O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

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terça-feira, 31 de outubro de 2017

A Reforma Protestante e o imaginário de sua época

Novo livro do pastor Glauco Barreira Magalhães Filho, A Reforma Protestante e o imaginário de sua época, estará disponível para venda nesta quinta (02/11/17) no culto da COMUNIE cujo tema será “Sola Escriptura e seus adversários”, previsto para ser realizado na capela Moriá, situado na rua Nogueira Acioli, 2195 – Joaquim Távora, às 19h.

A Reforma Protestante foi um evento histórico e uma revolução paradigmática. Conhecer o imaginário anterior e posterior a esse momento ajuda a enxergar o impacto causado por ele. Nessa obra, procuraremos conhecer o perfil de cada reformador, as suas convergências e divergências, as suas influências e as suas categorias de pensamento. Consideraremos a história de cada um, as suas propostas institucionais e os seus conflitos. Faremos isso, examinando tudo a partir do quadro cultural, político e religioso da época. Veremos como crenças motivaram ações e inspiraram mudanças, sendo que, algumas delas, precisaram de tempo para germinar. Episódios pouco conhecidos são revelado e influências teóricas costumeiramente não salientadas vem à tona. Acusações de um catolicismo conservador recente, bem como dos herdeiros do iluminismo, são pesadas na balança e examinadas à luz da fundamentação doutrinária e histórica. Acompanhe-nos numa viagem ao passado que aterrissará no Presente!


Não perca a oportunidade de adquirir seu exemplar e receber uma dedicatória do autor.


