O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.
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segunda-feira, 25 de abril de 2011

SEPARADOS DO MUNDO

E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus (Rm 12:2).

Alguém já disse que a igreja é como um barco no mar do mundo, pois assim como o barco deve estar na água, mas ela não deve entrar no barco, o que poderia ocasionar o seu afundamento, assim também o crente está no mundo, mas não pode ser influenciado por ele.

A cultura de um povo é a projeção de seus valores sobre os objetos. Não podemos, então, esperar que uma cultura, principalmente a nossa, deixe de ser uma túnica manchada pelo pecado (Judas 23). Vivemos em meio a uma geração cuja postura ideológico-filosófica relativiza a moral, o certo e o errado, consagrando a ética subjetiva e situacional, construída existencialmente por cada um em particular. Esta falta de padrão universal de apreciação manifesta-se na arte expressionista, nas pinturas de significação obscura, em que cada um pode ver uma coisa diferente.

O homossexualismo é visto como opção de liberdade, daí a luta pelo “casamento” de gays, e o surgimento da moda que põe roupa de homem na mulher e roupa de mulher no homem, além de propagação do uso de roupas indefinidas como a saia-calça. As mulheres passam a ter cabelo curto, enquanto os homens a ter cabelo comprido.

O alcoólatra é visto apenas como um doente que precisa ser tratado e não como um pecador que precisa se arrepender para ser libertado por Deus. O homem é considerado um ser sem alma imortal, um mero produto da evolução, um amontoado de sensações e impulsos, daí porque considera-se a vida “expressiva” e sem restrições como sendo a vida feliz, o que resulta na libertinagem sexual, além do uso de roupas indecentes, músicas e danças sensuais.

As músicas mundanas, a moda, o ensino educacional, grande parte da literatura e dos programas de televisão estão afetados pelo pecado, compondo a grande estrutura maligna chamada na Bíblia de mundo (I João 5: 19). A igreja, de certo modo, deve ser uma contra-cultura, deve nadar contra a correnteza. Isso não quer dizer, entretanto, que não podemos acolher certos elementos moralmente não comprometidos de nossa cultura (I Cor. 7: 31). Isso, entretanto, não é uma sugestão para o isolamento, mas antes, é um desafio a que sejamos luminares no meio das trevas, como ovelhas no meio de lobos, tendo o viver honesto entre os gentios (I Pedro 2: 12).

Eis o que Jesus queria mostrar aos discípulos quando lavou-lhes os pés. Nós precisamos ser lavados constantemente pela Palavra de Deus, porque estamos no mundo, “pisamos e andamos na terra”, correndo o risco de ter sujo os “pés”: Disse-lhes Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo (João 13:10). Precisamos ser continuamente podados pela Palavra de Deus (João 15:2,3).

A Bíblia diz em Romanos 12:2 que não devemos nos conformar com esse mundo. O mundo está ao nosso redor como um rio de forte correnteza e tenta nos impor a sua forma, de fora para dentro, impedindo a liberdade interior. Os homens não se apercebem que os meios de comunicação e o sistema educacional lhes dita como devem viver, determina-lhes uma cosmovisão. O incrédulo, morto espiritualmente, oco por dentro, não tem outra opção senão a de seguir o que a Escritura chama de curso deste mundo (Efésios 2:1). O crente, entretanto, foi espiritualmente vivificado e tem a palavra viva de Deus dentro de si (I Pedro 1: 23). O crente, portanto, não deve se conformar com este mundo, mas deve ser transformado pela palavra interior. Ser transformado é mudar de forma, transcendendo ou transpondo a outra. O crente não foge do mundo como os monges, mas, antes, vence o mundo por sua fé ( I João 5:4, 5). Ser transformado é ser modelado de dentro para fora pela Palavra de Deus (João 7: 38) e, logo, é ser livre (II Cor. 3: 17).

