O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O batismo católico, o rebatismo e os anabatistas

O batismo é símbolo da regeneração. É a manifestação da experiência consciente e espiritual alcançado pela fé do confesso novo cristão. Foi na Idade Média muito reverenciada pelos anabatistas, tanto que, em muitos casos, perderam suas vidas pela prática bíblica do rito ordenado por Cristo. Não é sem razão que o nome anabatista provém deste misto de obediência a Deus e perseguição, porquanto revelou o apego genuíno à verdade bíblica, renegada pelo tenebroso catolicismo medieval e não discernida pelo Protestantismo. Assim, o batismo tem importância essencial para todas as discussões cuja pauta traz a Reforma Radical (nomenclatura atribuídas aos anabatistas que pretendiam restaurar os padrões neotestamentários, retornando às raízes do verdadeiro cristianismo).
Dentre os líderes mais emblemáticos do movimento, encontramos Michael Sattler,ex-prior do mosteiro beneditino de São Pedro da Floresta Negra. Ele foi possivelmente responsável pela confissão de Schleitheim, primeiro documento dos anabatistas suíços que reivindicava o cumprimento expresso das Escrituras. O diferencial de Sattler foi à forma de adesão ao movimento. Apesar de não sabermos detalhes sobre sua conversão, sabe-se que sua decisão foi muito bem pensada. Na confissão, versou sobre a primeira ordenança de Cristo nesses termos:
O batismo será dado a todos aqueles que aprenderam o arrependimento, a regeneração de vida e que acreditam verdadeiramente que seus pecados foram expiados por Cristo, e a todos quantos andarem na ressurreição de Jesus Cristo e desejem ser sepultados com ele na sua morte, para que possam ser ressuscitados com ele, e a todos aqueles que, com esse significado, requeiram-no (batismo) de nós e o requeiram por si mesmos. Isto exclui completamente o batismo infantil, a maior e principal abominação do Papa. Em tudo isso tem-se fundamento e testemunho dos apóstolos (Mt 28; Mc 16; At 2, 8, 16 e 19). Desejamos sustentar isso humildemente, porém firmemente e com convicção.
O texto acima é o primeiro ponto da Confissão. Encabeçando o documento, leva-nos a considera-lo não o mais importante, mas aquele que precisava de uma urgente resposta em vistas do contexto como se aplicava o batismo na época. Sabemos que o catolicismo batizava por aspersão, administrando seu dogma para infantes. O Protestantismo seguiu a mesma conduta. Porém, essa situação era muito embaraçosa, pois não há referências bíblicas para o ato batismal de crianças, no entanto, cumpria com determinados interesses políticos. Além disso, a forma como era conduzido o ritual abre precedentes para enormes críticas, porquanto difere em muito com o preceituado nas Escrituras. Vejamos como era o ritual católico em Portugal no século XVI de acordo com Francisco Pires de Almeida:
1) A primeira etapa ocorria do lado de fora da porta principal da igreja, onde o sacerdote perguntava aos padrinhos qual o nome a dar à criança. Depois de nomeada, dava-se então começo aos vários exorcismos. Em primeiro lugar, realizavam-se na face do bebé as três insuflações, que assumiam a forma de uma cruz, com o propósito de afastar o diabo14. Após os sopros, seguiam-se os sinais da cruz estendidos às várias partes do corpo: nos olhos para que visse Deus; nos ouvidos para o ouvir; nas narinas para que usufruísse o seu odor; no peito, ou melhor, no coração, para que nele acreditasse; e na boca para o demonstrar através das suas palavras15. Depois, o sacerdote colocava a mão direita sobre a cabeça do pequeno para destruir os laços que o prendiam a Satanás. Passava-se então à administração do sal, depois de o exorcizar16. Segundo Nicolas Lopez Martinez, as liturgias apelavam aos méritos divinos para purificar os elementos sacramentais e os afastar do domínio do demónio17. Por isso, os manuais de Braga e de Coimbra exigiam o exorcismo do sal, pedindo ao Criador que o transformasse num medicamento perfeito (perfecta medicina) para afugentar o inimigo. Daí que fosse colocado na boca do recém-nascido18. Entre as orações que se seguiam, intercaladas com mais dois sinais da cruz na testa, finalizava-se a primeira ronda dos exorcismos com abjurações para amaldiçoar o diabo. Para ultimar a primeira fase do ritual, o sacerdote orava com os padrinhos o Credo in Deum, o Pater Noster e o Ave Maria.
