O Jornal Tocha da Verdade é um periódico trimestral independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

Comunie

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

O MATRIMÔNIO E O SEXO

“Honrado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará.” (Hebreus 13: 4)

No texto citado acima, o escritor da carta aos hebreus faz uma nítida separação entre o matrimônio e o leito sem mácula, sendo o primeiro uma condição necessária para o segundo. O matrimônio é um pacto reconhecido publicamente diante dos homens e de Deus, pelo qual um homem e uma mulher resolvem compartilhar as suas vidas até a morte, criando os filhos, gerados desse enlace, para Deus. A união física que se segue está em relação dialética com o matrimônio, ou seja, o matrimônio é pressuposto de sua pureza enquanto ela é o selo que efetiva o matrimônio.

“Portanto deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à SUA mulher, e serão ambos UMA CARNE”(Gênesis 2: 24).

Em verdade, o casamento não é um simples contrato sujeito a distrato ou mera associação superficial, como na nossa sociedade secularizada se pretende apresentá-lo, mas antes, é uma fusão transcendental, uma instituição divina. Visto o casamento como mero contrato, os cônjuges estariam livres para estabelecer os seus termos (condições) e fins (objetivos), que não satisfeitos dariam ensejo ao distrato (divórcio). No entanto, quando se concebe o casamento como uma instituição, vê-se que ele existia abstratamente como um modelo (arquétipo), antes mesmo do enlace efetivo entre as duas pessoas que o concretizam, como uma verdadeira ordenação divina com estrutura e fins definidos por Deus.

Quando os cônjuges entendem o casamento como uma mera reciprocidade de expectativas condicionada, o simples egoísmo de um deles pode ensejar prejuízos enormes, mas, quando se enxerga pelo modo bíblico que o bom relacionamento entre os casais é na verdade apenas uma condição para a realização do fim primordial do casamento, o qual está ligado aos filhos ou à família como ente institucional, então o egoísmo tem que ser sepultado. Assim, como há um sentimento patriótico que une uma nação apesar das divergências, é preciso existir um sentimento familiar que revele a importância do lar e a irracionalidade de sua divisão (Mateus 12 : 25).

O fim principal do casamento é a procriação e educação dos filhos para Deus, os outros são fins secundários (mútuo auxílio, regulação dos impulsos sexuais, etc). Os fins secundários, entretanto, nunca podem ir de encontro ao fim principal. A unidade institucional do casamento se estabelece pela submissão dos filhos aos pais, pela submissão da esposa ao esposo e pela submissão do esposo aos fins do casamento definidos por Deus através da Escritura.

No princípio, Deus estabeleceu o sexo para a procriação da espécie (Gênesis 1: 27 e 28). O sexo faz parte da dimensão animal do ser humano, tanto que não subsistirá na eternidade (Marcos 12 : 25), e nós sabemos que entre os animais sexo é apenas para a procriação da espécie. Entretanto, a queda gerou no homem a sensualidade (Gênesis 3: 7), razão porque após a queda, o sexo no casamento, passou a ser também um moderador dos impulsos sexuais, além de meio de procriação (I Cor. 7 : 2, 9).

João Calvino, o teólogo da Reforma Protestante, assim se expressou:

“Mas alguém dirá: ‘A cura da incontinência é a única razão para se contrair o matrimônio?’. Minha resposta é que isto não é o que Paulo pretende dizer. Pois aos que têm o dom de ser capazes de suprimir o matrimônio, ele dá a liberdade de se casarem ou não. Mas ele ordena aos demais a que ponham bastante atenção em suas fraquezas, ao se casarem. O que importa é o seguinte: o que está em jogo aqui não são as razões pelas quais o matrimônio foi instituído, e, sim, as pessoas para quem ele é indispensável. Porque, se atentarmos para o primeiro matrimônio, perceberemos que ele não podia ser um antídoto contra uma doença, a qual ainda não existia, senão que foi instituído para a procriação de filhos. É verdade que, depois da Queda, este outro propósito foi acrescido.”

(Comentários a I Cor. 7).

“....Este é o modo como Agostinho trata do assunto, e por sinal muito bem, em seu livro ‘Das Vantagens do Matrimônio’, e às vezes em outras partes. Pode-se sumariá-lo como segue: o ato sexual entre esposo e esposa é algo puro, é legítimo e santo: porque é uma instituição divina. A paixão incontrolável com que os homens são inflamados é um vício oriundo da corrupção da natureza humana; mas, para os crentes, o matrimônio é um véu que cobre essas falhas, de modo que Deus não mais as vê.” (Comentários a I Cor. 7)

Martinho Lutero também afirmou:

“...É importante obedecer à ordem e ao mandamento de Deus por amor da propagação da raça. E mesmo que isto não fosse um motivo para o casamento, deveríamos lembrar que ele é um remédio contra o pecado e uma defesa contra a devassidão” (Comentários sobre o salmo 127)

Diante do exposto, talvez alguém me replique: o sexo também não é uma manifestação de amor?. A resposta seria sim e não. O sexo não foi criado como uma expressão exclusiva ou insubstituível de amor, mas foi criado para procriação e, posteriormente, passou a servir, no casamento, também para regular os impulsos sexuais. Todavia, devemos lembrar que o homem é também espírito e, ao contrário dos animais, tem o poder de espiritualizar tudo o que faz. Assim, o homem deve espiritualizar o sexo, fazendo dele uma manifestação de amor, humanizando-o, colocando-o a dimensões mais elevadas. Um olhar, um beijo, um abraço e infinitos outros gestos e ações podem ser as mais altas expressões de amor. É exatamente por isso que ninguém pode deixar o seu cônjuge, alegando que com ele não se satisfaz plenamente do ponto de vista sexual; nem dizer que, em razão da existência de uma enfermidade do cônjuge que impossibilite a vida sexual, o relacionamento conjugal estará prejudicado para sempre. Sobre isso, pronuncia-se João Calvino:

“...Depois disso, é o Senhor mesmo quem deve refrear e restringir-nos por meio de seu Espírito, mesmo se as coisas não vão tão bem quanto gostaríamos. Pois se uma esposa cai por um longo tempo em infindável enfermidade, nem por isso o esposo é justificado em buscar outra esposa. Semelhantemente, se após o casamento o esposo começa a sofrer de alguma enfermidade, a esposa não pode, sobre esta base, fazer repentina transição para outro estado....Tendo entrado na vida conjugal, tenhamos esperanças de que ela nos será de grande valia, se, ao contrário de nossas expectativas, as coisas se desandarem” ( Comentários a I Cor. 7).

Do que foi falado até aqui, vê-se que é um pecado contra o casamento o uso de anticoncepcionais artificiais. Os métodos naturais (tabela, etc) não são pecaminosos, pois consistem no controle da natalidade pela abstinência. No caso, as relações sexuais no casamento seriam naturais e, por serem no período de provável infertilidade, visariam apenas a moderação do impulso sexual, ou então, se apresentariam como uma manifestação de afeto. Lembramos, entretanto, que a supressão total de filhos de modo voluntário é pecaminosa por ir de encontro ao fim primordial do casamento. No caso, do uso dos anticoncepcionais artificiais, a pessoa não controla a intensidade das relações íntimas, mas procura impedir delas o resultado natural, a procriação, ou seja, as relações sexuais são utilizadas unicamente para a moderação do apetite sexual, como se esse fosse o objetivo principal do casamento, em ofensa direta à fertilidade natural e aos fins primordiais do casamento: a procriação da espécie e o estabelecimento da família.

A ligadura de trompas então, é uma afronta direta ao Todo-poderoso, principalmente levando-se em conta que a fertilidade é considerada na Bíblia como uma bênção de Deus (Êxodo 23 : 25, 26; Salmo 127 : 3; Salmo 128 : 3, 4).

Resta ainda uma questão : Se o fim primordial do casamento é a perpetuação da espécie e a constituição da família, sendo a moderação dos impulsos físicos pelo sexo uma mera concessão que passou a existir depois da queda, seria permitido, então, àquele casal que já gerou filhos abster-se definitivamente do sexo?

A pergunta acima estabelecida é de salutar importância por duas razões. Em primeiro lugar, porque assim como um solteiro pode sublimar os impulsos sexuais, um casal também o pode. Em segundo lugar, porque a prática mencionada na questão era muito comum na Igreja Antiga, sendo validada inclusive pelos pais da Igreja e regulamentada pelos cânones antigos.

Os antigos cânones da Igreja proibiam ao esposo negar-se a sua esposa contra sua vontade sob o pretexto de castidade, semelhantemente à esposa a negar seu corpo ao esposo. Mas permitia que vivessem juntos, após procriação, em perene celibato, desde que houvesse concordância. Essa posição é perfeitamente bíblica.

Alguns poderão contestar a posição acertada da Igreja antiga, citando o que se contém em I Cor. 7:5 que diz : “Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo, por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração; e depois ajuntai-vos outra vez, para que Satanás não vos tente pela vossa incontinência”. Esta passagem, entretanto, precisa ser visto no seu contexto, senão vejamos:

(1) Paulo está escrevendo uma carta a uma igreja específica, considerando suas fraquezas próprias, por isso, ele abre muitas concessões aos seus conselhos, considerando a imoralidade reinante ( I Cor. 7 : 1, 2; 7 : 8, 9);

(2) Em I Cor. 7: 5, Paulo não está condenando a perene abstinência, mas recomendando que os casais cristãos de Corinto, em face da imoralidade reinante, só se abstivessem (de comum acordo entre marido e mulher) se fosse com o compromisso de se dedicarem a oração e ao jejum, voltando a ajuntar-se outra vez, não porque fosse pecado a abstinência, mas para que Satanás não os tentasse. No versículo seguinte (v. 6), Paulo mostra estar dando apenas um conselho : “Digo, porém, isto como que por permissão e não por mandamento”;

(3) Nós sabemos que, por causa de uma enfermidade, a abstinência pode se tornar necessária e, depois de uma certa idade, temos a falta de abstinência como um descontrole pecaminoso;

(4) Paulo diz que a prestação sexual do homem é um direito exigível da mulher e a prestação sexual da mulher um direito exigível do homem (I Cor. 7: 3 e 4). Ora, ninguém pode renunciar a sua obrigação, mas cada um pode renunciar ao seu direito;

(5) Colocamos, por fim, a título de observação, que a pessoa repudiada por cometimento de adultério, no caso de não haver possibilidade de restauração do matrimônio, não pode contrair novas núpcias, devendo ficar abstinente para sempre (Mateus 19:9). Do mesmo modo, aquele que deixou seu cônjuge por algum outro motivo que não a infidelidade dele, não poderá contrair novo casamento, mas deve voltar a ele ou permanecer só e abstinente (I Cor. 7: 10 e 11).

Na primeira carta aos coríntios, Paulo recomenda o celibato, dizendo: “E bem quisera eu que estivésseis sem cuidado. O solteiro cuida das coisas do Senhor, em como há de agradar ao Senhor; mas o que é casado cuida das coisas do mundo, em como há de agradar à mulher” (I Cor. 7:32, 33). Vide os versículos 34 e 35.

A primeira vista, o estado matrimonial seria necessariamente inferior ao do celibato, mas convém aqui algumas observações. Paulo está fazendo um juízo de fato e não de valor. Paulo não está dizendo que, pelo casamento, os homens deveriam se distrair do cuidado das coisas do Senhor, mas dizendo que, em decorrência da natureza pecaminosa, normalmente acontece e pode ser observado: os cônjuges, seduzidos pelo egoísmo, querendo cada um absorver a atenção do outro, gerando as “tribulações na carne” mencionadas em I Cor. 7 : 28. Por outro lado, Paulo assinala que há exceções quando fala de mulheres santificando os maridos para Deus e maridos santificando suas esposas ( I Cor. 7 : 14).