O crente não deve ser formado pelos falsos valores deste mundo, embora não deixe de conhecê-los, inclusive para refutá-los. O crente deve ser moldado pela palavra interior. É a Palavra de Deus quem nos separa do mundo:

Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade (João 17:14-17).

O crente deve ser diferente do mundo e suficientemente autêntico para suportar a hostilidade dos que não temem a Deus. John Bunyan, na sua alegoria intitulada O Peregrino, registra a passagem de Cristão e Fiel pela feira das vaidades:

Primeiro, os peregrinos trajavam vestes muito diferentes daquelas usadas por qualquer um dos que negociava na feira. Por conseguinte, as pessoas da feira não tiravam os olhos deles. Alguns diziam que eram idiotas, outros que eram lunáticos mendicantes, outros ainda, bárbaros estrangeiros.

O mundo cria “máscaras” para as pessoas de tal maneira que elas valem não pelo que são, mas pela “máscara” que usam. Chamam essas “máscaras” de status social. Assim o mundo aliena as pessoas de si mesmas, escondendo-as atrás de disfarces. O mundo divide os homens. Quando nos convertemos somos espiritualmente inclusos em Cristo e dele revestidos. Apesar de termos diferentes funções no corpo de Cristo, somos todos iguais no Senhor:

Porque quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gálatas 3:27,28).

Para sermos inclusos em Cristo pela fé temos que renunciar o mundo e, logo, suas divisões artificiais (Filipenses 3:4-9). Paulo adverte que não podemos andar segundo os homens (I Co 3:3). Tiago diz:

Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juizes de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado? (Tiago 2:1-7)

Em Romanos 12:2, conforme já vimos, Paulo diz que não devemos nos conformar com o mundo. O versículo de número um, entretanto, fala que devemos apresentar a Deus as nossas vidas como culto verdadeiro. O texto sugere, em outras palavras, que quem se conforma ao mundo se entrega a ele e, logo, lhe presta culto, cai em idolatria. Tiago tem um raciocínio semelhante na sua epístola (Tiago 4:4-5). Ora, o modo mais evidente em se conformar com o mundo é seguir as imposições sensuais e altivas da moda. Em seu livro O Banquete, escrito em forma de diálogo, o famoso filósofo dinamarquês, Kierkegaard, traz o seguinte, no discurso de alfaiate, um personagem fictício, sobre a mulher:

...a moda é uma hipócrita exposição da indecência, autorizada porque respeita as conveniências... me sacrifico para ser o sumo sacerdote no culto desse ídolo... A mulher quer sempre estar na moda, constantemente; não pensa em outra coisa. A mulher é muito espirituosa, mas emprega tão mal o seu espírito como o filho pródigo emprega o dinheiro... nada há, por mais sagrado que lhe pareça, que não reduza às dimensões do mero enfeite de que a moda é a expressão por excelência; e não devemos estranhar que ela assim pense, porque a moda é para ela sagrada... A mulher veste-se à moda para atrair a atenção das outras mulheres, e sabe ver, num lance de olhos, se está ou não a ser observada e admirada... saiba ele (o homem) que a mulher não lhe pertence, como não pertence a outro homem qualquer; a mulher está dominada por esse fantasma que surgiu do monstruoso comércio da reflexão feminina consigo própria: a moda. A mulher deveria ser obrigada a jurar pela moda, para que os seus juramentos pudessem ser tidos por verdadeiros; porque a moda é objeto constante dos seus pensamentos, e tema que está sempre em relação com todos os outros assuntos de que se ocupe... Se alguma vez eu descobrir uma moça cuja modéstia humilde não tenha sido ainda corrompida pela indecente frequentação da sociedade feminina, farei o possível por que ela caia. Atraí-la-ei às minhas redes, e, depois de presa, levá-la-ei ao lugar de sacrifício, quero dizer à minha loja de modas... Quando ela parecer mais louca do que uma internada em hospital de alienados, ou ainda mais extravagante, a ponto de nem sequer ser admitida no hospital, então poderá sair da minha casa; está encantada; porque está encantada, nenhum homem, nenhum deus, conseguirá agora atemorizá-la; é que ela agora... está na moda... Se a mulher tudo reduziu e referiu à moda, quero eu prostituí-la graças à moda, como ela merece; não tenho tréguas, eu, alfaiate; a minha alma ferve só de pensar na minha tarefa; quero que a mulher acabe por se mostrar de brincos na ponta do nariz...