Pressupostos da Reforma Protestante


O diferencial do anabatismo emergente na época da Reforma Protestante

No início do século XVI, a maioria dos protestantes pertencia, em termos gerais, aos movimentos luteranos ou reformados. No entanto, muitas outras ramificações cristãs minoritárias se desenvolveram rapidamente sem usufruírem prestígio e fama.
Quando Lutero fixou suas teses na porta da capela de Wintenberg, iniciando a Reforma em 1517, ele não imaginava a dimensão que suas ações iriam alcançar, apesar de haver movimentos anteriores ao Protestantismo reivindicando fidelidade aos princípios cristãos estabelecidos nas Escrituras cuja disposição para instaurar suas convicções dependia apenas de liberdade.
Os discursos dos reformadores sustentavam que a autoridade do papa e a tradição católica defendidas pelo clero majoritário não eram confiáveis ​​para uma teologia pura que incentivasse práticas cristãs fidedignas. Isso possibilitou um redirecionamento desse olhar crítico para a Bíblia isoladamente como fonte de autoridade e teologia para os protestantes.
Essa compreensão inusitada diante do domínio católico permitiu uma ampliação da disputa sobre a autenticidade dos livros apócrifos, ora bastante utilizados pelo romanismo. Deveriam ser compatibilizados com a Bíblia ou deveriam ser desconsiderados como normas de fé e conduta? A resposta estaria no anseio de muitos protestantes que ao analisar os conceitos doutrinários também se apegavam a uma conduta de análise acadêmica, transformando aquele exame num misto entre o descobrimento do sentido escriturístico e a maneira pela qual deveria se moldar a sociedade da perspectiva social, política e econômica.  
A Reforma “Magisterial”, como se convencionou denominar aquela atitude luterana e calvinista - asseverava a necessidade de a igreja coexistir com o estado (os “magistrados”), criando uma relação de interdependência na qual ambas poderiam interferir em assuntos um do outro. Por exemplo, os magistrados poderiam decidir quem assumiria cargos eclesiásticos, enquanto a igreja se beneficiária das benesses protetivas de um Estado Protestante. No cantão de Zurique, na Suíça zwingliana, a igreja e o estado estabeleceram esse modelo.
O resultado dessa ação mista, Igreja e Estado, pelo viés Protestante, demonstrou ser uma tentativa para assegurar êxito sobre as novas diretrizes emancipatórias do movimento. Aliar poder espiritual ao temporal foi a solução encontrada para barrar qualquer interferência estranha aos seus interesses, de modo que o assédio e as típicas perseguições católicas seriam barradas pela proteção dos príncipes amigos da Reforma.  
Emergindo desse contexto, os Radicais aparecem com uma pregação dissonante dos dois maiores expoentes do contexto reformista. Não foram assim chamados por serem extremistas religiosos, mas porque sua causa buscava um retorno às raízes do profundo Cristianismo. Confirmavam a necessidade não apenas de uma reforma teológica da igreja, mas a desvinculação entre o que era de Deus e o que era de César, fazendo um trocadilho da pronunciação de Jesus. Visavam a promoção da convicção individual, ou seja, tirar suas próprias conclusões sobre suas convicções sem a coerção estatal. Era a chamada consciência individual. Além disso, a proposta estava associada à liberdade de expressão que deveria ser respeitada em vistas de ser uma decisão de foro individualizada, fosse o Estado católico ou Protestante.
O componente convicção (fé) era típico do pensamento da Reforma Radical ou Anabatista. Sua insistência nesse quesito representava que cada indivíduo poderia assumir suas responsabilidades enquanto cristão autêntico, cumprindo como os requisitos pautados nas Escrituras para poder reivindicar o batismo por convicção e não por imposição, como era nos territórios católicos e protestantes. Para os Anabatistas, o batismo infantil era ineficiente para cumprir com o real simbolismo apresentado nos Evangelhos, enquanto necessário para o censo populacional nos países dominados pelo papa e pelos reformadores. Certamente por isso os anabatistas foram muito perseguidos já que ensinavam a necessidade de um batismo consciente e convicto para adultos outrora batizados na infância. Esse “segundo batismo” era chamado de rebatismo e tido pelos opositores como herético. Entretanto, a mentalidade anabatista era a que estava alinhada com os ditames das Escrituras.
Muito embora perseguidos pelas suas convicções, os Anabatistas tiveram que amargar perseguição por outros motivos: por difamação, pois quem não era católico nem protestante era chamado de anabatista.
Muitas dessas ramificações pseudo anabatistas eram milenaristas, esperando o retorno iminente de Cristo como previsto no livro de Apocalipse. Os “profetas de Zwickau”, por exemplo, acreditavam em novas revelações do Espírito Santo nos quais eram orientados a se prepararem para o próximo Apocalipse. Apesar de muitos protestantes terem rejeitado esse movimento, é reivindicado como anabatista. Uma falsa suposição.
Thomas Muntzer, um revolucionário que foi inclusive elogiado por Friedrich Engels, parceiro de Karl Marx, propunha uma revolução agressiva, empunhando armas contra seus adversários para instituição de um “reino de paz”. Que contraditório a busca da paz pela guerra! Muntzer promoveu a Guerra dos camponeses alemães (1524-1525), um marco da revolução social armada, na qual milhares de camponeses foram mortos em uma batalha contra grandes exércitos aristocráticos luteranos. O próprio Lutero apoiou os príncipes contra esta revolução no seu tratado “Against the Murderous, Thieving Hordes of Peasants”. Pelas palavras de Lutero sobre os revoltosos:
... esquecendo-se de sua oferta, se envolvem em violência, roubam e se arrebentam e agem como cães loucos. Por isso, é fácil ver o que eles tinham em suas falsas mentes, e que as pretensões que eles fizeram em seus doze artigos, sob o nome do Evangelho, eram nada além de mentiras. É o trabalho do demônio em que estão, e em particular é o trabalho do arquim velho que governa em Mühlhausen, e não faz senão provocar roubo, assassinato e derramamento de sangue; como Cristo diz dele em João VIII: “Ele foi um assassino desde o início”. Desde então, esses camponeses e pessoas miseráveis ​​deixaram-se desviar e, do contrário do que prometeu, eu também devo escrever deles o contrário do que escrevi, e começar por colocar o seu pecado diante deles, como Deus ordena a Isaías e Ezequiel, na possibilidade de que alguns deles possam aprender a se reconhecer. Então eu devo instruir os governantes como eles devem se comportar nessas circunstâncias.
Por isso, alguns protestantes estavam dispostos a usar da violência política para alcançar seus fins religiosos. Por exemplo, o duque francês antiprotestante de Guise foi assassinado por um protestante francês em 1563. Calvino ordenou o assassinato do rival protestante Michael Servetus, queimando-o na fogueira por heresia em Genebra em 1553.
Por outro lado, os autênticos reformadores radicais (anabatistas), eram pacifistas. Michael Sattler demonstrou isso na confissão de Schleitheim. Menno Simons (1496-1561), fundador dos menonitas, também assimilou o conceito acreditando piamente que o pacifismo absoluto era o próprio coração do cristianismo e rejeitava qualquer forma de cristianismo patrocinado pelo Estado. 
Ao colocarmos protestantismo e anabatismo em pauta, verificamos suas tendências para questões de governo, tanto espiritual quanto para temporal. O protestantismo reinventa o modelo católico, substituindo apenas o chefe temporal, dedicando aos príncipes e outras instituições políticas o domínio e o poder do Estado e se solidarizavam com eles. Suas normas passaram a ser restritivas e coercitivas, não permitindo liberdade religiosa em seu território. O apego à segurança religiosa e a preservação dos pilares que instituíram o protestantismo ecoam nesse sentido. Os anabatistas, entretanto, não tinham e nem queriam uma pátria, pois sua pátria está nos céus. Suas reivindicações não priorizavam o reino terreno, visto que sabiam ser este efêmero, mas ensinavam com ousadia e coragem a dedicação ao Reino Eterno, não feito por mãos humanas nem sob seu domínio. Queriam restaurar o pensamento reinante na Igreja Primitiva que era desprovida de apego aos valores terrenos, aos principados e potestades constituídos e ao bem-estar social, muito embora prestassem honra às autoridades e aos estamentos sociais. Apesar de serem arautos da verdade são esquecidos, ridicularizados e menosprezados, mesmo que quisessem apenas valorizar os postulados apostólicos tais quais foram postos, sem intervenções.
Heládio Santos

Referências
EG Rupp e Benjamin Drewery, Martin Luther, Documents of Modern History (Londres: Edward Arnold, 1970), pp. 121-6.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Fogo nas Colinas de Zurique

Este livro nos leva a Zurique, na Suíça, no início do século XVI, para acompanhar a vida dos cristãos chamados “anabatistas”. Baseada em fatos verídicos, esta obra mostra a oposição ferrenha que estes cristãos sofreram, não apenas das autoridades, mas também de falsos religiosos que se sentiam ameaçados por aqueles que viviam segundo os ensinamentos da Palavra de Deus. Diante das ameaças de morte, muitos desistiam de aceitar o evangelho de Jesus e caíram ao lado do caminho. Outros, que permaneceram firmes, tiveram que pagar com a própria vida. Fogo nas colinas de Zurique mostra que somente a verdade é capaz de nos dar a esperança de vida eterna.
Formato: 14 x 21cm, 352 páginas

Autor: Joseph Stoll

DISPONÍVEL PARA VENDA na banca localizada no
templo da Igreja Batista Renovada Moriá.