2) Ao deixarem o adro da igreja, dava-se lugar à fase liminar, que já ocorria dentro desta. O manual de Braga exortava a que o sacerdote abrisse com a sua saliva os sentidos, isto é, as narinas e os ouvidos do recém-nascido com duas intenções: expulsar o diabo e tornar a criança capaz de ouvir e sentir o odor de Deus19. Depois, seguido pelos padrinhos, levava a criança nos braços para junto da pia batismal, enquanto entoava a ladainha de Todos os Santos e o Kyrie eleison20. Aí, benzia e exorcizava a fonte. Ambos os manuais impunham que o sacerdote revolvesse duas vezes sob a forma de cruz a água batismal, lançando-a de seguida para fora do bacio. Aconselhavam também a que o ministro alterasse o seu tom de voz, assim como quando soprasse sobre a água em forma de cruz e lhe inserisse um círio aceso. E, por fim, recomendavam que nela derramasse o óleo do crisma e o óleo santo de per se e só depois os dois conjuntamente. Desta forma, a água batismal adquiria o poder de santificar: lavaria os vícios (pecado original) e regeneraria para se exercer o bem21. Dirigindo novamente a atenção para o bebé, o ministro retirava-lhe a roupa e passava às renunciações a Satanás e às suas obras e pompas, às quais os padrinhos respondiam Abrenuncio. Colocava, sob a forma de cruz, o óleo dos catecúmenos entre as espáduas e o peito do menino para que adquirisse vida eterna e, voltava a interrogar os padrinhos sobre os artigos da fé, questionando-os por três vezes se era intenção da criança ser batizada. Os padrinhos respondiam afirmativamente enquanto a tocavam. Deste modo, ficava pronta para ser banhada por três vezes na fonte batismal com a fórmula Ego te baptizo in nomine patris et filii et spiritus sancti22.
3) Assim que emergia da água batismal, dava-se a fase de agregação. O padre fazia-lhe na cabeça o sinal da cruz com o óleo do crisma, salientando que tinha sido regenerada pela graça do Espírito Santo. Colocava-lhe o capelo branco para que um dia fosse levada ao tribunal do Senhor e entregava-lhe a vela acesa na mão direita para que Cristo a encontrasse na sala da justiça celestial. Despedia-se dos padrinhos e advertia-os para que ensinassem a fé ao afilhado23. Dava-se assim por concluído o ritual do batismo.
Ora, com tantas inserções de elementos estranhos àquela referenciada pelos Evangelhos e Atos dos Apóstolos, não podemos menosprezar a repulsa anabatista pelo dogmatismo uma vez que estava em causa a pureza do Cristianismo. A cerimônia batismal havia sido completamente alterada e a reação anabatista ao esquisito ato batismal foi a sua rejeição e o rebatismo como negação da crendice ao ato praticado na infância. Isso significou a renúncia pelas orientações papais e clericais. Era um ultraje ao poder dominador católico, por mais que os anabatistas suíços o fizessem em termos de pacifismo, mas o que poderiam ter feito se tinham no coração a chama pela obediência? A vinculação do ato de batismo para o controle estatal gerou também discordância. Todos os batizados, de certa forma, vinculavam-se ao controle das autoridades políticas e religiosas.
Desta maneira, o anabatismo reivindicou simplesmente o cumprimento das práticas cristãs em consonância com os ensinos do Cristo e dos Apóstolos. Essa é a base da fé cristã. Quem interfere no legado apostólico, acrescentando ou retirando, demonstra ter maior autoridade do que aqueles constituídos diretamente pelo Cristo.  Um erro gravíssimo!  

