O Jornal Tocha da Verdade é um periódico trimestral independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

Comunie

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Lançamento da Moriá Publicações em 26 de Novembro/11

Data do lançamento: 26/11/11 às 18 hs
Local: Templo da Igreja Batista Moriá
Endereço: rua Nogueira Acioli, 2195 - Joaquim Távora - Fortaleza - CE
Autor: Francisco Heládio Cunha dos Santos
Editora: Moriá Publicações
Páginas: 164
Formato: 14x21 cm
Preço de lançamento: R$ 19,90*
*após o evento das conferências anabatistas (de 24 a 28/11) o preço será de R$ 24,90.

A fé cristã sempre enfrentou desafios, tanto externos como internos. Um desses desafios que se apresentou ao longo de sua história e até hoje se faz presente é o equilíbrio entre a igreja como corpo de Cristo, habitado e vivificado pelo Espírito Santo e a igreja enquanto instituição. Muitos são os riscos que se apresentam a igreja quando ela se envereda no caminho de privilegiar apenas um desses componentes de sua vida, como fica evidente ao lançarmos nosso olhar para a história eclesiástica.
                O momento mais emblemático dessa relação tensa foi certamente o período em que a igreja geral defrontou-se com o movimento da Nova Revelação ou Nova Profecia, como se chamavam, ou Montanismo, nome dado por seus opositores. Entre tantos outros movimentos surgidos no período pós-apostólico, esse se apresentou como um retorno ao cristianismo primitivo, dirigido pelo Espírito e baseado nas Escrituras.
                Originário da Frígia, na Ásia, o movimento teve como seu líder inicial Montano, convertido do paganismo à fé cristã e que, na metade do segundo século, começou a proclamar sua experiência particular com o Espírito Santo, acompanhado posteriormente por duas mulheres Priscila (Prisca) e Maximila,  que juntamente com ele afirmavam ser usados pelo Espírito no dom carismático da profecia.
                Com uma teologia que defendia a prática da glossolalia e do profetismo, o quiliasmo ou o reino milenar em Jerusalém, a intolerância quanto às inovações doutrinárias e a insubordinação à hierarquia institucionalizada, o rigor ascético, a proibição do matrímônio e a fuga dos martírios, foram eles alvo da condenação por parte dos bispos da  igreja geral.
                Mas o que realmente foi esse movimento?  Fruto do milenarismo asiático influenciado pelo Apocalipse? Uma tentativa de retorno à Igreja das origens, sufocada pela organização sistemática?  Um movimento político religioso das igrejas rurais contra as igrejas urbanas e seus bispos centralizadores ou uma reação do conservadorismo presente nas regiões rurais contra a modernização, ou helenização, das igrejas urbanas que vão abandonando a origem carismática?
                Buscando uma resposta ao que foi realmente a Nova Revelação ou Nova Profecia, Francisco Heládio Cunha dos Santos usa primeiramente a Bíblia como base para analisar o comportamento do movimento, bem como a sociologia e as fontes históricas disponíveis, tanto contrárias como as favoráveis a Montano e seus seguidores.
                Diante do leitor surge assim um panorama muito mais vivo e amplo desse momento histórico da igreja cristã, com sólida base bíblica e teórica: uma igreja que enfrenta um momento de institucionalização e hierarquização, com a centralização do poder nas mãos dos bispos com base na sucessão apostólica e tradição oral, vê surgir em seu seio um movimento que busca viver o cristianismo primitivo, questionando tais mudanças.
                Entre vários méritos da presente obra, temos o do autor ter escolhido um momento histórico da igreja, em especial a brasileira, muito apropriado para lançar um novo olhar sobre um dos  mais incompreendidos movimentos da igreja cristã primitiva.
                Diante do quadro hoje presente no universo evangélico brasileiro, onde vemos desde aqueles que usando como pálida desculpa uma pseudo direção do Espírito Santo se insurgem contra qualquer forma de liderança, como aqueles que buscam centralizar o poder e proíbem ou demonizam as manifestações espirituais, uma das observações feitas pelo autor é muito pertinente:
A autoridade e o carisma não poderiam caminhar isolados um do outro. São pré-requisitos para a boa ordem da comunidade a fim de que vivam em sintonia com os ideais doutrinários e devocionais. Montano não pareceu um insurgente, mas mostrou-se um crente restaurador que vivia no contexto da Igreja. Sobre ele ocorreu uma visitação espiritual com intenções de alcançar os demais cristãos, ainda que eles fossem nominais e sem a experiência pentecostal. Os bispos não o observaram sobe este ângulo, antes o viram pelo viés da ameaça e desestabilização do poder. Como evidenciou-se, os bispos estavam tão afundados no racionalismo e no formalismo que a Igreja perdeu o vigor e o brilho do Cristianismo dinâmico. (p.105)
                A presente obra, rica em seu conteúdo, revela o profundo conhecimento do autor sobre o Montanismo. Trata-se de um trabalho objetivo, muito bem documentado e com fontes bem selecionadas; representa uma grande contribuição tanto para compreendermos melhor a história passada, como um alerta para avaliarmos o nosso proceder hoje como Igreja do Senhor.

Esequias Soares
Jundiaí, SP, 13 de outubro de 2011.

sábado, 15 de outubro de 2011

LANÇAMENTO do livro "MONTANISMO e os profetas catafrigas: uma análise contra-hegemônica da história do movimento montanista". (EM BREVE)

PREFÁCIO de Esequias Soares

A fé cristã sempre enfrentou desafios, tanto externos como internos. Um desses desafios que se apresentou ao longo de sua história e até hoje se faz presente é o equilíbrio entre a igreja como corpo de Cristo, habitado e vivificado pelo Espírito Santo e a igreja enquanto instituição. Muitos são os riscos que se apresentam a igreja quando ela se envereda no caminho de privilegiar apenas um desses componentes de sua vida, como fica evidente ao lançarmos nosso olhar para a história eclesiástica.
                O momento mais emblemático dessa relação tensa foi certamente o período em que a igreja geral defrontou-se com o movimento da Nova Revelação ou Nova Profecia, como se chamavam, ou Montanismo, nome dado por seus opositores. Entre tantos outros movimentos surgidos no período pós-apostólico, esse se apresentou como um retorno ao cristianismo primitivo, dirigido pelo Espírito e baseado nas Escrituras.
                Originário da Frígia, na Ásia, o movimento teve como seu líder inicial Montano, convertido do paganismo à fé cristã e que, na metade do segundo século, começou a proclamar sua experiência particular com o Espírito Santo, acompanhado posteriormente por duas mulheres Priscila (Prisca) e Maximila,  que juntamente com ele afirmavam ser usados pelo Espírito no dom carismático da profecia.
                Com uma teologia que defendia a prática da glossolalia e do profetismo, o quiliasmo ou o reino milenar em Jerusalém, a intolerância quanto às inovações doutrinárias e a uma certa insubordinação à hierarquia episcopal institucionalizada, o rigor ascético, a proibição do matrimônio e a não fuga dos martírios, foram eles alvo da condenação por parte dos bispos da  igreja geral.
                Mas o que realmente foi esse movimento?  Fruto do milenarismo asiático influenciado pelo Apocalipse? Uma tentativa de retorno à Igreja das origens, sufocada pela organização sistemática?  Um movimento político religioso das igrejas rurais contra as igrejas urbanas e seus bispos centralizadores ou uma reação do conservadorismo presente nas regiões rurais contra a modernização, ou helenização, das igrejas urbanas que vão abandonando a origem carismática?
                Buscando uma resposta ao que foi realmente a Nova Revelação ou Nova Profecia, Francisco Heládio Cunha dos Santos usa primeiramente a Bíblia como base para analisar o comportamento do movimento, bem como a sociologia e as fontes históricas disponíveis, tanto contrárias como as favoráveis a Montano e seus seguidores.
                Diante do leitor surge assim um panorama muito mais vivo e amplo desse momento histórico da igreja cristã, com sólida base bíblica e teórica: uma igreja que enfrenta um momento de institucionalização e hierarquização, com a centralização do poder nas mãos dos bispos com base na sucessão apostólica e tradição oral, vê surgir em seu seio um movimento que busca viver o cristianismo primitivo, questionando tais mudanças.
                Entre vários méritos da presente obra, temos o do autor ter escolhido um momento histórico da igreja, em especial a brasileira, muito apropriado para lançar um novo olhar sobre um dos  mais incompreendidos movimentos da igreja cristã primitiva.
                Diante do quadro hoje presente no universo evangélico brasileiro, onde vemos desde aqueles que usando como pálida desculpa uma pseudo direção do Espírito Santo se insurgem contra qualquer forma de liderança, como aqueles que buscam centralizar o poder e proíbem ou demonizam as manifestações espirituais, uma das observações feitas pelo autor é muito pertinente:

A autoridade e o carisma não poderiam caminhar isolados um do outro. São pré-requisitos para a boa ordem da comunidade a fim de que vivam em sintonia com os ideais doutrinários e devocionais. Montano não pareceu um insurgente, mas mostrou-se um crente restaurador que vivia no contexto da Igreja. Sobre ele ocorreu uma visitação espiritual com intenções de alcançar os demais cristãos, ainda que eles fossem nominais e sem a experiência pentecostal. Os bispos não o observaram sob este ângulo, antes o viram pelo viés da ameaça e desestabilização do poder. Como evidenciou-se, os bispos estavam tão afundados no racionalismo e no formalismo que a Igreja perdeu o vigor e o brilho do Cristianismo dinâmico. (p.105)

                A presente obra, rica em seu conteúdo, revela o profundo conhecimento do autor sobre o Montanismo. Trata-se de um trabalho objetivo, muito bem documentado e com fontes bem selecionadas; representa uma grande contribuição tanto para compreendermos melhor a história passada, como um alerta para avaliarmos o nosso proceder hoje como Igreja do Senhor.

