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sábado, 9 de abril de 2011

ALGUNS ESCLARECIMENTOS SOBRE O MINISTÉRIO E OS OFÍCIOS

Rev. Glauco Barreira Magalhães Filho
(Membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza)

Introdução

Em nossos dias, a falta de estudos bíblicos regidos pela preocupação com a coerência, assim como a vontade de justificar estruturas eclesiásticas antibíblicas que, na verdade, favorecem a pessoas específicas, tem contribuído para o surgimento de muitas interpretações errôneas concernentes a relação entre o ministérios e os ofícios. Em razão disso, resolvemos enfrentar algumas dessas questões através do presente artigo.

O presbítero (ou bispo) pode ser solteiro?

Alguns têm afirmado que o presbítero ou bispo tem que ser necessariamente casado e, para sustentar tal pensamento, citam as seguintes Escrituras:

“Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar”(I Tim. 3: 2)

“aquele que for irrepreensível, marido de uma mulher...”(Tito 1: 6)

É importante salientar que as igrejas evangélicas históricas nunca colocaram o casamento como exigência para o ministério. Inúmeros líderes afamados da Reforma Protestante nunca casaram, assim como muitos pré-reformadores e avivalistas, todos pastores ordenados. As igrejas pentecostais de governo autoritário é que tem prescrito essa exigência, assemelhando-se, deste modo, ao catolicismo romano, o qual preceitua a exigência inversa, ou seja, a do celibato. Observamos, porém, que a Assembléia de Deus, na sua fase de pioneirismo, consagrou muitos obreiros jovens ao ministério, restringindo, posteriormente, a prática em virtude nos inúmeros escândalos sexuais.

O texto contido em I Timóteo e em Tito não estabelece o casamento como condição para o ministério, pois as duas epístolas evidenciam que a natureza dos requisitos para o episcopado é moral ou ligada ao ensino da Palavra. Não faria sentido a inserção de uma condição circunstancial, moralmente neutra e não associada a ministração da Palavra.

Na realidade, “marido de uma só mulher” significa que, se o obreiro for casado, o que é mais comum, o seu casamento será monogâmico. É oportuno salientar que, enquanto os intérpretes “casamenteiros” dizem que o pastor tem que ser casado por lhe ser impossível o exercício do ministério sem o apoio da mulher, João Calvino, o grande Reformador de Genebra, o qual não preceituava o casamento como pressuposto do pastorado, dizia que o texto estava a nos ensinar que, se um pastor ficasse viúvo, ele não deveria mais se casar, o que exemplificou com a sua própria vida.

Ora, se “marido de uma só mulher” quer dizer que o ministro tem que ser casado, então, “tendo seus filhos em sujeição”(I Tim. 3:4) e “tenha filhos fiéis”(Tito 1: 6) significa que ele precisa ter filhos? E se ele ou sua mulher forem estéreis?

Claro está que o apóstolo Paulo não quer estabelecer a procriação como condição para o episcopado, mas quer simplesmente dizer que, no caso de o obreiro ter filhos, eles devem estar sujeitos ao pai.

Lembramos, ainda, que Paulo disse que convinha que o bispo fosse “marido de uma só mulher” a Timóteo. Timóteo era um presbítero (I Tim. 4: 6, 14), mas um Presbítero solteiro como Paulo, o seu orientador:

“Ninguém despreze a tua mocidade...”(I Tim. 4: 12).

Paulo recomendou a Tito, que era presbítero, que ordenasse outros ao Presbitério (Tito 1: 5), no entanto, Tito, como os demais membros da equipe de Paulo que o imitavam, era solteiro (Gl. 2:3; II Cor. 8: 23; II Cor. 12: 18; I Cor. 9: 5).

Em I Cor. 9:5, Paulo diz que o casamento é um direito do ministro e não um dever que lhe é imposto.

Os apóstolos, nos tempos da igreja primitiva, eram equiparados aos presbíteros (Atos 15 : 6). Pedro se considerava um presbítero (I Pedro 5 : 1), assim como o apóstolo João (III João 1). Paulo fazia parte de um Presbitério pelo que se depreende da comparação entre I Tim 4: 14 e II Tim. 1: 6. No entanto, Paulo era solteiro. E ninguém venha me dizer que Paulo era viúvo, pois, mesmo que o fosse, isso teria sido na sua incredulidade, e que aproveitaria para o santo ministério as experiências da época de incredulidade?

A Bíblia afirma que Paulo era solteiro e não, viúvo:

“....um mancebo chamado Saulo”(Atos 7: 58)

“Ora, quanto às virgens, não tenho mandamento do Senhor; dou, porém, o meu parecer, como quem tem alcançado misericórdia do Senhor para ser fiel”(I Cor. 7: 25).