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Anabatistas

Os anabatistas não são uma denominação. O nome é mais um título descritivo do que um nome organizacional. Nos dias dos apóstolos, havia a Igreja de Jesus Cristo, com um único corpo de doutrinas ensinado pelos apóstolos e seus sucessores. As várias igrejas locais pregavam arrependimento e confissão de pecados, juntamente com o batismo por imersão como sinal externo da nova vida em Cristo (Romanos 6: 3-4). Embora sob a autoridade dos próprios apóstolos quanto à doutrina, cada igreja foi governada de forma independente pelos líderes que Deus colocou neles. Não havia hierarquia denominacional nem distinção de “nós / eles” dentro das várias igrejas. De fato, Paulo repreendeu os coríntios por tais divisões (1 Coríntios 3: 1-9 ). Quando as disputas sobre a súbita doutrina surgiram, os apóstolos declararam o ensino de Deus com base nas palavras do Senhor e das Escrituras do Antigo Testamento. Durante pelo menos 100 anos, esse modelo permaneceu o padrão para todas as igrejas.
Começando em torno de 250 dC, com as perseguições intensas sob o imperador Décio, uma mudança gradual começou a acontecer com os bispos (pastores) de certas igrejas notáveis que assumiram uma autoridade hierárquica sobre as igrejas em suas regiões (por exemplo, a igreja de Roma). Enquanto muitas igrejas se renderam a essa nova estrutura, havia um número substancial de igrejas dissidentes que se recusavam a ficar sob a crescente autoridade dos bispos. Essas igrejas dissidentes foram chamadas primeiro de “puritanos” e são conhecidas por terem influenciado até a França no século III. À medida que a igreja organizada (católica) adotou gradualmente novas práticas e doutrinas, as igrejas dissidentes mantiveram suas posições históricas. O testemunho consistente da igreja durante os primeiros 400 anos de sua história foi administrar o batismo apenas aos que primeiro fizeram uma profissão de fé em Cristo. A partir de 401, com o quinto Conselho de Cartago, as igrejas sob o domínio de Roma começaram a ensinar e praticar o batismo infantil. Com o advento do batismo infantil, as igrejas separatistas rebatizavam aqueles que fizeram profissões de fé depois de serem batizados na igreja oficial. Neste momento, o Império Romano encorajou seus bispos a se oporem ativamente às igrejas dissidentes, e até mesmo aprovaram leis condenando-os até a morte. Os re-batizadores tornaram-se conhecidos como anabatistas, embora as igrejas nas várias regiões do império também fossem conhecidas por outros nomes, como Montanistas, Novacianos, Donatistas, Albigenses e Valdenses. 
Essas congregações anabatistas cresceram e prosperaram em todo o Império Romano, embora fossem quase universalmente perseguidas pela Igreja Católica. No momento da Reforma, os assistentes de Martinho Lutero queixaram-se de que os batistas na Boêmia e na Morávia eram tão prevalentes, que eram como ervas daninhas. Quando os ensinamentos de João Calvino se tornaram conhecidos, muitos dos valdenses se uniram com a Igreja Reformada. A partir desse ponto, as várias igrejas anabatistas perderam gradualmente seus nomes antigos e muitos assumiram o nome de Batista, embora tenham mantido sua independência e autogoverno históricos.
Quem são os anabatistas hoje? Os mais identificáveis
​​são os huteritas, os menonitas e os amish, embora muitas igrejas batistas modernas também se identifiquem como herdeiras das tradições anabatistas. Os Huteritas, ou mais propriamente, os Irmãos Huterianos, traçam sua história até 1528, quando um grupo de anabatistas fugiu de perseguição por sua recusa em pagar impostos de guerra e formou uma sociedade comunal em Austerlitz. Jakob Hutter, um dos primeiros anciãos, foi martirizado em 1536. Junto com o pacifismo, a vida comunitária é uma referência da crença Huterita. Os menonitas foram formados na Holanda como resultado da perseguição severa na Suíça e na Alemanha. Os anabatistas que fugiram para a Holanda foram organizados sob o ensinamento de Menno Simons, um sacerdote católico que se alinhou com os anabatistas em 1539. Muitos menonitas são identificáveis ​​pelo seu vestido liso e as coberturas de cabeça usadas por suas mulheres. Os Amish traçam sua história de volta a uma divisão dos anabatistas suíços e alsacianos em 1693, quando Jakob Ammann sentiu que os irmãos suíços estavam se afastando dos ensinamentos estritos de Menno Simons e precisavam impor uma forma mais rigorosa de disciplina da igreja. O caráter distintivo dos amish está em sua separação da sociedade à sua volta. Eles evitam a tecnologia moderna, mantêm-se fora dos envolvimentos políticos e seculares, e se vestem claramente. 
Por outro lado, há grupos anabatistas que conservando os princípios bíblicos vivem em sociedade, acreditando que sua mensagem vai além do discurso. Pelas práticas e obras a fé tende também a ser proclamada. Grupos anabatistas da América do Sul e da América Central tem esse procedimento. Muitos batistas estão aqui relacionados.
Quando perguntado como os anabatistas de hoje diferem de outros protestantes evangélicos, um deles disse: “Os anabatistas veem Jesus não só como Salvador, mas como mestre, ensinando-lhes a viver suas vidas enquanto estiverem nesta terra. Eles acreditam que a obediência aos Seus mandamentos é necessária; portanto, eles tentam viver como Ele ensinou. Assim, eles são pessoas separadas, seguindo o estreito e estreito caminho para o Reino de Deus que Jesus ensinou e viveu. “A ênfase do ensino anabatista é o Evangelho do Reino, que visa o estabelecimento de um lugar de amor, alegria e paz no Espírito Santo”. 