Esequias Soares
Jundiaí, SP, 13 de outubro de 2011.
                                                Líder da AD em Jundiaí-SP, graduado em Letras (Hebraico) pela Universidade de São Paulo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Hebraico, Grego e Apologia Cristã, bem como comentarista de Lições Bíblicas (CPAD) e autor de diversos livros, entre eles Visão Panorâmica do Antigo Testamento, Heresias e Modismos, Comentário Bíblico de Oséias, Analisando o divórcio à luz da Bíblia, Manual de Apologética Cristã, Testemunhas de Jeová, e coautor de Teologia Sistemática Pentecostal, editados pela CPAD, também é presidente da Comissão de Apologética Cristã da CGADB.




APRESENTAÇÃO
O presente livro, escrito por Heládio dos Santos, tem a tarefa de procurar retratar a história do Montanismo, movimento nascido na Frígia, Ásia Menor,  por volta da segunda metade do século II, sob um outro olhar, diferente da versão que a tradição eclesiástica deu ao movimento. Trata-se, portanto, de um empreendimento ousado: o de enfrentar séculos de história da Igreja para deslegitimar (ou no mínimo duvidar) (d)a visão difamatória que recebeu o movimento cristão liderado por Montano, visão sustentada sobretudo por Eusébio de Cesaréia, na sua clássica História Eclesiástica, e depois repercutida e acolhida, sem muita contestação, até hoje pela maioria da literatura cristã que trata do assunto.
É louvável, pois, o enfrentamento do autor do livro com a tradição histórica, pela coragem de revisitar e vasculhar obras e documentos antigos e fazê-los falar noutro tom, num tom dissonante dos acordes hegemônicos da opinião geral. Desta forma, através de uma análise atenta e cuidadosa deste material, o autor se permite discordar da história oficial, apresentando um outro olhar que a história, por razões várias (e às vezes espúrias, permitam-me o trocadilho), nos negou. Heládio dos Santos, com argumentos convincentes e abalizados em autores consagrados e em textos bíblicos, mostra-nos assim que o Montanismo pode ser não somente considerado um movimento genuinamente cristão, como pode ser visto como um grupo que se mostrou como uma continuação do modelo neotestamentário de Igreja para o cristianismo do seu tempo.
Na verdade, o livro procura responder a perguntas do tipo: a quem interessa detratar o movimento e atacá-lo como seita? Na boca de quem ou em que contexto histórico-eclesiástico o Montanismo ficou conhecido sob a pecha de herético? Por que não nos darmos o direito de examinarmos mais cuidadosamente o chamado - depreciativamente pelos seus adversários - Montanismo e lançarmos um olhar sob outro viés, sob outras lentes, dando-lhe um certo crédito pela coerência de vida e de doutrina que os mentores e adeptos do Montanismo mostraram ter com o Evangelho? As razões pelas quais o Montanismo foi atacado e vilipendiado realmente se constituem, todas elas, em denúncias dignas de crédito e capazes de desabilitar sua doutrina ou mesmo servem para desconfigurar o movimento como não-cristão?
Para responder estas questões, o livro se organiza da seguinte maneira: as considerações iniciais, nas quais introdutoriamente o autor situa o leitor historicamente no movimento, apresentando-lhe os objetivos e as motivações gerais de iniciativa de escrever a obra. No capítulo 1, o autor preocupa-se em mostrar a base bíblica em que se apoiou o movimento fundado por Montano. Não  foi aleatório, portanto, a escolha da pintura da capa do livro, em que, pregando no Areópago ateniense, aparece o apóstolo Paulo, de cujo ensinamento, deixado nas cartas neotestamentárias, serviu como uma das principais referências doutrinárias de Montano. O capítulo 2 aborda o nascimento do Montanismo e as  motivações que o levaram a se insurgir contra a cristandade da época. No capítulo 3, Heládio dos Santos debruça seu olhar criterioso para investigar historicamente a figura de Tertuliano, considerado um dos pais da Igreja,  que seguiu de perto as ideias montanistas. Aqui cabe ressaltar que Tertuliano, ao longo de suas obras apologéticas, doutrinárias e, sobretudo, polêmicas, não fez menção ao montanismo como movimento herético, mesmo tendo oportunidade, como grande defensor que era da doutrina cristã lembremo-nos inclusive de que é sua a conhecida obra Prescrições contra os Hereges.  Com formação em Ciências Sociais, no capítulo 4, não poderia o autor de se eximir de algumas incursões no terreno da sociologia da religião, fazendo uma análise da ação social de linha weberiana, ainda que breve, do Montanismo, para ressaltar como se constituía o ethos e a práxis dos cristãos montanistas. Este capítulo prepara-nos para o seguinte, o capítulo 5. Neste, é dedicado à análise e à avaliação, com bases bíblicas e históricas, dos principais pontos característicos da ética e da doutrina montanistas. No capítulo 6, destaca o autor como os preceitos montanistas podem ainda servir/sobreviver  para a nossa geração. Frente a isso, cabem as perguntas: quais as ressonâncias deste movimento na atualidade? Estamos contextualmente vivendo no mesmo tempo de frieza e indiferença a um cristianismo autêntico da época de Montano/Priscila/Maximila e, por isso mesmo, desejosos de ouvir os ecos das ideias e dos ideais defendidos com tanto coragem pelos montanistas? Nas considerações finais, traz o livro breves e gerais comentários sobre o já tratado durante toda a obra, mas pontuando o valor dos ensinamentos bíblicos deixados pelos montanistas. Fechando o livro, há uma bibliografia relevante e um conjunto de sites que serviram de fontes legítimas para a produção da obra.  
O livro, ao final, parece ter cumprido a sua tarefa: fazer um balanço honesto do movimento montanista, através de uma releitura descomprometida das imposições interpretativas da história oficial.
Para encerrar esta apresentação, é preciso dizer que o livro traz uma contribuição significativa para  a literatura cristã, tanto pelo ineditismo de uma obra em português que versa, toda ela, sobre um dos movimentos mais importantes da Igreja, bem como pelo tipo inusitado de abordagem dado ao Montanismo.


João Batista Costa Gonçalves
(Doutor em Línguística, Professor Adjunto do Curso de Letras
e do Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade
Estadual do Ceará (Uece) e Professor de Hermenêutica
Teológica do Curso de Pós-Graduação em Teologia Histórica e Dogmática)

sábado, 6 de agosto de 2011

Um Templo ou um Teatro?

Os homens parecem nos dizer: “Não há qualquer utilidade em seguirmos o velho método, arrebatando um aqui e outro ali da grande multidão. Queremos um método mais eficaz. Esperar até que as pessoas sejam nascidas de novo e se tornem seguidores de Cristo é um processo demorado. Vamos abolir a separação que existe entre os regenerados e os não-regenerados. Venham à igreja, todos vocês, convertidos ou não-convertidos. Vocês têm bons desejos e boas resoluções: isto é suficiente; não se preocupem com mais nada. É verdade que vocês não crêem no evangelho, mas nós também não cremos nele. Se vocês crêem em alguma coisa, venham. Se vocês não crêem em nada, não se preocupem; a ‘dúvida sincera’ de vocês é muito melhor do que a fé”. Talvez o leitor diga: “Mas ninguém fala desta maneira”. É provável que eles não usem esta linguagem, porem este é o verdadeiro significado do cristianismo de nossos dias. Esta é a tendência de nossa época. Posso justificar a afirmação abrangente que acabei de fazer, utilizando a atitude de certos pastores que estão traindo astuciosamente nosso sagrado evangelho sob o pretexto de adaptá-lo a esta época progressista. O novo método consiste em incorporar o mundo à igreja e, deste modo, incluir grandes áreas em seus limites. Por meio de apresentações dramatizadas, os pastores fazem com que as casas de oração se assemelhem a teatros; transformam o culto em shows musicais e os sermões, em arengas políticas ou ensaios filosóficos. Na verdade eles transformam o templo em teatro e os servos de Deus, em atores cujo objetivo é entreter os homens. Não é verdade que o Dia do Senhor está se tornando, cada vez mais, um dia de recreação e de ociosidade; e a Casa do Senhor, um templo pagão cheio de ídolos ou um clube social onde existe mais entusiasmo por divertimento do que o zelo de Deus? Ai de mim! Os limites estão destruídos, e as paredes, arrasadas; e para muitas pessoas não existe igreja nenhuma, exceto aquela que é uma parte do mundo; e nenhum Deus, exceto aquela força desconhecida por meio da qual operam as forças da natureza. Não me demorarei mais falando a respeito desta proposta tão deplorável.