Paulo recomenda, em I Cor. 7, os solteiros a não casar. Como ele faria isso, se o casamento fosse exigência para o ministério. Afinal, para ser pastor, era preciso desobedecer ao seu conselho?

Jesus disse: “Porque há eunucos que assim nasceram do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que se castraram a si mesmos por causa do Reino dos céus. Quem pode receber isso, que o receba”(Mateus 19:12). Ora, como aquele que se fez eunuco para melhor se dispor ao Reino de Deus será justamente o que não pode exercer o ministério?

Jesus, o supremo Pastor (I Pedro 5:4), era solteiro.

Não é interessante que Paulo e Jesus, ambos solteiros, são os que mais dão orientações sobre a vida conjugal ? Afinal, aquele que ensina não o faz baseado em experiências, pois se assim o fosse, os incrédulos que já casaram com várias mulheres estariam mais habilitados que os crentes para falarem do casamento. O homem de Deus ensina com fulcro na Palavra de Deus e na orientação do Espírito Santo.

Pode uma pessoa não ordenada por um Presbitério ser intitulada de Pastor?

A Bíblia ensina que o ministério pastoral é um dom de Jesus Cristo (Efésios 4:11). Isso, todavia, não confere o direito de alguém não ordenado se auto intitular de pastor, afirmando possuir o dom diretamente de Jesus Cristo. A Escritura reconhece que uma pessoa pode ser, apesar de não ser oficialmente reconhecida, detentora de habilidades pastorais provenientes diretamente de Deus. No entanto, o exercício oficial e amplo do dom só será possível depois do reconhecimento da igreja e da imposição de mãos do Presbitério, daí porque podemos dizer que o dom é dado pela imposição de mãos do Presbitério.

“E, havendo-lhes por comum consentimento eleito presbíteros em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido”(Atos 14: 23)

“Não desprezes o dom que há em ti, o qual te foi dado por profecia, com a imposição das mãos do presbitério”(I Tim. 4:14).

“Por este motivo, te lembro que despertes o dom de Deus, que existe em ti pela imposição das minhas mãos”(II Tim. 1:6).

Pelo que podemos perceber, o dom pastoral, diferentemente do dom de apóstolo, o qual provém diretamente de Deus (Gálatas 1:1), vem de Deus ao homem através da imposição de mãos do Presbitério. Sob esse prisma é que podemos distinguir o presbítero (pastor) do apóstolo (Atos 15: 6 e 22).

Observamos também que o Presbitério, responsável por ordenações mediante imposição de mãos, não é aquele formado exclusivamente para uma determinada ordenação, na qual os presbíteros sequer conhecem aquele em quem estão impondo as suas mãos. Antes, o Presbitério é o da igreja na cidade, o qual é fixo e permanente (Atos 20: 17; Filipenses 1:1). Além disso, cabe àqueles que vão realizar a ordenação o exame do candidato, a fim de se constatar o preenchimento das condições morais e de conhecimento bíblico (Tito 1 : 5 - 9; I Timóteo 5: 22). Tal procedimento deve se realizar somente após a igreja ter eleito os candidatos ao episcopado (Atos 14 : 23). Os anabatistas não reconhecem ordenações ministeriais fora dessas normas bíblicas.

Existe ordenação de evangelista?

Alguns, pelo fato de Paulo só ter feito alusão a bispos e diáconos em várias passagens (Fil.1:1; I Tim 3: 1- 13), acreditam que só existe ordenação para esses dois ofícios. Embora seja verdade que só existem dois oficiais na igreja, aquele que conduz o rebanho, dando-lhe doutrina e disciplina (o presbítero), e aquele que cuida da assistência material aos necessitados (diáconos), acreditamos na ordenação de evangelistas.

Pastores (presbíteros) e diáconos são os que ocupam cargos de governo e assistência, sendo elementos necessários à estrutura da igreja. O evangelista não aparece como oficial porque sua função na igreja não se liga à sua estrutura interna, mas sim, a sua expansão externa.

Um evangelista não precisa aparecer como presbítero ou diácono para atuar. Ele não precisa ser um ancião (significado de presbítero), pois não é essencialmente um conselheiro experiente e reconhecido (função pastoral). Aliás, a Bíblia nunca fala do presbítero como um evangelista, mas sempre como um supervisor (significado de bispo) que exerce funções pastorais (I Pedro 5 : 1-4 ; Atos 20 : 28; I Timóteo 5 : 17).

A Bíblia fala que o diácono Felipe era um evangelista, mas não se pode dizer que ele exercia seu dom de evangelista através do diaconato, pois o evangelista é um ministro da Palavra, enquanto o diácono ficava responsável tão somente pela distribuição das mesas (Atos 6: 2-6).

Paulo entende que a tarefa de um evangelista pode também ser exercida por um presbítero, mas ela estará além da sua responsabilidade de presbítero e não nela inclusa.

