Está
registrado em Mateus 12:30 e Lucas 11:23 a célebre expressão de Jesus: Quem
não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha. Para muito
além de uma reprimenda circunstancial aos fariseus — que cegos pelo preconceito
religioso o acusaram de expulsar demônios pelo poder de Belzebu, demonstrando
total aversão à restauração daquele homem cego e mudo —, essa declaração
estabelece o princípio absoluto da unidade de propósito no Reino de Deus.
Aqueles líderes religiosos não compartilhavam do desejo de Cristo de fazer o
bem ao próximo, tampouco suportavam ver a operação genuína dos milagres
divinos, o que os colocava em oposição direta à missão do Messias. Diante
disso, Jesus ensina com clareza cirúrgica que não existe neutralidade
espiritual ou isenção no cenário da fé: ou um indivíduo está ativamente
submisso ao Senhor e cooperando com a Sua obra (ajuntando), ou ele está,
deliberadamente ou não, trabalhando contra o avanço do Seu Reino e sabotando a
comunhão (espalhando). Sob essa ótica, compreende-se que qualquer atitude que
promova divisões infundadas, partidarismos ou vaidades nada mais é do que o ato
espiritual de “espalhar” aquilo que Cristo duramente conquistou com alto preço,
fornecendo-nos a chave necessária para fazer incursões profundas nos textos
bíblicos subsequentes que tratam sobre a urgência da unidade da igreja.
A
unidade da igreja é essencial porque reflete a própria natureza de Deus,
fortalece espiritualmente os fiéis e é o principal testemunho para atrair o
mundo a Cristo. Ela transforma os cristãos em um corpo coeso que opera junto. A
necessidade de união fundamenta-se em alguns aspectos tais como segue. Jesus
orou para que os discípulos fossem um (João 17:11, 21-23), para que o mundo
cresse que Ele foi enviado, pois a divisão afasta as pessoas, enquanto o amor
mútuo comprova a veracidade do evangelho. A igreja é o Corpo de Cristo (I
Coríntio 12:12-27) assim como um organismo, se os membros estiverem
desarticulados, o corpo não consegue avançar, cumprir sua missão ou se defender.
Sozinhos, os cristãos ficam vulneráveis (Salmo 133:1, I Coríntios 1:10) já que a
convivência desenvolve o amor, a humildade e o caráter cristão, além de
permitir o exercício dos dons espirituais para a edificação de todos e a
unidade da igreja é um reflexo da união perfeita existente entre o Pai, o Filho
e o Espírito Santo.
Em
Efésios 4:1-6, o apóstolo Paulo estabelece que a unidade da igreja não é uma
meta humana a ser alcançada. É uma realidade espiritual já criada pelo próprio
Deus que os cristãos têm o dever urgente e diligente de preservar através do
vínculo da paz. Escrevendo diretamente da prisão, ele roga para que os fiéis
vivam de maneira digna do chamado que receberam, o que se manifesta na prática
não por meio de uniformidade cultural ou concordância cega. Ele propõe o
cultivo de virtudes relacionais profundas como a humildade, a mansidão, a
longanimidade e o suportar uns aos outros em amor. Para fundamentar a
obrigatoriedade dessa postura, Paulo apresenta uma estrutura trinitária
inflexível composta por sete pilares absolutos e indivisíveis. Há um só corpo e
um só Espírito, assim como uma só esperança da vocação; um só Senhor, uma só fé
e um só batismo; e, finalmente, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos,
por meio de todos e habita em todos. Dessa forma, o apóstolo demonstra de
maneira contundente que qualquer divisão por questões secundárias, vaidades
pessoais ou picuinhas teológicas é uma contradição teológica grave, visto que a
identidade fundamental, a liderança, o selo e o destino eterno de cada membro
do Corpo de Cristo são exatamente os mesmos.