Por Charles H. Spurgeon
Autorizado por Felipe Sabino de Araújo Neto®


A RELIGIÃO E A ARTE

A arte, como uma das expressões supremas da cultura humana, tem o seu lugar também no campo religioso. Não há nenhuma dúvida de que a natureza religiosa do homem, bem como as suas aspirações pelo eterno podem ser representadas. A altura dos prédios religiosos e sua aparência imponente, por exemplo, revelam a esfera do sagrado como a região mais elevada e profunda do ser, assinalam que o temor e o fascínio são os sentimentos que devem evidenciar o encontro do homem com o seu criador.

A crença numa salvação mecânica, realizada por meio de sacramentos e cerimônias, como a que é defendida pelo catolicismo romano, manifesta-se na decoração interna de seus prédios religiosos, como se pode ver na centralidade do altar eucarístico, nas vestes sacerdotais, velas, incensos, sinos etc. Por outro lado, a doutrina protestante, segundo a qual a salvação, sendo pessoal e mediante a fé, começa pelo ouvir da Palavra de Deus, mostra-se na figura do púlpito ocupando a posição mais destacada no edifício religioso, bem como na elevação da tribuna.

O desenho do peixe, por exemplo, tornou-se por razões históricas em um símbolo do cristianismo, enquanto a figura de uma pomba ou a do fogo, lembrando os fatos históricos relacionados à descida do Espírito Santo sobre Jesus e, posteriormente, sobre os cristãos no dia de Pentecostes, pode significar adesão à crença pentecostal na atualidade das manifestações sobrenaturais e miraculosas da divindade.

Todas as representações até agora citadas expressam a natureza religiosa do homem, ou seja, têm natureza antropológica. Todas são passíveis de serem adequadamente lidas. A grande questão, entretanto, é se a própria divindade deve ser representada para fins de culto e se tal representação pode ser lida de modo a ensinar a verdade.

De acordo com o pensamento católico, as imagens de esculturas têm valor pedagógico, tanto por ajudar as pessoas a aprenderem sobre Deus como por estimularem o culto. No século VI, quando o culto às imagens não se tinha generalizado na Igreja Romana, o papa Gregório, o “Grande”, começava a defender a introdução de quadros nos templos como uma “muleta” para os iletrados. São suas as seguintes palavras:“Uma coisa é adorar um quadro, outra é aprender em profundidade, por meio dos quadros, uma história venerável. Pois aquilo que a escrita torna presente para o leitor, as pinturas tornam presente para os iletrados, para aqueles que só percebem visualmente, porque nas imagens os ignorantes vêem a história que devem seguir, e aqueles que não conhecem o alfabeto descobrem que podem, de certa maneira, ler. Portanto, especialmente para o povo comum, as pinturas são o equivalente da leitura”.

Noutra perspectiva, o entendimento protestante, em plena consonância com a orientação bíblica, apesar de admitir o valor da arte, conclui que as imagens têm valor negativo, tanto para ensinar acerca de Deus como para fortalecer o culto.

Deus é o “numinoso”, uma realidade inefável que deve impressionar o espírito humano num encontro imediato, ou seja, sem a intervenção da imaginação. Os artifícios criativos da mente humana só limitarão a divindade, criando ídolos. No Areópago de Atenas, o apóstolo Paulo discursou:“O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens; nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas (...) Para que buscassem ao Senhor, se porventura, tateando, o pudessem achar; ainda que não está longe de cada um de nós; porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração. Sendo nós, pois, geração de Deus, não havemos de cuidar que a divindade seja semelhante ao ouro, ou à prata, ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens.” (Atos 17: 24-29).

Santo Agostinho disse:“Pense o homem o que quiser: um ser criado não se compara ao criador. Exceto Deus, tudo o que realmente existe foi feito por Deus. Quem pode calcular exatamente a distância entre o criador e a criatura? O salmista declara, por isto: ‘Não há entre os deuses quem te seja semelhante, Senhor’. Não explicou quanto difere de Deus, porque é impossível dizer. V. Caridade preste atenção. Deus é inefável. É mais fácil exprimir o que não é do que aquilo que é. Pensas na terra. Deus não é isto. Pensas no mar. Deus não é isto. Em tudo que existe na terra, homens e animais. Deus não é isto. Tudo o que brilha no céus, as estrelas, o sol e a lua. Pensa nos Anjos, Virtudes, Potestades, Arcanjos, Troncos, Sedes, Dominações. Deus não é isto. E o que é então? Somente pude declarar o que não é. Perguntas o que é? ‘O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu’(cf I Cor. 2:9). Por que procuras que exprima a língua o que o coração não percebeu? ‘Não há entre os deuses quem te seja semelhante, Senhor, nem que seja comparável a tuas obras’”.

O conhecimento de Deus é diferente do conhecimento intelectivo que forma imagens concretas ou abstratas a partir de informações enviadas pelos sentidos físicos. No conhecimento intelectivo, a imagem é dominada pelo sujeito, podendo ser alterada pelo poder da imaginação. Entre o homem e Deus não há a relação sujeito-objeto para que o homem possa trazer Deus para a sua mente sob a forma de imagem, antes, há uma relação pessoa finita-pessoa infinita, onde cabe ao homem sair de si e mergulhar em Deus. Não é Deus que entra na mente humana sob a forma de imagem, mas é o homem que entra em Deus pelo abandono de si. De acordo com Max Scheler:“Este caminho, que leva a se perder a si mesmo, para ganhar novamente em Deus, no plano ético se chama humildade, e no plano intelectual ‘intuição’ pura. Tal desobstrução é o risco mais extremo, e, ao mesmo tempo, para o ser da alma mesma, o movimento aberto à existência da ousadia. Esta é a renúncia radical à força e ao valor próprio, o puro ‘se despedir de Deus colocando Cristo sob as asas da galinha’(Lutero), que tão brilhantemente foi descrito há pouco tempo por William James. Em um trecho de seu livro A experiência religiosa em sua variedade, intitulado por ele como ‘Conversão’, ele tece comentários notáveis acerca dos dois tipos de conversão, a ‘voluntária’ e a do ‘abandono de si’. Ele mostra, em uma série de exemplos, como este segundo tipo possui uma significação maior do que o primeiro.”

Embora seja tolerável que o homem use metáforas e símiles para falar de Deus, isso só acontece porque esta é a única forma possível de falarmos do inexprimível. No entanto, cada pessoa deve estar cônscia de que os termos são apenas figuras de linguagem. Atentemos para as observações de Santo Agostinho:“Refiras-te como quiseres à eternidade. Por isso fala como quiseres, porque, seja o que for que disseres, dirás menos do que é. Mas é preciso dizer alguma coisa, para poder pensar o que não se pode exprimir.” “Só ele é inefável, ele que ‘disse e tudo foi feito’. Disse e fomos feitos; mas nós não podemos dizer o que ele é. Seu Verbo, no qual ele nos criou, é seu Filho, para que nós, em nossa fraqueza, de algum modo o exprimíssemos, ele se fez fraco. Podemos pôr júbilo no lugar da palavra; trocar o verbo por uma palavra não podemos. ‘Jubilai, pois, diante do Senhor, terra inteira”.

A imagem esculpida desperta os sentidos físicos, criando inclinações afetivas que culminam na idolatria. A visão não pode ajudar a fé, pois se contrapõe a ela.“Porque andamos por fé, e não por vista”(II Cor. 5:7). “Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem” (Hebreus 11:1).

A fé, segundo a Bíblia, vem pelo ouvir e não pelo ver:“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus”(Romanos 10:17)

É bom lembrar que Jesus veio na plenitude dos tempos (Gálatas 4:4), e, nesse período, não havia fotografia. Nenhum legítimo cristão contemporâneo a Jesus ousou fazer um desenho da sua pessoa . A sua imagem na cruz, que tanto querem representar, não é passível de reprodução, conforme a observação do profeta bíblico:“Como pasmaram muitos à vista dele, pois o seu parecer estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua figura mais do que a dos outros filhos dos homens” (Isaías 52: 14).

É bom lembrar que, segundo os evangelhos, Jesus foi chicoteado com um instrumento de várias pontas nas quais, de acordo com registros históricos, encontravam-se lâminas e pedaços de ossos. Seus cabelos e barbas foram arrancados. Uma coroa de espinhos penetrou na sensível pele da cabeça. Bateram-lhe no rosto com murros e na cabeça com uma cana. Sem falar da própria crucificação que implicava em ter o corpo traspassado e as juntas separadas. Segundo a profecia messiânica, foi esse o comportamento do salvador: “As minhas costas ofereci aos que me feriam, e a minha face aos que me arrancavam os cabelos; não escondi a minha face dos que me afrontavam e me cuspiam.” (Isaías 50: 6).