Jesus disse que tínhamos que ser como as crianças para entrar no Reino de Deus. Uma das características da criança é que ela valoriza os outros pelo que eles são, pois ela ainda não está a par das máscaras sociais (status). Quando uma criança discrimina pessoas, o faz porque foi influenciada por um adulto ou porque confunde o feio com o mau por não discernir entre a intuição ética e a intuição estética.

No livro O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry está escrito:

Se lhes dou detalhes sobre o asteróide B 612 e lhes confio o seu número, é por causa das pessoas grandes. As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não pergunta nunca: ‘Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?’ Mas perguntam: ‘Qual a sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?’ Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: ‘Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...’ elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso dizer-lhes: ‘Vi uma casa de seiscentos contos’. Então elas exclamam: ‘Que beleza!’.

São as divisões artificiais (máscaras sociais) que fazem aflorar o orgulho (“não é próprio da minha posição fazer uma atividade servil assim!”) e as lisonjas hipócritas. Como os ricos sempre tiveram uma “máscara” de elevada significação no mundo, Jesus disse que dificilmente um rico entraria no Reino de Deus, pois ele teria que renunciar o apego às riquezas.

A criança também caracteriza-se por não aceitar este mundo como real. De algum modo, ela acha que deve haver um outro mundo, daí as suas fantasias, que para ela são muito mais verdadeiras. Deve haver um outro lugar onde o mal sempre perde e o bem sempre vence. C. S. Lewis nas suas Crônicas de Nárnia fala de crianças que entraram por portais mágicos em um outro mundo (Nárnia), onde elas se tornaram príncipes e princesas e, quando elas cresceram foram para lá novamente através da morte, exceto uma que foi condenada a ser adulta para sempre (inferno). Foi aí que descobriram que a Nárnia da infância era apenas uma sombra da Nárnia real (céu). Nesta oportunidade veja o diálogo que aconteceu:

— Senhor — disse Tirian, após saudar a todos —, a não ser que eu tenha entendido mal as crônicas, deve haver mais alguém. Vossa Majestade não tem duas irmãs? Onde está a rainha Susana?

— Minha irmã Susana – respondeu Pedro, breve e gravemente — já não é mais amiga de Nárnia.

— É verdade — completou Eustáquio. — E cada vez que se tenta conversar com ela sobre Nárnia ou fazer qualquer coisa que se refira a Nárnia, ela diz: ‘Mas que memória extraordinária vocês têm! Continuam no mundo da fantasia, pensando nessas brincadeiras tolas que a gente fazia quando era criança!

— Essa Susana! — disse Jill. — Agora só pensa em ‘lingeries’, maquilagens e compromissos sociais.

Aliás, ela sempre foi louquinha para ser gente grande.

— Gente grande, pois sim! — disse Lady Polly. — Gostaria que ela crescesse de verdade. Quando estava na escola, passava o tempo todo desejando ter a idade que tem agora, e agora vai passar o resto da vida tentando ficar nessa idade. Tudo em que ela pensa é correr para atingir a idade mais boba da vida o mais depressa possível e depois para aí o máximo que puder. (A Última Batalha. Crônicas de Nárnia. Martins Fontes: São Paulo, 1997, pp. 160 e 161)

Que Deus nos faça como crianças para que herdemos o seu Reino!!

Rev. Glauco Barreira Magalhães Filho
Membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza

Prosperando através da aprovação de Deus

Escrever sobre o assunto prosperidade, no presente tempo, tem se tornado difícil. Principalmente porque, vivendo em uma época materialista, muitos cristãos estão se envolvendo com aquilo que a Bíblia diz ser contrário à vontade de Deus.