Contudo,
ao longo dos séculos, a história do cristianismo revela que a preservação dessa
unidade perfeita descrita por Paulo foi frequentemente desafiada por profundas
divisões e cismas. Por um lado, muitas dessas rupturas históricas foram motivadas
por vaidades políticas, disputas de poder, preconceitos culturais e orgulho
humano, o que fragmentou visivelmente o Corpo de Cristo, enfraqueceu o
testemunho público do evangelho diante do mundo e comprometeu diretamente o
sentido bíblico da comunhão afetiva. Por outro lado, nem toda separação deve
ser lida como um erro espiritual. Diante do surgimento de desvios teológicos
graves, heresias destrutivas e apostasia clerical, o afastamento e a divisão
formal revelaram-se caminhos dolorosos, porém absolutamente necessários, para a
conservação da pureza da fé, a defesa da verdade apostólica e a manutenção da
sã doutrina. Nesses casos específicos, a ruptura com uma estrutura corrompida
foi o preço pago para que a fidelidade à Palavra de Deus continuasse viva,
demonstrando que a paz nunca deve ser comprada ao custo do sacrifício da
verdade.
Historicamente,
o fenômeno da fragmentação eclesiástica não poupou o protestantismo e o
evangelicalismo, de modo que as divisões eventualmente alcançaram e
reconfiguraram as igrejas evangélicas, as quais, ironicamente, nasceram sob a
premissa teórica de lutar para manter uma fidelidade doutrinária estrita e uma
unidade sólida estruturada nos moldes estritamente bíblicos da igreja
primitiva. Ao refletirmos sobre as forças motrizes que impulsionaram esse
cenário ao longo do tempo, podemos elencar três pilares fundamentais que
justificam e explicam essa constante ramificação: em primeiro lugar, o
princípio da livre interpretação da Bíblia (o livre exame), que, embora
tenha libertado o fiel do monopólio clerical, abriu margem para uma pluralidade
de leituras teológicas e divergências doutrinárias secundárias; em segundo
lugar, a consolidação de uma cultura de autonomia administrativa e governos
congregacionais locais, que enfraqueceu a necessidade de prestação de contas a
instâncias centrais e facilitou emancipações eclesiásticas; e, por fim, a
incidência frequente de choques de liderança, vaidades pessoais ou disputas por
espaços de poder e influência. Esse arranjo de fatores descentralizadores
operou de forma tão intensa que pulverizou o movimento evangélico global,
gerando uma vasta fragmentação que hoje se materializa na coexistência — e, por
vezes, na rivalidade — de uma infinidade de denominações de linhagem histórica,
agremiações pentecostais clássicas e comunidades neopentecostais, cada qual
reivindicando para si a correta aplicação dos princípios evangélicos.
Diante
disso, torna-se imperativo esclarecer que o princípio do livre exame da Bíblia
não pode, sob hipótese alguma, ser deturpado ou confundido com uma autorização
para o relativismo hermenêutico. Gozar da liberdade cristã para ler e examinar
as páginas sagradas individualmente é um direito precioso, mas interpretar o
texto ao bel-prazer, distorcendo-o para validar agendas particulares ou
experiências subjetivas, constitui um erro grave que viola a própria natureza
da revelação divina. A leitura atenta das Escrituras deve invariavelmente
convergir para um único propósito e sentido teológico primordial, afinal Deus
não inspirou significados contraditórios ou verdades divergentes para que cada
nova denominação isolasse suas próprias conclusões e criasse dogmas
particulares. Em sua essência, a Bíblia é um livro unívoco, o que significa que
ela admite apenas uma interpretação correta e original — aquela pretendida pelo
Autor Divino —, a qual só pode ser discernida não pelas lentes do orgulho e da
sabedoria do homem, mas sob a ótica e a iluminação sobrenatural do Espírito
Santo, que guia a comunidade de fé em consenso e fidelidade ao longo da
história.
Por
conseguinte, a cultura de autonomia administrativa e os sistemas de governo
congregacional local, embora fundamentados em princípios bíblicos de
descentralização e participação comunitária, jamais podem esquecer que sua
soberania terrena é limitada e deve estrita prestação de contas ao próprio
Deus. O verdadeiro princípio do governo congregacional não é norteado pelo
exercício de um querer coletivo arbitrário, por simples maioria ou pela
imposição dos caprichos de determinada comunidade, mas pela submissão
voluntária à operação direta e ao estabelecimento do Reino de Deus na terra.