A imagem atual do Cristo glorificado ainda é mais difícil de ser representada. Disso testemunhou o apóstolo João no livro do Apocalipse: “E no meio dos sete castiçais um semelhante ao Filho do homem, vestido até aos pés de uma roupa cumprida, e cingido pelos peitos com um cinto de ouro. E a sua cabeça e cabelos eram brancos como a lã, como a neve, e os seus olhos como chama de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente, como se tivessem sido refinados numa fornalha, e a sua voz como a voz de muitas águas. E ele tinha na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois fios; e o seu rosto era como o sol, quando na sua força resplandece. E eu, quando o vi, caí a seus pés como morto....”(Apoc. 1: 13-17).

João Calvino contestou violentamente a posição de Gregório segundo a qual as imagens são úteis para a instrução dos iletrados:“Quando, portanto, Jeremias (10:3) proclama que o lenho é o preceito da fatuidade, quando Habacuque (2:18) ensina que a imagem fundida é a mestra da mentira, por certo que daqui se deve deduzir esta doutrina geral: que é fátua e, mais ainda, mendaz tudo quanto das imagens hajam os homens aprendido acerca de Deus.”

As palavras do profeta Habacuque são muito claras:“Que aproveita a imagem de escultura, depois que a esculpiu o seu artífice? Ela é máscara e ensina mentira, para que quem a formou confie na sua obra, fazendo ídolos mudos? Ai daquele que diz ao pau: Acorda! E à pedra muda: Desperta! Pode isso ensinar? Eis que está coberta de ouro e de prata, mas dentro dela não há espírito algum. Mas o Senhor está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra.” (Habacuque 2: 18-20).

Em Deuteronômio 4:15, 16, a Bíblia diz:“Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma figura vistes no dia em que o Senhor, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher ....”

No concílio de Elvira (séc. IV) se decretou (cânon trinta e seis) :“Resolveu-se que se não tenham nos templos representações pictoriais, assim que se lhes não pinte nas paredes o que se cultua ou adora.”

Na visão cristã, o culto a Deus é algo que deve acontecer com estímulos unicamente espirituais, tendo em vista a própria natureza de Deus: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.”(João 4: 24).

Desse modo, ausência de imagens no templo protestante revela a crença de que o culto deve ser espiritual, com estímulo vindo de dentro e não de fora. Leland Riken, explicando a visão de culto dos puritanos ingleses do século XVII, disse:“Os puritanos chamavam seus templos de ‘casa de reunião’ num esforço para desviar a atenção do lugar físico para as atividades espirituais, as quais eram o verdadeiro âmago do culto da igreja. Para qualquer um que crê que a ‘beleza da igreja é toda interior.... e que devem ser simples’, tirar imagens visuais das igrejas é a única prática possível. Havia, como veremos, outras razões para o iconoclasmo puritano (principalmente a aversão à idolatria), mas a crença na primazia do culto espiritual da sua doutrina da igreja era a razão principal”.

Sigamos, portanto, às orientações do apóstolo Paulo:“... mas enchei-vos do Espírito; falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais; cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” (Efésios 5:18,19).

Pr.Glauco Barreira Magalhães Filho

PERDÃO DE DEUS: é de que o homem precisa

Em Lucas 5:17-26 (Mat 9:1-8), é narrado um fato interessante. Uns homens transportavam um paralítico numa cama desejando pô-lo diante de Jesus, todavia, por causa da grande multidão, foi necessário descê-lo pelo telhado, e o Mestre, perante esta cena, disse-lhe: perdoados são os teus pecados. Esta frase gerou uma certa polêmica. Os escribas e os fariseus pensaram que se tratava de uma blasfêmia. Quem pode perdoar pecados, senão só Deus?(Luc 5:21). No entanto, o mais fascinante foi a resposta do Senhor Jesus ao pensamento daqueles incrédulos: Qual é mais fácil? dizer: Os teus pecados te são perdoados; ou dizer: Levanta-te, e anda?

Eles, considerados doutores da lei, mal sabiam que ali estava o Todo-Poderoso, o unigênito filho de Deus, e que estava dizendo o que a humanidade mais precisa receber de Deus – o perdão! A Bíblia revela claramente a situação, resultante do pecado, entre o ser humano e o Criador: ...como está escrito: Não há justo, nem sequer um. Não há quem entenda; não há quem busque a Deus.(Rom 3:10,11); ...mas as vossas iniqüidades fazem separação entre vós e o vosso Deus; e os vossos pecados esconderam o seu rosto de vós... (Is 59:2); Pois todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo da imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como o vento, nos arrebatam. E não há quem invoque o teu nome, que desperte, e te detenha; pois escondeste de nós o teu rosto e nos consumiste, por causa das nossas iniqüidades. (Is. 64:6, 7). Revela ainda o destino dos homens sem Deus: ...sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre... (Apoc. 22: 8). A humanidade precisa, portanto, reconciliar-se com o seu Criador.

Quando li, pela primeira vez, o texto inicialmente mencionado, chamou-me atenção o fato de Jesus dizer, primeiramente, ao paralítico perdoados são os teus pecados em vez de ordenar sua cura física. O Espírito de Deus me ensinou! Considerando que naquela época o paralítico era rejeitado, não tinha direitos como hoje, era tido como um “coitadinho”, era marginalizado, o Mestre quis dar uma lição. O problema no corpo daquele homem revelava o estado da vida espiritual da humanidade, pois o homem sem Deus está mal, deficiente, debilitado, ou melhor, está como um paralítico, seu estado físico era a imagem do espiritual, por isso o Salvador disse: Qual é mais fácil? dizer: Os teus pecados te são perdoados; ou dizer: Levanta-te, e anda? Jesus deixou claro que Deus podia fazer as duas coisas, para o Senhor nada é impossível (Luc 1:37), no entanto aquele homem estava precisando de algo mais importante que a cura de seu corpo – o perdão de Deus! A cura espiritual! Afinal, de acordo com a Bíblia, o que adianta o homem ganhar o mundo, mas perder sua alma? (Mt 26:16) O ser humano precisa é de paz com Deus, ou seja, ter os pecados perdoados e passar a vivenciar um relacionamento profundo e perene com o seu Criador.

A paz com Deus é obtida através de Cristo, quando o homem, arrependido de seus pecados, confia em Jesus, sabendo que pode perdoar seus pecados e salvar completamente sua vida. (Rm 5:1). Pedro sabiamente desse: Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor (At 3:19). É preciso arrepender-se e voltar-se para Cristo. Qualquer pessoa pode ir confiante a Jesus, porque ele perdoa verdadeiramente. Porque serei misericordioso para com suas iniqüidades, E de seus pecados e de suas prevaricações não me lembrarei mais.(Hb 8:12)

Felizmente Deus não é como os seres humanos, que guardam rancor. Ele se esquece do males realizados pelo homem, apesar de tantas vezes lhe afrontar, quando este se volta para Jesus em busca de perdão. Quem é Deus semelhante a ti, que perdoa a iniqüidade, e que passa por cima da rebelião do restante da sua herança? Ele não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na sua benignidade. Tornará a apiedar-se de nós; sujeitará as nossas iniqüidades, e tu lançarás todos os seus pecados nas profundezas do mar. (Mq 7:18,19) Que Deus maravilhoso! O próprio Senhor deixa claro esta verdade ao falar também através do autor da Epístola aos Hebreus 10:17: E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniqüidades.

Portanto, Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto." (Is 55 : 6)

No amor de Deus,

Ernani Moreira.

Entrevista com o pastor Enéas Tognini

Com muita alegria, o Jornal Tocha da Verdade entrevistou o Pastor Enéas Tognini. Ele foi presidente da Sociedade Bíblica do Brasil, ex-presidente da Convenção Batista Nacional, diretor do Seminário Teológico Batista Nacional do Estado de São Paulo e vice-presidente da Igreja Batista do Povo, que fundou em 17 de janeiro de 1981 e a qual liderou por mais de 20 anos, e autor de vários livros, como O Batismo no Espírito Santo, Moisés: um homem santo na escola do deserto, João: o Batista etc.


O que nos chama atenção é o fato de ser, sem dúvida, um dos grandes nomes da visitação Pentecostal de Deus no Brasil. Foi um importante instrumento do Senhor no Movimento de Renovação Espiritual nas Igrejas Batistas na segunda metade do século passado.

Ele não acreditava no Batismo no Espírito Santo, entretanto, depois de uma maravilhosa experiência com Deus, passou não só a acreditar, mas também a pregar o Batismo no Espírito Santo como uma experiência subseqüente à salvação, anunciando pelo Brasil essa verdade às Igrejas Tradicionais.

JTV - Pastor Éneas Tognini o que levou o senhor a crê na atualidade da Renovação Espiritual (batismo com Espírito Santo) uma vez que tradicionalmente as Igrejas Batistas não de linha pentecostal? Fale um pouco de sua experiência pessoal?