Quando o apóstolo fala que os casados cuidam das coisas do mundo, ele está querendo observar que eles mais facilmente são cativados para a vida social intensa, com toda a sua futilidade. João Calvino entende do seguinte modo: “...se relacionam com circunstâncias prazenteiras, tais como as frivolidades de uma recepção de núpcias, os momentos de diversões, e outras coisas que a vida conjugal tem de atender”. Entretanto, além do crente evitar programações inúteis, ele pode aproveitar certas oportunidades para evangelizar, e ainda tornar o lazer da família maximamente marcado pela presença da Palavra de Deus. O remédio geral, entretanto, dado por Paulo é o que segue: “Isto, porém, vos digo, irmãos, que o tempo se abrevia; o que resta é que também os que têm mulheres sejam como se não as tivessem; e os que choram, como se não chorassem; e os que folgam, como se não folgassem; e os que compram, como se não possuíssem; e os que usam deste mundo, como se dele não abusassem, porque a aparência deste mundo passa.” (I Cor. 7: 29 – 31).

A história nos fala de casamentos que glorificaram a Deus, como o de Lutero e o de Jonathan Edwards.

Lutero casou-se com a ex-freira, Catarina von Bora. Durante as refeições, a sua casa ficava cheia de estudantes que vinham participar do alimento e aprender teologia à mesa. Lutero, em seu lar, ensinava o catecismo não apenas para os seus filhos, mas para muitas crianças da Igreja. Catarina apoiou Lutero em todas as suas atividades como reformador, pastor, teólogo, escritor, professor, músico e compositor. Era estimada por todos. Administrava sabiamente o lar, enquanto Lutero exercia suas atividades. Orlando Boyer escreveu sobre Lutero e sua esposa:

“Havia entre Lutero e sua esposa profundo amor de um para com o outro. São de Lutero estas palavras: ‘sou rico, Deus me deu a minha freira e três filhos, não me importo das dívidas: Catarina paga tudo’....nas suas meditações sobre as Escrituras, muitas vezes se esquecia das refeições. Ao escrever o comentário sobre o salmo 23, passou três dias no quarto comendo somente pão e sal. Quando a esposa chamou um serralheiro e quebraram a fechadura, acharam-no escrevendo, mergulhado em pensamentos e esquecido de tudo em redor”.

Jonathan Edwards foi pastor e avivalista, teólogo e filósofo, escritor e professor, além de presidente de uma Universidade. A sua esposa, como ele, era dotada de um intelecto privilegiado e disciplinada na leitura. Jonathan Edwards conservou até o fim da vida, o hábito que adquiriu quando criança: o de isolar-se para “buscar contemplação divina e oração”. Foi numa dessa ocasiões, em 1737, que ele teve uma das mais surpreendentes de suas experiências espirituais, na qual lhe veio uma profunda revelação de Cristo como Mediador e do Espírito Santo como Santificador. A sua esposa também ficou conhecida por ter tido experiências semelhantes. Orlando Boyer afirma o seguinte:

“Aos vinte e quatro anos casou-se com Sara Pierrepont, filha de um pastor, e desse enlace nasceram, como na família do pai de Edwards, onze filhos.

Ao lado de Jônatas Edwards, no Grande Despertamento, estava o nome de Sara Edwards, sua fiel esposa e ajudadora em tudo. Como seu marido, ela nos serviu de exemplo de rara intelectualidade. Profundamente estudiosa, inteiramente entregue ao serviço a Deus, ela era conhecida por sua santa dedicação ao lar, pelo modo de criar seus filhos e pela economia que praticava, movida pelas palavras de Cristo: ‘para que nada se perca’. Mas, antes de tudo, tanto ela como seu marido eram conhecidos por suas experiências em oração. Faz-se menção destacada especialmente de um período de três anos, durante o qual, apesar de gozar de perfeita saúde, ficava repetidas vezes sem forças, por causa das revelações do céu. A sua vida inteira foi de intenso gozo no Senhor.

Jônatas Edwards costumava passar treze horas, todos os dias, estudanto e orando. Sua esposa, também, diariamente o acompanhava na oração. Depois da última refeição, ele deixava toda a lida, a fim de passar uma hora com a família”

Sobre os relatos do avivalista acerca da esposa, comenta Lloyd-Jones:

“...Ele nos faz um extenso relato de uma das admiráveis experiências que sobrevieram a sua esposa. A esposa de Jonathan Edwards foi uma pessoa santa como o próprio Edwards, e ela tem algumas experiências quase incríveis. Ele nos dá um relato delas e as examina”.

Rev. Glauco Barreira Magalhães Filho
(membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza)

Algumas Razões Bíblicas Porque o Crente Não Perde a Salvação

Existe um ensino segundo o qual o crente não está salvo eternamente, ou seja, precisa se esforçar, lutar contra o pecado para não perder a salvação e, assim chegar ao céu. A Bíblia, porém, ensina que há uma salvação agora e eterna: “Em verdade, em verdade vos digo: Quem crê, tem a vida eterna... eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer deste pão, viverá para sempre.” (Jo 6:47,51). Baseado em tão grande promessa, o crente já está salvo e eternamente. Do contrário, as palavras de Jesus, acima citadas, ficariam sem sentido. Sendo assim, o verdadeiro salvo jamais pecará ao ponto de desviar-se do Senhor, mas sempre se arrependerá, e jamais viverá na prática voluntária do pecado (ver I João 3:9). O crente genuíno é ovelha de Jesus, o bom Pastor (Jo 10:4-5). Por isso, uma vez salvo, salvo para sempre, e para ser santo, não para viver pecando.(I Co 1:2). Por isso, a salvação eterna não é pretexto para vivermos no pecado, como falsamente afirmam os defensores da perda da salvação. Dizem estes:

“Se o crente não perder a salvação, então, pode pecar a vontade”. Para estes a Bíblia dá a resposta: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça aumente? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele? “ (Rm 6:12). Sim, o crente está na graça de Deus para sempre, mas não por causa disso vive no pecado, pois para o mesmo morreu (Rm 6:6-7). Agora pergunto aos defensores da perda da salvação: “Como é então, que um verdadeiro crente pode voltar ao pecado, se o mesmo não o domina? A Bíblia é clara ao afirmar que o verdadeiro salvo não pode ser dominado (Rm 6:14). Por isso, não peca habitualmente.”. Àqueles que se dizem crentes e de repente perceberam-se dominados pelo pecado, na verdade, nunca foram ovelhas de Jesus, mas falsa ovelha, ou melhor, porca lavada. Deste modo sobreveio-lhes o que diz este provérbio verdadeiro: volta o cão ao seu vômito, e a porca lavada volta a revolver-se no lamaçal (II Pe 2:22).

Vejamos mais provas de que o verdadeiro crente não pode perder a salvação:

*Primeiro – É promessa de Jesus segurar o crente até o fim. “Eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará das minhas mãos” (Jo 10:28), “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7:25);

*Segundo – É o próprio Deus quem diz que o crente não se desvia dele: “E farei com eles (crentes) um pacto eterno de não me desviar de fazer-lhes o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jr 32:40), “Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3:3);

*Terceiro – O crente não pode ser tragado pelo diabo e perder-se. É também promessa de Deus sermos guardados do diabo até o fim: “Mas fiel é o Senhor, o qual vos confirmará e guardará do maligno” (II Ts 3:3), “Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca” (I Jo 5:18), “E o Senhor me livrará de toda má obra e guardar-me-á para o seu Reino celestial; a quem seja glória para todo o sempre. Amém!” (II Tm 4:18);

*Quarto – O crente não perde a salvação, porque jamais sairá de Cristo, e Cristo jamais sairá do crente, pois o crente é um com o Senhor: “Mas o que se ajunta com o Senhor é um mesmo espírito” (I Co 6:17); “E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja” (Jo 17:26);

*Quinto – O crente não perde a salvação porque os dons de Deus são irrevogáveis, isto é, para sempre: “Porque os dons e a vocação de Deus são sem irretratáveis.” (Rm 11:29), “Esta é a aliança que farei com eles Depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis em seus corações, E as escreverei em seus entendimentos; acrescenta: E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniqüidades”. (Hb 10:16-17);

Nos diz a Bíblia que fomos comprados por um alto preço (I Pe 1:18-19), por isso, não somos de nós mesmos (I Co 6:19-20), somos propriedade de Deus.

Agora pense: “Como pode perder-se alguém, cujo o proprietário é o Todo-poderoso?” Se você crer na perda da salvação, desculpe-me, mas para esta pergunta só lhe resta o silêncio como resposta. Ou então, crer!

No amor do nosso eterno Salvador

Henrique Ventura

A Ciência do Amor de Deus

Certa vez, quando meditava em um texto bíblico, pude perceber uma das virtudes mais deslumbrantes do Senhor. Deus falava ao seu povo, Israel, manifestando seu veemente amor e mostrando o quanto eles eram queridos. A demonstração deste amor é comprovada nos mais diversos acontecimentos daquela gente. O grande El-Shadai livrou-os das mãos de faraó no Egito (Ex 12:41), sustentou-lhes durante sua peregrinação no deserto (Ex 16:12-15), deu vitória diante das nações que circundavam toda a região de Canaã (Js 24:11) e estabeleceu a menina dos seus olhos na terra prometida (Js 24:8).

Noutra ocasião, aquela abençoada nação de Deus foi parar nas campinas de Moabe, nas possessões do rei Balaque. Este já tinha ouvido falar acerca dos poderosos feitos do Senhor e, pressentindo o que estava para lhe acontecer conclamou os midianitas contra os judeus, enviou mensageiros a Balaão, um profeta respeitado e mui renomado, convocando-o para profetizar contra os israelitas. Deus interveio convertendo o mal em bem.

O texto de Deuteronômio 23:5, foi o início de nossa meditação, veja: “Porém o Senhor teu Deus não quis ouvir Balaão; antes o Senhor teu Deus trocou em bênção a maldição; porquanto o Senhor teu Deus te amava”.

O amor de Deus continua sendo uma evidência sublime de seu cuidado, pois se nos aprofundarmos um pouco mais na história dos hebreus, logo, constataremos que não houve um só momento de desprezo por parte do Senhor Deus. O povo inseguro perdurou em certos momentos com sentimento de escravidão deixando-se levar pelas lembranças infrutuosas de um passado ainda recente no Egito. Por estarem no deserto reclamavam a falta de pão, murmuravam por não terem carne e às vezes nem água. Percebemos com isto a insensibilidade de Israel. Não expressavam respeito nem honra a Deus. Porém, diante de toda esta oposição, Deus continuava sendo fiel. A multidão daqueles que seguiam a Moisés não davam a Deus o devido tributo desprezavam Seu amor. Seu juramento redigido no início do livro bíblico nos faz entender o sentimento divino: “Mas, porque o Senhor vos amava, e para guardar o juramento que fizera a vossos pais...” (Dt 7:8a).

A essência de Deus é o amor. Encontramos a fluência dele na trindade antes mesmo de existir o mundo. O Pai ama o Filho, o Filho ama o Espírito, o Espírito ama o Pai. É uma característica peculiar do Senhor, daí o versículo dizer que Ele os amava. Sendo assim, também podemos comprovar que seu amor é ilimitado, pois por ele o homem foi alcançado.

