz. Escrevendo diretamente da prisão, ele roga para que os fiéis vivam de maneira digna do chamado que receberam, o que se manifesta na prática não por meio de uniformidade cultural ou concordância cega. Ele propõe o cultivo de virtudes relacionais profundas como a humildade, a mansidão, a longanimidade e o suportar uns aos outros em amor. Para fundamentar a obrigatoriedade dessa postura, Paulo apresenta uma estrutura trinitária inflexível composta por sete pilares absolutos e indivisíveis. Há um só corpo e um só Espírito, assim como uma só esperança da vocação; um só Senhor, uma só fé e um só batismo; e, finalmente, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e habita em todos. Dessa forma, o apóstolo demonstra de maneira contundente que qualquer divisão por questões secundárias, vaidades pessoais ou picuinhas teológicas é uma contradição teológica grave, visto que a identidade fundamental, a liderança, o selo e o destino eterno de cada membro do Corpo de Cristo são exatamente os mesmos.

Contudo, ao longo dos séculos, a história do cristianismo revela que a preservação dessa unidade perfeita descrita por Paulo foi frequentemente desafiada por profundas divisões e cismas. Por um lado, muitas dessas rupturas históricas foram motivadas por vaidades políticas, disputas de poder, preconceitos culturais e orgulho humano, o que fragmentou visivelmente o Corpo de Cristo, enfraqueceu o testemunho público do evangelho diante do mundo e comprometeu diretamente o sentido bíblico da comunhão afetiva. Por outro lado, nem toda separação deve ser lida como um erro espiritual. Diante do surgimento de desvios teológicos graves, heresias destrutivas e apostasia clerical, o afastamento e a divisão formal revelaram-se caminhos dolorosos, porém absolutamente necessários, para a conservação da pureza da fé, a defesa da verdade apostólica e a manutenção da sã doutrina. Nesses casos específicos, a ruptura com uma estrutura corrompida foi o preço pago para que a fidelidade à Palavra de Deus continuasse viva, demonstrando que a paz nunca deve ser comprada ao custo do sacrifício da verdade.

Historicamente, o fenômeno da fragmentação eclesiástica não poupou o protestantismo e o evangelicalismo, de modo que as divisões eventualmente alcançaram e reconfiguraram as igrejas evangélicas, as quais, ironicamente, nasceram sob a premissa teórica de lutar para manter uma fidelidade doutrinária estrita e uma unidade sólida estruturada nos moldes estritamente bíblicos da igreja primitiva. Ao refletirmos sobre as forças motrizes que impulsionaram esse cenário ao longo do tempo, podemos elencar três pilares fundamentais que justificam e explicam essa constante ramificação: em primeiro lugar, o princípio da livre interpretação da Bíblia (o livre exame), que, embora tenha libertado o fiel do monopólio clerical, abriu margem para uma pluralidade de leituras teológicas e divergências doutrinárias secundárias; em segundo lugar, a consolidação de uma cultura de autonomia administrativa e governos congregacionais locais, que enfraqueceu a necessidade de prestação de contas a instâncias centrais e facilitou emancipações eclesiásticas; e, por fim, a incidência frequente de choques de liderança, vaidades pessoais ou disputas por espaços de poder e influência. Esse arranjo de fatores descentralizadores operou de forma tão intensa que pulverizou o movimento evangélico global, gerando uma vasta fragmentação que hoje se materializa na coexistência — e, por vezes, na rivalidade — de uma infinidade de denominações de linhagem histórica, agremiações pentecostais clássicas e comunidades neopentecostais, cada qual reivindicando para si a correta aplicação dos princípios evangélicos.

Diante disso, torna-se imperativo esclarecer que o princípio do livre exame da Bíblia não pode, sob hipótese alguma, ser deturpado ou confundido com uma autorização para o relativismo hermenêutico. Gozar da liberdade cristã para ler e examinar as páginas sagradas individualmente é um direito precioso, mas interpretar o texto ao bel-prazer, distorcendo-o para validar agendas particulares ou experiências subjetivas, constitui um erro grave que viola a própria natureza da revelação divina. A leitura atenta das Escrituras deve invariavelmente convergir para um único propósito e sentido teológico primordial, afinal Deus não inspirou significados contraditórios ou verdades divergentes para que cada nova denominação isolasse suas próprias conclusões e criasse dogmas particulares. Em sua essência, a Bíblia é um livro unívoco, o que significa que ela admite apenas uma interpretação correta e original — aquela pretendida pelo Autor Divino —, a qual só pode ser discernida não pelas lentes do orgulho e da sabedoria do homem, mas sob a ótica e a iluminação sobrenatural do Espírito Santo, que guia a comunidade de fé em consenso e fidelidade ao longo da história.

Por conseguinte, a cultura de autonomia administrativa e os sistemas de governo congregacional local, embora fundamentados em princípios bíblicos de descentralização e participação comunitária, jamais podem esquecer que sua soberania terrena é limitada e deve estrita prestação de contas ao próprio Deus. O verdadeiro princípio do governo congregacional não é norteado pelo exercício de um querer coletivo arbitrário, por simples maioria ou pela imposição dos caprichos de determinada comunidade, mas pela submissão voluntária à operação direta e ao estabelecimento do Reino de Deus na terra. Uma igreja local só “governa” legitimamente quando o faz sob as luzes da sã doutrina e sob a liderança do Espírito Santo, o que impede que sua gestão seja rebaixada a um governo meramente humano. Para ilustrar o perigo dessa inversão de valores, imagine o absurdo de uma liderança que decide promover uma atividade puramente secular, festiva ou vaidosa, utilizando recursos sagrados arrecadados por meio de dízimos e ofertas, motivada unicamente pelo desejo carnal de rivalizar com comunidades vizinhas e ostentar que possui programações melhores e mais atrativas. Quando bem compreendidos à luz das Escrituras, os dízimos e as ofertas não pertencem aos homens e nem se destinam a satisfazer os interesses cômodos, o entretenimento ou o egoísmo dos membros da igreja, mas servem exclusivamente para a promoção do Reino de Deus, o sustento da obra missionária, o amparo aos necessitados e a edificação espiritual do Corpo de Cristo. Esse mesmo rigor espiritual aplica-se, inevitavelmente, à escolha e consagração de pastores, evangelistas, mestres (ministros) e diáconos (oficiais), que são funções vitais para o ordenamento do Corpo de Cristo. Quando esses processos ministeriais ocorrem sem a devida oração, discernimento e inspiração do alto, o que se promove na prática é mais uma eleição política, corporativista e interesseira do que a escolha de vocacionados comprometidos com o Reino. Essa negligência substitui os critérios de caráter, piedade e maturidade descritos nas Escrituras por conveniências humanas e alianças de poder, sabotando a liderança servil e minando a manutenção e a preservação dos valores santos e dos hábitos bíblicos que deveriam resguardar a integridade da Igreja.