Pr. Enéas Tognini - Foi experimentando a bênção. Eu era tão contra o batismo no Espírito Santo que se Deus viesse para oferecer essa bênção, e a rejeitaria. Geralmente no batismo no Espírito Santo vai-se da teoria a prática, comigo foi o inverso. Deus me deu a bênção e depois explicou o que era.

JTV - Renovação Espiritual Batista se limitou apenas ao batismo com o Espírito Santo ou deu ênfase a outras manifestações espirituais tais como os dons do Espírito?

Pr. Enéas Tognini - Quando Deus abre os céus e derrama a bênção do batismo no Espírito Santo, sem dúvida alguma, a bênção é completa para dons espirituais, liberdade no púlpito para louvor ao Senhor com toda a sorte de bênçãos nas regiões espirituais.

JTV - Quando o senhor começou a pregar sobre Renovação Espiritual nas Igrejas Batistas houve um apego maior a Deus, as Escrituras e a evangelização por parte das Igrejas? Comente.

Pr. Enéas Tognini - Eu comecei pregando nas Igrejas Batistas que rejeitavam, fechavam as portas, então, fui para onde Deus me orientava a ir. Tinha, no tempo tradicional, preconceito tão grande que achava que só batistas iam para o céu. Depois que fui batizado no Espírito Santo (16 de agosto de 1958) tive um apego tão grande à palavra, à comunhão fraternal e a evangelização.

JTV - Quais conseqüências (favoráveis e desfavoráveis) enfrentadas pelo movimento de Renovação Espiritual Batista no seu início e no seu desenrolar?

Pr. Enéas Tognini - Deus bateu na porta dos Batistas para a obra poderosa do Espírito Santo. Não quiseram. Deus me disse um dia que estava trocando o meu ministério local pelo nacional. O maior problema negativo que enfrentei foi o barulho. Nosso povo não soube usar a liberdade no culto. Achava que gritaria era poder. Enfrentamos também a chegada em nossos arraiais de alguns aventureiros que penetravam em nosso meio porque a porta estava aberta. Logo, porém, se foram.

JTV - O que o senhor poderia falar sobre o trabalho da missionária americana Rosalee Mills Appleby pela Igreja Batista brasileira?

Pr. Enéas Tognini - D. Rosalee pode ser chamada a “apóstola” da Renovação Espiritual. Depois de ser cheia do Espírito Santo começou a escrever, recordando grandes avivamentos da história. Sofreu, foi perseguida, mas continuou sonhando com avivamento e conseguiu, antes da aposentadoria, ver as primeiras gotas do avivamento. Renovação Espiritual deve muito, muito a D. Rosalee. D. Rosalee trabalhou através de panfletos com os pastores batistas.

JTV - O senhor acredita que nossas Igrejas Batistas atuais absorveram os ideais de graça e poder espirituais pregados pelos homens e mulheres de Deus do inicio do movimento Justifique.

Pr. Enéas Tognini - Creio que muitos pastores aderiram ao nosso movimento como um modismo. Os que foram realmente revestidos de poder, resistiram aos vendavais da oposição e saíram ilesos espalhando as brasas do avivamento (Ez 10). Depois de cinqüenta anos de Renovação Espiritual algumas Igrejas renovadas são tão tradicionais como as tradicionais, e algumas tradicionais são tão renovadas como as renovadas. Creio que 80% das atuais de nossa CBN (Convenção Batista Nacional) continua pregando no poder do Espírito Santo como há cinqüenta anos atrás.

JTV - Na sua opinião, existe similaridade daquela Igreja de cinqüenta anos atrás com a de hoje? Destaque as similitudes e as diferenças.

Pr. Enéas Tognini - Antigamente, antes do movimento de Renovação Espiritual, um crente tradicional era batizado no Espírito Santo e corria para um Igreja Pentecostal e lá era absorvido por esses irmãos. E os tradicionais que precisavam de FOGO ficavam apagados. Deus me levantou para um trabalho específico, qual seja, levar o FOGO do Espírito para as Igrejas tradicionais (Batista, Presbiteriana, Presbiteriana Independente, Metodista, Congregacional e até algumas Luteranas). E nessa missão percorri o Brasil muitas vezes pregando esse fogo. Dezoito ou dezenove anos por esse Brasil de ponta a ponta e muitas vezes com um tríplice ministério:

Pregar a Palavra
Pregar pelos livros
Pregar pela Palavra gravada
Hoje, ouço dizer que não há mais tradicional que seja, que não tenha um grupo batizado no Espírito Santo e falando em línguas.

JTV - Como o senhor vê a Igreja evangélica brasileira atual, tem uma conduta moralmente correta de maneira a cumprir os propósitos de Deus?

Pr. Enéas Tognini - A Teologia Liberal penetrou em nossas Igrejas. Noto que o evangelismo, não só em nossos arraiais, mas também nos tradicionais, trouxe o mundo em nossas Igrejas. Nota-se que há um esfriamento em nossas Igrejas. Há os que pregam dinheiro, pregam cura, pregam milagres e as almas caminham a passos largos para o inferno. Estamos precisando urgentemente de um PODEROSO SOPRO do Espírito Santo para que os carvões do antigo movimento, voltem a arder. Nossas Igrejas avivadas ou tradicionais necessitam sair detrás das portas fechadas para o fogo e o ardor do Espírito Santo nos campos de batalha. Manda chuva, Senhor, manda chuva.

JTV - Qual conselho o senhor deixaria para as futuras gerações evangélicas?

Pr. Enéas Tognini - O caminho, o único caminho para o futuro de nossas Igrejas é o mesmo que os apóstolos enfrentaram no passado:
Esperavam o pentecoste
Esperavam em oração
Esperavam com a Espada do Espírito Santo que é a Palavra
Esperavam, receberam e trabalharam até a morte com amor e fidelidade.

JTV - Qual conselho o senhor daria aos aspirantes do ministério pastoral?

Pr. Enéas Tognini - Que esses futuros ministros não saiam para a batalha, sem a gloriosa experiência que João Hyde teve no navio, indo para o Oriente.
- Que sejam humildes
- Desprendidos de dinheiro
- Desprendidos de fama e glória humana
- Que sejam, como Paulo, crucificados com Cristo
- Que morram para o mundo e vivam para Jesus
- Que tenha uma vida santidade
- Que morram de paixão pelas almas como Booth no Exército da Salvação
- E como Moody digam: “Este livro me afastará do pecado, ou o pecado me afastará deste livro”.

domingo, 1 de maio de 2011

Explicações sobre a ida de Cristo ao inferno

Após ter escrito meu artigo intitulado “Por Que Jesus Foi ao Inferno?”, a qual obteve uma incrível receptividade por parte de meus irmãos evangélicos, fui confrontado com algumas perguntas que exigiam uma resposta definitiva. Tendo um espírito pesquisador e senso da verdade, fiquei imensamente satisfeito com as indagações que me foram feitas, pois me impulsionavam a mergulhar nos desígnios divinos até onde a graça de Deus me permitiu, com a finalidade de esclarecer aos amantes da verdade. Neste artigo, portanto, transcreverei as indagações a mim feitas, bem como as respostas.

Que Deus seja glorificado ao dar através de mim o conhecimento correto a seus filhos, apesar de que eu me sinta o mais indigno de seus servos.

RECORDANDO

No artigo intitulado “Por Que Jesus Foi ao Inferno?” foi provado pela Bíblia que Jesus foi em seu espírito humano ao inferno no intervalo de tempo compreendido entre sua morte e ressurreição. Eu também mostro que Jesus não foi ao inferno para pregar, mas simplesmente para entrar e sair, dando assim prova de sua superioridade sobre as portas infernais, garantindo a nós, desta forma, através de um sinal, que Ele é poderoso para nos guardar da condenação. Jesus, também, não foi ao inferno para sofrer, como mostro com provas abundantes.

Vamos agora às indagações:

HISTÓRIA DA IGREJA

Algumas pessoas procuram negar que Cristo tenha ido ao inferno e, para isso, afirmam que os antigos cristãos não falavam sobre esse assunto. O pastor Ricardo Gondim defende a idéia de que os primitivos cristãos eram omissos nesse assunto: “No credo de Atanásio consta esta declaração que ele desceu ao inferno. Entretanto, não há qualquer referência a descida de Jesus ao inferno em nenhum dos concílios da igreja anteriores ao Concílio de Nicéia (325 AD). Esta expressão também não aparece no Concílio de Constantinopla (381 AD), e mesmo quando tardiamente passa a constar no credo de Atanásio, diz DESCENDIT AD INFERNOS, que originalmente significa que ELE DESCEU AO SUBMUNDO. Podemos dizer que os nossos pecados enviaram Cristo ao inferno, não a um lugar, e sim a um estado de sofrimento. O que Ele passou aqui na terra, culminando com sua morte e sepultura, foi verdadeiramente um inferno...” (O Evangelho da Nova Era, pg. 80).