Uma igreja local só “governa” legitimamente quando o faz sob as luzes da sã
doutrina e sob a liderança do Espírito Santo, o que impede que sua gestão seja
rebaixada a um governo meramente humano. Para ilustrar o perigo dessa inversão
de valores, imagine o absurdo de uma liderança que decide promover uma
atividade puramente secular, festiva ou vaidosa, utilizando recursos sagrados
arrecadados por meio de dízimos e ofertas, motivada unicamente pelo desejo
carnal de rivalizar com comunidades vizinhas e ostentar que possui programações
melhores e mais atrativas. Quando bem compreendidos à luz das Escrituras, os
dízimos e as ofertas não pertencem aos homens e nem se destinam a satisfazer os
interesses cômodos, o entretenimento ou o egoísmo dos membros da igreja, mas
servem exclusivamente para a promoção do Reino de Deus, o sustento da obra
missionária, o amparo aos necessitados e a edificação espiritual do Corpo de
Cristo. Esse mesmo rigor espiritual aplica-se, inevitavelmente, à escolha e
consagração de pastores, evangelistas, mestres (ministros) e diáconos
(oficiais), que são funções vitais para o ordenamento do Corpo de Cristo.
Quando esses processos ministeriais ocorrem sem a devida oração, discernimento
e inspiração do alto, o que se promove na prática é mais uma eleição política,
corporativista e interesseira do que a escolha de vocacionados comprometidos
com o Reino. Essa negligência substitui os critérios de caráter, piedade e
maturidade descritos nas Escrituras por conveniências humanas e alianças de
poder, sabotando a liderança servil e minando a manutenção e a preservação dos
valores santos e dos hábitos bíblicos que deveriam resguardar a integridade da
Igreja.
Por
último, os choques de liderança e as disputas por espaços de poder e influência
configuram, sem dúvida, a pior e mais devastadora manifestação carnal a
comprometer a unidade visível da igreja. Quando homens destituídos de uma
vocação genuína enxergam nos púlpitos e nas plataformas eclesiásticas meras
oportunidades de projeção social, ganância financeira ou promoção pessoal, eles
invertem a essência do evangelho, negando categoricamente o verdadeiro
pastoreio e o cuidado prático com o rebanho. Em vez de agirem com a humildade
necessária para mortificar o próprio egoísmo e salvaguardar a comunhão dos
santos, esses falsos líderes inflam suas vaidades, colocando em risco toda uma
história comunitária e, principalmente, a salvação e a saúde espiritual de vidas
preciosas que carecem de uma atenção pastoral diferenciada, acolhedora e
bíblica. O péssimo exemplo desses indivíduos não apenas arruína a reputação de
sua própria biografia e ministério, mas também atua como um terrível tropeço
para outras almas, que, escandalizadas pelo cinismo e pelo autoritarismo,
acabam sendo levadas a desvios doutrinários graves, ao completo desgosto pela
vida comunitária e, muitas vezes, ao abandono definitivo da fé.
Portanto,
a centralidade que se faz necessário invocar diante dessa fragmentação não
reside em qualquer estrutura de governança humana, comitê eclesiástico ou
hierarquia clerical, pois a história já demonstrou que tais mecanismos são
falíveis e frequentemente propensos ao autoritarismo ou à divisão política.
Para compreender o verdadeiro eixo de coesão da igreja, basta que o crente
cultive um coração genuinamente piedoso, submisso e moldado pelos valores
fundamentais das Escrituras Sagradas, reconhecendo que somente a Palavra de
Deus possui a autoridade intrínseca para atuar como a base inabalável, o
fundamento teológico e o marco central a partir do qual todas as doutrinas
devem ser rigorosamente observadas e todos os comportamentos práticos devem ser
seguidos. Portanto, não é o governo de líderes ou instituições humanas que
centraliza e pacifica a fé, mas o princípio da Sola Scriptura, uma vez
que apenas o texto sagrado, sob a iluminação do Espírito Santo, detém o poder
soberano de alinhar os corações na verdade, expurgar os desvios egoístas e
manter de forma perene o propósito de unidade essencial que Cristo designou
para o Seu Corpo.
Heládio
Santos

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