Notas de Almeida

14 As três insuflações provêm do costume romano cuja prática já se incluía na liturgia hispânica. BRAGANÇA, Joaquim O. – Le symbolisme des rites baptismaux au Moyen Age: les rites d'admission au catéchuménat. Didaskalia. Lisboa. ISSN 0253-1674. 3:1 (1973), p. 44.
15Neste breue manual se [con]ten cousas muito necessarias e p[ro]ueitosas a todo sacerdote q[ue] ha de administrar e dar os sacrame[n]tosE assi som muitas missas deuotissimas e p[ro]ueitosas p[e]ra ha saude dalma e do corpo. as quaes nu[n]ca foro[m] postas em nenhu[m] missal ne[m] manual de Braga (doravante Manual de Braga). Impressus in antiquissima bracharensis civitate: [s.n.], 1517, fl. 2-2v.; Manuale secundu[m] consuetudinem alme Colymbrieñ [sic] Ecclesie (doravante Manual de Coimbra). Lixboneñ ciuitate: Nicolaum Gazini, 1518, fl. 2.
16 A colocação do sal já vinha do tempo de Santo Agostinho e foi aceite por todas as tradições das igrejas locais. Apenas divergia a oração do exorcismo. O ritual romano optava por Benedicto salis enquanto que outros rituais, como o galicano, davam preferência ao Exorcismus salis. BRAGANÇA, Joaquim O. – Le symbolisme, cit., p. 53.
17 LOPEZ MARTINEZ, Nicolas – Notas sobre la lucha contra el diablo mediante los sacramentos. in IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE TEOLOGÍA DE LA UNIVERSIDAD DE NAVARRA, Pamplona, 1983 – Sacramentalidad de la Iglesia y Sacramentos: actas. Pamplona: Servicio de Publicaciones de la Universidad de Navarra, 1983, p. 807.
18Manual de Braga, fl. 2v.; Manual de Coimbra, fl. 2v.
19 O manual de Coimbra não exclui a abertura dos sentidos, apenas altera a ordem, impondo a administração da saliva após o exorcismo da fonte batismal e antes das renunciações (Cf. Manual de Coimbra, fl. 6v.); Manual de Braga, fl. 4v.
20 A ordem de invocação dos santos e arcanjos variou.
21 Manual de Braga, fl. 6-7; Manual de Coimbra, fl. 4v.-6v.
22 Apenas ficam dúvidas se Braga optou por uma imersão, uma vez que não alude à sub trina mersione. Manual de Braga, fl. 7; Manual de Coimbra, fl. 7.
23 Manual de Braga, fl. 7; Manual de Coimbra, fl. 7.

Referência
Almeida, Francisca Pires. O ritual do batismo em Portugal na Baixa Idade Média e nos inícios do século XVI. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-740X2014000200006#14. Acesso em 19 Out 2017.



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A História dos anabatistas

Quem foram essas pessoas? Qual era a relação delas com a Reforma? Quais eram suas crenças em relação a Deus, ao homem, à igreja, ao batismo e à vida cristã? Que tipo de pessoas eles eram? Essas e outras perguntas encontram suas respostas nas páginas seguintes, as quais tentam contar a história dos anabatistas.
Esse estudo sobre os anabatistas do século XVI será uma bênção para aqueles que, nestes tempos modernos, buscam seguir a Cristo por meio de um discipulado obediente.
Visualizar no link para ler as primeiras páginas de A história dos anabatistas

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Os pobres de Cristo

Uma das correntes históricas sobre os valdenses nos informa sobre Pierre Vaudès (Pedro Valdo), um rico comerciante cuja conversão o fez vender tudo o que tinha, em obediência ao texto bíblico do jovem rico, para dar aos pobres. Para quem pensa que ele o fez irracionalmente, sabe-se que sua esposa e filhas foram contempladas nessa distribuição a fim de que pudessem ter como sobreviver, enquanto ele se entregaria à vida simples ensinada pelo Cristo. Houve quem dissesse que Vaudès seria o fundador dos valdenses, um dos movimentos mais emblemáticos da História da Igreja, mas hoje, através de consenso entre os estudiosos, essa teoria não é mais aceita.
Enquanto dispunha de recursos, Valdès providenciou a contratação de dois cléricos para traduzirem partes das Escrituras e alguns escritos dos Pais da Igreja. Munido desses escritos, começou a arte da pregação valdense cuja confrontação com o clero católico era inevitável: “O que Valdès estava ensinando deu ao povo a chance de contrastar seus sacerdotes e bispos tipicamente indiferentes e às vezes indolentes com esses pregadores pobres, mas fervorosos que citavam a Bíblia em sua própria língua, pregadores que poderiam se relacionar com suas próprias lutas pessoais. Não é difícil ver como Valdès e seus seguidores ganharam sua fidelidade e atraíram muitos seguidores” (Malan: 2012).
Por que sua pregação era confrontadora? Primeiro, porque se utilizada da língua popular na qual o povo se sentia prestigiado, e não o latim que era sinônimo de obscuridade para os mais simples; segundo, trazia um equilíbrio social de modo que não somente podiam usufruir do conteúdo Escriturístico os sábios e doutos cléricos, mas também os iletrados que eram a maioria; e terceiro, alinhavam-se ao povo, visto que demonstravam ser como qualquer outro ser humano, sem as exigências ritualísticas e indumentárias pomposas do clero católico. Desta maneira, a pregação aos moldes dos pobres de Lyon reavivaram o fervor e inteligibilidade da Igreja Primitiva, fazendo valer o sentido prático da fala de Jesus na qual os mistérios do Reino de Deus foram revelados pela exposição de seus ensinos.

