O Jornal Tocha da Verdade é um periódico trimestral independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

Comunie

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sexta-feira, 8 de abril de 2011

O Pacifismo Cristão

“Segui a paz com todos...”(Hb 12:14) é uma orientação bíblica, exortativa e incentivadora ao pacifismo cristão. A admoestação nos leva a crer que todo filho de Deus deve ter este compromisso diante do seu próximo. Não devemos ter paz somente com os que são da fé (Mc 9:50b) mas, no que depender de nós, devemos ter paz com todos os homens (Rm 12:18). O ato de sermos pacíficos nada mais é do que uma demonstração explícita do amor de Deus em nós(I Jo 4:7). Vemos as primeiras instruções bíblicas a este respeito no Novo Testamento, para sermos mais específicos, no Evangelho de Mateus. Em Mateus 5:39, o salvador nos ensina: “... não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”

Começaremos a delinear um comentário sobre a conduta bíblica da não resistência, salientando que esta doutrina é peculiar a todos os cristãos genuínos, que através dos tempos portaram-se diligentemente na conduta correta quando eram afrontados, e de maneira nenhuma revidavam, pois eram anabatistas.

Mas o que quer dizer “homem mau”? Homem mau é todo aquele que oprime os servos de Cristo, lançando mão do crente para lhe maltratar. Na realidade, é um déspota sem causa, abusador de “autoridade”. Vemos exemplos disto em Atos 7. No caso, o sinédrio que apedrejou Estevão. Podemos citar também Saulo de Tarso, perseguidor da Igreja (Atos 9:1-2). Mas observemos também o exemplo de Judas Iscariotes, um suposto discípulo, que afetava as emoçòes do Mestre(Jo 13:27), ocasionando assim uma dor profunda, pois Jesus lhe considerava um amigo(Mt 26:50). Acredito ser este sofrimento o mais doloroso para qualquer ser humano, pois através disto Jesus foi levado ao vitupério. É notório que este sujeito, o homem mau, é na realidade um afrontador dos que querem praticar a verdade de Deus. Porém, como posicionamento cristão, devemos dobrar-nos diante de tal malfeitor(Mt 5:40), para que provemos que somos fiéis cumpridores da verdade, sem constrangimento algum e sem ressentimentos. Façamos o bem que o evangelho nos ensina a fazer. Não resista ao homem mau!

É interessante notar que existia no Antigo Testamento um ensino idêntico ao do Novo Testamento. Se alguém, no Antigo Testamento, ferisse, defraudasse ou até mesmo matasse alguém, sofreria este as penalidades, conforme a lei (Lv 24:15-22). Jesus fez questão de mencionar tal fato no versículo anterior (Mateus 5:38), pois queria, com isto, fazer com que os seus ouvintes compreendessem que ali não operava o homem, que possivelmente se colocaria reivindicando alguma justiça para si em decorrência do ato sofrido, mas existia o cumprimento imediato da justiça de Deus por instrumentalidade do próprio homem. Realmente, muitos são os que se confundem por causa destes fatos, mas a verdade faz questão de nos orientar precisamente. A execução da penalidade não era feita por quem havia sido atingido, mas era coletiva, o povo ou parte dele cumpria a sentença(Lv.24:23). Uma prova do que estamos falando é que no mesmo livro(Levítico), encontramos base para a demonstração da não resistência. Vemos no capítulo 19 verso 18, a afirmação bíblica: “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo...”. Mesmo no Velho Testamento encontramos tal prática, pois Deus não mudou!

Detendo-nos um pouco mais, queremos ressaltar a importância de Deus colocar os dois lados da moeda, pois há tanto uma preocupação externa, ou seja, na demonstração ou revide, como na interna, na atitude do coração. Deus exigiu do homem que este não revidasse nem externa nem internamente, não guardando mágoa ou rancor contra o seu próximo. É importante comprovarmos ainda mais o que falamos discorrendo sobre outros trechos do Antigo Testamento. Vejamos Provérbios: “Não digas: Vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor, e Ele te livrará(20:22)”; “Não digas: Como ele me fez a mim, assim lhe farei a ele; pagarei a cada um segundo a sua obra.”(24:29) . Ora se no AntigoTestamento vemos com clareza afirmações para se fazer o bem, no Novo Testamento vemos o seu aperfeiçoamento, fazendo com que pratiquemos esta virtude com o amor que foi derramado em nossos corações(Rm 5:5).