Mas, passando pelos patriarcas, Abrãao, Isaque e Jacó, entenderemos a expansão e o porque de Deus amar aquele povo. Abraão, pai da nação judaica, quando contemplado em Gênesis 11 e 12 foi achado como um homem de pura devoção ao Deus verdadeiro: “E achaste o seu coração fiel perante ti, e fizeste com ele a aliança...” (Ne 9:8). Deus percebeu que Abraão além de amá-lo demonstrava piedade e testemunho persuasivo para que outros se sentissem incentivados a amar a Deus. Não que isto venha a ser uma carência demasiada de Deus, mas simplesmente o desejo de reconhecimento do Criador diante de suas criaturas. Ele, buscando um perfeito modelo para figurar tal faculdade, utilizou-se de Abraão. Primeiramente, ordenou-lhe sair do meio de sua família, que estava entre os caldeus, povo idólatra da cidade de Ur, para que pudesse sem impedimento algum honrá-lo e adorá-lo. Abraão fez o papel de um genuíno servo, entregando tudo nas mãos do Senhor Deus, porque o amava e, incondicionalmente, confiava nos propósitos divinos. O apóstolo Paulo quando mencionou a fé deste homem chamou-o de bendito, assim como são aqueles que praticam a mesma fé (Gl 3:9). Sim, havia entre Deus e Abraão uma recíproca amizade de ágape (perfeito amor). O Senhor, pelo exemplo de tão brilhante servo, esperava e dava condições aos seus filhos, netos, bisnetos (...) de encontrarem Nele o mesmo apego. Infelizmente, isto foi raramente protagonizado pela descendência de Abraão.

A orientação de amá-lo, além de estar contida no decálogo, é parte integrante de muitos outros trechos dos evangelhos e cartas apostólicas. Em II Tessalonicenses 3:5, Paulo torna claro que Deus (Jesus) é quem orienta nossos corações em seu amor: “Ora o Senhor encaminhe os vossos corações no amor de Deus...”. Por Ele somos dirigidos a compreender perfeitamente o real sentido de amá-lo e evidenciaremos bem esta afinidade por Ele mesmo. A proximidade com o Senhor nos levará aos bons costumes, as reflexões alicerçadas na Palavra e as tendências puras. Quando muitos assim viverem caminharemos para a perfeição em comunhão e em conformidade com o Pai que a tudo ilumina.

Conscientes desta experiência, temos de Deus um incentivo a mais para vivermos uma vida santificada, equilibrada, perseverante. Quando vejo pessoas que um dia estiveram entre o povo de Deus e hoje retornaram às velhas práticas, fico a pensar que elas jamais sentiram este amor por Deus. Como também não se sentiram amadas por Ele, saíram do nosso meio. Culpa de Deus? Claro que não! O amor proporcionado por Deus é algo maravilhoso, causa uma experiência irreversível. Por isso afirmo sem medo: estas pessoas não compreenderam a dádiva divina, pois a percepção dela nos impulsiona a tributar-lhe nossa vida, ocorrendo, assim, uma obediência espontânea. É o que mostra o apóstolo Paulo em II Co 5:14 quando alude nesta linha de pensamento sobre os efeitos do seu amor: “Porque o amor de Cristo nos constrange...”. Por isso, reafirmo acerca da necessidade de haver uma conscientização, subjugada à experiência no Espírito pela Palavra. Sem ela não se pode discernir tal amor, e como conseqüência não poderemos deleitarmo-nos como filhos diante do Altíssimo.

O apóstolo João, considerando talvez a indagação de muitos quando não entendem o que nos move a submeter-nos às ordens divinas, falou cheio do Espírito: “Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são pesados” (I João 5:3) Quem ama a Deus tem prazer na vida casta. Não é algo estranho, pelo contrário, é uma normalidade para o crente reconhecer a Deus e perfazer seus anseios.

Fomos constituídos “geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pe 2:9) para dar provas deste enlace. A primeira nação desprezou a Deus de fato e verdade. Hoje podemos chamá-lo de Aba (Paizinho) que denota uma afinidade bem estreita. Além do mais, não temos certas dificuldades que havia no Antigo Testamento, “temos um novo e vivo caminho que Ele nos consagrou além do véu” (Hb 10:20). Com maior facilidade podemos usufruir de uma permanente comunhão com Deus através de seu Santo Espírito. Noutras palavras, nenhum crente pode reclamar de não ter incentivo algum para amar a Deus. Tudo o que é possível foi-lhe concedido objetivando sua utilização. O problema de muitos cristãos é viverem uma vida sedentária, simplesmente, engavetando tal dom.

Pelo o exemplo de vida de Filemon podemos confirmar ainda mais nossas poucas palavras. O apóstolo Paulo direcionando uma carta a ele, afirmou: “Graças dou ao meu Deus, lembrando-me sempre de ti nas minhas orações; Ouvindo do teu amor e da fé que tens para com o Senhor Jesus Cristo, e para com todos os santos” (Fm 4-5). Filemon apesar de ser mencionado tão brevemente, nos proporciona condições de entender que o amor de Deus, como aqui mencionado, não é direito apenas dos maiores vultos bíblicos. Às vezes pensamos que os grandes personagens bíblicos tiveram experiências muito mais abundantes que os demais. Mas isto não é verdade! Deus atinge-nos igualmente. Vemos que tal dom era um selo vistoso na vida de Filemon, pois ele era conhecido pela vida de fé e amor a Deus.

É apreciável por demais o exercício constante deste discípulo de Jesus na prática da comunhão com o Pai. Desta forma, pude lembrar-me de um dos tantos problemas dos eleitos; apesar de ser o oposto da nossa proposição vale a pena ser mencionado: Quando não se tem constância nem intensificação espiritual acabamos por constatar uma vida infrutífera, cheia de mazelas contaminando e empobrecendo o vaso que deveria ser trabalhado apenas pelo Fiel Oleiro. Mas, Filemon tinha a experiência que lhe proporcionava a confirmação da frase apostólica: “E nós conhecemos, e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele” (I João 4:16).

Finalizo nosso comentário com uma das expressões mais belas que pude ler em toda minha vida. Uma citação de Richard Baxter, puritano, e homem convicto no amor divino: “É coisa pequena a teus olhos ser amado de Deus? ...cristão, crê nisto e pensa nisto. Serás eternamente seguro nos braços daquele amor que foi desde sempre e se estenderá pela eternidade”.

Pastor Heládio Santos
Membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza

SEPARADOS DO MUNDO

E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus (Rm 12:2).

Alguém já disse que a igreja é como um barco no mar do mundo, pois assim como o barco deve estar na água, mas ela não deve entrar no barco, o que poderia ocasionar o seu afundamento, assim também o crente está no mundo, mas não pode ser influenciado por ele.

A cultura de um povo é a projeção de seus valores sobre os objetos. Não podemos, então, esperar que uma cultura, principalmente a nossa, deixe de ser uma túnica manchada pelo pecado (Judas 23). Vivemos em meio a uma geração cuja postura ideológico-filosófica relativiza a moral, o certo e o errado, consagrando a ética subjetiva e situacional, construída existencialmente por cada um em particular. Esta falta de padrão universal de apreciação manifesta-se na arte expressionista, nas pinturas de significação obscura, em que cada um pode ver uma coisa diferente.

O homossexualismo é visto como opção de liberdade, daí a luta pelo “casamento” de gays, e o surgimento da moda que põe roupa de homem na mulher e roupa de mulher no homem, além de propagação do uso de roupas indefinidas como a saia-calça. As mulheres passam a ter cabelo curto, enquanto os homens a ter cabelo comprido.

O alcoólatra é visto apenas como um doente que precisa ser tratado e não como um pecador que precisa se arrepender para ser libertado por Deus. O homem é considerado um ser sem alma imortal, um mero produto da evolução, um amontoado de sensações e impulsos, daí porque considera-se a vida “expressiva” e sem restrições como sendo a vida feliz, o que resulta na libertinagem sexual, além do uso de roupas indecentes, músicas e danças sensuais.

As músicas mundanas, a moda, o ensino educacional, grande parte da literatura e dos programas de televisão estão afetados pelo pecado, compondo a grande estrutura maligna chamada na Bíblia de mundo (I João 5: 19). A igreja, de certo modo, deve ser uma contra-cultura, deve nadar contra a correnteza. Isso não quer dizer, entretanto, que não podemos acolher certos elementos moralmente não comprometidos de nossa cultura (I Cor. 7: 31). Isso, entretanto, não é uma sugestão para o isolamento, mas antes, é um desafio a que sejamos luminares no meio das trevas, como ovelhas no meio de lobos, tendo o viver honesto entre os gentios (I Pedro 2: 12).

Eis o que Jesus queria mostrar aos discípulos quando lavou-lhes os pés. Nós precisamos ser lavados constantemente pela Palavra de Deus, porque estamos no mundo, “pisamos e andamos na terra”, correndo o risco de ter sujo os “pés”: Disse-lhes Jesus: Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo (João 13:10). Precisamos ser continuamente podados pela Palavra de Deus (João 15:2,3).

A Bíblia diz em Romanos 12:2 que não devemos nos conformar com esse mundo. O mundo está ao nosso redor como um rio de forte correnteza e tenta nos impor a sua forma, de fora para dentro, impedindo a liberdade interior. Os homens não se apercebem que os meios de comunicação e o sistema educacional lhes dita como devem viver, determina-lhes uma cosmovisão. O incrédulo, morto espiritualmente, oco por dentro, não tem outra opção senão a de seguir o que a Escritura chama de curso deste mundo (Efésios 2:1). O crente, entretanto, foi espiritualmente vivificado e tem a palavra viva de Deus dentro de si (I Pedro 1: 23). O crente, portanto, não deve se conformar com este mundo, mas deve ser transformado pela palavra interior. Ser transformado é mudar de forma, transcendendo ou transpondo a outra. O crente não foge do mundo como os monges, mas, antes, vence o mundo por sua fé ( I João 5:4, 5). Ser transformado é ser modelado de dentro para fora pela Palavra de Deus (João 7: 38) e, logo, é ser livre (II Cor. 3: 17).

O crente não deve ser formado pelos falsos valores deste mundo, embora não deixe de conhecê-los, inclusive para refutá-los. O crente deve ser moldado pela palavra interior. É a Palavra de Deus quem nos separa do mundo:

Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade (João 17:14-17).

O crente deve ser diferente do mundo e suficientemente autêntico para suportar a hostilidade dos que não temem a Deus. John Bunyan, na sua alegoria intitulada O Peregrino, registra a passagem de Cristão e Fiel pela feira das vaidades:

Primeiro, os peregrinos trajavam vestes muito diferentes daquelas usadas por qualquer um dos que negociava na feira. Por conseguinte, as pessoas da feira não tiravam os olhos deles. Alguns diziam que eram idiotas, outros que eram lunáticos mendicantes, outros ainda, bárbaros estrangeiros.

O mundo cria “máscaras” para as pessoas de tal maneira que elas valem não pelo que são, mas pela “máscara” que usam. Chamam essas “máscaras” de status social. Assim o mundo aliena as pessoas de si mesmas, escondendo-as atrás de disfarces. O mundo divide os homens. Quando nos convertemos somos espiritualmente inclusos em Cristo e dele revestidos. Apesar de termos diferentes funções no corpo de Cristo, somos todos iguais no Senhor:

Porque quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo. Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gálatas 3:27,28).