Por último, os choques de liderança e as disputas por espaços de poder e influência configuram, sem dúvida, a pior e mais devastadora manifestação carnal a comprometer a unidade visível da igreja. Quando homens destituídos de uma vocação genuína enxergam nos púlpitos e nas plataformas eclesiásticas meras oportunidades de projeção social, ganância financeira ou promoção pessoal, eles invertem a essência do evangelho, negando categoricamente o verdadeiro pastoreio e o cuidado prático com o rebanho. Em vez de agirem com a humildade necessária para mortificar o próprio egoísmo e salvaguardar a comunhão dos santos, esses falsos líderes inflam suas vaidades, colocando em risco toda uma história comunitária e, principalmente, a salvação e a saúde espiritual de vidas preciosas que carecem de uma atenção pastoral diferenciada, acolhedora e bíblica. O péssimo exemplo desses indivíduos não apenas arruína a reputação de sua própria biografia e ministério, mas também atua como um terrível tropeço para outras almas, que, escandalizadas pelo cinismo e pelo autoritarismo, acabam sendo levadas a desvios doutrinários graves, ao completo desgosto pela vida comunitária e, muitas vezes, ao abandono definitivo da fé.

Portanto, a centralidade que se faz necessário invocar diante dessa fragmentação não reside em qualquer estrutura de governança humana, comitê eclesiástico ou hierarquia clerical, pois a história já demonstrou que tais mecanismos são falíveis e frequentemente propensos ao autoritarismo ou à divisão política. Para compreender o verdadeiro eixo de coesão da igreja, basta que o crente cultive um coração genuinamente piedoso, submisso e moldado pelos valores fundamentais das Escrituras Sagradas, reconhecendo que somente a Palavra de Deus possui a autoridade intrínseca para atuar como a base inabalável, o fundamento teológico e o marco central a partir do qual todas as doutrinas devem ser rigorosamente observadas e todos os comportamentos práticos devem ser seguidos. Portanto, não é o governo de líderes ou instituições humanas que centraliza e pacifica a fé, mas o princípio da Sola Scriptura, uma vez que apenas o texto sagrado, sob a iluminação do Espírito Santo, detém o poder soberano de alinhar os corações na verdade, expurgar os desvios egoístas e manter de forma perene o propósito de unidade essencial que Cristo designou para o Seu Corpo.

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O cristão e a tatuagem

 


A busca por marcar a pele (ou simplesmente: “fazer tatuagens”) acompanha a humanidade desde os seus primeiros passos na História. Quando olhamos para o passado, o registro arqueológico mais antigo e incontestável de tatuagens pertence a Ötzi, o Homem de Gelo. Esta impressionante múmia natural, que viveu há aproximadamente 5.300 anos (por volta de 3300 a.C.), foi descoberta congelada nos Alpes Ötztal, na fronteira entre a Áustria e a Itália, no ano de 1991.

          Ao analisarem o corpo de Ötzi, cientistas e arqueólogos identificaram um total de 61 tatuagens, organizadas em 19 grupos diferentes. Diferente das agulhas modernas, essas marcas foram feitas realizando pequenos cortes lineares na pele e, em seguida, esfregando carvão pulverizado sobre as feridas abertas. Os traços e cruzes na pele de Ötzi não estavam dispostos de forma aleatória ou puramente estética. Eles localizavam-se exatamente em áreas de forte desgaste físico, como a coluna lombar, os joelhos, os pulsos e os tornozelos. Estudos radiológicos revelaram que Ötzi sofria de doenças degenerativas nas articulações, como a osteoartrite. Por isso, pesquisadores renomados, cujos estudos são frequentemente destacados pela National Geographic, concluíram que essas marcas funcionavam como um tratamento médico primitivo, muito semelhante à acupuntura, aplicado para o alívio de dores crônicas.

Olhar para a história de Ötzi mostra que a modificação corporal nasceu ligada a necessidades físicas e rituais de povos antigos que ainda não conheciam a revelação do Deus Vivo. Naquela época distante, as marcas na pele funcionavam como amuletos de proteção espiritual, registros de linhagem e tentativas de cura, refletindo a busca do ser humano por sentido em meio ao desconhecido. Deste modo, essas reflexões históricas e as teológicas a seguir servem ao propósito de guiar a juventude a uma maturidade espiritual sólida, longe de um “máscara” que apenas impõe regras rígidas ou fardos desnecessários. O verdadeiro desafio do jovem cristão na atualidade é desenvolver um senso crítico e analítico sobre a própria conduta, compreendendo que suas decisões não podem ser moldadas por impulsos passageiros ou pela pressão cultural de modismos estéticos. Em vez de simplesmente adotar os padrões que o mundo dita como normais, a nova geração é incentivada a adotar uma postura reflexiva e comparativa, avaliando se suas escolhas estéticas e de estilo de vida estão em perfeita harmonia com os valores eternos do Reino de Deus e se, de fato, glorificam ao Senhor através de uma consciência plenamente guiada pelo Espírito Santo.

Convidamos você a refletir, de forma mansa e sem julgamentos precipitados, sobre como essa prática milenar não se harmoniza com a nossa caminhada cristã atual. O homem do passado usava o próprio corpo como uma tela para tentar curar suas dores ou expressar sua religiosidade pagã. Nós, no entanto, fomos curados pelas feridas de Cristo na cruz e recebemos o Espírito Santo.

Embora o mundo veja o corpo apenas como matéria a ser moldada ou decorada segundo a vontade própria, nós fomos chamados a um entendimento superior. A nossa identidade não precisa ser gravada na pele com tintas ou carvão, pois ela já foi escrita pelo próprio Deus no Livro da Vida. Que possamos guardar nosso corpo com cuidado, compreendendo que a verdadeira beleza e diferenciação do cristão vêm da paz e da santidade que carregamos no coração.

Nas Sagradas Escrituras, a instrução mais lembrada sobre esse assunto encontra-se em Levítico 19:28, onde o Criador orienta claramente: Pelos mortos não fareis retalhamentos na vossa carne; nem poreis figura alguma em vós. Eu sou o Senhor. Para compreendermos o peso dessa ordem, precisamos olhar com atenção para o cenário da Antiga Aliança, onde essas marcas na pele estavam intimamente associadas a rituais de luto pagãos e à adoração a deuses das nações vizinhas, como os cananeus. Em Deuteronômio 14:1-2, o Senhor reforça esse zelo paternal dizendo: Filhos sois do Senhor, vosso Deus; não vos dareis golpes, nem fareis calva entre os vossos olhos por causa de algum morto. Porque és povo santo ao Senhor, teu Deus. Deus desejava proteger o Seu povo da autodestruição e de rituais de sangue que desonravam a dignidade humana. O profeta Elias, em I Reis 18:28, presenciou o ápice desse comportamento pagão quando os profetas de Baal clamavam em altas vozes e se retalhavam com facas e com lancetas, conforme o seu costume, até derramarem sangue sobre si. Deus queria poupar os Seus filhos desse tipo de escravidão espiritual e física. Por isso, a santidade exigida pelo Senhor não era um fardo, mas um privilégio de preservação. O desejo divino sempre foi que o Seu povo fosse totalmente consagrado a Ele, exibindo uma pureza externa e interna que refletisse a Sua santidade, pois, como está escrito em Levítico 20:26: E ser-me-eis santos, porque eu, o Senhor, sou santo e separei-vos dos povos, para serdes meus. Essa separação amorosa nos lembra que fomos desenhados para carregar a imagem do Criador, e não as marcas culturais e passageiras de um mundo que não O conhece.