Será que isto é verdade? Creio que não. Vejamos em itens:

O primeiro Credo a declarar que Jesus desceu ao inferno não foi um Credo redigido por um vulto designado, mas o chamado CREDO APOSTÓLICO. Esse credo apareceu aproximadamente no século II. Alguns dizem que ele foi escrito diretamente pelos apóstolos e outros que estes apenas aprovaram, mas o fato é que ele era reconhecido como substância da fé Cristã.

A ida de Cristo ao inferno não pode ser o seu estado de sofrimento da cruz, pois o Credo Apostólico falava da ida de Cristo ao inferno e, depois, do seu sepultamento (“... foi crucificado, morto e sepultado. Desceu as regiões infernais...”).

O fato de inferno significar “submundo” ou “lugar inferior” é exatamente porque nele o homem está mais distante de Deus do que quando ainda estava na terra.

O reformador João Calvino falou sobre os Pais da Igreja: “Ninguém há dos Patrícios que não registre em seus escritos a descida de Cristo às regiões infernais...” (As Institutas, Vol. II).

PARAÍSO

Alguns dizem que Jesus não foi ao inferno depois da sua morte, porque disse ao malfeitor convertido que estaria com ele, após a morte, no paraíso (Lc 23:43). Ora, nada impede que Cristo tenha ido ao paraíso e depois ao inferno.

SEM SOFRIMENTO

Alguns não conseguem entender a minha a afirmação de que Cristo tivesse ido ao inferno sem, no entanto, sofrer lá.

A Bíblia mostra que no céu existem subdivisões. No céu existem “muitas moradas” (Jo 14:2). O Apocalipse fala das almas dos mártires que foram vistas debaixo do altar do templo celestial (Ap 6:9), fala do santuário celestial e da santa cidade. Elias foi levado ao céu em corpo físico (II Re 2:11) e o corpo de Moisés também foi levado ao céu para se unir ao seu espírito (Jd 9), daí ambos terem aparecido em corpo no monte da transfiguração. Ora, eles não podem estar em um setor do céu onde a glória de Deus seja plena, pois seus corpos mortais não resistiram, antes eles terão que aparecer na terra na grande tribulação para morrer e ressuscitar em novo corpo e assim herdar a plena glória (Ap 11:4-12), pois o corpo mortal não pode herdar a visão beatífica (I Co 15:50).

Da mesma maneira que no céu, no inferno existem setores. O local onde se encontram os demônios é o “Tártaros” (grego) conforme II Pedro 2:4. O local dos ímpios, segundo o Antigo Testamento, é o Abadom.

Se no céu há um setor onde não se tem a plena visão beatífica, pois como dissemos Moisés e Elias se encontra nele, também é razoável que exista um setor no inferno onde Cristo poderia ter entrado, sem que lá o tormento o alcançasse. Moisés e Elias são vistos isoladamente de outros na presença de Deus (Ap 11:4) e Cristo entrou num setor do inferno onde os outros que lá estavam não o perceberam, isto é, todos os outros que estavam no inferno. Paulo, por exemplo, sabia tanto que havia setor no céu que ele poderia entrar com corpo mortal, que ele admitiu a possibilidade de ter sido arrebatado ao céu em corpo (II Co 12:3).

A PRESENÇA DE DEUS

Cristo na cruz aniquilou com os nossos pecados (Hb 9:26), donde se conclui que seu espírito que saiu de seu corpo após a sua morte não trazia sobre si os nossos pecados, mas antes estava “justificado” (I Tm 3:16). Partindo dessas afirmações alguém perguntou a mim se Cristo não morreu espiritualmente ao entrar no inferno, pois como alguém portaria comunhão com Deus no inferno?

À pergunta formulada eu poderia suscitar uma outra pergunta: “Como Moisés e Elias poderiam entrar no céu sem usufruir da plena glória de Deus?”. No entanto, vamos responder a pergunta com respostas positivas. Em primeiro lugar, convém dizer uma coisa que assusta alguns: Deus está presente no inferno, apenas a sua presença não é sentida lá. Isto é óbvio, pois Deus é onipresente. Deus não supervisiona apenas o céu e a terra, mas também o inferno. É pelo seu poder que alguém é lançado no inferno (Mt 10:28). Davi disse: “Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no inferno a minha cama, eis que tu ali estás também” (Sl 139:8).

Ora, a presença de Deus no inferno que não se revela aos ímpios que lá estão, foi revelada a Cristo no inferno, pois ele era justo, de modo que não morreu espiritualmente.

O inferno é um local e um estado. Jesus entrou no “inferno-local”, mas não experimentou lá o “inferno-estado”. Isso pode ser ilustrado com o batismo de João Batista: Era um batismo em água (local) e uma demonstração de arrependimento (estado). Jesus foi batizado por João com referência ao local (água), mas não com referência ao estado (arrependimento), pois não tinha de que se arrepender.

SITUAÇÃO DO INFERNO

Alguns dizem que pelo fato de Jesus ser Deus, a sua entrada no inferno transformaria este em céu. Vejamos três respostas a este argumento:

Como já dissemos, uma coisa é a presença de Deus estar no inferno, outra é ela ser sentida.

Também já falamos que Jesus entrou em um setor do inferno somente.

Por último convém lembrar que não foi o espírito divino de Cristo que entrou no inferno, mas seu espírito humano, pois como Deus ele não precisava vencer as portas do inferno que ele mesmo havia posto, daí a Bíblia dizer que foi como homem exaltado que Jesus foi proclamado Senhor do céu, da terra e até do inferno (Fl 2:9-10).

OBSERVAÇÃO I

Algumas pessoas têm dito que a palavra hebraica “sheol”, a qual aparece traduzida na maioria das vezes por “inferno”, é uma palavra que designa no Antigo Testamento um lugar não apenas de tormentos, mas também um lugar que tinha recinto de consolação para os justos. Segundo estes, portanto, os mortos iam todos para um mesmo lugar espiritual (sheol), isto é, tanto justos como injustos. Para os hereges que defendem essa tese, Jesus teria ido ao “inferno” para tirar de lá os justos e levá-los aos céus, e, após isso, somente os injustos ficaram indo ao inferno depois da morte.

A falsa teoria, acima descrita, se apóia em textos bíblicos onde os justos o incomodados pela vida terrena, desejaram ir ao SHEOL, embora os tradutores aí, não traduziram SHEOL por INFERNO, mas por SEPULTURA. Vamos à refutação da heresia:

Quando a Bíblia fala em SHEOL, este pode ter um dos seus dois sentidos: o material ou o espiritual.

SHEOL significa “lugar dos mortos”. Ora, todos sabemos que há dois tipos de morte: a física (o corpo perde o fôlego de vida) e a espiritual (O espírito humano perde a presença de Deus). Sendo assim, haverá um lugar onde se põe os mortos físicos: sepultura, pirâmides, o fundo do mar, o ventre de um animal que tenha devorado um ser humano, etc; e o lugar onde põe os mortos espirituais: o inferno.

Algumas pessoas têm dito que não aceitam que sheol possa significar sepultura em decorrência de haver uma palavra própria para sepultura no hebraico, no caso, a palavra “Queber”. Isso, no entanto, nada influi, pois o que dizemos é que SHEOL é o lugar dos mortos, onde, no caso de morte física, pode ser a sepultura ou qualquer outra coisa que receba o corpo de um morto, até mesmo o ventre de um animal devorador.

A Bíblia, porém, fala de um sheol espiritual para onde só vão os ímpios, e nunca os justos. Sobre isso, diz Hormer Duncan: “Em diversos casos é verdade que 'sheol' foi traduzido para 'inferno' quando devia ter sido traduzido para 'sepultura'” (na versão King James). Entretanto, nos outros casos, o contexto e a maneira como a palavra “sheol” foi usada na senteça, indicam claramente que se refere a um lugar de castigo e não simplesmente a “sepultura” (Testemunhas de Jeová?!, pg. 45, Imprensa Batista Regular).

Refutando aos que só conheciam o termo “sheol” no sentido de sepultura, disse João Calvino: “O que argumentam quanto ao sentido do texto, concedo ser verdadeiro: não raro se toma o INFERNO por SEPULTURA, mas duas razões se lhe contrapõem...” (As Institutas).

Portanto, quando falamos em SHEOL espiritual e depois da morte, estamos falando de um lugar apenas de tormento e que nunca recebeu um justo, a não ser Jesus, que lá entrou como vitorioso para depois sair. A Bíblia mostra que somente os ímpios irão para o SHEOL-INFERNO: Salmo 9:17; Provérbios 7:27; Provérbios 9:18; Isaías 14:15; Salmo 86:13. O SHEOL-INFERNO é um lugar de 14:15; Salmo 86:13. O SHEOL-INFERNO é um lugar de fogo e ira (Deuteronômio 32:22), bem como de angústia (Salmo 116:3; Lucas 16:23-24). Os justos do Antigo Testamento não iam ao SHEOL-INFERNO (Provérbio 23:14), mas o Seio de Abraão (Lucas 16:22) que era um local celestial (Provérbios 15:24) e oposto ao inferno (Mateus 11:23).