Para sermos inclusos em Cristo pela fé temos que renunciar o mundo e, logo, suas divisões artificiais (Filipenses 3:4-9). Paulo adverte que não podemos andar segundo os homens (I Co 3:3). Tiago diz:

Meus irmãos, não tenhais a fé de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor da glória, em acepção de pessoas. Porque, se no vosso ajuntamento entrar algum homem com anel de ouro no dedo, com trajes preciosos, e entrar também algum pobre com sórdido traje, e atentardes para o que traz o traje precioso, e lhe disserdes: Assenta-te tu aqui num lugar de honra, e disserdes ao pobre: Tu, fica aí em pé, ou assenta-te abaixo do meu estrado, porventura não fizestes distinção entre vós mesmos, e não vos fizestes juizes de maus pensamentos? Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus aos pobres deste mundo para serem ricos na fé, e herdeiros do reino que prometeu aos que o amam? Mas vós desonrastes o pobre. Porventura não vos oprimem os ricos, e não vos arrastam aos tribunais? Porventura não blasfemam eles o bom nome que sobre vós foi invocado? (Tiago 2:1-7)

Em Romanos 12:2, conforme já vimos, Paulo diz que não devemos nos conformar com o mundo. O versículo de número um, entretanto, fala que devemos apresentar a Deus as nossas vidas como culto verdadeiro. O texto sugere, em outras palavras, que quem se conforma ao mundo se entrega a ele e, logo, lhe presta culto, cai em idolatria. Tiago tem um raciocínio semelhante na sua epístola (Tiago 4:4-5). Ora, o modo mais evidente em se conformar com o mundo é seguir as imposições sensuais e altivas da moda. Em seu livro O Banquete, escrito em forma de diálogo, o famoso filósofo dinamarquês, Kierkegaard, traz o seguinte, no discurso de alfaiate, um personagem fictício, sobre a mulher:

...a moda é uma hipócrita exposição da indecência, autorizada porque respeita as conveniências... me sacrifico para ser o sumo sacerdote no culto desse ídolo... A mulher quer sempre estar na moda, constantemente; não pensa em outra coisa. A mulher é muito espirituosa, mas emprega tão mal o seu espírito como o filho pródigo emprega o dinheiro... nada há, por mais sagrado que lhe pareça, que não reduza às dimensões do mero enfeite de que a moda é a expressão por excelência; e não devemos estranhar que ela assim pense, porque a moda é para ela sagrada... A mulher veste-se à moda para atrair a atenção das outras mulheres, e sabe ver, num lance de olhos, se está ou não a ser observada e admirada... saiba ele (o homem) que a mulher não lhe pertence, como não pertence a outro homem qualquer; a mulher está dominada por esse fantasma que surgiu do monstruoso comércio da reflexão feminina consigo própria: a moda. A mulher deveria ser obrigada a jurar pela moda, para que os seus juramentos pudessem ser tidos por verdadeiros; porque a moda é objeto constante dos seus pensamentos, e tema que está sempre em relação com todos os outros assuntos de que se ocupe... Se alguma vez eu descobrir uma moça cuja modéstia humilde não tenha sido ainda corrompida pela indecente frequentação da sociedade feminina, farei o possível por que ela caia. Atraí-la-ei às minhas redes, e, depois de presa, levá-la-ei ao lugar de sacrifício, quero dizer à minha loja de modas... Quando ela parecer mais louca do que uma internada em hospital de alienados, ou ainda mais extravagante, a ponto de nem sequer ser admitida no hospital, então poderá sair da minha casa; está encantada; porque está encantada, nenhum homem, nenhum deus, conseguirá agora atemorizá-la; é que ela agora... está na moda... Se a mulher tudo reduziu e referiu à moda, quero eu prostituí-la graças à moda, como ela merece; não tenho tréguas, eu, alfaiate; a minha alma ferve só de pensar na minha tarefa; quero que a mulher acabe por se mostrar de brincos na ponta do nariz...

Jesus disse que tínhamos que ser como as crianças para entrar no Reino de Deus. Uma das características da criança é que ela valoriza os outros pelo que eles são, pois ela ainda não está a par das máscaras sociais (status). Quando uma criança discrimina pessoas, o faz porque foi influenciada por um adulto ou porque confunde o feio com o mau por não discernir entre a intuição ética e a intuição estética.

No livro O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry está escrito:

Se lhes dou detalhes sobre o asteróide B 612 e lhes confio o seu número, é por causa das pessoas grandes. As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não pergunta nunca: ‘Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas?’ Mas perguntam: ‘Qual a sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?’ Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: ‘Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...’ elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso dizer-lhes: ‘Vi uma casa de seiscentos contos’. Então elas exclamam: ‘Que beleza!’.

São as divisões artificiais (máscaras sociais) que fazem aflorar o orgulho (“não é próprio da minha posição fazer uma atividade servil assim!”) e as lisonjas hipócritas. Como os ricos sempre tiveram uma “máscara” de elevada significação no mundo, Jesus disse que dificilmente um rico entraria no Reino de Deus, pois ele teria que renunciar o apego às riquezas.

A criança também caracteriza-se por não aceitar este mundo como real. De algum modo, ela acha que deve haver um outro mundo, daí as suas fantasias, que para ela são muito mais verdadeiras. Deve haver um outro lugar onde o mal sempre perde e o bem sempre vence. C. S. Lewis nas suas Crônicas de Nárnia fala de crianças que entraram por portais mágicos em um outro mundo (Nárnia), onde elas se tornaram príncipes e princesas e, quando elas cresceram foram para lá novamente através da morte, exceto uma que foi condenada a ser adulta para sempre (inferno). Foi aí que descobriram que a Nárnia da infância era apenas uma sombra da Nárnia real (céu). Nesta oportunidade veja o diálogo que aconteceu:

— Senhor — disse Tirian, após saudar a todos —, a não ser que eu tenha entendido mal as crônicas, deve haver mais alguém. Vossa Majestade não tem duas irmãs? Onde está a rainha Susana?

— Minha irmã Susana – respondeu Pedro, breve e gravemente — já não é mais amiga de Nárnia.

— É verdade — completou Eustáquio. — E cada vez que se tenta conversar com ela sobre Nárnia ou fazer qualquer coisa que se refira a Nárnia, ela diz: ‘Mas que memória extraordinária vocês têm! Continuam no mundo da fantasia, pensando nessas brincadeiras tolas que a gente fazia quando era criança!

— Essa Susana! — disse Jill. — Agora só pensa em ‘lingeries’, maquilagens e compromissos sociais.

Aliás, ela sempre foi louquinha para ser gente grande.

— Gente grande, pois sim! — disse Lady Polly. — Gostaria que ela crescesse de verdade. Quando estava na escola, passava o tempo todo desejando ter a idade que tem agora, e agora vai passar o resto da vida tentando ficar nessa idade. Tudo em que ela pensa é correr para atingir a idade mais boba da vida o mais depressa possível e depois para aí o máximo que puder. (A Última Batalha. Crônicas de Nárnia. Martins Fontes: São Paulo, 1997, pp. 160 e 161)

Que Deus nos faça como crianças para que herdemos o seu Reino!!

Rev. Glauco Barreira Magalhães Filho
Membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza

Prosperando através da aprovação de Deus

Escrever sobre o assunto prosperidade, no presente tempo, tem se tornado difícil. Principalmente porque, vivendo em uma época materialista, muitos cristãos estão se envolvendo com aquilo que a Bíblia diz ser contrário à vontade de Deus.

Tendo em vista o esclarecimento de algumas verdades bíblicas, quanto ao tema acima citado, iremos analisar alguns pontos procurando esclarecê-los à luz da Palavra de Deus.

Boa parte dos que professam a fé evangélica tratam seus bens como algo primordial, sem dar, lamentavelmente, seu devido valor espiritual, o que é prejudicial a nossa comunhão com Deus. Os meios que utilizaram para adquirir seus bens e o pão de cada dia foram, horrendamente, distintos daqueles que preceitua a Palavra de Deus. Formularam conceitos para justificarem suas ações e com isso denegriram os ensinamentos bíblicos. A importância dada ao trabalho honesto como uma possibilidade de ter prosperidade foi desconsiderada. Estes evangélicos preferem meios menos fatigantes para conquistarem seus ideais e, ainda ousam dizer que contam com beneplácito divino quando utilizam-se de certos artifícios perniciosos, tais como: premiações lotéricas, agiotagem, ganhos fraudulentos, etc.

A Bíblia condena acentuadamente o trabalho desonesto: Trabalhar com língua falsa para ajuntar tesouros é vaidade que conduz aqueles que buscam a morte (Pv 21:6), da mesma forma que censura o apego demasiado ao ganho financeiro: Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores. (I Tm 6:10b). Ora, alguém que foi levado por tal vento de iniquidade certamente esqueceu-se da bondade de Deus, não creu que pelos meios corretos Deus o abençoaria dando-lhe pelo menos o sustento para sua vida. Agindo desta maneira manifestou mais uma forma de desonrar ao Senhor. As Escrituras, porém, ensinam àqueles que querem viver agradando a Cristo de modo diferente: Quando, pois, tiveres comido, e fores farto, louvarás ao SENHOR teu Deus pela boa terra que te deu. Guarda-te que não te esqueças do SENHOR teu Deus, deixando de guardar os seus mandamentos, e os seus juízos, e os seus estatutos que hoje te ordeno (Dt 8:10-11).

Questionando um pouco mais sobre a prosperidade perguntamos: Seria permitido ao crente ter abundância material? Qual o objetivo em tê-la? E de que maneira adquiri-la? Antes de respondermos as perguntas, lembremo-nos que as riquezas nos expõem a várias tentações (I Tm 6:9) e o cuidado com elas é indispensável. Vejamos: durante muito tempo, principalmente na Idade Média, conceituou-se como simplicidade de vida por alguns grupos da sociedade, a abstinência plena das riquezas e dos bens materiais, contestando assim radicalmente a tese bíblica: E o SENHOR virou o cativeiro de Jó, quando orava pelos seus amigos; e o SENHOR acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía (Jó 42:10). Vemos aqui que Deus fez prosperar seu servo Jó. Não contestamos a isso! Deus manifestou algum propósito naquela situação. Mas, por outro lado, muitos influenciados pelo pensamento anterior, talvez, professam indelicadamente e sem discernimento, que nenhum rico poderá entrar no Reino de Deus. Todavia, a Bíblia instrui-nos da maneira correta acerca deste assunto. Dela retemos o aprendizado que coopera com a prudência e que nos faz responder esta afirmativa da seguinte maneira: Deus concede a determinados cristãos enriquecimento, para que estes disponibilizem seu capital e invistam na seara do Mestre.

Sermos prósperos é sinal, inicialmente, de muito labor: Quem muito semeia muito ceifará. A dedicação ao ofício que dignifica o homem possibilita ou não o aumento de seus haveres. É algo também que enriquece a auto estima, e nos ajuda saber que somos capazes de servir a Deus com a mesma força na sua seara (Jz 6:11-14). Lendo o livro de Eclesiastes vemos que Salomão faz alusão similar ao nosso pensamento: Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que sua alma goze do bem do seu trabalho... (Ec 2:24a). O Pregador faz também menção ao fato de ser Deus aquele que derrama sua benção sobre o trabalhador: ...Também vi que isto vem da mão do Senhor. (Ec 2:24b). Isto é um dom de Deus (Ec 3:13). Aquele que muito trabalha conscientemente e aplicando bem seus recursos, calculando seus gastos, terá oportunidades de progredir. É claro que a mão do Senhor determinará o seu benefício. Cotton Mather, não apelando para o mérito humano, e com o mesmo parecer do movimento puritano, certa vez afirmou: Em nossas ocupações estendemos nossas redes; mas é Deus quem coloca tudo o que vem nelas.

Por um outro lado, o trabalho imprudente, dará sobras de cansaço e um fardo elevado. Aliás, exortando-nos sobre este aspecto Salomão ainda nos orienta quando diz: Melhor é a mão cheia com descanso do que ambas as mãos cheias com trabalho, e aflição de espírito (Ec 4:6). Sendo bem realista o escritor suscita-nos a enxergar a provisão segura ao invés da opressão do trabalho. Por isso, irmãos, deixem de lado preocupações que servem somente para cauterizarem a fé, pois elas só turbam os corações que por vezes já estão enfadados. Tal desejo imoderado nada mais é do que pura vaidade.

