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terça-feira, 5 de maio de 2026

A virtude da abstinência: o jejum na espiritualidade montanista

imagem ilustrativa de Montano, Maximila e Priscila

O movimento montanista, surgido no século II d.C. na Frígia (atual Turquia), propunha uma reforma ascética e carismática do cristianismo, reagindo ao que considerava uma "mundanização" da Igreja. Na visão dos montanistas, o jejum não era apenas uma prática de devoção pessoal, mas um imperativo espiritual rigoroso para preparar os fiéis para o retorno iminente de Cristo.

Para os montanistas, o jejum era essencial para “purificar” a igreja e torná-la digna da Nova Jerusalém. O jejum contínuo e rigoroso era visto como um modo de vida que mantinha o fiel em estado de prontidão espiritual constante, alinhando a alma com a vinda do Noivo (Cristo).

Acreditando que viviam a "dispensação do Espírito", os montanistas valorizavam o jejum como meio de silenciar os apetites carnais para ouvir com mais clareza as revelações provenientes do Paráclito. Tertuliano defendeu que jejuns mais frequentes e rigorosos (incluindo a xerofagia, ou alimentação seca) permitiam uma maior intimidade espiritual, facilitando o recebimento de visões, sonhos e comunicações espirituais.

Além disso, o corpo deve ser constantemente submetido a disciplina para que o espírito possa elevar-se. Porquanto, o jejum era entendido como uma forma de combate à "carne" (os desejos materiais e paixões), tornando o indivíduo mais espiritual e menos "psíquico" (natural/racional), termos que usavam para se diferenciar dos outros cristãos.

O jejum era, portanto, parte de um estilo de vida que visava a santidade diferenciada, a renúncia aos prazeres terrenos e a contrição profunda, separando os verdadeiros fiéis da conduta "tíbia" do resto da cristandade.

Tertuliano, em sua obra Sobre o Jejum, defendeu a prática montanista contra os cristãos carnais, argumentando que o jejum era uma maneira eficaz de sujeitar o corpo no ato de se humilhar diante de Deus. Eles viam as abstinências de alimentos saborosos ou de carne como forma de purificação, permitindo que a cristão montanista ficasse mais livre para orar com leveza e espiritualidade, ganhando, assim, maior poder e virtudes.

A preparação aprimorada, ou melhor, a prática do jejum voluntário, espontâneo e prazeroso para o fim dos tempos significava que o crente deveria viver na terra como se já estivesse na Nova Jerusalém. Como acreditavam que no Reino de Deus não haveria necessidades fisiológicas, o jejum servia como um treinamento antecipado para a vida na realidade futura. Ao dominar a fome, o montanista demonstrava que seu sustento não vinha mais do mundo material que estava prestes a findar, mas do "maná" espiritual proveniente do Espírito, o Paráclito.

Dessa forma, o jejum montanista era uma arma de guerra espiritual e um certificado de santidade. Ele não apenas capacitava o cristão, mas preparava-o para o futuro, ajustando-o aos efeitos da manifestação do Reino que eles tanto aguardavam nas planícies da Frígia.

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