Tendo em vista o esclarecimento de algumas verdades bíblicas, quanto ao tema acima citado, iremos analisar alguns pontos procurando esclarecê-los à luz da Palavra de Deus.

Boa parte dos que professam a fé evangélica tratam seus bens como algo primordial, sem dar, lamentavelmente, seu devido valor espiritual, o que é prejudicial a nossa comunhão com Deus. Os meios que utilizaram para adquirir seus bens e o pão de cada dia foram, horrendamente, distintos daqueles que preceitua a Palavra de Deus. Formularam conceitos para justificarem suas ações e com isso denegriram os ensinamentos bíblicos. A importância dada ao trabalho honesto como uma possibilidade de ter prosperidade foi desconsiderada. Estes evangélicos preferem meios menos fatigantes para conquistarem seus ideais e, ainda ousam dizer que contam com beneplácito divino quando utilizam-se de certos artifícios perniciosos, tais como: premiações lotéricas, agiotagem, ganhos fraudulentos, etc.

A Bíblia condena acentuadamente o trabalho desonesto: Trabalhar com língua falsa para ajuntar tesouros é vaidade que conduz aqueles que buscam a morte (Pv 21:6), da mesma forma que censura o apego demasiado ao ganho financeiro: Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. (I Tm 6:10b). Ora, alguém que foi levado por tal vento de iniquidade certamente esqueceu-se da bondade de Deus, não creu que pelos meios corretos Deus o abençoaria dando-lhe pelo menos o sustento para sua vida. Agindo desta maneira manifestou mais uma forma de desonrar ao Senhor. As Escrituras, porém, ensinam àqueles que querem viver agradando a Cristo de modo diferente: Quando, pois, tiveres comido, e fores farto, louvarás ao SENHOR teu Deus pela boa terra que te deu. Guarda-te que não te esqueças do SENHOR teu Deus, deixando de guardar os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus estatutos que hoje te ordeno (Dt 8:10-11).

Questionando um pouco mais sobre a prosperidade perguntamos: Seria permitido ao crente ter abundância material? Qual o objetivo em tê-la? E de que maneira adquiri-la? Antes de respondermos as perguntas, lembremo-nos que as riquezas nos expõem a várias tentações (I Tm 6:9) e o cuidado com elas é indispensável. Vejamos: durante muito tempo, principalmente na Idade Média, conceituou-se como simplicidade de vida por alguns grupos da sociedade, a abstinência plena das riquezas e dos bens materiais, contestando assim radicalmente a tese bíblica: E o SENHOR virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía (Jó 42:10). Vemos aqui que Deus fez prosperar seu servo Jó. Não contestamos a isso! Deus manifestou algum propósito naquela situação. Mas, por outro lado, muitos influenciados pelo pensamento anterior, talvez, professam indelicadamente e sem discernimento, que nenhum rico poderá entrar no Reino de Deus. Todavia, a Bíblia instrui-nos da maneira correta acerca deste assunto. Dela retemos o aprendizado que coopera com a prudência e que nos faz responder esta afirmativa da seguinte maneira: Deus concede a determinados cristãos enriquecimento, para que estes disponibilizem seu capital e invistam na seara do Mestre.

Sermos prósperos é sinal, inicialmente, de muito labor: Quem muito semeia muito ceifará. A dedicação ao ofício que dignifica o homem possibilita ou não o aumento de seus haveres. É algo também que enriquece a auto estima, e nos ajuda saber que somos capazes de servir a Deus com a mesma força na sua seara (Jz 6:11-14). Lendo o livro de Eclesiastes vemos que Salomão faz alusão similar ao nosso pensamento: Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que sua alma goze do bem do seu trabalho... (Ec 2:24a). O Pregador faz também menção ao fato de ser Deus aquele que derrama sua benção sobre o trabalhador: ...Também vi que isto vem da mão do Senhor. (Ec 2:24b). Isto é um dom de Deus (Ec 3:13). Aquele que muito trabalha conscientemente e aplicando bem seus recursos, calculando seus gastos, terá oportunidades de progredir. É claro que a mão do Senhor determinará o seu benefício. Cotton Mather, não apelando para o mérito humano, e com o mesmo parecer do movimento puritano, certa vez afirmou: Em nossas ocupações estendemos nossas redes; mas é Deus quem coloca tudo o que vem nelas.