Se por um equívoco alguém disser que seu trabalho não lhe proporciona condições de ter abundância material, não julgue tal situação como se Deus estivesse colocando-o como cobaia para usá-lo sem propósito. Glorifique a Deus pelo pouco que Ele concedeu: Em todo trabalho há proveito... (Pv 14:23a). Quem sabe se a tua condição espiritual não te permite ter muitos benefícios materiais. Não afirmo, todavia, que para qualquer crente ser próspero tem que estar pleno espiritualmente, nem estou afirmando que todo aquele que está no cume da espiritualidade pairará sobre ele a promessa de prosperidade. Se você possuísse muitos bens será que a relapsia e a insensibilidade a Deus não falariam mais altas em tua vida? As riquezas segundo o propósito de Deus são boas, mas envolvem uma espiritualidade sem igual. Requer do homem vigilância e prudência para não ser por elas enganado.

Vejamos o exemplo de Jacó e como Deus abriu-lhe as portas com tantas bênçãos. Na casa de Labão, seu tio, Deus era com ele. Não existia um sentimento descomedido naquele homem. Ele sabia por que estava ali, fazia sua parte com afinco e dedicação. Agora, os propósitos divinos caíram sobre o patriarca. Pela providência de Deus, Jacó seu servo, prosperou e alicerçou a nação que posteriormente ficaria conhecida como Israel.

No entanto, não confundamos a benção de Jacó no Antigo Testamento, pois havia uma promessa específica voltada para a nação israelita com fins de bênçãos materiais: Antes te lembrarás do SENHOR teu Deus, que ele é o que te dá força para adquirires riqueza; para confirmar a sua aliança, que jurou a teus pais, como se vê neste dia. (Dt 8:18). Houve necessidade de prosperidade, tendo em vista a edificação do povo como nação.

Há porém, quem julgue tal promessa como sendo de direito também dos bem-aventurados do Novo Testamento. Contudo, não nos deixemos levar pelo pensamento daqueles que afirmam ser obrigatório ao crente ser próspero. Se não for, os predicantes desta doutrina sugerem a presença de problemas com pecados e envolvem as pessoas em uma situação tenaz. Com esta imposição amedrontam seus adeptos e, certamente não terão os efeitos que julgam ter. Pessoas perdem a oportunidade de estar em paz de espírito devido a ansiedade de quererem possuir bens em abundância.

Lembro-me de Paulo quando escreveu aos crentes em Filipos e deixou-nos claro o cuidado que aquela igreja tinha com ele. Por que? O apóstolo encontrava-se em duras privações materiais: Muito me regozijo no Senhor pois finalmente renovastes o vosso cuidado a meu favor... (I Tm 4:10a). O santo ministro de Deus foi um mestre, com fé inabalável foi arrebatado até o céu onde teve visões celestes, mas mesmo assim passou necessidade. A Igreja dos filipenses o acolheu sendo seu auxílio naquele momento. Mas Paulo foi ainda mais objetivo: passou frio, cansaço, fome, perseguição... Mas como um eleito de Deus pôde dizer: Posso todas as coisas naquele que me fortalece. (Fl 4:13). E o que diriam os doutrinadores da prosperidade diante da vida de Paulo? Será que Paulo estava mal espiritualmente? Ou estava encobrindo algum pecado? É algo que gostaria de ouvir dos que defendem estes princípios.

A razão da nossa vinculação da prosperidade à vontade de Deus é encontrada no Salmo 127:1-2, que diz: Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o SENHOR não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela. Inútil nos será levantar de madrugada e repousar tarde, comer o pão de dores. O Senhor é que dá aos seus amados o sono tranqüilo. A fonte é Deus. Sem ele não se produz de maneira adequada. Não tentemos, pois, realizar as coisas forçosamente, sem a iluminação do alto.

Na louca investida, muitos ainda, querendo possuir muitos proventos, acabam enveredando por outros caminhos. Um deles é apostar na sorte, ou noutras palavras, jogam com bilhetes de apostas em loterias, sorteios, etc. Existe um grande número de crentes que defendem tal idéia, porém, sinto em dizer: estão à deriva. Dizem que se ganharem algum prêmio beneficiarão a Igreja. Mas será isto bom? Relacionar ganhos típicos do mundo ímpio com a Igreja que deve ser pura e imaculada? Acredito que nossos candidatos a milionários, julgando-se futuros agraciados, mal percebem que são profundamente desinteressados pela Palavra de Deus e expõem-se a um testemunho de falta de fé. Quem é aquele que diz confiar em Deus e logo apela para meios gananciosos, mundanos e egoístas, senão aquele que não crê no Fiel Galardoador? Mas os cuidados deste mundo e os enganos das riquezas e as ambições de outras coisas, entretanto, sufocam a Palavra e ela fica infrutífera. (Mc 4:19).

Sorte no Antigo Testamento

O argumento que tenta justificar as apostas nestas jogatinas mundanas é quase sempre o mesmo. Busca-se no Antigo Testamento “motivos” para tal prática. Todavia, com argumentos que não têm ligação com o sentido em que são aplicadas. Um dos raciocínios mais utilizados é o da divisão territorial de Israel descrita em Números 26:55-56. O versículo diz: Todavia a terra se repartirá por sortes; segundo os nomes das tribos de seus pais a herdarão. Segundo sair a sorte, se repartirá a herança deles entre as tribos de muitos e as de poucos. “Ora”, dizem eles, “Se Deus separou por sortes a bênção de cada tribo, nós também poderemos receber a nossa semelhantemente”. Vamos apreciar paulatinamente o assunto até chegarmos a uma conclusão. Primeiramente, argumentaríamos o fato de haver uma situação justa. Todas as tribos seriam beneficiadas: a cada uma caberia a sua herança, segundo os que foram deles contados (Nm 26:54). Ao contrário do que acontece nos jogos de azar, quando uma ou poucas pessoas são premiadas.

Para entendermos uma segunda contra-argumentação, verifiquemos a intenção do Senhor Deus. Ele já havia determinado que as doze tribos seriam beneficiadas na divisão, ou seja, todas elas receberiam a herança pela promessa. Ora, se assim foi não seria inconsistente dizermos que a sorte serviu apenas para apontar o lugar, segundo a vontade de Deus, onde os grupos israelitas deveriam estabelecer-se. Era uma porção de terra que já havia sido demarcada pelas vitórias e conquistas dos judeus.

Uma terceira resposta seria dizer que, o texto citado acima, não se refere aos jogos e, não faz alusão a este tão encantado meio de “ganhar” dinheiro. Onde está então, o fundamento para sabermos que devemos apostar? Levemos em conta que a necessidade do sorteio foi para possibilitar ao sacerdote imparcialidade. Se ele dissesse que os da tribo de Levi, por exemplo, ficassem com as melhores porções de terra isto não nos faria imaginar que tal escolha ocasionaria muita confusão e o homem de Deus seria acusado de beneficiar determinadas tribos? A mesma coisa acontece em Levítico 16:5-10: E da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para expiação do pecado e um carneiro para holocausto ...E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma pelo SENHOR, e a outra pelo bode emissário. Então Arão fará chegar o bode, sobre o qual cair a sorte pelo SENHOR, e o oferecerá para expiação do pecado. Mas o bode, sobre que cair a sorte para ser bode emissário, apresentar-se-á vivo perante o SENHOR, para fazer expiação com ele, a fim de enviá-lo ao deserto como bode emissário. Para evitar queixas e reclamações, Deus ordenou que assim se fizesse para estabelecer sua vontade ou do contrário o povo reclamaria de sua oferta. Uns, certamente, diriam que prefeririam que sua oferta tivesse sido considerada de uma maneira e não da que foi sugerida pelo sacerdote. Geraria contendas e facções. Consideremos, também, algo de suma importância: o povo não tinha o Espírito Santo, permanentemente, para que escolhesse e aceitasse tal oferta por inspiração do alto. Eis aqui mais um motivo para a ação de Deus. Mas não pensemos que se Deus permitiu naquele tempo permitirá hoje esta prática. Noutra ocasião, no tempo do profeta Miquéias, nos dias de Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá, o povo achou que toda e qualquer determinação de Deus seria conhecida através do lançamento de sortes. Errado! Deus reprovou e mostrou que não aceitava aquilo quando inspirou Miquéias a falar, e este lhes disse: Portanto, não terás tu na congregação do SENHOR quem lance o cordel pela sorte (Mq 2:5).

Sorte no Novo Testamento

Um outro caso que suscita questionamento é o da escolha de Matias como apóstolo. Aquele homem, que afirmo ter sido um servo exemplar (At 1:21-23), foi escolhido por sortes (Atos 1:26). Porém, procuremos discernir bem aquele fato. O que encontramos claramente na Bíblia é que Matias não foi considerado apóstolo por Deus, antes o próprio Senhor Jesus apareceu a Paulo (Saulo de Tarso) incumbindo-o do ministério. Deus não aceitou Matias como ministro por que a sorte, aos moldes do Velho Testamento, não determina mais a vontade de Deus no Novo Testamento: A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda a determinação (Pv 16:33). Antes, o lançar sortes tem uma conotação insinuantemente maligna e mundana nesta era da graça. Quando Jesus estava na cruz, o que fizeram com sua vestimenta? E, havendo-o crucificado, repartiram as suas vestes, lançando sortes, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: Repartiram entre si as minhas vestes, e sobre a minha túnica lançaram sortes (Mt 27:35). Seria difícil de entender que houve um desrespeito tremendo na atitude dos guardas romanos? Colocaram algo de tão valioso, a túnica de mestre do Filho de Deus, como um objeto vulgar, tornando sem valor, fazendo o que? Lançando sorte! Isto, meu caro leitor, não é prática da Igreja pura, mas de um povo mundano. Mas, não é só na Bíblia que encontramos objeções a sorte. Até bem pouco tempo as leis brasileiras condenavam os jogos como vemos no art. 50 da Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei nº 3.688, de 3 de outubro de 1941) e o art. 58 do Decreto-Lei nº 6.259, de 10 de fevereiro de 1944 — ambos os dispositivos apenavam os que praticavam os jogos de azar em geral e do jogo de bicho em particular.

Ora, se a sorte lançada ao acaso não for falta de fé em Deus, então, o que será? A Bíblia ensina-nos que somos reino e sacerdotes de Deus (Ap 1:8). O coração do crente está apto a ouvir a voz de Deus e dele receber instrução por graça e luz para resolução de problemas financeiros e quaisquer outros. O crente deve ter sua vida centralizada em Cristo, confiando n’Ele, nas suas promessas, reconhecendo a provisão divina: Porque todas quantas promessas há de Deus, são nele sim, e por ele o Amém, para glória de Deus por nós (II Co 1:20). Levando em consideração a instrução de Salomão, rei israelita, que diz: A riqueza de precedência vã diminuirá, mas quem a ajunta com o próprio trabalho a aumentará. (Pv 13:11). Para que, então, perder tempo esperando o improvável se podemos lançar mão no arado e comermos com o nosso próprio suor, o que é virtuoso e louvável? Ainda, se a Igreja não foi achada jogando em cassinos, fazendo apostas ou marcando bingos em nenhuma ocasião, quando da sua formação, como então achar cabível tal posicionamento hoje?

O trabalho, sabemos, é algo agradável aos olhos de Deus. O próprio Senhor Jesus disse: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também (Jo 5:17). O nosso labor, dependendo de nossa situação espiritual, nos condicionará a termos abundância. Lembro que não é obrigação divina dar recursos em abundância por você está bem espiritualmente. Tal situação virá segundo o querer de Deus.