No mundo contemporâneo, a prática de tatuar a pele passou por uma profunda transição cultural, deixando de ser marginalizada para assumir o status de arte, moda e expressão individual legitimada. Hoje, as modificações corporais funcionam como um manifesto visual e psicossocial, utilizado para externalizar sentimentos profundos, imortalizar lembranças afetivas, afirmar a identidade de grupo ou até mesmo como um ato deliberado de rebeldia e autonomia contra os padrões tradicionais impostos pela sociedade. Essa mudança de paradigma apoia-se firmemente na filosofia do individualismo exacerbado, onde impera a premissa de que o corpo pertence exclusivamente ao indivíduo e, portanto, pode e deve ser moldado, adornado ou ressignificado segundo os seus próprios desejos e impulsos estéticos. Para nós, no entanto, que olhamos com os olhos da fé, esse conceito de auto propriedade corporal entra em choque direto com a soberania de Deus, pois compreendemos que o nosso corpo não é uma propriedade privada para a nossa própria exaltação, mas uma dádiva sagrada criada para refletir o caráter do Criador, convidando-nos a refletir se as marcas que o mundo aplaude como liberdade não seriam, na verdade, uma sutil conformação aos desejos de uma sociedade que busca autonomia longe de Deus.

No entanto, quando entregamos verdadeiramente a nossa vida a Jesus Cristo, a nossa perspectiva em relação ao mundo, à cultura e ao nosso próprio ser muda por inteiro, operando uma revolução completa em nossas prioridades e valores. Deixamos de ser governados pelas correntes filosóficas e estéticas deste tempo para sermos guiados pelo conselho caloroso, protetor e paternal do apóstolo Paulo em Romanos 12:2: E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. O termo original grego utilizado para “não vos conformeis” traz a ideia de não se colocar na mesma fôrma, ou seja, de recusar o molde que a sociedade tenta nos impor a todo custo. Essa transformação começa de dentro para fora, através de uma mente renovada pelo Espírito Santo, que nos capacita a discernir que a verdadeira beleza e identidade de um filho de Deus não dependem de adornos ou marcas externas, mas da manifestação do fruto do Espírito. Em um mundo que clama pela autoexpressão a qualquer preço, o cristão encontra a sua real plenitude na autonegação por amor, entendendo que fomos resgatados de um estilo de vida vazio para vivermos em novidade de vida, onde cada decisão sobre o nosso corpo e mente deve passar pelo crivo da soberana e perfeita vontade de Deus. Esse texto nos lembra, com muita convicção, que o cristão foi resgatado para ter um comportamento diferenciado e convicto. O mundo segue modas e tendências passageiras, mas nós somos chamados a ser o “sal da terra e a luz do mundo”. Nosso amor ao Senhor nos conduz a uma vida de separação daquilo que é mundano, não por imposição de regras, mas por uma transformação genuína de dentro para fora.

Além disso, em I Coríntios 6:19-20, aprendemos que o nosso corpo é santuário do Espírito Santo e que não pertencemos a nós mesmos, mas fomos comprados por alto preço. Assim, o desejo do cristão é glorificar a Deus em tudo o que faz, tomando cuidado para não se misturar com os costumes de uma sociedade secularizada que por vezes se mostra ateia, mas preservando a pureza e a beleza da sua consagração. Portanto, intenção desta reflexão é apenas admoestá-lo(a) para que você cuide bem do seu coração. Que todas as suas escolhas sejam tomadas em oração, cheias de paz e movidas por um amor profundo ao nosso Senhor, para que a nossa conduta seja sempre um reflexo da Sua graça neste mundo.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Entre a arte e a ortodoxia: o alerta teológico por trás do sucesso de The Chosen

 


A série The Chosen (Os Escolhidos) tornou-se um fenômeno global sem precedentes, acumulando centenas de milhões de visualizações e consolidando-se como uma das produções audiovisuais mais influentes da atualidade. Financiada via crowdfunding e distribuída de forma independente, a obra dirigida por Dallas Jenkins alcançou um feito raro: romper a bolha do entretenimento religioso e atrair a atenção de críticos seculares e de um público culturalmente diverso. O segredo desse sucesso reside em uma proposta ousada: humanizar os apóstolos, detalhar o contexto sociopolítico da Judeia do século I e conferir uma densidade dramática inédita aos relatos bíblicos. No entanto, por se distanciar do formato de um documentário estrito ou de uma leitura puramente literal dos textos sagrados, a produção caminha em uma linha tênue entre a arte e a teologia. Esse cenário levanta debates profundos e necessários entre teólogos, pastores e fiéis sobre os limites da liberdade criativa e os riscos de se reinterpretar visualmente as Escrituras Sagradas.

A principal crítica positiva que se pode fazer a The Chosen é a sua capacidade extraordinária de transpor os personagens das páginas estáticas do texto sagrado para as telas, dotando-os de uma densidade psicológica e de emoções profundamente reais. A produção rompe deliberadamente com a tradição de obras cinematográficas religiosas do passado, que frequentemente retratavam os apóstolos de forma bidimensional, como santos inatingíveis envoltos em uma aura de solenidade artificial. Em vez disso, a série nos apresenta pessoas comuns, vulneráveis e palpáveis: Simão Pedro lida com dívidas sufocantes e crises no casamento; Mateus é retratado no espectro autista, enfrentando a rejeição e o desprezo de seu próprio povo por ser um publicano; e Maria Madalena luta contra os traumas físicos e espirituais de seu passado. Ao ancorar esses indivíduos em fraquezas, dúvidas existenciais e conflitos diários, a narrativa constrói um contexto histórico e humano extremamente verossímil.

Esse realismo é potencializado pelo rigoroso zelo da produção na recriação do ambiente cultural, político e religioso da Judeia do século I, permitindo que o público compreenda as tensões sob a ocupação romana e as complexidades das tradições judaicas da época. No centro dessa engrenagem narrativa está a interpretação de Jesus, que foge do estereótipo do místico distante. O Cristo da série transmite uma proximidade revolucionária: Ele ri, chora, cozinha, dança em casamentos, sente cansaço físico e demonstra um senso de humor cativante e caloroso. Essa abordagem quebra a barreira do tempo e da formalidade religiosa, permitindo que o público moderno crie uma conexão empática imediata com os personagens e, por consequência, compreenda o impacto transformador e a urgência da mensagem central do Evangelho.

Apesar de seu inegável alcance evangelístico e de seu apelo popular, a série toma liberdades criativas que acendem um alerta crítico na comunidade teológica ortodoxa. Diálogos inteiros que nunca existiram na literatura bíblica, dinâmicas familiares complexas totalmente inventadas e subtramas políticas paralelas são deliberadamente adicionadas indiretamente ao texto sagrado para preencher as lacunas do roteiro cinematográfico. Essa fusão arriscada entre os fatos canônicos e a ficção contemporânea cria uma distorção perigosa da revelação divina. Afinal, a Bíblia não é uma obra aberta à livre releitura estética, mas a Palavra inerrante de Deus.