Margaretha Sattler: uma anabatista convicta

Margaretha Sattler pertencia a um grupo de religiosas chamadas Beguines[[i]]. Por volta de 1523, ela deixou a ordem para se casar com Michael Sattler, um antigo ex-beneditino. Juntos, eles se juntaram ao movimento anabatista do início, dos quais muitos grupos atuais são descendentes e emergiram rapidamente como líderes. É bastante lamentável que se saiba mais sobre sua morte do que sobre sua vida. Ela era, obviamente, uma mulher de fortes convicções e era uma das poucas mulheres ativamente associadas à Reforma. Muitas das outras mulheres presas com ela eram esposas dos radicais, mas muitas delas foram liberadas devido à sua falta de envolvimento real com o movimento e porque a maioria deles se retratou depois de serem capturados. Em 24 de fevereiro de 1527, ela e seu marido, Michael, fizeram parte de um grupo de anabatistas na pequena cidade alemã de Schleitheim, para formar a primeira “Confissão” ou “Artigos de fé” do movimento anabatista. É conhecida como a Confissão de Schleitheim. Logo após a reunião, Margaretha e Michael foram capturados pelos católicos e julgados em Rottenburg por heresia pelo conde von Zollern que presidiu o julgamento. Michael foi queimado na estaca em 17 de maio de 1527 e, de acordo com Martyrs Mirror: “Sua esposa, também, depois de ter sido submetida à muitas súplicas, admoestações e ameaças, sob as quais ela permaneceu firme, foi afogada alguns dias depois.” (Martyr's Mirror, 1660). A condessa de Hechingen, esposa de Joachim von Zollern, e conhecida como condessa Ursula von Zollern tentou persuadir a esposa de Sattler a desistir de sua fé e ficar em seu tribunal. Mas Margaretha declarou que seria fiel ao seu Senhor e ao marido cristão. Dizem que preferiria morrer no fogo com ele. De acordo com alguns relatórios, ela foi afogada na quarta-feira, 22 de maio de 1527. Margaretha declinou resolutamente de todas as ofertas de misericórdia em troca de sua retratação. Ela disse à condessa von Zollern que não aceitava os termos de sua oferta de liberdade pela seguinte razão: “Eu não acompanho minhas crenças por causa do meu marido, eu sigo meu marido por causa das minhas crenças”.



[i] As beguinas, tal como as beatas e as merceeiras, eram mulheres leigas católicas que praticavam uma vida ascética em comum, parecida com a monacal, a maior parte das vezes nos chamados beguinários, na área da actual Bélgica.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O conceito de batismo na visão anabatista

Entre os anabatistas do século XVI concebia-se um olhar radical, mas essencialmente bíblico acerca do batismo. De acordo com John Driver (1994:30) o conceito anabatista de batismo possuía três raízes principais, entre essas citamos duas:

A) Sua leitura do Novo Testamento, onde encontravam que, na Grande Comissão, o mandato de batizar vem logo após o de fazer “discípulos”.

B) E seu conceito da vida cristã como discipulado

Podemos observar que este conceito trata o batismo cristão com o significado que a Bíblia o dá, logo possui uma importância primacial. Essa importância, por sua vez, não ocorre somente por se derivar do mandado de Cristo, mas, sobretudo por seu significado.
Historicamente uma das primeiras declarações públicas de fé redigita por anabatistas e uma das mais citadas e apreciadas pelos estudiosos do movimento anabatista na Suíça é a Confissão de Schleitheim (1927). Paul Lederach faz uso de um artigo desta confissão para elucidar a definição anabatista salientando o seu conceito sobre o batismo. O trecho que se vale o citado autor diz:

“O batismo será aplicado a todos aqueles que tiverem sido ensinados o arrependimento e a mudança de vida, e [que] creem verdadeiramente que os seus pecados foram removidos por meio de Cristo, e a todos quantos desejam andar na ressurreição de Jesus Cristo e queiram ser sepultados com Ele na morte, a fim de também ressuscitarem com Ele; a todos aqueles que, com tal entendimento, desejem-no e peçam-no de nós [A igreja]”

A partir do artigo de fé citado acima podemos observar o batismo como um ato que exige responsabilidade pessoal, e profissão de fé consciente, pois o ato de batizar ou batizar-se evidencia que o novo cristão agora pertence a outra espécie de criação, uma nova, só que espiritual. Convém diferenciar o batismo como ato e não como obra. O ato é uma ação de obediência ao mandado divino de Cristo, já a obra pode ser considerada como uma ‘ação’, mas que pode ser maculada por interesses vãos e egoístas do homem caído e essencialmente religioso quando vê o sacramento como apenas um mandamento religioso.
Ao se falar de responsabilidade pessoal e profissão de fé consciente conclui-se que o batismo só deve ser aplicado àqueles cujas vidas tenham sofrido uma mudança paradigmática, denominada de novo nascimento, e a consciência de que o crente fazendo profissão de fé está anunciando através do batismo o selo de submissão voluntária a Cristo e ao seu corpo, a Igreja.
Lederach diz que “em sua essência, o batismo é o meio através do qual o crente regenerado dedica-se a uma vida de obediência, na comunhão com outros crentes, arrolado dentro da comunidade visível dos salvos (a saber, a Igreja) ”. Outra colocação oportuna faz o autor quando diz: “A natureza da Igreja, a natureza da salvação e a natureza da vida cristã estão envolvidas na compreensão do batismo do ponto de vista anabatista...”
Outro aspecto que os anabatistas consideravam importantes era que o novo nascimento era o critério essencial e indispensável para o batismo cristão. Assim como a conversão exige arrependimento e fé, o batismo exige o mesmo.
O batismo infantil, defendido pelos reformadores da época da Reforma, não é coerente com a perspectiva anabatista nem com o preceito bíblico.  Os infantes não precisam do novo nascimento até que sejam capazes de fazer preferência pelo bem ou mal. Em suma, os radicais que se distinguiam dos reformadores em alguns aspectos veem que “o conceito da vida cristã como uma peregrinação empresta importância ao batismo”. É esta causa a partir da qual o batismo só deve ser aplicado aqueles cujas vidas de alguma maneira evidenciaram uma escolha voluntária por Cristo através do arrependimento e fé e foi demonstrada pelo novo andar de vida.