“Mas tu sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista...”(II Tim. 4: 5).

Nos dias do Novo Testamento, os membros do Presbitério eram chamados de “presbíteros” (III João 1). Os evangelistas não eram chamados de “presbíteros”, mas, antes, de “evangelistas”:

“...e entrando na casa de Felipe, o evangelista, que era dos sete, ficamos com ele”(Atos 21: 8).

Notemos no versículo acima que a Escritura distingue a posição de Felipe como evangelista da sua posição como diácono (um dos sete). É claro que, se uma pessoa era identificada como evangelista, havia uma solenidade de ordenação. Aliás, nos tempos da igreja primitiva havia a consagração de obreiros para qualquer obra especial de evangelização no Reino de Deus (Atos 13 : 1-3)

Existem apóstolos hoje?

O ministério apostólico (Efésios 4 : 11) era um dom recebido diretamente de Cristo, pessoal e fisicamente (Marcos 3: 13; Lucas 6: 13), razão pela qual a eleição de Matias como apóstolo (Atos 1) ter sido fruto de um ato de precipitacão de Pedro, mesmo porque o Espírito Santo ainda não tinha chegado para dirigir a Igreja e Jesus tinha ascendido ao céu, sendo a sua ordem consistente no mandato de esperar o Consolador. Assim, o verdadeiro substituto de Judas foi o apóstolo Paulo (Gálatas 1:1), cuja entrada no colégio apostólico completou o número final de doze (Apocalipse 21: 14). O ministério apostólico incluía em si todos os outros, além de o apóstolo ser um orgão da revelação de Deus para completar a Palavra de Deus (Efésios 3: 3 -5; Colossenses 1: 25).

Enquanto os apóstolos eram orgãos da revelação por terem recebido a Palavra diretamente de Jesus, os profetas-ministros eram orgãos da revelação por terem a doutrina através de inspiração direta do Espírito Santo. Os apóstolos e profetas eram o fundamento da igreja (Efésios 2: 20; Apoc. 21: 14), tendo assim existido apenas no começo de sua construção. Uma vez que a revelação doutrinária encerrou com a Bíblia, os apóstolos e profetas já não mais existem. Com isso não queremos dizer que não continuam a existir os dons carismáticos alistados em I Cor. 12, inclusive o de profecia, o qual nada tem a ver com o dom ministerial de profeta (Efésios 4: 11).

A Bíblia fala em outros apóstolos além dos doze, no entanto, a palavra “apóstolo” aí aparece em sentido genérico. “Apóstolo” quer dizer “enviado”. Somente doze foram apóstolos de Cristo, mas existem vários apóstolos (enviados) da igreja, ou seja, pessoas comissionadas pela igreja para determinada atividade. Neste último caso, não teríamos um dom ministerial, mas uma missão.

“...são apóstolos das igrejas...”(II Cor. 8: 23).

Paulo era, além de apóstolo de Cristo, apóstolo da Igreja de Antioquia juntamente com Barnabé (Atos 13 : 1 - 4; Atos 14: 26, 27). Alguns se professavam apóstolos por terem cartas de autorização das igrejas (II Cor. 3). Os apóstolos das igrejas eram constituídos por elas e os apostólos de Cristo eram fundamento da igreja, constituidores dela através da Palavra (João 17: 20).

Aqueles que estão, hoje, se professando apóstolos de modo semelhante aos doze discípulos são enganadores vaidosos e hereges, cabendo à verdadeira igreja desmascará-los.

“...e que não pode suportar os maus; e puseste à prova os que se dizem apóstolos e o não são e tu os achaste mentirosos”(Apocalipse 2: 2)

Conclusão

Atualmente, o ministério da Palavra tem entrado em descrédito perante os de fora pelo fato de muitos estarem se auto intitulando de pastor sem que tenham sido submetidos a um processo bíblico de exame e ordenação. Esses mercenários vêem o pastorado como uma profissão. Geralmente, essas pessoas seguem um mesmo modelo, imitando o discurso e o jeito de um determinado pregador que possui uma personalidade extrovertida, fala como se tivesse convicção do que diz. Prega uma mensagem que segue a linguagem do senso religioso popular em vez de se valer da linguagem e teologia bíblica, e utiliza a música animada e as orações sentimentalistas e sensuais.

No passado, reconhecia-se em alguém a vocação de pastor pelo fato de a pessoa gostar de leitura, ser dado à introspeção e à meditação solitária. O pastor era considerado apto para o ensino e não para fazer um espetáculo. O exame de sua vocação era feito a partir de fatos de sua infância e juventude, sua integridade de vida era recomendada e a piedade devocional lhe era exigida.

É urgente que se recupere a imagem do ministério, e os anabatistas, com a graça de Deus, estão fazendo isso!

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