Por um outro lado, o trabalho imprudente, dará sobras de cansaço e um fardo elevado. Aliás, exortando-nos sobre este aspecto Salomão ainda nos orienta quando diz: Melhor é a mão cheia com descanso do que ambas as mãos cheias com trabalho, e aflição de espírito (Ec 4:6). Sendo bem realista o escritor suscita-nos a enxergar a provisão segura ao invés da opressão do trabalho. Por isso, irmãos, deixem de lado preocupações que servem somente para cauterizarem a fé, pois elas só turbam os corações que por vezes já estão enfadados. Tal desejo imoderado nada mais é do que pura vaidade.

Se por um equívoco alguém disser que seu trabalho não lhe proporciona condições de ter abundância material, não julgue tal situação como se Deus estivesse colocando-o como cobaia para usá-lo sem propósito. Glorifique a Deus pelo pouco que Ele concedeu: Em todo trabalho há proveito... (Pv 14:23a). Quem sabe se a tua condição espiritual não te permite ter muitos benefícios materiais. Não afirmo, todavia, que para qualquer crente ser próspero tem que estar pleno espiritualmente, nem estou afirmando que todo aquele que está no cume da espiritualidade pairará sobre ele a promessa de prosperidade. Se você possuísse muitos bens será que a relapsia e a insensibilidade a Deus não falariam mais altas em tua vida? As riquezas segundo o propósito de Deus são boas, mas envolvem uma espiritualidade sem igual. Requer do homem vigilância e prudência para não ser por elas enganado.

Vejamos o exemplo de Jacó e como Deus abriu-lhe as portas com tantas bênçãos. Na casa de Labão, seu tio, Deus era com ele. Não existia um sentimento descomedido naquele homem. Ele sabia por que estava ali, fazia sua parte com afinco e dedicação. Agora, os propósitos divinos caíram sobre o patriarca. Pela providência de Deus, Jacó seu servo, prosperou e alicerçou a nação que posteriormente ficaria conhecida como Israel.

No entanto, não confundamos a benção de Jacó no Antigo Testamento, pois havia uma promessa específica voltada para a nação israelita com fins de bênçãos materiais: Antes te lembrarás do SENHOR teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires riqueza; para confirmar a sua aliança, que jurou a teus pais, como se vê neste dia. (Dt 8:18). Houve necessidade de prosperidade, tendo em vista a edificação do povo como nação.

Há porém, quem julgue tal promessa como sendo de direito também dos bem-aventurados do Novo Testamento. Contudo, não nos deixemos levar pelo pensamento daqueles que afirmam ser obrigatório ao crente ser próspero. Se não for, os predicantes desta doutrina sugerem a presença de problemas com pecados e envolvem as pessoas em uma situação tenaz. Com esta imposição amedrontam seus adeptos e, certamente não terão os efeitos que julgam ter. Pessoas perdem a oportunidade de estar em paz de espírito devido a ansiedade de quererem possuir bens em abundância.