Jesus não foi ao inferno para tirar os justos de lá, pois estes nunca estiveram lá. Além do mais, se Jesus tivesse ido lá no inferno para tirar os justos, levando-os então ao paraíso, teríamos que afirmar que ele primeiro foi ao inferno e depois ao Paraíso de onde ele teria saído para a ressurreição. Isso levaria a Bíblia a uma contradição, pois esta ensina que primeiro Jesus foi ao Paraíso (Lucas 23:43) e depois é que ele foi ao inferno de onde saiu para a ressurreição (Romanos 10:17; Atos 2:31-32).

O versículo que diz que Jesus foi para levar cativo o cativeiro (Efésios 4:8-9) não se refere ao seio de Abraão de dentro do inferno. Primeiro, porque o Seio de Abraão, em sendo um lugar de consolação (Lucas 16:25), não pode jamais ser chamado de “cativeiro”. Segundo, porque o cativeiro ou escuridão a qual Jesus nos livrou é a escuridão do medo da morte. Jesus foi ao inferno para sair de lá em seguida, dando provas de seu poder sobre a condenação de nossos pecados. Isso nos dá a segurança de que o inferno não pode nos tragar após a morte, pois estamos seguros em Cristo, o que nos livra do cativeiro do medo: “e livrasse todos aqueles que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à escravidão.” (Hebreus 2:15).

Uma prova que o Seio de Abraão não se localizava dentro do inferno, é o fato de que os que morrem são levados para lá pelos anjos, o que importa em subida (Lucas 16:22). Já os que vão para o inferno após a morte, estes não precisam de anjos, pois eles descem sob o peso de seus pecados (Lucas 16:22-23).

Concluamos com as palavras do grande reformador João Calvino: “Outro interpretam diferentemente que Cristo haja descido às almas dos patriarcas que haviam morrido sob a lei, para que lhes levasse a proclamação da redenção consumada e as livrasse do cárcere onde mantinham encerradas. E para isto, invocam, indevidamente os testemunhos do Salmo: 'porque haverá de quebrar as portas de bronze e as trancas de ferro' (Salmo 107:16). De igual forma, de Zacarias: 'que os cativos haverá de remir do poço em que havia água' (Zacarias 9:11). Como, porém, o Salmo prediga os livramentos daqueles que, cativos em regiões longínquas, estão confinados em cadeias, Zacarias, porém, compara a calamidade babilônica a um poço ou abismo profundo e seco em que o povo havia sido lançado e ao mesmo tempo, ensine que a salvação de toda a igreja é a saída das profundezas interiores, não sei como haja acontecido que a posteridade imaginasse existir um lugar subterrâneo a que pespegou o nome de LIMBO. Mas, a despeito de que esta fábula tem grandes autores e é hoje, também seriamente defendida por muitos como a verdade, entretanto, nada é senão fábula. Ora, encerrar as almas dos mortos em um cárcere é pueril...” (As Institutas)

OBSERVAÇÃO II

Já vimos que há um “sheol” material (sepultura) e um “sheol” espiritual (inferno). Isto é perfeitamente lógico, pois também há um céu-material (firmamento) e um céu-espiritual (Paraíso).

Nós constatamos que o Seio de Abraão (local onde ficavam as almas justas do Antigo Testamento) não era um setor dentro do inferno. A Bíblia diz que Lázaro foi para o Seio de Abraão (Lucas 16:22), enquanto diz que ao mesmo tempo o rico foi para o INFERNO ou HADES (Lucas 16:23). Ora, se o Seio de Abraão se localizasse no inferno, a Bíblia tinha que dizer não que o rico foi para o inferno, mas sim, que ele foi para o setor de condenação do inferno, já que havia outro setor de consolação. A Bíblia, no entanto, opõe o inferno ao Seio de Abraão, não põe este dentro daquele.

Alguns têm dito que o Seio de Abraão não era um local celestial, afirmando que entre este e o lugar de tormentos havia um grande abismo (Lucas 16:26) e era a Terra. Ora, o céu-paraíso e o inferno são lugares de dimensão espiritual e jamais se poderia dizer que uma dimensão física (a Terra) se interpõe visivelmente entre eles.

Alguns dizem que o Seio de Abraão não era celestial porque Lázaro e Abraão foram vistos pelo rico que estava no local de tormentos. Os que assim argumentam não entendem que esta visão é uma parte da condenação dos ímpios: “Ali haverá choro e ranger de dentes quando virdes Abraão, Isaque e Jacó e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora” (Lucas 13:28).

Quanto a questão abordada no parágrafo anterior convém lembrar que a visão foi “de longe” (Lucas 16:23). Aqui importa lembrar as seguintes observações:

Não é dito que Lázaro tenha visto o inferno, mas que o rico no inferno viu a Lázaro.

Abraão também não viu o rico, mas apenas o ouviu.

Deus permitiu a Abraão ouvir ao rico, porque, sendo ele um líder no lugar de consolação (Seio de Abraão), importava a ele explicar aos condenados a sua condição condenatória (Lucas 16:24-31).

Os hereges têm também argumentado que o Seio de Abraão não era o céu, pois se o fosse dizem eles, deveria ser chamado de Seio de Jesus Cristo. Ora, o lugar de consolação estava sob a liderança de Abraão apenas até a vitória de Cristo. A promessa fora feita a Abraão até que Cristo viesse: “Ora, a Abraão e a seu descendente foram feitas as promessas, não diz: e a teus descendentes, como falando de muitos, mas como de um só: e a teu descendente, que é Cristo”(Gálatas 3:16).

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES

As traduções da Bíblia que são mais antigas e ortodoxas, traduzem SHEOL por “sepultura” ou “inferno”, conforme se refira ao túmulo dos corpos ou ao local de tormento das almas ímpias. No entanto, aqueles que defendem que o SHEOL era um único lugar, de caráter espiritual, que recebia no Antigo Testamento tanto os justo quanto a injustos, escolheram uma tradução para defender seus interesses. No Brasil, estes hereges se apóiam na versão revisada (de acordo com os melhores textos em hebraico e grego) da Imprensa Bíblica Brasileira. Esta tradução usa o próprio original SHEOL, sem traduzi-lo por “sepultura” ou “inferno”. Os hereges costumam usá-la para mostrar que havia um tipo de SHEOL. Todavia esta versão deu um “escorrego”, provando que a heresia não pode ser sustentada. O “escorrego” foi que esta tradução traduziu SHEOL por sepultura em Jó 7:9.

Para os chamados “Pais da Igreja” ou “Antigos Doutores da Igreja”, o Seio de Abraão era um local celestial e nunca dentro do inferno ou em baixo. Para provar isso, citarei apenas um escrito de S. Agostinho(Século IV): “... ou ainda, ele está a gozar AS ALEGRIAS DO CÉU no SEIO DE ABRAÃO, ou está reduzido a desejar uma gota de água no meio das chamas eternas (Lucas 16:22).” (In Epistolam Ioannis Ad Partmos, Tractatus Decem, X, 9).

Rev.Glauco Barreira Magalhães Filho
Membro do Presbitério Anabatista da Igreja em Fortaleza

Por Que Cristo Foi ao Inferno?

Sempre foi crença da igreja cristã o fato de Cristo ter ido em espírito ao inferno, durante os três dias em que seu corpo estava na sepultura.

Henry Jacob, um pregador congregacional, no ano de 1600, foi um dos poucos que se aventurou a negar essa verdade, travando, por isso, uma controvérsia com um bispo anglicano. No entanto, a Bíblia afirma que Cristo foi ao inferno. Não podemos interpretar tal afirmação com a arbitrariedade dos testemunhas de Jeová, os quais consideram o inferno como a simples sepultura. Além do mais, os escritos cristãos falavam desse acontecimento. Até mesmo os livros apócrifos do Novo Testamento apresentados ao concílio de Nicéia, como o livro de Nicodemos, falavam sobre isso, embora apresentando exageros.

Vamos analisar, então, a razão ou o motivo da ida de Cristo ao inferno. Antes, porém, nos deteremos em interpretações erradas acerca desse fato, apresentando refutações.

Kenneth Hagin e Kenneth Copeland, os “profetas” do movimento “palavra da fé”, afirmam que a obra de Cristo não foi suficiente para expiar os nossos pecados. Daí eles deduzem que Cristo foi ao inferno para sofrer espiritualmente a fim de completar a obra da cruz, terminar a expiação:

“Lá embaixo, na masmorra do sofrimento, lá no fundo do próprio inferno, Jesus satisfez as reivindicações da justiça para todos nós...” (Kenneth Hagin, O Nome de Jesus, p.79).

“Jesus foi ao inferno para libertar a humanidade da penalidade da alta traição de Adão (...) Quando seu sangue foi vertido, ele nada alcançou (...) Jesus gastou três dias terríveis nas profundezas da terra recuperando nossos direitos para com Deus. Foi o sofrimento de Jesus no inferno que pagou a penalidade do homem e fez dele um herdeiro da vida eterna.” (Kenneth Copeland).