É muito raro encontrarmos, hoje em dia, crentes com estes desejos. É mais fácil ver pessoas lutando pelos seus direitos, quando são ofendidos, querendo satisfazer uma necessidade pessoal e humana, e não visando a glória de Deus. Não pensemos que é desonroso sofrer pelo evangelho. O problema é que associamos tais sofrimentos à situações estremas, como foi a de Estevão(Atos 7). Consideremos as mínimas também, pois é, através delas que pesamos o saldo espiritual das nossas vidas. O fato de muita gente achar que o sofrer, hoje, é para quem não está em plena comunhão com Deus, ou para quem está em pecado, seria um pensamento equivocado, pois a Sagradas Escrituras nos dão respaldo para afirmarmos que o crente sofre por causa de Cristo, quando este obedece a verdade: “E na verdade todos os que querem viver piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições.” II Tim 3:12.. Nenhum dos apóstolos tinha isto por desonra, mas levavam a sério e glorificavam a Deus por participar dos sofrimentos pela causa de Jesus Cristo, At.5:41.

No evangelho de Mateus (26:51-52), vemos que Judas trouxe à presença do Senhor homens armados, à mandado dos principais sacerdotes, visando prendê-lo. Pedro, pressupondo o que estava para acontecer, revidou de uma forma abusiva e bruta, ao ponto de ferir um servo do sumo sacerdote. Jesus imediatamente o repreendeu, ensinando-o a não resistir. Na ocasião Jesus manifestou amor ao inimigo curando o ferido e restaurando-lhe o órgão perdido, além do que exortou a Pedro ao dizer-lhe: “... quem lança mão da espada, à espada perecerá” Mt 26:52b. Vemos com isso que é totalmente desaprovado aquele que revida, mas louvado seja Deus, que assim ensinou o Senhor: “...amai os vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem...” Mt. 5:44, e assim Ele deu exemplo!

Mas levando em consideração o tema proposto nesta oportunidade, gostaríamos de enfatizar também a questão da guerra armada. Seria correto um cristão ir a guerra? Em primeiro lugar pudemos ver que quando somos afrontados de nenhuma maneira devemos revidar, baseando nossa afirmação nas Escrituras. Como então empunharemos uma arma para matar alguém? Outra consideração que gostaríamos de fazer é que a nossa luta não é humana nem material, e sim espiritual(Ef 6:12). Temos como alvo não o nosso próximo, mas sim os principados e potestades. E o combate a ser realizado é o da fé como o apóstolo Paulo afirmou em I Tm 1:18-19. E sempre a Bíblia retrata o cristão como uma pessoa inofensiva (veja II Tm 2:3-4).

Em Isaías, Deus faz uma promessa de pacifismo pleno, senão vejamos: “E estes converterão as suas espadas em enxadões e as suas lanças em foices: não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a guerrear.” Is 2:4

Nas cartas do NT vemos muito freqüentemente orientações para o nosso procedimento. Leiamos algumas delas: “...aborrecei o mal e apegai-vos ao bem” Rm 12:9. Quando acontece isso? Quando alguém não usa os mesmos artifícios utilizados pelo opressor para revidar! “Abençoai aos que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis;” Rm 12:14. Ninguém que professa a fé deve usar de palavras vãs para ofender alguém em revide, mas a sua oração deverá ser uma petição da misericórdia de Deus para aquela vida. “A ninguém torneis mal por mal...” Rm12:17, “Vede que ninguém dê a outrem mal por mal, mas segui sempre o bem, uns para com os outros, e para com todos” I Ts 5:15. Valorizemos, pois, o desejo de paz com todos os homens, e “Não pagueis mal por mal, nem injúria por injúria. Pelo contrário, bendizei, porque para isso fostes chamados...” I Pe 3:9.

Existe um objetivo nisto tudo, para nos posicionarmos assim. O fato é que se sofremos, somos participantes com Cristo dos mesmos sofrimentos, e o evangelho é a causa principal disto acontecer. A nossa vida não esta limitada ao nosso querer, mas sim à vontade de Deus, e Ele, através de nós, é manifesto ao mundo, tanto em palavras como também em obras.

Vejamos um escrito de um anabatista do século XVI, proferindo o amor pelo evangelho e nos incentivando a pelejar por ele. São palavras de Conrad Grebel, na sua carta a Muntzer em 1524:

“Ademais, o evangelho e seus seguidores não devem proteger-se com a espada, e não devem proteger-se a si mesmo de nenhuma maneira... Os verdadeiros crentes em Cristo são ovelhas entre lobos, ovelhas levadas à matança; se preciso for tem que ser batizadas na angústia e na aflição, tribulação, perseguição, sofrimento e mortes, tem que ser provados pelo fogo e tem que alcançar a pátria celeste do descanso eterno não matando seus inimigos carnais, mas sim os seus inimigos espirituais. Não usando a espada mundana ou a guerra...”

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