Diante desse cenário, torna-se fundamental fazer um questionamento teológico rigoroso: sendo uma produção que mescla a verdade inspirada com a imaginação de roteiristas modernos, não estaria o público, na verdade, consumindo e internalizando um “outro Cristo”, uma versão antropocêntrica, romanceada e profundamente diferente daquele Jesus soberano revelado estritamente pelas Escrituras — o qual a Igreja é ordenada a zelar e a repudiar qualquer imitação?

Essa tensão entre o drama cultural e a pureza da fé evoca o clássico questionamento do teólogo paleocristão Tertuliano (c. 155 – c. 220 d.C.), que em sua célebre obra Prescrição Contra os Hereges indagou de forma cortante: "O que Atenas tem a ver com Jerusalém? O que a Academia tem a ver com a Igreja?". Tertuliano alertava sobre os perigos mortais de se misturar a filosofia pagã e as artes humanas com a revelação pura do Evangelho, sustentando que a verdade divina não precisa do verniz ou das concessões do espetáculo mundano para ser eficaz. Ao transpor o raciocínio de Tertuliano para os dias de hoje, o questionamento ganha nova força: o que a indústria de Hollywood e o entretenimento de massas têm a ver com a sã doutrina estabelecida pelos apóstolos?

Ao tentar tornar o Messias mais palatável, acessível e atraente por meio de recursos ficcionais e de artifícios dramatúrgicos, a série flerta perigosamente com a criação de um Jesus moldado à imagem e semelhança das expectativas e carências da cultura moderna. Esse processo de reconfiguração ignora um princípio básico da ortodoxia: o Cristo bíblico é conhecido unicamente pela fé sobrenatural que opera mediante a submissão irrestrita à verdade revelada, e nunca pela imaginação estética ou pelo sentimentalismo visual. Quando a arte tenta preencher os silêncios deliberados do Espírito Santo na Bíblia, ela inevitavelmente projeta os valores, as ideologias e o relativismo do século XXI na figura do Deus encarnado.

Esse fenômeno de customização da divindade não é novo, mas ganha contornos alarmantes na era do streaming. O apóstolo Paulo advertiu severamente a igreja sobre a facilidade com que o coração humano se deixa seduzir pela pregação de um “outro Jesus” em II Coríntios 11:4: Porque, se alguém vindo pregar-vos outro Jesus que nós não temos pregado, ou se recebeis outro espírito que não recebestes, ou outro evangelho que não abraçastes, com razão o sofreríeis. O alerta paulino expõe a fragilidade de uma fé baseada na novidade e no entretenimento. O “outro Jesus” denunciado pelo apóstolo é justamente aquele que foi desprovido de sua pura retratação, de sua santidade e de suas exigências de arrependimento para se adequar ao gosto do público.

No Novo Testamento, Jesus Cristo não é um personagem maleável adaptável ao teatro humano; Ele é o Logos, a própria Palavra encarnada (João 1:1, 14), e o Seu Evangelho é a verdade absoluta, imutável e exclusiva (Gálatas 1:6-9). O apóstolo chega a declarar anátema qualquer um — seja um homem ou até mesmo um anjo do céu — que pregue um evangelho diferente daquele originalmente entregue.

Quando os roteiristas contemporâneos adicionam falas inéditas à boca de Cristo, inventam motivações psicológicas extrabíblicas e moldam traços de personalidade que carecem totalmente de amparo nos manuscritos sagrados, eles ultrapassam o limite da ilustração e entram no terreno da reescrita teológica (mesmo que não queiram isso acaba acontecendo). O risco inerente e devastador para o espectador — especialmente o neófito ou o desprovido de discernimento bíblico — é assimilar, de forma inconsciente, uma versão diluída, excessivamente romantizada, psicologizada e, em última análise, deturpada do Filho de Deus. O perigo real é que o público passe a amar o Jesus de The Chosen, e não o Jesus das Escrituras, substituindo o Cristo da cruz e da glória por um ícone cultural feito sob medida para o consumo de massa.

Teologicamente, a representação do Deus Todo-Poderoso e a preservação de Sua revelação escrita sempre exigiram do Seu povo um temor reverente e um cuidado extremo. A Bíblia não deixa margem para o relativismo no que diz respeito à integridade da Sua mensagem. Em Deuteronômio 4:2, o Senhor adverte solenemente por meio de Moisés: Não acrescentareis à palavra que vos mando, nem diminuireis dela, para que guardeis os mandamentos do Senhor vosso Deus, que eu vos mando. Esse mandamento de não adulterar o escopo da revelação divina é uma constante em toda a linha do tempo bíblica. Mais adiante, no mesmo livro, a ordem é ratificada em Deuteronômio 12:32: Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás. A Palavra de Deus carrega em si uma suficiência e uma perfeição que dispensam o auxílio da imaginação humana para se tornar mais eficaz ou compreensível.

O perigo de moldar visualmente ou textualmente a identidade de Deus evoca também o princípio do Segundo Mandamento contido no Decálogo. Em Êxodo 20:4, lemos: Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra. Embora o contexto histórico trate da idolatria física, o princípio teológico subjacente condena veementemente a tentativa humana de enquadrar o Deus infinito em representações visuais limitadas criadas pela mente criativa do homem. No livro de Provérbios 30:5-6, o sábio adensa esse temor ao afirmar: Toda palavra de Deus é pura. Escudo é para os que confiam nele. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso. O texto sagrado qualifica qualquer acréscimo — mesmo aqueles disfarçados de “recursos narrativos” ou “licença poética” — como uma quebra da verdade, uma falsidade diante da pureza doutrinária.

Essa barreira intransponível contra inovações e acréscimos teológicos estende-se até as últimas linhas do cânone sagrado, demonstrando que o fechamento da revelação exige fidelidade absoluta. No livro de Apocalipse 22:18-19, o apóstolo João sela a advertência divina com palavras severas de juízo: Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro; e, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida. Diante de um tecido bíblico tão rigidamente protegido contra interferências externas, fica evidente que transpor o Messias para o formato de uma telenovela com roteiros expandidos é um ato de altíssima responsabilidade e perigo teológico.

A arte cinematográfica contemporânea pode até possuir o seu valor cultural e servir como uma ferramenta puramente ilustrativa, pedagógica ou de despertar devocional. No entanto, ela jamais pode receber a prerrogativa de ditar, moldar ou preencher a nossa visão espiritual e teológica de quem é Cristo. O conhecimento salvífico do Filho de Deus não provém de megaproduções audiovisuais, mas do ouvir a mensagem viva, conforme atesta Romanos 10:17: De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. O Cristo que salva não é aquele que se move de acordo com as marcações de cena de um diretor de cinema, mas o Cristo soberano que se revela unicamente por meio das Escrituras inerrantes.