Referências


Malan, Ronald F. Waldensian History: A Brief Sketch. Piedmont Families Organization: 2012.

Os anabatistas eram revolucionários ou pacifistas?

“O anabatismo primitivo era um movimento religioso e de revolução social” (Wohlfeil, Goertz 1980, p. 43) que não se opunha a fazer uso da espada em favor de sua causa (Stayer 1972). Contudo após os Artigos de Schleitheim (1527), eles recusaram-se a portar armas”.
(Lindberg, p. 243)

Uma das premissas mais corriqueiras na Academia é aquela que enfatiza o conhecimento como provisório. Chegou-se a essa conclusão, não simplesmente por achismos ou conclusões insustentáveis, mas sim, pelo amparo e fundamento em fatos concretos que conseguem desafazer uma argumentação teórica inicial. Baseados nesse pensamento, propomos uma análise da informação acima sobre o anabatismo, já que o trata como uma vertente similar ao catolicismo e ao protestantismo da época, cuja ação militarizada era pauta constante naqueles tempos pré-nacionalistas. Então, será que na gênese anabatista verificou-se a conduta de luta armada e revolucionária?
Para responder esse questionamento, importa trazermos à tona a concepção cristã do anabatismo. Conrad Grebel, Felix Manz e George Blaurock foram os expoentes iniciais do movimento, de modo que suas convicções estavam em fase de desenvolvimento. Primeiramente, aderiram às reformas promovidas por Ulrich Zwinglio, conceituado professor e pastor do Cantão de Zurique. Mas, como Zwinglio não realizou reformas nos moldes das Escrituras, sujeitando-se mais ao Conselho dos Duzentos do que a Deus, eles resolveram deixa-lo e buscar o cerne da realidade cristã. Para tanto, retornaram exatamente ao início da carreira cristã, ou seja, ao batismo. Foi em janeiro de 1525, através do rebatismo, que Grebel estabeleceu a primeira comunidade anabatista restauradora dos padrões neotestamentários. Esse grupo acreditava piamente nas instruções bíblicas, seguindo-as de forma padrão e fiel.
Nesse momento, suas convicções demonstravam aversão à missa, ao batismo infantil, à idolatria, à união da Igreja ao Estado, aos juros, às indulgências, entre outras, e, no que diz respeito à questão posta, eram pacifistas. Prova concreta disso, foram os martírios de Manz e de Blaurock que não resistiram agressivamente aos seus perseguidores, antes, como “cordeiros foram levados ao matadouro”. George Blaurock, apesar de não ter nos deixado muitos escritos, fala-nos através de dois hinos compostos que demonstram sua completa devoção a Deus e espiritualidade pacífica de dependência ao sumo pastor, de modo que quem se expressa nestes termos demonstra uma vida pura e desprendida de ódio e revolução:

Senhor Deus, como eu te exalto
Daqui e sempre,
Que a fé real me deu
Pelo qual eu posso saber.
Não me esqueça, ó Pai,
Esteja perto de mim sempre mais;
Seu Espírito protege e me ensine,
Que em grandes aflições
Seu conforto eu possa provar,
E valentemente possa obter
A vitória nesta luta.   

Já Conrad Grebel, fala-nos um pouco mais sobre a vida pacífica daqueles cristãos medievais desejosos não de uma revolução, mas de uma restauração. Na carta 64 de 5 de setembro de 1524, direcionada a Thomas Munster, ele exorta o ex-sacerdote luterano à prática da não resistência e o não envolvimento com a guerra, censurando-o em razão de sua crítica aos príncipes. Grebel escreveu: “O irmão de Hujuff escreve que você pregou contra os príncipes, enfatizando que eles deveriam ser combatidos de próprio punho. Se isso for verdade, ou se você pretende defender a guerra... eu devo admoestar você pela salvação comum a todos nós...”.
Portanto, nossa questão a questão proposta é: como poderia alguém com tanta devoção aos ensinos daquele que falou que os inimigos deveriam ser amados, expressou um espírito brando e humilde através de cânticos, mas não só por eles, contestou o uso de força contra as autoridades poderia ser chamada de revolucionário e ativista? Confundir os munsteritas chamando-os de anabatistas seria uma das possíveis respostas.