O ensino desses homens fere frontalmente o ensino das Escrituras. Jesus levou nossos pecados “em seu corpo sobre o madeiro” (I Pe 2:24), logo, uma vez que seu corpo foi destruído na cruz, o pecado foi aniquilado e expiado (I Pe 4:1; Hb 9:26). Jesus, em espírito, não podia ser atormentado no inferno, pois não tomou os nossos pecados sobre seu espírito, mas sobre o seu corpo, daí a Bíblia dizer que Ele foi “JUSTIFICADO EM ESPÍRITO”(I Tm 3:16). O sangue da cruz, portanto, é suficiente para a nossa redenção (Rm 3:25; I Jo 1:7; I Pe 1:18-19).

Paulo Romeiro e o Pr. Ricardo Gondim (Betesda) acertam em refutar o ensino de Hagin e Copeland, mas apresentam explicações igualmente desarmônicas com a Bíblia. Vejamos:

1. Paulo Romeiro, no seu livro “Super Crentes”, fala nas páginas 60 e 61, acerca do comentário de Valnice Milhomes (a imitadora e repassadora dos ensinos de Hagin no Brasil) sobre a morte expiatória de Jesus. Ele lembra que Valnice alega que a palavra “morte” em Isaías 53:9 aparece no original de forma pluralizada (“mortes”) e que, segundo ela, isso indicaria uma morte física (cruz) e outra espiritual (inferno) sofrida por Jesus.

Paulo Romeiro explica o erro. Ele segue a linha de McConnel afirmando que a pluralização significa não quantidade de morte, mas a intensidade de uma só. Ora, essa explicação de Paulo Romeiro pode dar subsídios às interpretações dos “testemunhas de Jeová”, pois nós, crentes evangélicos, afirmamos que há pluralidade de pessoas na divindade (Trindade), citando que a palavra “Elohim” aplicada a Deus é uma palavra pluralizada. Os TJ costumam, por sua vez, dizer que a palavra “Elohim” aparece pluralizada apenas para intensificar os atributos da divindade. Paulo Romeiro, portanto, escolheu uma interpretação que além de favorecer aos “testemunhas de Jeová”, afronta o fundamentalismo, que enfatiza o significado literal.

Não podemos violar a palavra de Deus. No original de Isaías 53:9, a palavra é “mortes”. Vejamos a razão de Jesus ter sofrido “mortes”. A primeira “morte” de Cristo não foi a cruz, mas no Getsêmane. Enquanto Jesus orava, a sua angústia era tão grande que ele começou a suar sangue (Lc 22:44). Se aquele estado se perpetuasse, ele perderia todo o seu sangue, morrendo ali. O próprio Jesus disse lá: “... a minha alma está triste até a morte” (Mc 14:34). Ele, no Getsêmane, sentiu os horrores da morte. Sua morte seria ali se não tivesse intercedido para que, se fosse possível, “o cálice passasse”. Jesus não tinha medo da morte, mas receava morrer antes da cruz, pois a morte antecipada o impediria de expiar os pecados na cruz. A Bíblia diz que Deus ouviu Jesus, enviando um anjo que o fortaleceu (Lc 22:43).

Em Hebreus 5:7, é dito: “o qual nos dias da sua carne, tendo oferecido, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua reverência...”.

O que aconteceu no Getsêmane pode ser considerado uma “primeira morte” de Jesus, pois ali ele sentiu os horrores da morte e no curso natural das coisas teria sido a data de sua morte, mas Deus interveio para que isso não acontecesse. A “outra” morte foi a definitiva e concretizada na cruz do calvário.

Wim Malgo diz: “... em todas as circunstâncias, Jesus submetia-se à vontade de Deus. É o que Paulo quer dizer quando escreve aos filipenses: ‘Tornando-se obediente até a morte’, isso é Getsêmane; ‘e morte de cruz’, isso é Gólgota (Fp 2:8)” (Wim Malgo, O Que Aconteceu e Acontecerá em Breve, p. 52).

Quando a forma pluralizada para “morte” também aparece em Ezequiel 28:8 (morte dos traspassados), isso quer dizer que a pessoas sob efeito de uma só traspassada seria conduzida a morte em pouco tempo, mas recebe outras traspassadas para morrer logo, de modo que é como se fossem várias mortes, pois cada uma das lanças seria suficiente para matar.

2. O pastor Ricardo Gondim, através do texto de I Pedro 3:18-20, deduz que Cristo foi ao inferno após ter sido “vivificado pelo Espírito” (ressussitado) e com a finalidade de pregar:

A) Jesus não foi a este lugar de prisão sofrer, e sim pregar;

B) Ele não foi lá depois de morrer e sim depois de ressuscitar (Ricardo Gondim, O Evangelho da Nova Era, p. 79).

O pastor Ricardo Gondim não conseguiu perceber que o texto de I Pedro 3:18-20 não se refere de forma alguma ao inferno. Esse texto diz que Jesus foi “vivificado pelo Espírito, no qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão”. Note pelas palavras que destaquei, que Jesus pregou aos espíritos em prisão no Espírito Santo, o qual foi o responsável pela sua ressurreição. Jesus não pregou no seu corpo, logo não foi após a ressurreição. Ele não pregou no seu próprio espírito humano, logo não foi no intervalo entre a morte e ressurreição. Pregou quando estava no Espírito Santo.

Os “espíritos em prisão” não são os que estão no inferno, pois o texto não menciona todos os ímpios, mas apenas os da época de Noé (I Pe 3:20).

O que a Bíblia quer dizer é que Cristo através do Espírito Santo esteve em Noé quando este pregou aos rebeldes da sua época quando estes ainda estavam vivos: “Desta salvação inquiriram e indagaram diligentemente os profetas que profetizaram da graça que para vós era destinada. Indagando qual o tempo ou qual a ocasião que o Espírito de Cristo que estava neles...” (I Pe 1:10-11).

“... por outro lado, os espíritos em prisão referidos nessa passagem são os ímpios que viviam no tempo de Noé, cujos espíritos ou almas se achavam na escuridão da ignorância como numa prisão; Cristo pregou a eles não na carne, pois ainda não se encarnara, mas no Espírito... Esta interpretação é aceita pelo próprio Agostinho... O Espírito de Cristo estava nos profetas. Foi assim que Cristo pregou aos ímpios no tempo dos profetas, e no tempo de Noé” (Doutrinas Católicas Analisadas, Dercy de Souza Lima, p. 76 e 77).

“... A explicação deste texto é que Cristo não estava pregando a espírito desincorporados durante os três dias em que seu corpo esteve na sepultura. O Espírito de Cristo em Noé estava pregando ao povo do tempo de Noé quando este estava vivo e as pessoas estavam vivas quando ouviram a advertência, mas mortas quando Pedro escreveu a respeito delas.” (Ira T. Ransom)

Jesus não foi ao inferno para pregar, pois lá não há pregação: “Será anunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade no Abismo (Abadom)?” (Sl 88:11)

Jesus esteve no inferno no período entre sua morte e ressurreição. Enquanto o seu corpo estava ameaçado de corrupção na sepultura, a sua alma foi ao inferno (Hades): “Prevendo isto, Davi falou da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no inferno (Hades), nem sua carne viu corrupção” (At 2:31).

“Ou: Quem descerá ao abismo? (Isto é, a tornar trazer dentre os mortos a Cristo) (Rm 10:7). “Ora, isto ¬– ele subiu – que é, senão também antes tinha descido às partes mais baixas da terra?” (Ef 4:9).

O QUE JESUS FOI FAZER NO INFERNO?

Creio que a presença de Cristo não foi percebida no inferno pelos que lá sofriam, pois, se assim o fosse, naquele momento o inferno seria céu.

Cristo foi ao inferno para nos dar um sinal da sua vitória. O inferno é lugar da condenação irrevogável. Quem entrou lá jamais saiu. Até os demônios de lá que serão soltos durante a grande tribulação pelo diabo, só terão essa oportunidade porque Cristo dará ao diabo por curto período a chave do inferno (Ap 9:1).

A Bíblia fala sobre o poder das portas infernais: “Ele encerra na prisão, e não se pode abrir” (Jó 12:14).

Cristo entrou no inferno não para sofrer, mas apenas para entrar e sair, dando assim prova do seu poder e da sua vitória sobre a condenação decorrente dos nossos pecados. Ele queria nos deixar seguros de que era poderoso para nos guardar da força condenatória. Ele queria dar um sinal da sua promessa à Igreja: “pois... sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno (Hades) não prevalecerão contra ela” (Mt 16:18).

Jesus foi o único homem que venceu o inferno. O único que pode dizer: “... tenho as chaves da morte e do inferno (Hades)” (Ap 1:18).

Rev. Glauco Barreira Magalhães Filho
Membro do Presbitério Anabatista da igreja em Fortaleza