Esse pequeno passeio no olhar anabatista acerca do batismo pretendeu mostrar dois aspectos importantes para esse importante movimento da História da Igreja. Esperamos que a história de nossa fé, muitas vezes evidenciada através do sangue de seus personagens nos inspire a olhar para o passado com um olhar mais apreciativo e também encoraje nossa cosmovisão bíblica hoje para cumprirmos aquilo que nossos irmãos na fé obedeceram. 

Heberth Batista Ventura

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O reino que alvoroçou o mundo

O tema principal da mensagem de Jesus foi, sobretudo, o reino de Deus. Este livro leva o leitor aos ensinamentos de Jesus sobre o reino, ensinamentos que,por diversas vezes, têm sido esquecidos. Bercot descreve as novas e radicais leis do reino e seus valores “invertidos”. Não há lugar no reino de Cristo para o cristianismo superficial, pois este é um reino que historicamente causou um alvoroço, uma reviravolta no mundo. 
Formato: 14 x 21cm, 254 págs
Autor: David Bercot

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Conferências de missões 2017

As conferências de missões anuais da Igreja Batista Renovada Moriá tem como objetivo principal encorajar a Igreja a ir para o campo missionário. Durante a noite desta quinta (19/10), data na qual foi iniciada a programação, os hinos, as falas anteriores à pregação, os testemunhos e a pregação em si focaram quesitos como a inquietação pela salvação de almas, a necessidade de orar para que pecadores se convertam, o desprendimento do cristão para desbravar os “campos brancos prontos para a ceifa” e o apoio da Igreja, sustentando as empreitadas respaldadas no Ide de Jesus.
Foi uma noite de muito fervor espiritual, principalmente na pregação do evangelista André Elias que com excelente desenvoltura pronunciou os oráculos do Senhor nessa noite de abertura. Verificou-se que a Igreja ficou tão impactada com as santas palavras que saíram da boca do arauto de Cristo que houve um grande clamor e orações. O clima instaurado perpetuou-se até o fim do culto, apesar de haver ainda muita “lenha para queimar”. As crianças foram contempladas com uma programação exclusiva para elas, levando-as a compreender o valor das missões.
A programação continua na noite de hoje, tarde e noite de amanhã e será encerrada no domingo pela manhã, momento no qual haverá um aprofundamento do tema missões na Escola Dominical. Estarão pregando: pastor Edimilson Lopes, evangelista Cláudio Coelho, evangelista Jean Carlos e alunos o Instituto Pietista de Cultura (cartaz abaixo).


Não perca essa oportunidade de avivar seu coração no altar de Deus. Corra e participe ainda hoje!













Programação do Simpósio sobre Design Inteligente


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A Fé Pela Qual Vale Morrer

Há quatro séculos, na Europa, se alguém cresse em Deus e obedecesse a ele, era bem provável que morreria pelas mãos dos católicos ou protestantes. A fé dos crentes dessa época era mais do que uma profissão religiosa. Eles viviam e morriam pela fé. Embora o caminho dos fiéis fosse perigoso, muitos creram em Deus, e a igreja de Jesus floresceu em meio da perseguição. Neste livro, o autor examina o lado prático duma fé verdadeira, baseado em histórias dos mártires, tomadas do livro Martyr’s Mirror (O espelho dos mártires). A fé pela qual valia a pena morrer é a fé pela qual vale a pena viver em nossos dias.
13 capítulos com perguntas de estudo, excelente para estudo pessoal ou em grupo.
Formato: 14 x 21 cm, 104 páginas

DISPONÍVEL PARA VENDA na banca localizada no
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O batismo católico, o rebatismo e os anabatistas