Referências

Lindberg, Carter. As reformas na Europa. Editora Sinodal: São Leopoldo, 2001.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Felix Manz

Conrad Grebel, George Blaurock e Felix Manz são nomes frequentemente encontrados na história do movimento anabatista na Suíça. Eles foram frequentemente chamados a prestar contas de si mesmos e de suas atividades na presença de autoridades civis.
É de se impressionar a coragem, a firmeza e a profundidade de convicção de Manz, como um jovem de 20 anos. Ele sofreu o martírio antes dos 30 anos de idade. Ele foi o primeiro anabatista suíço a ser martirizado nas mãos dos seguidores protestantes de Zwingli.
Manz era filho de um sacerdote católico “ilegítimo” em Zurique, na Suíça. Ele foi bem educado e se tornou um evangelista entusiasmado que foi fundamental para levar centenas, senão milhares, de pessoas a fé em Jesus Cristo.
Durante sua vida, sofreu muita perseguição e numerosas prisões. Em 1526, ele havia sido condenado à prisão onde devia comer pão e beber água até que ele “morrer e apodrecer”.
Às 3h da tarde, em 5 de janeiro de 1527, foi levado de sua última prisão para ser afogado nas águas frias do rio Limmat, que atravessa o coração da cidade de Zurique. Os esforços de última hora por parte do clero para que ele recuasse foram inúteis. Ele podia ouvir as vozes favoráveis ​​e encorajadoras de sua mãe e seu irmão que ficaram perto da costa. Suas últimas palavras foram: “Em suas mãos, ó Deus, eu recomendo meu espírito”.

Fonte: http://www.anabaptists.org/history/manz.html

MIchael Sattler

Após a morte de Conrad Grebel (1526) e Felix Manz (1527), Michael Sattler foi o líder mais notável dos irmãos suíços. Seu martírio ocorreu apenas alguns meses depois do de Manz.
“Michael Sattler nasceu por volta de 1495 em Staufen, perto de Freiburg, em Baden”. Educado na Universidade de Freiburg, Sattler entrou no claustro de São Pedro perto de Freiburg como um monge, avançando para a posição de prior do claustro. Através de seus estudos das escrituras e, sem dúvida, influenciados pela nova teologia da reforma em circulação, Sattler deixou o mosteiro em 1523 e casou-se com Margareta.
Sattler juntou-se aos irmãos suíços em Zurique, do qual ele foi banido em 18 de novembro de 1525. Trabalhou pela fé em Horb e Rottenburg, em Württemberg, depois indo para Strasburg, na Alsácia. Voltando para Horb e Rottenburg, “em 24 de fevereiro de 1527, Sattler presidiu uma conferência de irmãos suíços realizada em Schleitheim, no Cantão de Schaffhausen. Ele apresentou nesta conferência uma confissão de fé que foi aprovada e adotada sem uma voz dissidente e foi mais tarde impresso sob o título “Bruderliche Vereinigung etlicher Kinder Gottes” (Acordo fraterno de alguns filhos de Deus), como a confissão de fé dos irmãos suíços. A confissão foi considerada importante o suficiente para ser refutada tanto por Zwinglio quanto por Calvino em obras separadas.
Michael Sattler foi capturado pelas autoridades católicas romanas em Horb, tentado em 17 de maio de 1527 em Rottenburg e foi martirizado em 21 de maio de 1527. “Na manhã daquele dia, este nobre homem de Deus, à vista de horrível tortura, orou pelos seus juízes e perseguidores e admoestou o povo ao arrependimento. Ele suportou a tortura desumana estipulada na sentença. Então seu corpo mutilado foi amarrado a uma escada. Ele orou novamente por seus perseguidores enquanto a escada era colocada sobre a estaca. Ele prometeu a seus amigos que lhes daria um sinal da estaca ardente, para mostrar que ele permaneceu firme até o fim, suportando tudo de bom grado por Cristo. O fogo cortou as cordas com as quais ele estava preso, ele levantou a mão dando o sinal para eles. Logo se notou que seu espírito tinha fugido para estar com aquele a quem ele confessou firmemente sob a tortura mais excruciante, um verdadeiro herói da fé”.