Sobre a Usura

Há também quem queira progredir às custas do trabalho dos outros. Não me refiro àqueles que tem empregados, antes, refiro-me àqueles que emprestam dinheiro com usura, isto é, os agiotas. Os tais especulam sobre os fundos concedidos com fins de obterem lucros exorbitantes. Não culpo somente o onzenário pela torpeza, mas também àqueles que vão até eles, confinando às vezes até a alma. A Bíblia admoesta-nos sobre esta prática, e diz: E, quando teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás, como estrangeiro e peregrino viverá contigo. Não tomarás dele juros, nem ganho; mas do teu Deus terás temor, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com usura, nem darás do teu alimento por interesse (Lv 25:35-37). Não está correto negociar com o dinheiro desta maneira. Podemos perceber qual deve ser a prática do genuíno cristão pelas palavras de Jesus: ...emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo... (Lc 6:35). Devemos ajudar àqueles que de fato precisam. Não incentivo ninguém a ajudar àqueles que não querem trabalhar, ficando por aí dependendo sempre de um e de outro. Jesus apregoou a termos cuidados e socorrer os sinceros carentes. Observando melhor os fatos, vemos o quanto há de opressão neste jogo de empréstimos a juros. As pessoas ficam angustiadas por verem seus débitos dia após dia crescerem, enquanto que os usurários deleitam-se e folgam-se pela multiplicidade do seu dinheiro. Estamos de comum acordo com o Livro dos livros quando aprendemos que nossos bens ou dinheiro podem ser usados sem tamanho desamor: Não dando o seu dinheiro à usura, e não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem (Ez 18:8). Uma exortação ao povo de Deus é jamais usar deste método para viver: Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como um usurário; não lhe imporeis usura (Ex 22:25). Prova o nosso temor a Deus e nosso amor para com o próximo. Quem tem isto como meio de trabalho deverá colocar em dias suas contas com Deus, pois você é mais devedor d’Ele, por conta disto, do que a soma daqueles que estão em débito contigo.

Conclusão

Àqueles que tornaram-se ricos neste mundo a custa de muito labor e dedicação, sem enveredar pela injustiça, a Bíblia tem uma exortação: Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos (I Tm 6:17). E, ainda: Aquele que confia nas suas riquezas cairá, mas os justos reverdecerão como a folhagem (Pv 11:28).

Deus determinará prósperos aqueles que Ele quiser. Não será uma fatalidade, e sim conseqüência de muito trabalho, e assim valorizaremos e faremos melhor uso daquilo que Deus nos concede. E sendo bem sucedido, o crente pode ter um estilo de vida simples (I Tm 6:7-10, Mt 8:20). A única coisa que mudará será a condição de disponibilizar seu patrimônio em prol do reino eterno ou ao auxílio comum, o que concorda com um pensamento que diz: O dinheiro não pode subir aos céus, mas pode realizar coisas celestiais na terra. Não necessitamos, obrigatoriamente, dar, vender ou desfazer-nos de nossos bens para podermos servir a Deus convincentemente. Servir a Deus, com os bens, consiste em entregar tudo nas mãos d’Ele, afinal de contas Ele é o dono de tudo (Êx 19:5-6, Sl 24:1 e Ag 2:8), e deles sermos apenas um mordomo bom e fiel.

Pastor Heládio Santos
Membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza

Analisando o Pensamento Unitarista

O ensino unitarista nega terminantemente a santíssima trindade. Para eles não há três pessoas distintas na divindade (Pai, Filho e o Espírito Santo), mas três manifestações de um só Deus. Sendo assim, para o unitarista, as três pessoas da trindade não são três pessoas distintas.

Vejamos uma citação unitarista no tocante a este assunto: “Se Jesus é Senhor e Cristo, então, ele(Jesus) é e não pode ser outra coisa menos que Pai, Filho e Espírito Santo, em uma pessoa manifesta em carne. E não três pessoas, mas um Deus manifesto em três títulos maiores”.(De Volta a Palavra Original, p.9, publicado pela Igreja Unitarista Tabernáculo da Fé).

Portanto, para o unitarismo Jesus é Pai, Filho e Espírito Santo, manifestando-se por esses três títulos.

O Ensino Bíblico

Vejamos a partir de agora, de modo resumido, o que ensina a Bíblia no tocante a trindade e, por conseguinte, a perfeita união e distinção das pessoas que a compõem. A trindade de Deus está de modo claro revelada na Bíblia, esta nos apresenta um único Deus formado por três pessoas, uma só essência, da qual participa o Pai, o Filho e o Espírito Santo, ou seja, três pessoas e uma só natureza. Um Deus triuno e não triplo. Vejamos o seguinte versículo: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor (Dt.6:4). Neste versículo está revelado a trindade de Deus, pois a palavra único usada no original hebraico é a palavra echad que significa unidade composta. Esta palavra quando usada indicava não uma unidade absoluta, mas uma unidade composta, vejamos um outro exemplo do uso da palavra echad indicando assim uma unidade composta: E disse: eis que o povo é um (echad)...(Gn 11:6). Portanto, a palavra echad indica uma unidade composta, e se Deus é apresentado por esta palavra, então Ele é um Deus composto. Vale salientar, que existia também no original hebraico uma outra palavra usada para unidade absoluta, que era a palavra yachid, foi esta a palavra usada em Gn 22:2, quando Deus diz para Abraão: Toma o teu único (yachid) filho... É perfeito o emprego da palavra neste verso, pois Abraão tinha outro filho com Hagar, Ismael (Gn 16:4), mas o Filho da promessa era só um, Isaque.

Concluímos, então, que Deus é composto. Se a trindade de Deus é um ensino falso, não sendo ele trino, mas um só, porque então permitiria ele ser identificado na sua palavra de um modo composto, já que não seria isto verdade?

Vejamos mais uma prova da Santíssima Trindade nos seguintes versículos: Batizado que foi Jesus, saiu logo da água; e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele; e eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo (Mt 3:16-17). Nesta passagem temos evidência clara acerca das três pessoas da trindade, Jesus sendo batizado, o Espírito Santo vindo sobre Ele, e o Pai falando do céu, ou seja, três pessoas distintas. No entanto, dizem os unitaristas que isto foi possível não porque haja três pessoas distintas, mas por ser Jesus onipresente se manifestou de três formas ao mesmo tempo. Ao fazer este arranjo, eles esquecem o seguinte detalhe: Jesus estava como homem e portanto limitado, não podendo estar se batizando, descendo do céu em forma de pomba e falando do céu. E, ainda o que seria mais absurdo, dizendo para ele mesmo: Este é meu Filho Amado em quem me comprazo. Alguém diz: “Ao se fazer carne Jesus deixou de ser onipresente?”. Ao se fazer carne, Cristo não usou seus atributos divinos, pois deles abdicou para morrer como homem (veja Fl 2:6). Assim sendo, Jesus como homem não usou seus atributos divinos, e como a onipresença, faz parte desses atributos, Ele enquanto não ressuscitou não usou sua onipresença. Ao ressuscitar, Jesus passou a usar tudo o que era seu de direito (Mt. 28:18), pois a obra já havia sido consumada, e hoje mesmo estando no céu com o corpo glorioso, Jesus é onipresente, sendo aquele que enche tudo e em todos (Ef. 1:23). Mas na terra enquanto homem não.

Uma outra observação acerca do texto em questão é o que nos diz o verso 16 em que Jesus recebeu o Espírito Santo “sobre Ele”. Isto faz cair por terra a idéia unitarista de que Jesus é o Espírito Santo, pois como pode uma pessoa receber sobre si ela mesma? Só se recebe sobre si outro. Assim sendo, Jesus recebeu sobre si a terceira pessoa da trindade, o Espírito Santo (Ver Lc 4:18).

Vejamos mais passagens que mostram a distinção das três pessoas da trindade:

1. Rogo-vos irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo amor do Espírito que combatais comigo nas vossas orações a Deus (Rm 15:30).

2. A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam como todos vós (II Co 13:13).

3. Mas quando apareceu a bondade de Deus nosso salvador... Ele nos salvou mediante a lavagem da regeneração e renovação pelo Espírito Santo, que ele derramou ricamente sobre nós por meio de Jesus Cristo (Tt 3:4-6).

(Ver ainda Lc 10:21, I Co 12:4-6, I Pe 1:2)

Sim, a trindade de Deus está clara na Bíblia, e os que nela crêem cante como os serafins no céu: Santo, santo, santo, é o Senhor dos exércitos. (Is 6:3).

O Espírito Santo é Deus (At 5:3), igual ao Pai e ao Filho. Porém, distinto de ambos, ele não é o Pai nem o Filho, é sim o Espírito de Cristo (Rm 8:9). É portanto, igual ao Pai e procedente D’ele (Jo 15:26), é igual ao Filho e também procedente Dele (Gl 4:6), enfim, é o Espírito que procede do Pai e do Filho. Sendo de ambos pessoa distinta: ...batizando-os em nome: do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt. 28:19).

A Distinção Entre o Pai e o Filho

A Bíblia apresenta o Senhor Jesus como sendo o Filho eterno do Pai (Jo 1:1), ao contrário do que dizem os unitaristas, que afirmam que Jesus passou a existir como Filho quando foi gerado no ventre de Maria, e que antes disso Jesus não existia como Filho de Deus. A verdade bíblica é: Nunca houve o dia que Jesus nasceu como Filho, Ele é eternamente gerado do Pai, sempre existiu com o Pai: Mas tu, Belém Efrata, posto que pequena para estar entre os milhares de Judá, de ti é que sairá aquele que há de reinar em Israel, e cujas as saídas são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade (Mq 5:2). As saídas de Cristo, como Filho de Deus, não foi o ventre de Maria, mas desde os dias da eternidade, por isso Jesus afirmou que o Pai o amava (Jo 17:24). Sendo assim, Jesus é Filho eterno do Pai, o verbo que se fez carne (Jo 1:14), é a Ele que se refere I Tm 3:16, sim, Jesus é Deus manifesto em carne. O Espírito Santo transportou sua vida desde os céus para o ventre de uma virgem, o encarnando no ventre de Maria. A carne do Filho eterno de Deus foi obra exclusiva do Espírito Santo, o anjo foi claro: O que é nascido é do Espírito Santo. (Mt. 1:20), não tendo Jesus participação alguma com a carne de Maria. E isto explica a expressão usada em Lucas 1:35: Será chamado Filho de Deus.

Dizem os unitaristas que se Jesus fosse chamado de Filho de Deus por ocasião da encarnação, então antes disto acontecer, ele não existia como Filho. Porém, o que o verso quer dizer é que Jesus na terra seria tão somente Filho de Deus e, que até seu corpo foi Deus que o criou (Hb 10:5). Esquecem os unitaristas, que Jesus como Filho sempre existiu com o Pai, e que na encarnação ele não foi criado com Filho, mas introduzido no mundo: E outra vez, ao introduzir no mundo o seu primogênito... (Hb 1:6). Sim, no tempo certo aquele que já existia no céu se fez carne e habitou entre nós. (Jo 1:14, Gl 4:4). Portanto, Jesus como Filho eterno de Deus sempre existiu, na terra era ele Deus encarnado (Mt 1:23), por isso declarou-se igual ao Pai (Jo 5:12). Sim, Jesus é Deus bendito eternamente (Rm 9:5). Porém, Ele não é a pessoa do Pai, mas um com Ele, Ele é igual a seu Pai, possui a mesma natureza, sendo distinto como pessoa. Vejamos esta verdade: Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está no seio do Pai, esse o deu a conhecer (Jo 1:18). Esta passagem constitui-se no golpe mortal no ensino unitarista, mostra o verso que Jesus é Deus gerado de Deus, ou seja, é o unigênito do Pai. Esta palavra unigênito significa único da mesma espécie, Cristo é o único possuidor da genitura do Pai, logo, Ele não pode ser a pessoa do Pai, visto que não se pode ser unigênito de si mesmo. E ainda mais, o verso chama Jesus de Deus unigênito deixando claro que na divindade um é o Deus Pai, e outro é o Deus Filho, e que ambos tem a mesma essência e uma perfeita união (Jo 10:38). Foi por isso, que Jesus declarou-se não como sendo a pessoa do Pai, mas Filho eterno Dele: Aquele a quem o Pai santificou, e enviou ao mundo, dizeis vós: blasfemas; porque eu disse: Sou Filho de Deus (Jo 10:36). Jesus nunca declarou-se o Pai, mas Filho igual ao Pai: Eu e o Pai somos um (Jo 10:30), isto é, um em divindade, mas distinto como pessoa, pois disse: somos um e não: Eu e o Pai é um. Além do mais como poderia Jesus ser Pai e Filho ao mesmo tempo? como poderia ser Filho de si mesmo? Respondem os unitaristas: “Quando nascemos somos filhos, mas quando casamos e temos filhos, nós nos tornamos filho e pai ao mesmo tempo.” Para justificar que Jesus era ao mesmo tempo Filho e Pai. Neste verdadeiro malabarismo esquecem um simples detalhe e por isso caem do trapézio. O detalhe é: Quando temos um filho, nós que antes éramos só filho, obviamente seremos também pai, porém um é o pai, outra é a pessoa do filho, há distinção. Sendo assim, um é Deus Pai, outro é seu Filho, por isso nossa comunhão é: Com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo (I Jo 1:3).