Cabe, ainda, destacar que o apego emocional à série revela um sintoma alarmante na espiritualidade contemporânea: a preferência pelo Cristo de The Chosen em detrimento do Cristo da Bíblia expõe um declínio severo — ou até mesmo a ausência — de uma fé genuína e madura. Quando o crente necessita de recursos visuais, trilhas sonoras dramáticas e diálogos fictícios para se conectar com o divino, ele demonstra uma falência na capacidade de se relacionar com o invisível por meio da fé pura (Hebreus 11:1). Os sintomas desse esvaziamento espiritual são evidentes: uma apatia crônica pela leitura bíblica devocional, a incapacidade de meditar no texto sagrado sem projetar as feições do ator Jonathan Roumie na mente, e a busca por um Jesus moldado pelo entretenimento, que conforta mas não confronta o pecado. Essa dependência estética sinaliza uma geração analfabeta da Palavra, que prefere a experiência sensorial e o sentimentalismo das telas à disciplina espiritual da oração e da submissão à sã doutrina. Em última análise, trocar o Cristo das Escrituras pelo Cristo da TV é o reflexo de um coração que busca ser entretido, e não transformado pela verdade santificadora de Deus (João 17:17).

Em suma, a avaliação mais justa e madura sobre The Chosen exige do cristão uma postura de profundo discernimento espiritual, equilibrando a admiração estética com a vigilância teológica, conforme a recomendação em 1 Tessalonicenses 5:21: Examinai tudo. Retende o bem. A produção merece reconhecimento por seu inegável valor narrativo, relevância cultural e capacidade de aproximar o público da dimensão humana dos relatos bíblicos. Contudo, nenhuma obra cinematográfica ou literária possui autoridade divina; elas devem servir estritamente como uma ponte que desperta o interesse pelas Escrituras, e jamais como um substituto ou intérprete final da verdade revelada. O verdadeiro Cristo — o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, o Messias ressuscitado e o Juiz soberano de toda a terra — não pode ser assimilado por meio de telas ou roteiros de ficção. Ele só pode ser conhecido, compreendido e devidamente fundamentado pela leitura atenta, reverente e inerrante da Bíblia Sagrada, o único padrão absoluto de fé e prática para a Igreja.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Os infiltrados da Igreja

 


A Igreja evangélica contemporânea enfrenta um dos embates mais profundos de sua história institucional e teológica: a presença de indivíduos que se declaram convertidos, mas operam como agentes de subversão interna. Este fenômeno não constitui apenas uma divergência doutrinária; trata-se de um esforço deliberado para introduzir ideologias seculares, como a ideologia de gênero, o comunismo, o feminismo radical, o aborto e, em casos extremas de deterioração moral, a relativização ou tolerância a crimes como a pedofilia, dentro do corpo doutrinário cristão. A defesa da fé exige uma denúncia clara da hipocrisia desses agentes infiltrados, cuja conduta contradiz a essência do Evangelho.

Como exemplo escancarado, a ordenação e o exercício do pastorado por mulheres servem como um marcador visível dessa tentativa de reconfigurar a estrutura eclesial a partir de moldes seculares. Quando a liderança espiritual ignora os pré-requisitos estabelecidos nas Escrituras, a autoridade da Palavra é subordinada ao pragmatismo e ao politicamente correto. As diretrizes expressas em cartas apostólicas, como em I Timóteo 3:1-7 e Tito 1:5-9, não são construções culturais datadas e descartáveis; elas delineiam o padrão divino para o governo da Igreja, limitando o presbiterado e o episcopado ao homem qualificado. Afastar-se desse modelo sob o pretexto de “modernização” ou “igualdade” descaracteriza a ordem divina e abre precedentes para que outras pautas antibíblicas ganhem espaço nos púlpitos.

Pela via acadêmica, insufladora, em muitos casos, de uma repulsa ao Evangelho e ao Cristianismo, o conceito de patriarcado é frequentemente alvo de severas críticas antropológicas e sociológicas que o definem como uma estrutura puramente opressiva ou uma “máscara para o machismo”. Contudo, há uma distinção fundamental entre as distorções do pecado humano e o padrão instituído por Deus na Criação.

O patriarcado, sob a perspectiva bíblica, baseia-se na responsabilidade espiritual atribuída ao homem desde o Éden para a proteção feminina. Este modelo impõe ao homem o dever de proteger, prover e liderar sacrificialmente sua família e a comunidade de fé. Longe de autorizar a humilhação ou o comportamento violento, as Escrituras ordenam que os maridos amem suas esposas “como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela” (Efésios 5:25).

O machismo é uma patologia decorrente da queda humana com índices alarmantes no mundo secular, ou seja, em homens sem convicções profundas da fé cristã. Por isso, o patriarcado bíblico é entendido como uma barreira de proteção para a dignidade da mulher, conferindo-lhe honra e cuidado.

Agora, a atuação de pessoas infiltradas dentro das congregações constitui um ato de profunda falsidade. Ao utilizarem a linguagem da fé, a liturgia e o ambiente sagrado para promover agendas como a legalização do aborto ou a desconstrução da moralidade sexual judaico-cristã, esses indivíduos revelam uma desconexão absoluta com o Espírito Santo. Trata-se de um engano planejado: eles desfrutam da comunhão dos santos enquanto trabalham ativamente para destruir os alicerces teológicos da comunidade que os acolheu. Essa hipocrisia é severamente condenada por Deus, pois tenta camuflar a rebelião espiritual com um verniz de piedade formal.

A presença de um infiltrado que utiliza o ambiente eclesial para propagar o comunismo e o movimento woke representa uma tentativa direta de substituir a centralidade do Evangelho por uma cosmovisão puramente materialista e revolucionária. Sob o disfarce de um falso altruísmo e de uma suposta justiça social, esse indivíduo opera de forma estratégica para minar os valores absolutos da fé cristã, promovendo a luta de classes, o relativismo moral e a desconstrução da família tradicional. Ao instrumentalizar o púlpito e os pequenos grupos para validar pautas seculares que destroem a herança judaico-cristã, esse infiltrado comete a maior das hipocrisias: usa o nome de Cristo para guiar as ovelhas em direção a ideologias ateístas e anticristãs, cujo histórico e objetivos reais visam o enfraquecimento e a posterior subjugação da própria Igreja.

Para preservar sua integridade, a Igreja deve reativar o seu senso de alerta espiritual por meio das advertências contidas no Novo Testamento. Em 2 Coríntios 11:13-15, o apóstolo Paulo adverte que “tais homens são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo”, lembrando que o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz. Jesus, no Sermão do Monte, exorta em Mateus 7:15: “Acautelem-se dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores”. A avaliação de qualquer liderança ou ensinamento deve basear-se na fidelidade à verdade e na retidão de vida. O livro de Judas 1:4 reforça a realidade desse perigo ao afirmar que “certos homens, cuja condenação já estava registrada há muito tempo, introduziram-se secretamente no meio de vocês”, caracterizando-os como ímpios que transformam a graça de Deus em libertinagem.

A defesa da fé cristã contra a infiltração ideológica exige firmeza doutrinária, apego intransigente às Escrituras e a coragem de confrontar o erro. Somente por meio do discernimento espiritual e da aplicação rigorosa da verdade bíblica a Igreja poderá se manter purificada e protegida contra os ardis dos enganadores.

 

quarta-feira, 7 de maio de 2025

E se Savonarola estivesse vivo hoje?

