A
ascensão do jornalismo militante representa um desafio para a democracia
contemporânea. Ao abandonar a objetividade, setores da imprensa operam como
extensões de grupos políticos. Essa parcialidade se manifesta na proteção
velada a aliados, enquanto adversários são submetidos a um rigor
desproporcional, comprometendo a credibilidade pública.
Historicamente,
o jornalismo consolidou-se como o “cão de guarda” da sociedade, encarregado de
vigiar o poder e informar os cidadãos com base em fatos verificáveis. A
premissa central sempre foi a busca pela verdade e pela imparcialidade,
permitindo que a população formasse sua própria opinião sobre autoridades e
políticos. Contudo, o cenário atual tem demonstrado uma inversão preocupante
nessas prioridades.
Hoje,
assistimos à consolidação de uma mídia militante que, muitas vezes, falha em se
apegar aos fatos concretos. O que se observa é uma adoção velada de agendas
ideológicas, em que determinados políticos e autoridades recebem tratamento
benevolente e blindagem contra escrutínio, enquanto outros são alvo de
campanhas de desconstrução.
Essa
distorção é perigosa porque utiliza a credibilidade institucional da imprensa
para moldar a opinião pública em favor de interesses partidários. Quando a
narrativa suplanta o fato, o debate público perde sua racionalidade e a
sociedade passa a consumir informações parciais travestidas de jornalismo
profissional. O viés do jornalismo militante, assim, manifesta-se no tratamento
assimétrico dado às figuras públicas: enquanto aliados são blindados, com
desvios de conduta minimizados sob justificativas estratégicas, a oposição
sofre um escrutínio implacável e descontextualizado, onde pequenos erros são inflados
para gerar crises e graves acusações ganham presunção de culpa imediata,
substituindo a apuração imparcial pela militância ideológica.
Essa
dinâmica foi potencializada pela forma como a checagem de fatos tem sido
aplicada no ambiente digital. Embora a verificação de fatos seja um mecanismo
fundamental para detectar mentiras e combater a desinformação, ela também é
instrumentalizada. Em muitos casos, agências de checagem utilizam critérios
subjetivos para validar narrativas de autoridades aliadas e desqualificar vozes
divergentes, rotulando-as como falsas simplesmente por divergirem da visão
hegemônica.
O
sociólogo francês Pierre Bourdieu analisou exatamente essa dinâmica em seu
livro clássico “Sobre a Televisão”. Ele não usou o termo moderno “mídia
militante”, mas explicou como a imprensa perde sua independência e passa a
servir a interesses de políticos e autoridades.
Bourdieu
usou conceitos científicos para mostrar que os jornalistas muitas vezes pensam
que estão sendo livres, mas estão apenas seguindo regras invisíveis de poder.
Para poder categorizar melhor sua reflexão, Bourdieu criou a teoria dos campos
sociais. Cada profissão ou setor da sociedade (como a política, a ciência e o
jornalismo) é um “campo” com regras próprias. Um campo deveria ser autônomo, ou
seja, funcionar sem interferência de fora. No entanto, o sociólogo alerta que o
campo jornalístico perdeu sua independência ao ser invadido por interesses
políticos e econômicos. Essa perda de autonomia cria uma ilusão de liberdade: o
profissional acredita escolher suas pautas de forma técnica, mas, na realidade,
é moldado por mecanismos invisíveis de pressão, como a promoção de quem protege
autoridades aliadas e o isolamento de quem traz fatos incômodos. Assim, para
garantir prestígio e sobrevivência na carreira, os jornalistas passam a jogar o
jogo dos poderosos, trocando a busca cega pela verdade factual pela defesa
velada de narrativas que agradam aos donos do poder.
A
partir dessa depreciação, o jornalismo perdeu sua autonomia porque passou a
sofrer uma dupla dependência, sendo sufocado tanto pelo dinheiro (campo
econômico) quanto pelo poder (campo político). Quando a mídia se curva a esses
lados, ela deixa de buscar o fato real para produzir apenas o que gera lucro
rápido ou o que agrada aos governantes de turno. Na prática, a dependência
econômica se traduz na busca frenética por cliques e audiência, fazendo com que
portais de notícias criem manchetes exageradas e sensacionalistas para atrair
patrocinadores, trocando investigações sérias por fofocas políticas de fácil consumo.
Ao mesmo tempo, a dependência política se escancara quando grandes redes de TV
suavizam críticas sobre esquemas de corrupção ou crises econômicas de governos
aliados com medo de perder contratos milionários de publicidade oficial. Assim,
pressionado a dar lucro para os donos do dinheiro e blindagem para os donos do
poder, o jornalista deixa de ser um fiscal da sociedade e se transforma em um
assessor de imprensa velado, entregando ao público narrativas distorcidas e
convenientes em vez da verdade factual.
Bourdieu,
assim, revelou como a imprensa manipula a realidade, mesmo sem parecer que está
censurando algo, pois a mídia impõe visões de mundo como se fossem as únicas
verdades possíveis. Ela dita quem é “bom” e quem é “mau” na política. O público
aceita isso sem perceber que está sendo moldado. De igual modo, a mídia convida
especialistas que não debatem de verdade, os fast-thinkers (pensadores
rápidos), antes, promovem discussões ao vivo, em podcast e outros meios com
argumentações baseadas em muitos casos por mero achismo. Eles apenas entregam
respostas rápidas e simplistas que confirmam a tese que o veículo quer
defender. Na verdade, na disputa por atenção e audiência, os fatos complexos
são deixados de lado. A notícia passa a focar em polêmicas vazias para esconder
problemas estruturais mais graves de autoridades aliadas.
Bourdieu
também percebeu que, embora existam vários jornais e canais de TV diferentes,
eles acabam dizendo as mesmas coisas. Como os jornalistas leem uns aos outros e
buscam as mesmas fontes oficiais, eles criam uma bolha. Isso gera uma cobertura
uniforme que protege os poderosos de turno e exclui críticas reais.
Diante
dessa realidade, o leitor assume um papel ativo fundamental. A pluralidade de
fontes, o questionamento crítico e o consumo de mídias independentes e
acadêmicas, tornam-se essenciais. Apenas através da exigência por um jornalismo
focado na verdade factual, e não na militância, a sociedade poderá resgatar a
integridade do debate democrático.

A corrupção invadiu todos os setores da sociedade e a mídia foi contaminada pela ideologia partidária sendo financiada pelo dinheiro da corrupção.
ResponderExcluirDeus nos ajude!