Lembro-me de Paulo quando escreveu aos crentes em Filipos e deixou-nos claro o cuidado que aquela igreja tinha com ele. Por que? O apóstolo encontrava-se em duras privações materiais: Muito me regozijo no Senhor pois finalmente renovastes o vosso cuidado a meu favor... (I Tm 4:10a). O santo ministro de Deus foi um mestre, com fé inabalável foi arrebatado até o céu onde teve visões celestes, mas mesmo assim passou necessidade. A Igreja dos filipenses o acolheu sendo seu auxílio naquele momento. Mas Paulo foi ainda mais objetivo: passou frio, cansaço, fome, perseguição... Mas como um eleito de Deus pôde dizer: Posso todas as coisas naquele que me fortalece. (Fl 4:13). E o que diriam os doutrinadores da prosperidade diante da vida de Paulo? Será que Paulo estava mal espiritualmente? Ou estava encobrindo algum pecado? É algo que gostaria de ouvir dos que defendem estes princípios.

A razão da nossa vinculação da prosperidade à vontade de Deus é encontrada no Salmo 127:1-2, que diz: Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil nos será levantar de madrugada e repousar tarde, comer o pão de dores. O Senhor é que dá aos seus amados o sono tranqüilo. A fonte é Deus. Sem ele não se produz de maneira adequada. Não tentemos, pois, realizar as coisas forçosamente, sem a iluminação do alto.

Na louca investida, muitos ainda, querendo possuir muitos proventos, acabam enveredando por outros caminhos. Um deles é apostar na sorte, ou noutras palavras, jogam com bilhetes de apostas em loterias, sorteios, etc. Existe um grande número de crentes que defendem tal idéia, porém, sinto em dizer: estão à deriva. Dizem que se ganharem algum prêmio beneficiarão a Igreja. Mas será isto bom? Relacionar ganhos típicos do mundo ímpio com a Igreja que deve ser pura e imaculada? Acredito que nossos candidatos a milionários, julgando-se futuros agraciados, mal percebem que são profundamente desinteressados pela Palavra de Deus e expõem-se a um testemunho de falta de fé. Quem é aquele que diz confiar em Deus e logo apela para meios gananciosos, mundanos e egoístas, senão aquele que não crê no Fiel Galardoador? Mas os cuidados deste mundo e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entretanto, sufocam a Palavra e ela fica infrutífera. (Mc 4:19).

Sorte no Antigo Testamento

O argumento que tenta justificar as apostas nestas jogatinas mundanas é quase sempre o mesmo. Busca-se no Antigo Testamento “motivos” para tal prática. Todavia, com argumentos que não têm ligação com o sentido em que são aplicadas. Um dos raciocínios mais utilizados é o da divisão territorial de Israel descrita em Números 26:55-56. O versículo diz: Todavia a terra se repartirá por sortes; segundo os nomes das tribos de seus pais a herdarão. Segundo sair a sorte, se repartirá a herança deles entre as tribos de muitos e as de poucos. “Ora”, dizem eles, “Se Deus separou por sortes a bênção de cada tribo, nós também poderemos receber a nossa semelhantemente”. Vamos apreciar paulatinamente o assunto até chegarmos a uma conclusão. Primeiramente, argumentaríamos o fato de haver uma situação justa. Todas as tribos seriam beneficiadas: a cada uma caberia a sua herança, segundo os que foram deles contados (Nm 26:54). Ao contrário do que acontece nos jogos de azar, quando uma ou poucas pessoas são premiadas.

Para entendermos uma segunda contra-argumentação, verifiquemos a intenção do Senhor Deus. Ele já havia determinado que as doze tribos seriam beneficiadas na divisão, ou seja, todas elas receberiam a herança pela promessa. Ora, se assim foi não seria inconsistente dizermos que a sorte serviu apenas para apontar o lugar, segundo a vontade de Deus, onde os grupos israelitas deveriam estabelecer-se. Era uma porção de terra que já havia sido demarcada pelas vitórias e conquistas dos judeus.