 


Certamente, Jerônimo Savonarola não pouparia de denunciar os cardeais mais cotados para assumir o “papado” hoje devido às suas ideologias impregnadas pela cultura woke e pela política progressista. Não obstante, pecados morais que são apenas conhecidos pelo alto clero não passariam batidos, pois o profeta de Deus os alardearia pelos quatro cantos da Itália, tornando-os públicos e demonstrando como muitos homens são repreensíveis. Na época de Savonarola, inúmeros fatos ocorreram que nos fazem apresentar a hipótese acima. Vejamos um texto interessante sobre isto:  

“Savonarola não dirigiu suas denúncias apenas ao povo de Florença. Ele atacou a corrupção na Igreja, à sua frente, ao clero, à hierarquia e ao próprio papa. Rodrigo Bórgia, cujo nome papal era Alexandre VI, tornou-se papa em 1492. Acreditava-se amplamente que ele influenciou a eleição a seu favor por simonia, embora um autor duvide dessa afirmação. 19 Historiadores protestantes e católicos romanos concordam que Alexandre VI foi um papa pouco santo: "Seu pontificado de onze anos seria o mais deplorável de toda a história do cristianismo: com Alexandre VI , Bórgia, a Igreja afundou em suas profundezas de degradação", escreve Daniel-Rops. 20 O historiador católico romano francês acrescenta que Alexandre era "o mais culpado no campo da moral... [ele teve] casos amorosos com várias... mulheres... a presença de [sua] grande família, toda ela fruto de paixão ilícita, em torno do sucessor de São Pedro deu origem a um escândalo considerável." 21 De la Bedoyere escreve sobre o papa: "Ele não era, acreditamos, um monstro nem um homem de licenciosidade desenfreada". 22 Daniel-Rops discorda, escrevendo que o papa tinha "um temperamento hedonista, incapaz de resistir a tentações de qualquer tipo". 23 Por mais que se queira minimizar ou acentuar as fraquezas morais do papa, ele certamente não pode ser considerado como alguém que demonstrou a "irrepreensibilidade" exigida de um oficial (1 Timóteo 3:10; Tito 1:7) e, portanto, não é surpreendente que Alexandre tenha atraído duras críticas do púlpito de Florença.

Quando a notícia de um estranho pregador profético agitando Florença chegou a Alexandre, ele ficou inicialmente intrigado e desejou ouvir o frade pessoalmente. Savonarola se escusou de comparecer a Roma alegando problemas de saúde. "Não há", escreve Van Paassen, "o menor indício de má vontade ou suspeita por parte de Alexandre em relação a Savonarola nos primeiros anos do novo pontificado." 24 O papa realmente não se importava com a diatribe do frade contra a imoralidade, "enquanto Savonarola trovejava contra o luxo e a imoralidade, Alexandre o considerava inofensivo." 25 Havia muitos pregadores moralistas em toda a cristandade fulminando contra os abusos clericais, e o papa conhecia os rumores aos quais seu estilo de vida moral estava associado. O que tornava Savonarola diferente era sua alegação de percepções proféticas. Mais alarmante para o papa era a associação de Savonarola ao flagelo iminente com o rei da França. Alexandre, como muitos dos papas medievais, temia qualquer ameaça ao seu poder. Corrupção moral, ou mesmo aberração doutrinária, não o preocupavam tanto, desde que a autoridade da Igreja, a sua própria autoridade, não fosse questionada. A verdadeira questão para Alexandre era política. O fato de Savonarola ter incitado os florentinos a acreditarem que os franceses eram seus aliados impediu Florença de se juntar à "Santa Liga". Essa aliança, composta pelo papa, o imperador, o rei da Espanha, a República de Veneza e o Duque de Milão, foi organizada para defender a Itália contra os turcos e proteger os direitos do papa. Seu objetivo imediato era expulsar os franceses da Itália. 26 Florença recusou-se a se juntar à Liga porque precisava da ajuda de uma potência estrangeira, a França, para impedir o retorno dos Médici, que haviam sido déspotas na cidade por muitas gerações. Tendo estabelecido uma república devido em grande parte à influência de Savonarola, pretendiam mantê-la, mesmo que isso significasse se opor às ambições políticas do papa. “[Alexandre] continuou a achar a cidade intratável devido, como ele acreditava, à ascendência de Savonarola na cidade.” 27

Em julho de 1495, Alexandre escreveu ao frade convocando-o a comparecer a Roma para prestar contas de suas profecias. O breve papal foi cordial: "Ao nosso bem-amado filho, saudações e a bênção apostólica..." 28. Seja porque Savonarola recusou o convite por suspeitar que o papa queria lançar dúvidas sobre suas profecias, 29 ou porque supôs que tal convite resultaria em sua prisão ou morte em Roma, 30 ou por algum outro motivo, ele se recusou a ir, desculpando-se por problemas de saúde e explicando ao papa que sua presença era necessária em Florença para supervisionar as reformas morais que Deus havia concedido à cidade.

O próximo memorando de Alexandre (setembro de 1495) foi menos cordial. Foi dirigido ao mosteiro vizinho de uma ordem rival, os Franciscanos, e referia-se a "um certo Frei Jerônimo de Ferrara [que]... foi levado pela conturbada situação na Itália a tal ponto de loucura a ponto de declarar que foi enviado por Deus e que mantém conversas com Ele". 31 O papa ordenou a reunificação do mosteiro de San Marco, de Savonarola, com a congregação lombarda. Dessa forma, Savonarola "não seria mais um provincial, mas simplesmente um prior entre dezesseis, sujeito à supervisão rigorosa de um vigário-geral, que poderia transferi-lo para outro convento a qualquer momento". 32 Savonarola sabia que suas reformas estariam em perigo se ele não tivesse mais controle sobre o mosteiro em Florença. Portanto, apelou diretamente ao papa, lamentando que Alexandre tivesse sido induzido a acreditar em seus oponentes, que tentavam desfazer a obra do Senhor. O papa ignorou os apelos de Savonarola, e Savonarola, por sua vez, desconsiderou as exigências do papa de que ele não pregasse. O papa não pôde mais tolerar tal desafio à sua autoridade e, em 13 de maio de 1497, emitiu o edito de excomunhão. Os motivos para sua excomunhão foram apresentados:

Ele disseminou doutrinas perniciosas para escândalo e grande tristeza das almas simples. Já lhe havíamos ordenado, em virtude de seus votos de santa obediência, que suspendesse seus sermões; mas ele se recusou a obedecer e alegou várias desculpas que nós também aceitamos graciosamente, na esperança de convertê-lo com nossa clemência... ele persistiu em sua teimosia e, portanto, ipso facto , incorre em nossa censura... ele é uma pessoa excomungada e suspeito de heresia. 33

Assim que o edito chegava a Florença, um desastre atingiu a família de Alexandre, o que muitos dos apoiadores de Savonarola consideraram um julgamento de Deus sobre o ímpio pontífice. Em junho de 1497, o filho favorito de Alexandre, Juan, o Duque de Gandia, foi assassinado e seu corpo recuperado do Rio Tibre. Savonarola, movido pela compaixão, escreveu ao papa para confortá-lo. De la Bedoyere descreve a cena:

O severo e asceta Profeta de Florença, que, superando seus sentimentos por um indigno Pontífice da Igreja, lembrou-se do homem e lhe escreveu: 'A fé, santíssimo Padre, é a única e verdadeira fonte de paz e consolação para o coração do homem. Que Vossa Santidade responda a este chamado e verá quão rapidamente a tristeza se transforma em alegria. Qualquer outro consolo é trivial e enganoso. Só a fé traz consolação de um país distante. Que Vossa Santidade, então, leve adiante a obra da fé pela qual trabalho até a prisão e não dou ouvidos aos ímpios. Estas coisas vos escrevi sob o impulso da caridade e com toda a humildade, desejando que Vossa Santidade encontre em Deus aquele verdadeiro conforto que não engana. Que Ele vos console em vossa angústia.' Abalado pelo assassinato de seu filho, Alexandre pôde por um momento atender ao apelo do frade. O pecador, em sua dor e castigo, ergueu as mãos para tocar, ainda que fugazmente, o manto do santo .