Vejamos o seguinte versículo: Eu te glorifiquei na terra, concluindo a obra que me deste para fazer. E agora, Pai glorifica-me em tua presença com a glória que tinha contigo antes que o mundo existisse(Jo 17:4-5). Perceba, o amado leitor, a distinção entre o Pai e o Filho: Jesus falou que glorificou o Pai na terra, e o fez na cruz (Jo 13:31), e pediu para que o Pai o glorificasse, e com uma glória eterna, da qual Ele é participante desde a eternidade. Mostrando sua filiação com o Pai, pois diz: A glória que tinha (passado) contigo. Sim, o Filho glorificou o Pai e o Pai glorificou o Filho (Jo 10:32) numa perfeita união.

Na cruz Jesus orando ao Pai disse: ...Deus meu, Deus meu, porque me desamparastes?”(Mt 27:46). Estaria Jesus orando para ele mesmo? Dizem os unitaristas que as vezes que Jesus orou ao Pai, era a sua natureza humana orando à divina. Aí eu pergunto: Afinal, quem é o Pai? a natureza divina de Jesus para quem ele orava ou um dos seus três títulos maiores? Decidam-se! Dizer que a natureza ora é um disparate. Quem ora é pessoa. Jesus não ensinou a natureza dos discípulos a orar, mas a pessoa dos discípulos: Vós orareis assim (Mt 6:9). Quem ora é uma pessoa e se ora à outra. Tanto na cruz como noutros casos era a pessoa de Jesus orando a pessoa do Pai (ver Lc 22:41-42). Vejamos o seguinte versículo: E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças te dou porque me ouvistes(Jo 11:41). Se Jesus é o Pai, que necessidade teria de erguer os olhos ao céu, se ele já estava ali? E outra, se ao orar Jesus o fazia com sua natureza humana à divina, terão que ensinar que além de orar a natureza humana de Jesus possui olhos! Veja no que dá o ensino dos unitaristas!

O Testemunho dos Apóstolos

Se o ensino unitarista é verdadeiro, então teria os apóstolos ensinado, ou melhor, teria Jesus instruído a eles a ensinarem que Ele Jesus é o Pai e que não há trindade visto ter sido os apóstolos ensinados diretamente por Jesus (At 1:2-3). Porém os apóstolos não ensinaram a doutrina unitarista, isto é, eles não criam que Jesus era a pessoa do Pai, mas distinto dele. Muito embora tenham eles ensinado a divindade de Cristo e tenham o apresentado como Deus, não misturavam as pessoas. Eles ensinaram uma perfeita união entre o Pai e o Filho e o Espírito Santo, sem misturar as pessoas.

Para os apóstolos Jesus não era a pessoa do Pai, mas distinto D’ele, e igual na divindade. Vejamos o testemunho de três apóstolos no tocante ao assunto:

A) Pedro – Quando Jesus perguntou: Quem dizem os homens ser o Filho do homem? (Mt. 16:13). Pedro respondeu: ...Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo(Mt 16:16). Nesta resposta vemos a distinção entre o Pai e o Filho, pois Pedro afirmou não que Jesus fosse o Pai, mas o Filho Dele. E Jesus confirma esta verdade ao dizer: ...bem aventurado és tu, Simão Barjonas, pois não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai que está nos céus (Mt 16:17). Ora, quem revelou a Pedro a sublimidade de Cristo como sendo Filho do Deus vivo foi o Pai, que segundo Cristo estava nos céus. Estando Jesus na terra, naquela ocasião, não poderia ser ele o Pai que estava revelando a Pedro. Assim sendo, o Deus Pai revelou a Pedro a sublimidade de Cristo seu Filho, Deus não o revelou que Jesus era o mesmo Pai, mas o Filho Dele. É esta revelação que falta aos unitaristas. No monte da transfiguração mais uma vez é revelada a sublimidade de Cristo como Filho de Deus distinto do Pai, lá o Pai disse do Filho: Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo. A Ele ouvi. (Mt 17:5). A voz que saiu do céu foi a de Deus Pai em relação ao seu filho na terra, assim Jesus não poderia ser a mesma pessoa do Pai. Pedro foi testemunha ocular do fato pois esteve lá (Mt 17:1). Em sua epístola ele esclarece que quem falou do céu foi Deus Pai, glorificando a seu Filho, distinguindo assim as pessoas, diz ele: Porquanto ele (Jesus) recebeu de Deus Pai honra e glória, quando pela glória magnifica lhe foi dirigida a seguinte voz: Este é meu Filho Amado, em quem me comprazo; e essa voz dirigida do céu, ouvimo-la nós mesmos, estando com Ele no monte santo (II Pe 1:17-18). Tanto nesta passagem como em I Pe 1:2, o apóstolo usa o termo: Deus Pai distinguindo este de seu Filho, o que mostra a verdade incontestável, de que há um na divindade chamado Deus Pai.

B) João – Dos apóstolos o mais achegado a Jesus, ao ponto de ser chamado o discípulo a quem Jesus amava (Jo 13:23). É justamente o apóstolo amado que nos fornece provas da divindade de Cristo e sua distinção com o Pai. No evangelho que traz o seu nome encontramos diversos relatos em que Jesus é apresentado como divino mas distinto do Pai. Aliás, a finalidade do evangelho de João foi revelar Cristo como Filho distinto do Pai, o único no qual encontramos a vida eterna: Estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome (Jo 20:31).

Vejamos agora passagens do evangelho de João nas quais a doutrina unitarista vira pó: Mas Jesus respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também (Jo 5:17), Pai, glorifica o Teu Nome. Veio, então do céu esta voz: Já o tenho glorificado, e outra vez o glorificarei (Jo 12:28), Na vossa lei está escrito que o testemunho de dois homens é válido. Eu sou um que testifica de mim mesmo, a minha outra testemunha é o Pai. (Jo 8:17-18), Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. (Jo 15:1), Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim.(Jo 14:3) e Vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai (Jo 16:28).

Portanto, o apóstolo amado não nos escreveu nada sobre um Cristo paranóico, que se dizia Filho de si mesmo, orava a si mesmo, e etc.

C) Paulo – O maior apologeta da Igreja que ensinou tudo sobre a doutrina neotestamentária (At 20:27). Em seus escritos encontramos a divindade de Cristo e sua distinção com o Pai. Vejamos esta verdade: Graça a vós, e paz da parte de Deus nosso Pai, e o Senhor Jesus Cristo (Gl 1:3), Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo...(Ef 1:3), Então virá o fim quando ele(Jesus) entregar o reino a Deus o Pai(I Co 15:24), Paz seja com os irmãos, e amor com fé, da parte de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo(Ef 6:23), Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual existem todas as coisas, e por ele nós também (I Co 7:6). Por estas passagens vemos que o apóstolo Paulo ensinava não que Jesus fosse a pessoa do Pai, mas Filho divino D’ele e, portanto igual ao Pai, porém distinto quanto a pessoa.

A doutrina unitarista de que Jesus é o Pai é falsa, pois não foi ensinada pelos apóstolos. Portanto deve ser rejeitada e pelos fiéis combatida.

No amor de Deus,

Henrique Ventura

domingo, 10 de abril de 2011

O SÁBADO DEVE SER GUARDADO?

A Bíblia ensina que o sábado, como dia fixo de repouso, foi tão somente para o povo de Israel, fazendo parte da cultura judaica. No Novo Testamento não existe mandamento para a observância do sábado como dia fixo de repouso, a ser observado pela igreja. Antes fica clara a idéia de que o sábado foi abolido em Cristo e por isso a igreja, que está em Cristo, não está obrigada a guardá-lo. No entanto, os adventistas do 7º dia afirmam que a igreja do Novo Testamento está obrigada a guardar o sábado, pois o mesmo faria parte dos oráculos de Deus anunciados pelos apóstolos. Baseados nesta linha de pensamento, os sabatistas citam algumas passagens em apoio ao ensino que pregam. Veremos alguns dos argumentos usados pelos adventistas para tentar provar a guarda do sábado, e refutaremos um a um mediante a Palavra de Deus.

“Então voltaram e prepararam especiarias e ungüentos. E no sábado repousaram, conforme o mandamento (Lucas 23:56).”A passagem em questão nos diz que José de Arimatéia e as mulheres que tinham vindo com ele da Galiléia para pedir a Pilatos o corpo de Jesus guardaram o sábado. Então concluem os adventistas: “Lucas diz que as mulheres seguidoras de Jesus repousaram no sábado conforme o mandamento, o que deixa claro a guarda do sábado no Novo Testamento, pois o evangelho de Lucas faz parte do cânon.” Este argumento adventista, por bem arranjado que pareça, não é suficiente para provar a guarda do sábado no Novo Testamento. É bem verdade que Lucas diz que as mulheres guardaram o sábado. No entanto, elas ainda estavam na era do Velho Testamento, razão pela qual repousaram conforme o mandamento. O Novo Testamento passou a vigorar com a ressurreição de Jesus, e na passagem em questão relata-se um fato que se deu ainda no Antigo Testamento. Aliás, no capítulo 23, a partir do verso 50, Lucas está apenas relatando fatos, e bem sabemos que relatos não estabelecem doutrinas. Relato similar fez Lucas ao narrar a circuncisão de Jesus: “Terminados os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém, para apresentarem ao Senhor...”(Lucas 2:22,23). Tanto na passagem citada acima como em Lucas 23:56, relata-se apenas fatos e nada mais. Para serem coerentes, os adventistas deveriam praticar a circuncisão também, pois Lucas citou a circuncisão de Jesus nos mesmos termos que citou a guarda do sábado por parte da mulheres, ou seja, usou os termos “segundo o mandamento” e “segundo a lei do Senhor”.

“Chegando a Nazaré, onde fora criado, entrou na sinagoga no dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler.” (Lucas 4:16). Dizem os adventistas que era costume de Jesus guardar o sábado, e da mesma forma somos também obrigados a guardar. Na passagem em questão, o costume de Jesus não era guardar o sábado, mas ir à sinagoga aos sábados. No evangelho de Marcos esta verdade é comprovada: “Outra vez entrou numa sinagoga... (Marcos: 3:1)”. Note o leitor que nesta passagem é usado o termo “outra vez”, o qual indica um ato costumeiro de alguém. Jesus fazia isso porque no sábado os judeus se reuniam, e ele aproveitava para pregar-lhes o evangelho na sinagoga. Ele pregava (Lucas 4:18,19,20) e curava (Lucas: 6:6). Desta forma cumpria-se o que Ele mesmo havia dito: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mateus 15:24).”