O batismo é símbolo da regeneração. É a manifestação da experiência consciente e espiritual alcançado pela fé do confesso novo cristão. Foi na Idade Média muito reverenciada pelos anabatistas, tanto que, em muitos casos, perderam suas vidas pela prática bíblica do rito ordenado por Cristo. Não é sem razão que o nome anabatista provém deste misto de obediência a Deus e perseguição, porquanto revelou o apego genuíno à verdade bíblica, renegada pelo tenebroso catolicismo medieval e não discernida pelo Protestantismo. Assim, o batismo tem importância essencial para todas as discussões cuja pauta traz a Reforma Radical (nomenclatura atribuídas aos anabatistas que pretendiam restaurar os padrões neotestamentários, retornando às raízes do verdadeiro cristianismo).
Dentre os líderes mais emblemáticos do movimento, encontramos Michael Sattler,ex-prior do mosteiro beneditino de São Pedro da Floresta Negra. Ele foi possivelmente responsável pela confissão de Schleitheim, primeiro documento dos anabatistas suíços que reivindicava o cumprimento expresso das Escrituras. O diferencial de Sattler foi à forma de adesão ao movimento. Apesar de não sabermos detalhes sobre sua conversão, sabe-se que sua decisão foi muito bem pensada. Na confissão, versou sobre a primeira ordenança de Cristo nesses termos:
O batismo será dado a todos aqueles que aprenderam o arrependimento, a regeneração de vida e que acreditam verdadeiramente que seus pecados foram expiados por Cristo, e a todos quantos andarem na ressurreição de Jesus Cristo e desejem ser sepultados com ele na sua morte, para que possam ser ressuscitados com ele, e a todos aqueles que, com esse significado, requeiram-no (batismo) de nós e o requeiram por si mesmos. Isto exclui completamente o batismo infantil, a maior e principal abominação do Papa. Em tudo isso tem-se fundamento e testemunho dos apóstolos (Mt 28; Mc 16; At 2, 8, 16 e 19). Desejamos sustentar isso humildemente, porém firmemente e com convicção.
O texto acima é o primeiro ponto da Confissão. Encabeçando o documento, leva-nos a considera-lo não o mais importante, mas aquele que precisava de uma urgente resposta em vistas do contexto como se aplicava o batismo na época. Sabemos que o catolicismo batizava por aspersão, administrando seu dogma para infantes. O Protestantismo seguiu a mesma conduta. Porém, essa situação era muito embaraçosa, pois não há referências bíblicas para o ato batismal de crianças, no entanto, cumpria com determinados interesses políticos. Além disso, a forma como era conduzido o ritual abre precedentes para enormes críticas, porquanto difere em muito com o preceituado nas Escrituras. Vejamos como era o ritual católico em Portugal no século XVI de acordo com Francisco Pires de Almeida:
1) A primeira etapa ocorria do lado de fora da porta principal da igreja, onde o sacerdote perguntava aos padrinhos qual o nome a dar à criança. Depois de nomeada, dava-se então começo aos vários exorcismos. Em primeiro lugar, realizavam-se na face do bebé as três insuflações, que assumiam a forma de uma cruz, com o propósito de afastar o diabo14. Após os sopros, seguiam-se os sinais da cruz estendidos às várias partes do corpo: nos olhos para que visse Deus; nos ouvidos para o ouvir; nas narinas para que usufruísse o seu odor; no peito, ou melhor, no coração, para que nele acreditasse; e na boca para o demonstrar através das suas palavras15. Depois, o sacerdote colocava a mão direita sobre a cabeça do pequeno para destruir os laços que o prendiam a Satanás. Passava-se então à administração do sal, depois de o exorcizar16. Segundo Nicolas Lopez Martinez, as liturgias apelavam aos méritos divinos para purificar os elementos sacramentais e os afastar do domínio do demónio17. Por isso, os manuais de Braga e de Coimbra exigiam o exorcismo do sal, pedindo ao Criador que o transformasse num medicamento perfeito (perfecta medicina) para afugentar o inimigo. Daí que fosse colocado na boca do recém-nascido18. Entre as orações que se seguiam, intercaladas com mais dois sinais da cruz na testa, finalizava-se a primeira ronda dos exorcismos com abjurações para amaldiçoar o diabo. Para ultimar a primeira fase do ritual, o sacerdote orava com os padrinhos o Credo in Deum, o Pater Noster e o Ave Maria.
2) Ao deixarem o adro da igreja, dava-se lugar à fase liminar, que já ocorria dentro desta. O manual de Braga exortava a que o sacerdote abrisse com a sua saliva os sentidos, isto é, as narinas e os ouvidos do recém-nascido com duas intenções: expulsar o diabo e tornar a criança capaz de ouvir e sentir o odor de Deus19. Depois, seguido pelos padrinhos, levava a criança nos braços para junto da pia batismal, enquanto entoava a ladainha de Todos os Santos e o Kyrie eleison20. Aí, benzia e exorcizava a fonte. Ambos os manuais impunham que o sacerdote revolvesse duas vezes sob a forma de cruz a água batismal, lançando-a de seguida para fora do bacio. Aconselhavam também a que o ministro alterasse o seu tom de voz, assim como quando soprasse sobre a água em forma de cruz e lhe inserisse um círio aceso. E, por fim, recomendavam que nela derramasse o óleo do crisma e o óleo santo de per se e só depois os dois conjuntamente. Desta forma, a água batismal adquiria o poder de santificar: lavaria os vícios (pecado original) e regeneraria para se exercer o bem21. Dirigindo novamente a atenção para o bebé, o ministro retirava-lhe a roupa e passava às renunciações a Satanás e às suas obras e pompas, às quais os padrinhos respondiam Abrenuncio. Colocava, sob a forma de cruz, o óleo dos catecúmenos entre as espáduas e o peito do menino para que adquirisse vida eterna e, voltava a interrogar os padrinhos sobre os artigos da fé, questionando-os por três vezes se era intenção da criança ser batizada. Os padrinhos respondiam afirmativamente enquanto a tocavam. Deste modo, ficava pronta para ser banhada por três vezes na fonte batismal com a fórmula Ego te baptizo in nomine patris et filii et spiritus sancti22.
3) Assim que emergia da água batismal, dava-se a fase de agregação. O padre fazia-lhe na cabeça o sinal da cruz com o óleo do crisma, salientando que tinha sido regenerada pela graça do Espírito Santo. Colocava-lhe o capelo branco para que um dia fosse levada ao tribunal do Senhor e entregava-lhe a vela acesa na mão direita para que Cristo a encontrasse na sala da justiça celestial. Despedia-se dos padrinhos e advertia-os para que ensinassem a fé ao afilhado23. Dava-se assim por concluído o ritual do batismo.
Ora, com tantas inserções de elementos estranhos àquela referenciada pelos Evangelhos e Atos dos Apóstolos, não podemos menosprezar a repulsa anabatista pelo dogmatismo uma vez que estava em causa a pureza do Cristianismo. A cerimônia batismal havia sido completamente alterada e a reação anabatista ao esquisito ato batismal foi a sua rejeição e o rebatismo como negação da crendice ao ato praticado na infância. Isso significou a renúncia pelas orientações papais e clericais. Era um ultraje ao poder dominador católico, por mais que os anabatistas suíços o fizessem em termos de pacifismo, mas o que poderiam ter feito se tinham no coração a chama pela obediência? A vinculação do ato de batismo para o controle estatal gerou também discordância. Todos os batizados, de certa forma, vinculavam-se ao controle das autoridades políticas e religiosas.
Desta maneira, o anabatismo reivindicou simplesmente o cumprimento das práticas cristãs em consonância com os ensinos do Cristo e dos Apóstolos. Essa é a base da fé cristã. Quem interfere no legado apostólico, acrescentando ou retirando, demonstra ter maior autoridade do que aqueles constituídos diretamente pelo Cristo.  Um erro gravíssimo!  