A dor de Alexandre foi tão intensa que, por um tempo, ele considerou reformar seus costumes e os costumes da Igreja. Mas essa determinação durou pouco. "Alexandre", explica de la Bedoyere, "era totalmente incapaz da resistência e perseverança necessárias para levar a cabo a reforma completa da Igreja, que, num momento de angústia espiritual, ele conseguiu pôr em prática." 35 Além disso, poucas horas depois de ler as condolências de Savonarola, a ira do papa foi reacendida. Ele falou da carta como

um ato de insolência desprezível. Ele havia sido insultado, afirmou, em sua dignidade de Vigário de Cristo. A frase específica na missiva do frade que mais lhe despertou ressentimento foi a referência à disposição de Deus de "passar por alto todos os nossos pecados". O papa agora via nessa frase uma alusão aos seus próprios erros passados. 36

Savonarola inicialmente obedeceu à ordem de excomunhão e desistiu de pregar. Entre maio de 1497 e fevereiro de 1498, ele permaneceu em silêncio. Quanto mais tempo permanecia fora do púlpito, pior se tornava a moral do povo. Portanto, Savonarola foi convidado pelas autoridades a retornar ao púlpito para conter a onda de maldade que ameaçava a cidade novamente. Em 11 de fevereiro de 1498, ele contestou a validade de sua própria excomunhão e atacou a autoridade do papa: aquele que emite ordens contra a caridade não deve ser obedecido; o papa, ao emitir o decreto de excomunhão, não está agindo sob a autoridade de Cristo. "O papa, a menos que seja guiado como instrumento de um agente superior, 'não é melhor do que vocês mesmos'; ele não pode exercer poder porque não é movido por nenhuma mão orientadora; ele é 'uma ferramenta quebrada'." 37 A excomunhão "se destaca em contraste com a boa vida e, portanto, procede do diabo." 38

É esse desafio à autoridade papal que ocasiona as críticas aos autores católicos romanos. Não importa quão perverso Alexandre tenha sido, não importa quão corrupta a igreja fosse em seu clero e hierarquia, ninguém tem a liberdade de impugnar o ofício do papado . De la Bedoyere fica particularmente escandalizado pelo fato de Savonarola ter ignorado o papa para aguardar "as ordens de Alguém que era superior ao papa e a todas as criaturas". 39 "Desafiar a igreja visível" foi "de todas as suas ações a mais difícil de defender". 40 "O frade certamente tinha o direito de apontar a corrupção da moral, mesmo na corte papal e em relação à pessoa do próprio Santo Padre, mas não de negar sua autoridade ". 41 Daniel-Rops concorda: "Em seus repetidos ataques a Roma, o dominicano distinguia cada vez menos entre Alexandre, o homem, e Alexandre, o papa, e seu ataque aos Bórgia estava se tornando, assim, um ataque ao próprio Vigário de Cristo". 42 Parker escreve:

No confronto direto entre os dois homens, pode-se afirmar com justiça que Savonarola provocou o papa além dos limites razoáveis... Savonarola foi além dos limites ortodoxos, e perigosamente, ao definir a obediência e o lugar do julgamento individual para mostrar se qualquer autoridade na Igreja deveria ou não ser aceita... Todo indivíduo tem o direito de resistir a uma ordem corrupta, de apelar em última instância ao próprio Cristo, e ao afirmar isso, Savonarola não foi menos radical do que Wycliffe ou Hus antes dele, ou Lutero depois. 43

Savonarola tinha mais uma carta na manga. Carlos VIII não havia conseguido implementar a reforma necessária e, enquanto aquele papa corrupto permanecesse na cátedra de São Pedro, não haveria melhoria nos costumes da Igreja. Em fevereiro de 1498, o frade excomungado enviou cartas pessoais aos soberanos da Espanha, Inglaterra, Hungria, Alemanha e França, instando-os a convocar um concílio geral para depor o papa, que se mostrara um líder indigno da cristandade.

A Igreja está repleta de abominações, do alto da cabeça à sola dos pés. No entanto, não só não aplicais remédio algum, como também prestais homenagem à causa dos males que a contaminam... Agora, testifico, Deus sendo minha testemunha, que este Alexandre não é papa, nem pode ser considerado como tal. Deixando de lado o pecado mortal da simonia, pelo qual obteve a cátedra papal e vende diariamente os benefícios da Igreja ao maior lance, e também deixando de lado seus outros vícios evidentes, declaro solenemente que ele não é cristão e não acredita em Deus. A infidelidade não pode ir além disso. 44

Este foi um ato de desespero e extremamente perigoso, mas Savonarola agiu por amor à Igreja. Lembre-se da bula Execrabilis de 1460, quase quarenta anos antes, quando o Papa Pio II proibiu todos os apelos a concílios. Aqui estão algumas palavras dessa bula papal:

… um abuso execrável e inaudito em épocas passadas surgiu em nosso tempo, a saber, que algumas pessoas, imbuídas do espírito de rebelião, presumem apelar para um futuro Concílio do Romano Pontífice… ordenamos que ninguém ouse, sob qualquer pretexto, apelar de qualquer uma de nossas ordenanças, sentenças ou comandos e daqueles de nossos sucessores… se alguém, de qualquer status, posição, ordem ou condição… infringir isto… incorrerá ipso facto em sentença de anátema, da qual não poderá ser absolvido exceto pelo Romano Pontífice e no momento da morte… Portanto, não é permitido a nenhum homem infringir ou se opor por perversão audaciosa esta carta de nossa vontade, pela qual condenamos, reprovamos, anulamos, anulamos, decretamos, declaramos e ordenamos o supracitado. Se alguém, no entanto, tentar fazê-lo, que saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-Poderoso e de São Pedro e Paulo, Seus Apóstolos. 45

De la Bedoyere chama as ações de Savonarola de "histéricas". 46 Certamente, eram perigosas. Infelizmente para Savonarola, nenhuma de suas cartas chegou ao destino e várias foram enviadas ao próprio papa! Agora o papa tinha provas da traição do frade. O rompimento entre Alexandre e Savonarola era irreparável.” (https://www.cprf.co.uk/articles/savonarola.htm)

Que a crise religiosa manifestada hoje possa levar muitos a refletirem como o autêntico cristinanismo dentro do catolicismo romano foi abandonado há séculos e possam render-se ao fiel Evangelho de Cristo que não permite mistura nem adaptações.