Vejamos agora uma prova clara de que a guarda do sábado estava ligada à estrutura cerimonial da lei, sendo por isso mesmo abolida: “Naquele tempo passou Jesus pelas searas num dia de sábado; e os seus discípulos, sentindo fome, começaram a colher espigas e a comer (Mateus 12:1)”. O que os discípulos fizeram, conforme está mencionado na passagem, constitui trabalho, ou seja, colheram espigas e as debulharam (Lucas 6:1). Vale salientar que a lei proibia os judeus até mesmo de acender fogo no sábado (Êxodo 35:3), quanto mais debulhar e colher espigas. Os fariseus, vendo aquilo, reprovaram a atitude dos discípulos (Mateus 12:2). Em resposta Jesus disse: “... acaso não lestes o que fez Davi quando teve fome, Ele e seus companheiros?...ou não lestes na lei que, aos sábados os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? (Mateus 12:3,5).” Ora, para justificar a atitude dos discípulos, Jesus cita dois casos nos quais as circunstâncias prevaleceram sobre o mandamento. O caso de Davi, no tocante aos pães da proposição (I Samuel 21:6 e Êxodo 25:30) e dos sacerdotes que, quando era preciso, sacrificavam no dia de sábado (Números 28:9). Desse modo, Jesus não reprovou os discípulos por terem eles, por força das circunstâncias, violado o Sábado. Pelo contrário, justificou a atitude deles. Teria Jesus agido assim, se seus discípulos naquela ocasião tivessem quebrado um mandamento moral? De modo nenhum, pois circunstância nenhuma prevalece sobre mandamento moral. O mesmo não se dá quando se trara de mandamento cerimonial. Poderia alguém perguntar: “Guardou Jesus o sábado?” Se ele guardou o sábado, foi pelo mesmo motivo que guardou toda a lei, ou seja, para cumpri-la (Mateus 5:17). Inclusive observou até ritos cerimoniais, pois foi circuncidado (Lucas 2:21-24). Aos leprosos purificados ordenou que cumprissem o rito cerimonial da purificação (Mat. 8:4). Guardou à páscoa (Mat. 26:17) e a festa dos tabernáculos (Jo. 7:10). Deveriam os adventistas guardar estas coisas, pois dizem: “Devemos guardar o sábado porque Jesus o guardou.” Deveriam, também dizer: “devemos guardar a páscoa, a circuncisão, a festa dos tabernáculos, pois Jesus a tudo isto guardou!

Dizem ainda os sabatistas que devemos guardar o sábado porque o apóstolo Paulo o guardou, apelando para algumas passagens do livro de Atos, nas quais menciona-se Paulo indo à sinagoga dos judeus nos sábados (At. 17:2 e 18:4). Outra vez afirmam o que não podem provar, pois nas passagens citadas, não se diz que Paulo guardava o sábado, mas que o seu costume era ir aos sábados na sinagoga dos judeus pregar-lhes o Cristo. Deixemos que as passagens falem por si mesmas: “Ora, Paulo, segundo o seu costume, foi ter com eles; e por três sábados discutiu com eles sobre as escrituras”(At. 17:2) “Ele discutia todos os sábados na sinagoga, e persuadia a judeus e gregos (At. 18:4).” Paulo ia à sinagoga no sábado porque era o dia em que os judeus se reuniam, então ele aproveitava para reunir-se com eles. Não para guardar o sábado, mas para persuadí-los a se converterem ao cristianismo. “Paulo, entrando na sinagoga, falou ousadamente por espaço de três meses, discutindo e persuadindo acerca do Reino de Deus(At. 19:8).” (Ver ainda At. 9:20 e 14:1)

Os sabatistas contra-argumentam citando a seguinte passagem: “No sábado saímos portas afora para a beira do rio, onde julgávamos haver um lugar de oração e, sentados, falávamos às mulheres ali reunidas.”(At. 16:13) Dizem os sabatistas que Paulo e Silas, quando estavam em Filipos, resolveram no sábado sair para orar, exatamente por serem observadores do sábado. A verdade é que Paulo e Silas passaram alguns dias em Filipos (At. 16:12), e por coincidência saíram portas afora no sábado, não para guardá-lo, mas por julgarem que havia ali na beira do rio uma reunião de oração, e foram ter com as mulheres que já estavam ali reunidas. Se é certa a argumentação adventista, então quem guardou o sábado foram as mulheres. A passagem não diz que Paulo e Silas guardou o Sábado. O texto é apenas uma narrativa de fatos, e portanto não estabelece doutrina.

Mas suponhamos que Paulo tenha guardado o sábado. Se devemos guardá-lo porque Paulo o guardou, então temos que praticar a circuncisão, pois Paulo à praticou: “Chegou também a Derbe e Listra. E eis que estava ali certo discípulo por nome Timóteo...Paulo quis que este fosse com ele e tomando-o, o circuncidou...(At. 16:1,3).” Respondem os sabatistas, dizendo que a circuncisão foi abolida, pois era cerimonial. Pois bem, se é assim, então não estamos obrigados a guardar o sábado, pois este também é cerimonial.

Escrevendo aos gálatas, Paulo mostrou que não era guardador do Sábado. Em Gálatas 4:10,11 diz ele: “Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Temo o vosso respeito não haja eu trabalhado em vão entre vós.” Aos colossenses Paulo consola, dizendo que não devem ser julgados por causa de sábados que, juntamente com outras cerimônias, são chamados de sombras das coisas vindouras (Col. 2:17). Estes sábados mencionados em Colossenses 2:16, não são os sábados festivos, pois estes já estavam inclusos nas festas. No verso citado Paulo os distinguiu das festas, pois fala em “dias de festas” e “sábados”, mostrando que está se referido aos sábados semanais, ou seja, aqueles do decálogo. Os adventistas contra-argumentam, dizendo que sábados no plural referem-se aos cerimoniais e festivos, ou seja, aos sábados anuais, cinqüentenário, etc... e seriam estes à que Paulo refere-se em Col. 2:16. Esta afirmativa adventista é falsa. Aliás, não existem dois sábados, só existe um, o do decálogo. O que acontecia é que o sábado semanal tornava-se festivo por ocasião das festas do Senhor que, quando realizadas no sábado, tornavam-o dia festivo. Neste caso, o sábado festivo é o mesmo semanal, que também é dia de festa (ver Oséias 2:11).

A afirmativa de que “sábados” refere-se só aos cerimoniais não é sustentável, pois o sábado semanal está também no plural: “falarás também aos filhos de Israel, dizendo: certamente guardareis os meus sábados; porquanto isso é um sinal entre mim e vós pelas vossas gerações; ... (Êxodo 31:13).” Portanto, a passagem refere-se aos sábados de Êxodo 31:13, visto que os festivos já estavam inclusos nas festas.

Em Atos 20:27, diz o apóstolo Paulo que não se esquivou de anunciar nenhum dos oráculos de Deus. Não encontramos nas epístolas paulinas, nem naquelas direcionadas à gentios, como a epístola aos Romanos, ele ensinando a guarda do sábado na dispensação atual. Pelo contrário, fez justamente o oposto, como ficou provado acima. Uma outra observação é que Paulo realizava a ceia não no sábado, mas no Domingo (Atos 20:7). “Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido.”(Mat. 5:17,18) O texto acima citado tem sido a coluna do adventismo. Na tentativa de achar apoio escriturístico para a guarda do sábado nos dias de hoje, baseados nesta passagem afirmam que a lei moral não foi abolida, pois Jesus não veio destruí-la, e que da lei moral, ou seja, do decálogo, não iria cair nem um só til. Logo, como o sábado está nesta lei, não pode ter sido abolido. Aqui os sabatistas distorcem as palavras de Jesus, dando a elas uma interpretação forçada, fora do contexto. Em Mateus 5:17, Jesus não está referindo-se só ao decálogo, quando fala em lei, pois lei no Novo Testamento refere-se a todo o Pentateuco. Não há divisão de lei, em lei moral e lei cerimonial, a lei é uma só(João 1:17). Neste caso, quando Jesus disse que não veio destruir a lei, mas cumpri-la, ele está se referindo a toda a lei, inclusive ao livro de Moisés. No desenrolar do texto, Jesus mistura em um só contexto mandamentos do decálogo, mostrando que ambos formavam uma única lei (Mat. 5:21,33,38, etc.). Neste caso, os adventistas ficam sem saída, pois se em Mat.5:17 a lei é todo o Pentateuco, como de fato o é, então temos que guardar não só o sábado, mas a todos os outros mandamentos cerimoniais, isto se a lei continua como ministério. Ora, Jesus não veio abolir a lei destruindo-a, mas cumprindo-a. Ao cumprir a lei, ele aboliu o velho regime da lei, fazendo-a passar como ministério, e estabelecendo um ministério muito mais excelente (II Cor. 3:7,8). Sim, Jesus não destruiu a lei, ele a cumpriu, e ao cumpri-la, ele a aboliu como ministério. Ele mesmo disse: “Não passará, sem que seja tudo cumprido.” A lei como ministério se foi, e o sábado foi junto.

Contra-argumentam os adventistas, dizendo que se a lei foi abolida, então podemos pecar à vontade, pois onde não há lei, não há pecado. Ora, o que foi abolido foi o ministério da lei com suas simbologias, por isso não guardamos o sábado, o qual é simbólico. Os mandamentos morais somos obrigados a guardar, não por causa da lei, mas porque são morais. A própria Bíblia responde aos sabatistas: “De modo nenhum. Nós, que já morremos para o pecado, como viveremos ainda nele?”(Rom. 6:2)

“Abriu-se o santuário de Deus que está no céu, e no seu santuário foi vista a arca do seu pacto; e houve relâmpagos, vozes e trovões, e terremotos e grande saraivada.” Dizem eles: João viu a arca no céu, e na arca foi posto as tábuas da lei, e o sábado é o quarto mandamento. Logo, é eterno. E a guarda do sábado na dispensação atual prevalece. Verdade é que as tábuas que continham os dez mandamentos foram colocadas dentro da arca, para servir de testemunho do pacto de Deus com os judeus feito do monte. Por isso, foram chamadas de tábuas do testemunho (Êxodo 31:18). A arca também serviu como testemunha do pacto, razão pelo qual foi chamada de arca do testemunho (Êx. 40:5). Sabemos que Israel, por causa de sua incredulidade, fora rejeitado por Deus como nação (Mt.21:43). Porém, no período da grande tribulação, Israel voltará a ser nação exclusiva de Deus, pois a rejeição de Israel é temporária e não eterna (Rom. 11:1). Na dispensação atual, o povo de Deus é a igreja, o corpo místico de Jesus (I Cor. 12:13). Quando a igreja for arrebatada Deus voltará a sua atenção para Israel, que voltará a Deus como nação na pessoa dos 144 mil (Apoc. 7:4). E o pacto que Deus fizera com Israel, para o qual serviram de testemunho as tábuas de pedra e a arca, será restaurado. É por isso que em Apocalipse 11:19 encontramos o termo “seu pacto” referindo-se a um pacto exclusivo de Deus com alguém. É uma referência ao pacto outrora estabelecido. Ora, o pacto de Deus, para o qual a arca serviu de testemunho, foi feito com Israel. Por isso, ao avistar a arca, João escreve-nos que ouviu: “relâmpagos, trovões e terremoto”, justamente as mesmas coisas que ouviram os judeus quando o pacto foi feito (Êx. 19:16), não deixando dúvidas que o motivo que pelo qual a arca foi vista foi mostrar que o pacto de Deus com Israel será restaurado, e nunca indicando que o sábado deve ser guardado hoje pela igreja.

Henrique Pereira Ventura