Fonte: tradução livre de http://www.anabaptists.org/history/michael-sattler.html

A Essência da Reforma

Para muitos, a Reforma Protestante foi um movimento grandioso que atingiu países europeus na Idade Moderna. Levam em consideração a amplitude e os diversos efeitos que culminaram com o declínio do domínio católico e estabeleceram um novo momento histórico para a Europa. Mas, qual a essência da Reforma?
Acredito que a grande máxima de Lutero responde, sem dúvida, esse questionamento. A busca de alento para o sofrimento da alma pecadora em Lutero é apontado como marco. Através das angústias vivenciadas no claustro, inspiradas pelo anelo de certeza de salvação e pela plena liberdade dos grilhões do pecado, Lutero transmiti-nos as origens e os fundamentos do movimento. Afinal, sua intenção era modificar o quadro interior em trevas e somente pela orientação precisa das Escrituras abandonaria definitivamente aquela circunstância. Sentiu a pura e a celestial orientação quando teve a oportunidade de meditar nas Escrituras e assim poder livrar-se de tão horrendo fardo. O resultado? A descoberta da simplicidade no ensino de Cristo incentivando Lutero a afirmar e a experimentar o texto paulino de que “o justo viverá pela fé!”. Sua reflexão o fez perceber a necessidade de retorno ao sentido primeiro para a salvação que é desprovida de obras e cerimônias, demonstrando, assim, a importância da Bíblia que nos assiste na necessidade fundamental de redenção.
Após o esclarecimento de que “o justo viverá pela fé”, Lutero passou pelo processo de regeneração. A regeneração produz salvação, mas é desenvolvida na efetivação diária da nova vida em Cristo, ocasionando uma visão mais apurada e verdadeira da realidade. Lutero depois de superar seus conflitos passou a ver com maior atenção as sugestões católicas de exploração do povo, afinando a pena para escrever criticamente contra aquelas ações contrassenso e contra Deus. Num primeiro momento não quis romper com a igreja apóstata, quis restaurá-la aos padrões neotestamentários. Por isso, com bom coração tentou ensinar o clero romano sobre a natureza da penitência, uma forma de atenuar sua crítica à venda de indulgências. Fixou na porta de Wittenberg suas 95 teses com a seguinte introdução:

Debate para o esclarecimento do valor das indulgências pelo Dr. Martin Luther, 1517
Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Ademais, no singelo ato do reformador alemão percebe-se explicitamente a mudança de atitude que ele via como necessária, primeiramente para o Lutero indivíduo, pois a reforma do eu vem em primeiro lugar. A segunda reforma era para o coletivo, testemunhando sobre a necessidade de todos buscarem o que o próprio Martinho buscou para uma posterior realização do intento divino na vida interior geral. Não queremos dizer que Lutero acertou em todos os pontos doutrinários, mas sua ação foi um avanço em questão de fé e livre exame das Escrituras.

Infância

Doce tempo inigualável de beleza infinda,
Próprio para um puro coração infantil encantar-se
E sentir sua essência na mais profunda inocência;
Enquanto anelante pelos descobrimentos sem mácula,
Revestido do sentimento de querer viver e ser o que era,
A simplicidade foi-lhe pilar, amparo seguro,
Radiante diante dos caprichos,
Revelando inata e verdadeira sua sinceridade,
Na mesma medida que seu espírito brando e sereno refletiu o brilho da autêntica luz da vida.

Seu olhar curioso perscrutava as brechas da tão ilustre felicidade
A fim de regozijar-se na mais perfeita alegria,
De modo que a quietude do sorriso transmitisse o tesouro anelado encontrado.
Mas, como a ousada imperfeição não se sustém contrariada pela plena satisfação do infante,
Viu-se obrigada a impor seu malfadado desígnio.
Porém, nem agruras nem maldades puderam afetá-lo nem desviá-lo do sumo bem,
Muito embora as dores e os dessabores lhe tenham assolado o peito,
Foram como densas nuvens intempestivas
Sendo dissipadas diante do grandioso poder de ser somente criança. 

F.H.C.S