Notas de Almeida

14 As três insuflações provêm do costume romano cuja prática já se incluía na liturgia hispânica. BRAGANÇA, Joaquim O. – Le symbolisme des rites baptismaux au Moyen Age: les rites d'admission au catéchuménat. Didaskalia. Lisboa. ISSN 0253-1674. 3:1 (1973), p. 44.
15Neste breue manual se [con]ten cousas muito necessarias e p[ro]ueitosas a todo sacerdote q[ue] ha de administrar e dar os sacrame[n]tosE assi som muitas missas deuotissimas e p[ro]ueitosas p[e]ra ha saude dalma e do corpo. as quaes nu[n]ca foro[m] postas em nenhu[m] missal ne[m] manual de Braga (doravante Manual de Braga). Impressus in antiquissima bracharensis civitate: [s.n.], 1517, fl. 2-2v.; Manuale secundu[m] consuetudinem alme Colymbrieñ [sic] Ecclesie (doravante Manual de Coimbra). Lixboneñ ciuitate: Nicolaum Gazini, 1518, fl. 2.
16 A colocação do sal já vinha do tempo de Santo Agostinho e foi aceite por todas as tradições das igrejas locais. Apenas divergia a oração do exorcismo. O ritual romano optava por Benedicto salis enquanto que outros rituais, como o galicano, davam preferência ao Exorcismus salis. BRAGANÇA, Joaquim O. – Le symbolisme, cit., p. 53.
17 LOPEZ MARTINEZ, Nicolas – Notas sobre la lucha contra el diablo mediante los sacramentos. in IV SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE TEOLOGÍA DE LA UNIVERSIDAD DE NAVARRA, Pamplona, 1983 – Sacramentalidad de la Iglesia y Sacramentos: actas. Pamplona: Servicio de Publicaciones de la Universidad de Navarra, 1983, p. 807.
18Manual de Braga, fl. 2v.; Manual de Coimbra, fl. 2v.
19 O manual de Coimbra não exclui a abertura dos sentidos, apenas altera a ordem, impondo a administração da saliva após o exorcismo da fonte batismal e antes das renunciações (Cf. Manual de Coimbra, fl. 6v.); Manual de Braga, fl. 4v.
20 A ordem de invocação dos santos e arcanjos variou.
21 Manual de Braga, fl. 6-7; Manual de Coimbra, fl. 4v.-6v.
22 Apenas ficam dúvidas se Braga optou por uma imersão, uma vez que não alude à sub trina mersione. Manual de Braga, fl. 7; Manual de Coimbra, fl. 7.
23 Manual de Braga, fl. 7; Manual de Coimbra, fl. 7.

Referência
Almeida, Francisca Pires. O ritual do batismo em Portugal na Baixa Idade Média e nos inícios do século XVI. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1646-740X2014000200006#14. Acesso em 19 Out 2017.



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A História dos anabatistas

Quem foram essas pessoas? Qual era a relação delas com a Reforma? Quais eram suas crenças em relação a Deus, ao homem, à igreja, ao batismo e à vida cristã? Que tipo de pessoas eles eram? Essas e outras perguntas encontram suas respostas nas páginas seguintes, as quais tentam contar a história dos anabatistas.
Esse estudo sobre os anabatistas do século XVI será uma bênção para aqueles que, nestes tempos modernos, buscam seguir a Cristo por meio de um discipulado obediente.
Visualizar no link para ler as primeiras páginas de A história dos anabatistas