Referências

19 De la Bedoyere, Intrometido , p. 87. Deve-se notar que De la Bedoyere se esforça para escrever um relato favorável ao Papa Alexandre VI, desculpando seus vícios da melhor maneira possível. Portanto, o leitor pode não se surpreender ao descobrir, no final do livro, tanto o Nihil Obstat quanto o Imprimatur da Igreja Católica Romana.

20 Daniel-Rops, História da Igreja , vol. 4, p. 222; itálico dele.

21 Daniel-Rops, História da Igreja , vol. 4, pp. 224-225.

22 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 108.

23 Daniel-Rops, História da Igreja , vol. 4, p. 223.

24 Pierre van Paassen, Uma coroa de fogo: a vida e os tempos de Girolamo Savonarola (Nova York: Charles Scribner's Sons, 1960), p. 112.

25 Van Paassen, Coroa , p. 266.

26 William H. Crawford , Girolamo Savonarola: Um Profeta da Justiça (Cincinnati, OH: Jennings e Graham, 1907), p. 168.

27 E. HS Horsburgh, A vida de Savonarola (Londres: Methuen & Co., 1909), p. 155.

28 Rachel Erlanger, O profeta desarmado: Savonarola em Florença (Nova York: McGraw-Hill Book Company, 1988, p. 138.

29 Erlanger, Desarmado , p. 139.

30 Crawford, Profeta , p. 174.

31 Erlanger, Desarmado , p. 142.

32 Erlanger, Desarmado , p. 166.

33 Van Paassen, Coroa , p. 248.

34 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 24.

35 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 94.

36 Van Paassen, Coroa , p. 254.

37 Horsburgh, Savonarola , pág. 162.

38 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 194.

39 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 192.

40 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 191.

41 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 174; itálico meu.

42 Daniel-Rops, História da Igreja , vol. 4, pág. 232.

43 G. HW Parker, História da Igreja Cristã , vol. 2 (Boston, MA: Hendrickson Publishers, repr. 1994), pp. 212-213.

44 Van Paassen, Coroa , p. 267.

45 John B. Morrali e Sidney Z. Zehler (orgs.), Igreja e Estado através dos séculos (Nova York: Biblo and Tannen, 1928), pp. 132-133.

46 De la Bedoyere, Meddlesome , p. 54.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Princípios bíblicos e a anticoncepção

Métodos sobre o controle de natalidade podem ser um assunto controverso entre muitos cristãos, mas, lembremo-nos, antes de qualquer controvérsia deve prevalecer a resposta objetiva da Bíblia Sagrada. Essa controvérsia surge em razão de alguns dizerem que a Bíblia não traz abordagens específicas sobre as formas permanentes e modernas de impedimento da concepção natural, como laqueadura ou vasectomia, sendo desnecessário o debate porque a deliberação sobre o assunto seria de livre aceitação quanto a intervenção humana ou não. Todavia, como outros, não compactuamos com o referido argumento. Antes, acreditamos existir obviedade na questão de a Bíblia não ser específica e procuramos ensinar a fé em Deus e confiança em seus propósitos para reger essa situação. Tais procedimentos eram inconcebíveis nos tempos da Igreja Primitiva e na Antiguidade. Pensá-los e ensinar contra eles no contexto bíblico, então, seria impróprio e extemporâneo. Contudo, o Santo Espírito inspirou coerentemente os escritores do cânon revelando princípios bíblicos poderosos capazes de revelar o perfeito entendimento os quais devem reger nosso entendimento, coração e ação quanto a preservação da virtude cristã e da fé ante a mutilação ou impedimento do corpo. Citaremos apenas dois.

Devemos reconhecer, primeiramente, que os filhos são um presente de Deus (Salmo 127:3-5). Os filhos não são fardos para carregar, mas bênçãos para receber com alegria. De uma perspectiva bíblica, todo casal deve querer ter filhos. A incapacidade de ter filhos, por outro lado, era considerada uma maldição, mas poderia ser remediada pela providência divina, enquanto a capacidade de conceber uma bênção. Lembremo-nos bem dessas afirmações porque o fato de Deus intervir em mulheres estéreis para fins de concepção demostra a grande contrariedade divina quanto ao impedimento de tê-los.

Outro ponto, o útero é frequentemente referenciado na Bíblia como um espaço sagrado e significativo, frequentemente descrito como estando sob a alçada da vontade de Deus. As gestações intervencionais (Sara, Raquel, Ana e Isabel) e a milagrosa (Maria) enfatizam a percepção do parto como entrelaçado com o propósito divino. A Bíblia afirma repetidamente que a conjugação da santidade de vida e a orquestração divina da concepção e do nascimento propicia a realização dos propósitos de Deus e não dos nossos. Dada essas informações, alguém poderia argumentar que qualquer intervenção para privar a concepção por meio de métodos que incapacitam o corpo, como a laqueadura e vasectomia, pode parecer interferir no plano de Deus para uma nova vida em potencial. Disto não temos dúvida, pois qualquer interferência humana no corpo ocasiona a inviabilidade da ação programada naturalmente e providencialmente preparada para um dos mais belos atos da vida: a chegada de mais um ser humano ao mundo.

Se cristãos evangélicos pensam que podem agir administrando o propósito divino como se donos dele fossem, vai um grande exemplo do catolicismo romano para eles. Muito embora tenhamos muitas divergências doutrinárias com o catolicismo porque seus dogmas prejudicam a salvação, no supracitado quesito, dão uma aula de fé e honra aos princípios bíblicos. Vejamos um pequeno trecho abordando a questão das consequências espirituais e do arrependimento moral:

Pois bem: a vasectomia e a laqueadura violam diretamente a primeira finalidade do matrimônio, já que alteram o funcionamento do sistema reprodutivo para que o indivíduo continue tendo relações sexuais, mas seja incapaz de gerar filhos. Isso é um pecado mortal, sim; mas não apenas porque “a Igreja disse que é”. Trata-se, como vimos, de uma conduta frontalmente contrária à hierarquia de valores do matrimônio.

— Quem cometeu esse pecado e se arrependeu, deve mesmo procurar a reversão do procedimento? De onde surge esse dever?

Sim, quando alguém se arrepende, tem o dever moral de procurar a reversão dessas operações, dever este que decorre da própria natureza do verdadeiro arrependimento: assim como o ladrão arrependido tem o dever moral de restituir a coisa roubada, quem fez vasectomia ou laqueadura tem o dever de, ao menos, procurar a reversão.[1]

Concluindo, vimos apenas dois princípios bíblicos porque julgamos suficientes para nos lembrar dos métodos anticonceptivos como fugas da vontade e dos propósitos divinos. Entender sua prática como uma liberdade opcional e circunstancial fere a firme convicção de dependência em Deus e da guarda de sua Palavra. Ora, se tantos outros (católicos, pessoas comuns e sem religião) acreditam na exaltação da concepção natural quanto mais se espera de cristãos que falam em nome do Criador da vida. Seria vergonhoso se não agissem nem pensassem assim.

 

Pr. Heládio Santos     



[1] https://padrepauloricardo.org/blog/esta-verdade-cai-como-uma-bomba-nas-familias