Uma terceira resposta seria dizer que, o texto citado acima, não se refere aos jogos e, não faz alusão a este tão encantado meio de “ganhar” dinheiro. Onde está então, o fundamento para sabermos que devemos apostar? Levemos em conta que a necessidade do sorteio foi para possibilitar ao sacerdote imparcialidade. Se ele dissesse que os da tribo de Levi, por exemplo, ficassem com as melhores porções de terra isto não nos faria imaginar que tal escolha ocasionaria muita confusão e o homem de Deus seria acusado de beneficiar determinadas tribos? A mesma coisa acontece em Levítico 16:5-10: E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para expiação do pecado e um carneiro para holocausto ...E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma pelo SENHOR, e a outra pelo bode emissário. Então Arão fará chegar o bode, sobre o qual cair a sorte pelo SENHOR, e o oferecerá para expiação do pecado. Mas o bode, sobre que cair a sorte para ser bode emissário, apresentar-se-á vivo perante o SENHOR, para fazer expiação com ele, a fim de enviá-lo ao deserto como bode emissário. Para evitar queixas e reclamações, Deus ordenou que assim se fizesse para estabelecer sua vontade ou do contrário o povo reclamaria de sua oferta. Uns, certamente, diriam que prefeririam que sua oferta tivesse sido considerada de uma maneira e não da que foi sugerida pelo sacerdote. Geraria contendas e facções. Consideremos, também, algo de suma importância: o povo não tinha o Espírito Santo, permanentemente, para que escolhesse e aceitasse tal oferta por inspiração do alto. Eis aqui mais um motivo para a ação de Deus. Mas não pensemos que se Deus permitiu naquele tempo permitirá hoje esta prática. Noutra ocasião, no tempo do profeta Miquéias, nos dias de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, o povo achou que toda e qualquer determinação de Deus seria conhecida através do lançamento de sortes. Errado! Deus reprovou e mostrou que não aceitava aquilo quando inspirou Miquéias a falar, e este lhes disse: Portanto, não terás tu na congregação do SENHOR quem lance o cordel pela sorte (Mq 2:5).

Sorte no Novo Testamento

Um outro caso que suscita questionamento é o da escolha de Matias como apóstolo. Aquele homem, que afirmo ter sido um servo exemplar (At 1:21-23), foi escolhido por sortes (Atos 1:26). Porém, procuremos discernir bem aquele fato. O que encontramos claramente na Bíblia é que Matias não foi considerado apóstolo por Deus, antes o próprio Senhor Jesus apareceu a Paulo (Saulo de Tarso) incumbindo-o do ministério. Deus não aceitou Matias como ministro por que a sorte, aos moldes do Velho Testamento, não determina mais a vontade de Deus no Novo Testamento: A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda a determinação (Pv 16:33). Antes, o lançar sortes tem uma conotação insinuantemente maligna e mundana nesta era da graça. Quando Jesus estava na cruz, o que fizeram com sua vestimenta? E, havendo-o crucificado, repartiram as suas vestes, lançando sortes, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Repartiram entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançaram sortes (Mt 27:35). Seria difícil de entender que houve um desrespeito tremendo na atitude dos guardas romanos? Colocaram algo de tão valioso, a túnica de mestre do Filho de Deus, como um objeto vulgar, tornando sem valor, fazendo o que? Lançando sorte! Isto, meu caro leitor, não é prática da Igreja pura, mas de um povo mundano. Mas, não é só na Bíblia que encontramos objeções a sorte. Até bem pouco tempo as leis brasileiras condenavam os jogos como vemos no art. 50 da Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941) e o art. 58 do Decreto-Lei nº 6.259, de 10 de fevereiro de 1944 — ambos os dispositivos apenavam os que praticavam os jogos de azar em geral e do jogo de bicho em particular.

Ora, se a sorte lançada ao acaso não for falta de fé em Deus, então, o que será? A Bíblia ensina-nos que somos reino e sacerdotes de Deus (Ap 1:8). O coração do crente está apto a ouvir a voz de Deus e dele receber instrução por graça e luz para resolução de problemas financeiros e quaisquer outros. O crente deve ter sua vida centralizada em Cristo, confiando n’Ele, nas suas promessas, reconhecendo a provisão divina: Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós (II Co 1:20). Levando em consideração a instrução de Salomão, rei israelita, que diz: A riqueza de precedência vã diminuirá, mas quem a ajunta com o próprio trabalho a aumentará. (Pv 13:11). Para que, então, perder tempo esperando o improvável se podemos lançar mão no arado e comermos com o nosso próprio suor, o que é virtuoso e louvável? Ainda, se a Igreja não foi achada jogando em cassinos, fazendo apostas ou marcando bingos em nenhuma ocasião, quando da sua formação, como então achar cabível tal posicionamento hoje?