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Os pobres de Cristo

Uma das correntes históricas sobre os valdenses nos informa sobre Pierre Vaudès (Pedro Valdo), um rico comerciante cuja conversão o fez vender tudo o que tinha, em obediência ao texto bíblico do jovem rico, para dar aos pobres. Para quem pensa que ele o fez irracionalmente, sabe-se que sua esposa e filhas foram contempladas nessa distribuição a fim de que pudessem ter como sobreviver, enquanto ele se entregaria à vida simples ensinada pelo Cristo. Houve quem dissesse que Vaudès seria o fundador dos valdenses, um dos movimentos mais emblemáticos da História da Igreja, mas hoje, através de consenso entre os estudiosos, essa teoria não é mais aceita.
Enquanto dispunha de recursos, Valdès providenciou a contratação de dois cléricos para traduzirem partes das Escrituras e alguns escritos dos Pais da Igreja. Munido desses escritos, começou a arte da pregação valdense cuja confrontação com o clero católico era inevitável: “O que Valdès estava ensinando deu ao povo a chance de contrastar seus sacerdotes e bispos tipicamente indiferentes e às vezes indolentes com esses pregadores pobres, mas fervorosos que citavam a Bíblia em sua própria língua, pregadores que poderiam se relacionar com suas próprias lutas pessoais. Não é difícil ver como Valdès e seus seguidores ganharam sua fidelidade e atraíram muitos seguidores” (Malan: 2012).
Por que sua pregação era confrontadora? Primeiro, porque se utilizada da língua popular na qual o povo se sentia prestigiado, e não o latim que era sinônimo de obscuridade para os mais simples; segundo, trazia um equilíbrio social de modo que não somente podiam usufruir do conteúdo Escriturístico os sábios e doutos cléricos, mas também os iletrados que eram a maioria; e terceiro, alinhavam-se ao povo, visto que demonstravam ser como qualquer outro ser humano, sem as exigências ritualísticas e indumentárias pomposas do clero católico. Desta maneira, a pregação aos moldes dos pobres de Lyon reavivaram o fervor e inteligibilidade da Igreja Primitiva, fazendo valer o sentido prático da fala de Jesus na qual os mistérios do Reino de Deus foram revelados pela exposição de seus ensinos.

Referências


Malan, Ronald F. Waldensian History: A Brief Sketch. Piedmont Families Organization: 2012.

Os anabatistas eram revolucionários ou pacifistas?

“O anabatismo primitivo era um movimento religioso e de revolução social” (Wohlfeil, Goertz 1980, p. 43) que não se opunha a fazer uso da espada em favor de sua causa (Stayer 1972). Contudo após os Artigos de Schleitheim (1527), eles recusaram-se a portar armas”.
(Lindberg, p. 243)

Uma das premissas mais corriqueiras na Academia é aquela que enfatiza o conhecimento como provisório. Chegou-se a essa conclusão, não simplesmente por achismos ou conclusões insustentáveis, mas sim, pelo amparo e fundamento em fatos concretos que conseguem desafazer uma argumentação teórica inicial. Baseados nesse pensamento, propomos uma análise da informação acima sobre o anabatismo, já que o trata como uma vertente similar ao catolicismo e ao protestantismo da época, cuja ação militarizada era pauta constante naqueles tempos pré-nacionalistas. Então, será que na gênese anabatista verificou-se a conduta de luta armada e revolucionária?
Para responder esse questionamento, importa trazermos à tona a concepção cristã do anabatismo. Conrad Grebel, Felix Manz e George Blaurock foram os expoentes iniciais do movimento, de modo que suas convicções estavam em fase de desenvolvimento. Primeiramente, aderiram às reformas promovidas por Ulrich Zwinglio, conceituado professor e pastor do Cantão de Zurique. Mas, como Zwinglio não realizou reformas nos moldes das Escrituras, sujeitando-se mais ao Conselho dos Duzentos do que a Deus, eles resolveram deixa-lo e buscar o cerne da realidade cristã. Para tanto, retornaram exatamente ao início da carreira cristã, ou seja, ao batismo. Foi em janeiro de 1525, através do rebatismo, que Grebel estabeleceu a primeira comunidade anabatista restauradora dos padrões neotestamentários. Esse grupo acreditava piamente nas instruções bíblicas, seguindo-as de forma padrão e fiel.
Nesse momento, suas convicções demonstravam aversão à missa, ao batismo infantil, à idolatria, à união da Igreja ao Estado, aos juros, às indulgências, entre outras, e, no que diz respeito à questão posta, eram pacifistas. Prova concreta disso, foram os martírios de Manz e de Blaurock que não resistiram agressivamente aos seus perseguidores, antes, como “cordeiros foram levados ao matadouro”. George Blaurock, apesar de não ter nos deixado muitos escritos, fala-nos através de dois hinos compostos que demonstram sua completa devoção a Deus e espiritualidade pacífica de dependência ao sumo pastor, de modo que quem se expressa nestes termos demonstra uma vida pura e desprendida de ódio e revolução:

Senhor Deus, como eu te exalto
Daqui e sempre,
Que a fé real me deu
Pelo qual eu posso saber.
Não me esqueça, ó Pai,
Esteja perto de mim sempre mais;
Seu Espírito protege e me ensine,
Que em grandes aflições
Seu conforto eu possa provar,
E valentemente possa obter
A vitória nesta luta.   

Já Conrad Grebel, fala-nos um pouco mais sobre a vida pacífica daqueles cristãos medievais desejosos não de uma revolução, mas de uma restauração. Na carta 64 de 5 de setembro de 1524, direcionada a Thomas Munster, ele exorta o ex-sacerdote luterano à prática da não resistência e o não envolvimento com a guerra, censurando-o em razão de sua crítica aos príncipes. Grebel escreveu: “O irmão de Hujuff escreve que você pregou contra os príncipes, enfatizando que eles deveriam ser combatidos de próprio punho. Se isso for verdade, ou se você pretende defender a guerra... eu devo admoestar você pela salvação comum a todos nós...”.
Portanto, nossa questão a questão proposta é: como poderia alguém com tanta devoção aos ensinos daquele que falou que os inimigos deveriam ser amados, expressou um espírito brando e humilde através de cânticos, mas não só por eles, contestou o uso de força contra as autoridades poderia ser chamada de revolucionário e ativista? Confundir os munsteritas chamando-os de anabatistas seria uma das possíveis respostas.

Referências

Lindberg, Carter. As reformas na Europa. Editora Sinodal: São Leopoldo, 2001.