O
movimento montanista, surgido no século II d.C. na Frígia (atual Turquia),
propunha uma reforma ascética e carismática do cristianismo, reagindo ao que
considerava uma "mundanização" da Igreja. Na visão dos montanistas, o jejum não era apenas uma prática de devoção
pessoal, mas um imperativo espiritual rigoroso para preparar os fiéis para o
retorno iminente de Cristo.
Para
os montanistas, o jejum era essencial para “purificar” a igreja e torná-la
digna da Nova Jerusalém. O jejum contínuo e rigoroso era visto como um modo de
vida que mantinha o fiel em estado de prontidão espiritual constante, alinhando
a alma com a vinda do Noivo (Cristo).
Acreditando
que viviam a "dispensação do Espírito", os montanistas valorizavam o
jejum como meio de silenciar os apetites carnais para ouvir com mais clareza as
revelações provenientes do Paráclito. Tertuliano defendeu que jejuns mais
frequentes e rigorosos (incluindo a xerofagia, ou alimentação seca) permitiam
uma maior intimidade espiritual, facilitando o recebimento de visões, sonhos e
comunicações espirituais.
Além
disso, o corpo deve ser constantemente submetido a disciplina para que o
espírito possa elevar-se. Porquanto, o jejum era entendido como uma forma de combate à
"carne" (os desejos materiais e paixões), tornando o indivíduo mais espiritual e menos "psíquico"
(natural/racional), termos que usavam para se diferenciar dos outros cristãos.
O
jejum era, portanto, parte de um estilo de vida que visava a santidade diferenciada,
a renúncia aos prazeres terrenos e a contrição profunda, separando os
verdadeiros fiéis da conduta "tíbia" do resto da cristandade.
Tertuliano,
em sua obra Sobre o Jejum, defendeu a prática montanista contra os
cristãos carnais, argumentando que o jejum era uma maneira eficaz de
sujeitar o corpo no ato de se humilhar diante de Deus. Eles viam as abstinências de alimentos saborosos ou de
carne como forma de purificação, permitindo que a cristão montanista ficasse
mais livre para orar com leveza e espiritualidade, ganhando, assim, maior poder
e virtudes.
A
preparação aprimorada, ou melhor, a prática do jejum voluntário, espontâneo e prazeroso para o fim dos tempos significava que o crente deveria
viver na terra como se já estivesse na Nova Jerusalém. Como acreditavam que no
Reino de Deus não haveria necessidades fisiológicas, o jejum servia como um treinamento
antecipado para a vida na realidade futura. Ao dominar a fome, o montanista demonstrava que seu sustento não
vinha mais do mundo material que estava prestes a findar, mas do
"maná" espiritual proveniente do Espírito, o Paráclito.
Dessa
forma, o jejum montanista era uma arma de guerra espiritual e um certificado de
santidade. Ele não apenas capacitava o cristão, mas preparava-o para o futuro,
ajustando-o aos efeitos da manifestação do Reino que eles tanto aguardavam
nas planícies da Frígia.

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