O trabalho, sabemos, é algo agradável aos olhos de Deus. O próprio Senhor Jesus disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também (Jo 5:17). O nosso labor, dependendo de nossa situação espiritual, nos condicionará a termos abundância. Lembro que não é obrigação divina dar recursos em abundância por você está bem espiritualmente. Tal situação virá segundo o querer de Deus.

Sobre a Usura

Há também quem queira progredir às custas do trabalho dos outros. Não me refiro àqueles que tem empregados, antes, refiro-me àqueles que emprestam dinheiro com usura, isto é, os agiotas. Os tais especulam sobre os fundos concedidos com fins de obterem lucros exorbitantes. Não culpo somente o onzenário pela torpeza, mas também àqueles que vão até eles, confinando às vezes até a alma. A Bíblia admoesta-nos sobre esta prática, e diz: E, quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo. Não tomarás dele juros, nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem darás do teu alimento por interesse (Lv 25:35-37). Não está correto negociar com o dinheiro desta maneira. Podemos perceber qual deve ser a prática do genuíno cristão pelas palavras de Jesus: ...emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo... (Lc 6:35). Devemos ajudar àqueles que de fato precisam. Não incentivo ninguém a ajudar àqueles que não querem trabalhar, ficando por aí dependendo sempre de um e de outro. Jesus apregoou a termos cuidados e socorrer os sinceros carentes. Observando melhor os fatos, vemos o quanto há de opressão neste jogo de empréstimos a juros. As pessoas ficam angustiadas por verem seus débitos dia após dia crescerem, enquanto que os usurários deleitam-se e folgam-se pela multiplicidade do seu dinheiro. Estamos de comum acordo com o Livro dos livros quando aprendemos que nossos bens ou dinheiro podem ser usados sem tamanho desamor: Não dando o seu dinheiro à usura, e não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem (Ez 18:8). Uma exortação ao povo de Deus é jamais usar deste método para viver: Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como um usurário; não lhe imporeis usura (Ex 22:25). Prova o nosso temor a Deus e nosso amor para com o próximo. Quem tem isto como meio de trabalho deverá colocar em dias suas contas com Deus, pois você é mais devedor d’Ele, por conta disto, do que a soma daqueles que estão em débito contigo.

Conclusão

Àqueles que tornaram-se ricos neste mundo a custa de muito labor e dedicação, sem enveredar pela injustiça, a Bíblia tem uma exortação: Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos (I Tm 6:17). E, ainda: Aquele que confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem (Pv 11:28).

Deus determinará prósperos aqueles que Ele quiser. Não será uma fatalidade, e sim conseqüência de muito trabalho, e assim valorizaremos e faremos melhor uso daquilo que Deus nos concede. E sendo bem sucedido, o crente pode ter um estilo de vida simples (I Tm 6:7-10, Mt 8:20). A única coisa que mudará será a condição de disponibilizar seu patrimônio em prol do reino eterno ou ao auxílio comum, o que concorda com um pensamento que diz: O dinheiro não pode subir aos céus, mas pode realizar coisas celestiais na terra. Não necessitamos, obrigatoriamente, dar, vender ou desfazer-nos de nossos bens para podermos servir a Deus convincentemente. Servir a Deus, com os bens, consiste em entregar tudo nas mãos d’Ele, afinal de contas Ele é o dono de tudo (Êx 19:5-6, Sl 24:1 e Ag 2:8), e deles sermos apenas um mordomo bom e fiel.

Pastor Heládio Santos
Membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza