O Jornal Tocha da Verdade é uma publicação independente que tem como objetivo resgatar os princípios cristãos em toda sua plenitude. Com artigos escritos por pastores, professores de algumas áreas do saber e por estudiosos da teologia buscamos despertar a comunidade cristã-evangélica para a pureza das Escrituras. Incentivamos a prática e a ética cristã em vistas do aperfeiçoamento da Igreja de Cristo como noiva imaculada. Prezamos pela simplicidade do Evangelho e pelo não conformismo com a mundanização e a secularização do Cristianismo pós-moderno em fase de decadência espiritual.

sábado, 12 de novembro de 2016

A verdadeira comunhão dos santos


“Existe uma comunidade de todos os fiéis em Cristo e uma comunhão de todos os santos filhos eleitos de Deus. Eles têm um Pai no céu, um Senhor Cristo; todos eles estão impregnados e selados no coração com um espírito, tem uma só intenção, opinião, coração e alma, como quem tem bebido de uma mesma fonte, vivem a mesma luta, a mesma cruz e as mesmas provas e encorajam, por fim, uma mesma esperança gloriosa.”
Ulrich Stadler
(Circa, 1539)

Anabatista-Huterita

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Memórias de Moriá - cooperadores

Algumas pessoas, irmãos em Cristo, foram muito importantes no início da obra de Moriá. Meses após o primeiro culto, estando a Igreja na Pinho Pessoa, ajudava o jovem Glauco o irmão Luiz (chamado ainda hoje Luizinho). Eram dias de um campo novo para Glauco Filho e Luizinho, que conhecia bem a região da Vila Arão, auxiliava-o na obra de evangelização.
Na transferência da Joaquim Tôrres para a Pinho Pessoa, destacou-se Eugênio Pimentel, membro da Assembleia de Deus do S. J. do Tauape. Suas contribuições financeiras permitiram que o aluguel do imóvel fosse honrado. Mal sabia, na época, o grande benefício que prestava à obra. Vez por outra, era ele quem conduzia a Escola bíblica nas quartas. Instruiu os novos convertidos na doutrina fundamentais da fé.
O irmão Antônio Lisboa, também da Assembleia de Deus, era outro irmão que lecionava na Escola Bíblica. Particularmente, conheci-o pouco, mas pude ver como tinha cuidados e responsabilidades com os jovens que lhe ouviam no cômodo da casa reservado para a cozinha e sala de jantar. Nosso salão de reuniões e cultos era nesta dependência da casa que era mais amplo do que os outros.

Marcos Pinheiro, o pregador dos cultos de doutrina, fazia nossas sextas serem robustas e espirituais. Almejávamos que chegassem. Naqueles dias, tinha uma palavra profunda e seu alimento era sólido e apreciável. Por diversas ocasiões, muitos irmãos e irmãs da Assembleia de Deus do Serviluz vinham ouvir suas pregações juntos conosco. Eram dias de muita comunhão e boa vontade para estarmos juntos. Ao som de “escute bem” e “guarde isso no seu espírito” a pregação trazia euforia pelo zelo que expressava. Eram proferidas palavras de santidade e contra todo tipo de vaidade. Juntos aprendemos a zelar pela sã doutrina, tendo paixão pela vida santa. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Memórias de Moriá - primeiros evangelismos

Os domingos eram os principais dias de evangelismo na Piedade. Não havia muitos irmãos dispostos naquele primeiro ano para o evangelismo pessoal. No entanto, o contingente deficiente era sobrepujado pela ousadia dos poucos. O problema da ausência no evangelismo era o trabalho e os estudos, além de alguns que tinham seus afazeres domésticos por serem casados. Passemos a alguns fatos.
Um dos novos convertidos de outubro/89 ainda não tinha tido a experiência com o evangelismo, talvez pelo problema da timidez. No final do mês de novembro/89 teve um sonho que mudou essa história. Enquanto dormia teve um vislumbre no qual descia rapidamente do patamar físico para uma realidade espiritual inferior. Ao chegar naquele ambiente depreciativo via muitos olhares de sujeitos enegrecidos sem reações, mas duas daquelas “almas” fitavam-lhe o olhar. Estremeceu e imediatamente foi arrebitado, acordando em seguida. Ficou pensativo e impactado. Nada entendeu no momento. Os dias se passaram e ele continuou inerte à evangelização. Repentinamente, duas pessoas próximas morreram praticamente ao mesmo tempo. Quando isto aconteceu, lembrou-se do sonho e entendeu a necessidade de sair e pregar o Evangelho. Nos primeiros dias ficou travado, mas não demorou muito para que começasse a pregar e a discutir com seus ex-professores de crisma na pracinha da Piedade. Esses ficavam surpresos com a discussão, inclusive uma delas chamada Maria Luiza.
Lembro-me que passamos a frequentar a pracinha em frente da igreja da Piedade entre 17h e 18h30, semanalmente no domingo. Era uma multidão que entrava e saía das missas, enquanto nós resistíamos aos olhares de injúria e indignação; um pequeno grupo de rapazes franzinos sem muita expressão fincava os pés ali e não se intimidavam diante da turba agitada. Flávio era o mais decido e firme. Tinha um compromisso louvável com a pregação e com a oração. Espelhávamo-nos naquele jovem homem. Sua palavra era muito forte e inspirava confiança. Ouvintes tremiam ao ouvi-lo pregar. A unção de Deus sobre sua vida era tão maravilhosa que meses depois, enquanto evangelizava com Benedita(uma nova convertida) na Vila Arão, pregou para um jovem que sentiu o poder de Deus em suas palavras. Aquele moço incrédulo começou a chorar e não continha suas lágrimas. Benedita ficou boquiaberta, pois nunca tinha visto uma manifestação como aquela. Henrique, um adolescente problemática do bairro agora convertido, fazia do evangelismo pessoal uma ponte para salvação até de quem não quisesse nos ouvir. Ficava inquieto em estar na pracinha. Não se continha, subia os degraus da “babi”[1] e entrava templo adentro para evangelizar os que estavam sentados ouvindo as palavras mortas do sacerdote sem Deus. Em alguns momentos, foi repreendido do altar e levado à força para fora. Numa discussão, deixou um padre embaraçado, pois quis explicar a razão de sua atitude, informando que aquelas pessoas estavam indo para o inferno. Ao que o padre respondeu que levá-las para o inferno era competência dele, usando outras palavras. Henrique, muito esperto, aproveitou-se das palavras infelizes daquele homem e voltando-se para os que ouviam a confusão proferiu: “Estão vendo para onde ele quer levar vocês?”. Aquilo deixou o sujeito enfurecido e o Henrique ficou marcado, conhecido e proibido de entrar no templo. Razão essa que quando chegávamos ali nas tardes de domingo, um clima de preocupação se instaurava de ambos os lados. Não era nossa pretensão prejudicar ninguém nem causar transtornos. Apenas queríamos pregar a salvação para quem não tinha.
Outra ação que chamou grande atenção era a “operação desfaz TJ”. Consistia em bater de porta em porta, após a visita de alguma testemunha de Jeová a determinada casa para desfazer o que eles tinham ensinado. Para isto, tínhamos um folheto denominado “testemunhas de quem?”. Não nos demorávamos, pois entendíamos o incômodo das pessoas levantarem-se cedo no domingo para abrir a porta para um estranho. Até hoje não sei como o Henrique sabia previamente o roteiro de evangelização deles, mas sei que era preciso na informação. As testemunhas de Jeová que nos viam atrás deles não queriam acreditar no que estávamos fazendo. Isso gerou debates do Henrique com Sandra (uma loira magrinha), frequentadora do salão na João Cordeiro. Era uma moça muito inteligente, mas não cedia, por mais que fosse vencida pela argumentação do Henrique. Henrique era o mais versado entre nós e considerávamos seu conhecimento abaixo apenas do jovem Glauco que também era uma fonte de conhecimento bíblico e de Deus. Outra testemunha de Jeová que debateu muito com o Henrique foi o Mocinho, também muito conhecedor do jeovismo, sendo capaz de embaraçar qualquer pessoa despreparada. Com o Henrique, o negócio era outro. Vibrávamos com os debates. Muitos anos depois, ficamos agradecidos a Deus pela vida do Mocinho, pois havia se convertido e frequentou alguns cultos na capela da Piedade.



[1] Termo que identificava a igreja católica e abreviação para a grande Babilônia de Apocalipse, aquela que se prostituiu com os reis da terra e virou covil de demônios. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Memórias de Moriá - Um jovem chamado por Deus

No final de 1989, o grupo de amigos se reencontra, agora, firmados em Cristo e ansiosos para fazer a obra de Deus. Através da Igreja criaram vínculos fraternais e novas amizades com outros irmãos e irmãs dos mais diversos segmentos. Nesse tempo, os membros da Igreja davam seus testemunhos e diziam ter sido: forrozeiros, festeiros, roqueiros, religiosos, macumbeiros, jovens malinos, idólatras, pecadores “pacíficos” e rebeldes. Era um misto de gente capaz de ser domado apenas pela graça redentora e pelo favor divino. Sob a orientação do jovem Glauco, ainda não consagrado pastor, a pequena comunidade vivia dias de uma fé autêntica.
A atenção dada ao jovem ministro (reconhecimento que todos prestavam inclusive os mais velhos) era o símbolo de que Moriá não seria uma simples Igreja. Nos seus primeiros dias fora chamada Igreja de Nova Vida, devido à boa influência de um casal do Rio de Janeiro cuja Igreja assim se chamava, tendo como bispo M. Robert McAlister, o qual muito apreço dedicava Glauco Filho. No entanto, perceberam posteriormente que a Igreja devia ter identidade própria uma vez que se tratava de uma inspiração divina para nossa geração. Não que o nome tenha relevância para Deus, a iniciativa seria classificar o movimento com seriedade e devoção para outras igrejas e para o mundo. Por decisão comum chegaram ao nome Moriá. Agregaram o termo Batista que simboliza a igreja perseverante cujo rastro foi deixado na História. Também Renovada em razão da fé na doutrina pentecostal e do anseio pelo vento do Espírito o qual encheria os muitos cenáculos que seriam formados. Mas, Moriá é a chave, é o termo principal. Ilustra a fé virtuosa e ousada para fazer o que fosse necessário, segundo as Escrituras, para servir a Deus. Moriá é sacrifício santo, é desprendimento, é compromisso com a verdade revelado através de vidas santas, é colocar o Reino de Deus em primeiro lugar, é não ser nem estar acomodado em Sião, é zelar pela sã doutrina, é transmitir a verdade sem receios e sem medos, é não se conformar com o mundo... é entregar seu Isaque constantemente no altar de Deus.
Para tanto, o jovem Glauco Barreira Magalhães Filho era exemplar. Sua conduta solidária quebrava barreiras das desconfianças. O alinhamento com pessoas simples para conduzir a obra por ele iniciada serviu para verificarmos que seu julgamento não era com acepção de pessoas. Com a simplicidade cristã transmitiu sua mensagem e caiu nas graças do seu povo. De fato era um jovem de coração simples, muito humano e direcionado por Deus. Todos tomavam seus conselhos, pois apesar de jovem era dotado de uma maturidade extraordinária.
Sua simplicidade era notável. Abdicou, por vezes, do conforto para ser uma pessoa que passava pelas mesmas experiências dos demais. Às vezes, nos dias de culto ou visitas, saía de casa a pé e ia até a Pinho Pessoa, na Vila Arão, sem qualquer constrangimento. Tanto a ida como a volta para a casa, cedo ou tarde da noite. Morava neste tempo por trás do Palácio do Governo do Estado do Ceará, quase no final da avenida Barão de Studart. Era um longo trajeto. Fazia isso para se sentir mais humano, sentir os dramas dos outros, nivelar-se com os que estavam abaixo do seu status social. Um forte exemplo cristão.
Sua formação em andamento em Direito, pela UFC, não o impedia de fazer a obra. Era uma pessoa multitarefa. Sempre foi brilhante no contexto acadêmico, estando entre os melhores e os mais respeitáveis de sua sala. Seus estudos do Direito, de certa forma, possibilitaram exposições das Escrituras muito bem amparadas. Nesta idade, com 18 (dezoito) anos, era muito conhecido nas diversas Assembleias de Deus da cidade. Era convidado para pregar em muitas delas. Sua pregação eloquente era bem recebida nas igrejas pentecostais. Nas Igrejas Batistas Nacionais não era diferente. Uma vez, em um culto da Jubance (Juventude Batista Cearense – órgão da juventude da Convenção Batista Nacional), no templo da Igreja Batista de Antônio Bezerra, o jovem Glauco, com indumentária simples foi chamado para pregar. Não tinha sido convidado previamente. Era comum nos cultos o responsável pela condução do evento escolher alguém para pregar. Nesta noite coube a Glauco Filho. Foi uma pregação de fogo para jovens. Vimos muitos jovens caídos ao chão após a pregação, gemendo em busca da renovação espiritual. Cerca de dez jovens foram batizados naquela noite.
Por essa razão, sempre que os membros sabiam que Glauco iria visitar algum culto de mocidade, os jovens de Moriá uniam-se a ele. Foi assim que começou o movimento de mocidade atuante na Igreja. Os jovens de Moriá começaram a conhecer muitos irmãos de outras igrejas e criaram laços. Naquele tempo, os cultos de mocidade das assembleias ocorriam mensalmente, principalmente nos sábados. Algumas realizavam cultos às quintas, como era o caso da Assembleia de Deus do Serviluz, a mais fervorosa da época, principalmente no tempo antes de sua reforma, com a qual firmaríamos fortes laços. Portanto, o jovem pregador era acompanhado quando ia para as muitas Assembleias de Deus: Serviluz, Morro do Teixeira, Nova Aldeota, Varjota, Messejana, Estação Alencarina, entre outros.
De onde ele veio? Tinha lido as Escrituras desde criança, auxiliado pelo pai. As Escrituras exerceram uma influência sobre ele diferente da maioria dos casos. Assumia nas brincadeiras infantis a identidade dos heróis da Bíblia, incorporando o sentido para os quais foram vocacionados por Deus. A paixão pelo santo livro começa com uma interação ingênua, mas que redundou para um comprometimento maior no futuro. Cresceu e na adolescência conheceu uma Igreja evangélica, a única no seu campo de visão. Na Assembleia de Deus Betesda ingressou e começou um trabalho de evangelização que futuramente possibilitou o encontro com o saudoso irmão Augusto Saldanha, o pregador da Praça do Ferreira. Foi o irmão Saldanha que apresentou o jovem Glauco aos púlpitos assembleianos. Daí para frente os pastores assembleianos tradicionais reverenciavam o vigor daquele jovem espiritual. Imagino que os pastores se reconheciam naquele jovem. Os pastores da época eram homens maduros e experientes na seara do mestre, mas passavam por um problema “novo”: suas igrejas estavam em decadência espiritual e moral, saindo do padrão legado pelos pioneiros, por influência de pregadores e teólogos liberais. Sua membresia cedeu ao mau capricho, tendo reflexos negativos até hoje. Em vistas da contraposição àquela situação, um jovem de nobre família, acadêmico do Direito e distinto servo de Cristo como Glauco defendendo o padrão bíblico e conservador era como um bálsamo para seus corações. Era o que víamos e sentíamos na época.

Pelo problema do liberalismo teológico em sua igreja resolveu se desligar da mesma, saindo em paz com o pastor Ricardo Gondim, responsável pela Betesda na época, após expor serenamente suas razões. Além disso, tinha recebido orientações de Deus para iniciar uma obra na Piedade, local que não contava com uma Igreja avivada. Foi circulando pelas ruas desse bairro, mais especificamente pela Rua Padre Antonino, que encontrou vários jovens conversando sobre questões da vida. Evangelizou todos. A partir dali iniciou seu trabalho, levando-os para seu primeiro culto realizado na região. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Memórias de Moriá - conflitos e conversão

Era um sábado (26/11/1988) quando aquele culto aconteceu, na Rua Joaquim Tôrres, 935, no bairro de Joaquim Távora. Naquela singela casa antiga, o pregador e os ouvintes, a pregação com conversões e a alegria do céu. Esse foi o marco na história de algumas vidas, tanto dos que estavam lá quanto dos que não estavam.
O quarteto de outrora ficou resumido a dois jovens que tentaram dissuadir os outros dois agora redimidos. Apesar de algum esforço, não conseguiram e resolveram continuar a trajetória da “geração coca-cola” sem seus principais articuladores. Fracasso. Tentaram substituí-los, sem sucesso. Não poderiam ser substituídos. Como último recurso, o jovem mais disposto a mudar aquele quadro inscreveu-se para a crisma a fim de aprender as Escrituras para, através delas, trazer os amigos à velha vida. Que absurdo! No entanto, um erro acertado, pois com a leitura do Evangelho o Santo Espírito começou a mudar paulatinamente os pensamentos do seu coração. Mas, participava das missas semanais na sua paróquia e juntamente com os professores da crisma discutia, dentro do que sabia (lógica juvenil), com os antigos amigos nas tardes de domingo enquanto eles evangelizavam em frente à igreja católica da Piedade.
Passado alguns meses, após a conversão de George e Kito (apelido carinhoso de Assis com o qual era tratado pelos familiares e amigos), o jovem perdido busca nos antigos amigos respostas para o que não entedia nas Escrituras. Na crisma, o grupo de jovens que conduzia as reuniões só falava de problemas sociais e cantavam, por incrível que pareça, “Legião Urbana”. A sede de Deus brotava naquele coração simples que não resistiu ao convencimento divino, por isso buscou amparo em quem podia confiar e contar para solucionar seus dilemas, pois seus mestres religiosos eram vazios. Apesar disto, não tinha interesses em tornar-se cristão como os amigos. Assis, como um verdadeiro amigo, fazia muitas incursões para levar o amigo ao culto. Certa vez, estavam jogando futebol quando de repente ele surgiu, entrando no terreno batido de areia. Ele pediu para participar daquele jogo para no final convidá-los para um culto de jovens na antiga Igreja do jovem pregador Glauco. Como era de se esperar, não aceitaram, ficando, inclusive, chateados pelo ato do sincero amigo.
No entanto, alguns dias depois, aquele jovem da crisma atende a um novo convite para um culto. Já era fevereiro de 1989. Os crentes de Moriá não mais se reuniam no local do primeiro culto, mudaram para outro endereço: Rua Pinho Pessoa, 494. Uma casa alugada com muro baixo pintado de amarelo, portão gradeado e mediano na cor branca, com uma frente destinada à garagem, sem coberta. As partes interiores não eram utilizadas, pelo menos para a realização dos cultos. Naquele local, além dos ouvintes que estavam dentro da área de garagem, os transeuntes, os motoristas, os passageiros de ônibus (linha Parque Americano) podiam ver e ouvir a mensagem do evangelho quando transitavam pela rua.
O local de culto era de uma área com uns 4 (quatro) metros de largura por 5 (cinco) metros de profundidade, talvez menos. Após o espaço da garagem, havia uma escada de dois degraus que dava para a elevação do imóvel quando começava propriamente a casa. Esse patamar superior era semelhante a uma puxada frontal de onde o pregador anunciava sua mensagem com uma pequena caixa de som, enquanto os demais se acomodavam em cadeiras, banquetes e puffs. Muita gente diferente. Para alguém que nunca tinha participado de um culto, e além disso estava exposto a quem passava na rua, podendo, inclusive, ser reconhecido por pessoas do seu convívio que ao verem naquele ambiente estranho poderiam em seguida o delatarem aos seus pais, aquela visita tornou-se algo extremamente embaraçosa. Naquele dia, em razão desse drama pessoal nada entendeu, não prestou atenção, queria sair correndo dali porque estava mais preocupado em não ser visto. Em muitos momentos ficou se questionando os por quês de ter chegado àquele lugar. A sensação era de grande vergonha. Saiu dali com algumas literaturas com as quais passou a comparar com o Novo Testamento das Edições Paulinas que possuía. Ficou tão convencido e ao mesmo tempo tão acovardado que tentava mostrar sua mãe as razões da fé. Sua mãe temendo que seu filho se tornasse um fanático derramou-se em lágrimas diante dele, “obrigando-o” a jogar fora aquela boa literatura. Resolveu-se não mais pensar em ir para aquele “projeto de Igreja”, decidindo-se também não participar mais da crisma. Achou-se enganado com o dogmatismo católico e suas falácias. Os homens de preto caíram no seu descrédito.
Os meses que se seguiram foram de estudos seculares, mas também de exame das Escrituras. Agora, solitariamente, não permitindo a influência de outrem cedeu ao chamado do Espírito. Após programar sua despedida da vida mundana para a festa de 15 anos de sua irmã, nosso jovem, com uma semana de antecedência, visitou um dos amigos, informando-o que iria para sua Igreja no domingo seguinte.

Em 08 de outubro de 1989, após meses de embates e conflitos, o jovem perdido encontra guarida nos braços do Cristo. Foi num culto tremendo: George tocava violão entoando louvores ao Criador, o jovem pregador Glauco pregava sobre o arrebatamento da Igreja (o jovem fixou aquela doutrina e nunca se esqueceu daquela pregação) e muitos irmãos se alegravam naquele local. Era contagiante. O culto estava sendo realizado na cozinha da mesma casa de meses anteriores com o aparato dos bancos, de um singelo púlpito e de cadeiras. Tudo muito simples. Estavam ali: Glauco, Glívia, Geisa, Marcos, George, Assis, Geovani, Marleide, Maria (irmã da Assembleia de Deus de Tauá que se congregou durante algum tempo conosco), Airton, João, Tereza, Haroldo, Flávio, Manoel, Carlos Alberto, Cláudio, Henrique e Marquinhos (a maior parte de novos convertidos). A Igreja Moriá começava a se tornar conhecida no bairro, levando pessoas a Cristo e iniciando um forte trabalho de evangelização.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Memórias de Moriá – o ano de preparação, uma das vertentes

Local do primeiro culto de Moriá
Em 1988, um rapaz tímido e caseiro começou a descobrir um mundo outrora desconhecido: um mundo rebelde e irreverente. Apresentaram-no ao som de “geração coca-cola”, uma música de uma banda de Brasília, através da qual se engajou num grupo com alguns colegas de bairro os quais se tornariam mais tarde responsáveis por sua conversão. De muitos colegas restaram quatro que se encontravam semanalmente e eram fiéis aos seus gostos musicais e juvenis.
Aquele foi um ano memorável. O rapaz começou a ouvir e a entender as letras de bandas pop-rock, principalmente, a Legião Urbana. Gostava também de Titãs, Paralamas do sucesso, Ira, Zero e Cazuza. A febre juvenil causada pelo veneno musical o despertou para amores concretos e não mais platônicos. Nas baladas, acostumou-se a namorar desconhecidas, ficando com uma e com outra na mesma noite. Não tinha amor certo, apesar de querê-lo muito. Encantado com o véu que lhe cegava, dedicava-se à dança, extravasando até suas últimas forças nos “agitos jovens” de finais de semana. A noite começava e terminava e não o via parar com o inquietante movimento de corpo ao som ensurdecedor das grandes caixas acústicas. Shows no ginásio Paulo Sarasate? Não perdia um. Muito embora não tivesse interesse e apreço por algumas bandas que lá tocavam ia devido à juventude presente. Queria ver, mas não ser visto, vivenciar, conhecer, ficar amigo, transmitir algum sentimento provocado pela “alvorada voraz”... É importante mencionar que todos do grupo respiravam e transpiravam aquela emoção que os fazia dizer mais ou menos assim: “Às vezes parecia que de tanto acreditar em tudo que achávamos tão certo. Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais, faríamos  floresta do deserto e diamantes de pedaços de vidro”. Que grupo! (suspiro)
Contudo, o quarteto dos solitários buscava algo. Eram quatro que restaram, depois só três. Enquanto eram, viviam intensamente o tempo juvenil, encontrando-se sempre durante a semana para conversar sobre assuntos relacionados com o ser jovem. Noites estimulantes para as baladas de fins de semana. Ouviam juntos “Legião”, expressavam seus anseios, sonhos, ambições... Havia integração, não havia brigas ou discórdias, somente um sentimento de “ganhar a vida”, sentimento um tanto quanto solidário. Eram como iguais, apesar de conhecerem-se diferentes. Algo os uniu, fazendo com que essa união durasse o suficiente para um redirecionamento de vidas logo a seguir.
Tudo ia muito bem, até quando outro jovem, um ex-surfista sem parafinas no cabelo, encontrou parte desse grupo numa daquelas noites (o mais insignificante dos jovens do quarteto não estava presente e até hoje não se sabe aonde se encontrava, pois sempre “batia o ponto” naquele ambiente da rua por aqueles tempos). Eles ouviram uma mensagem diferente, revigorante e inspirada pela vida abundante de Deus. Ouviram e atentaram, como poucos, para a mensagem da cruz, do perdão de pecados e da salvação. Um convite inesperado foi proferido pelo jovem “intrometido”: estava programado um culto na Rua Joaquim Torres, 935, Joaquim Távora, e o jovem pregador queria vê-los na reunião. Além da “geração coca-cola”, foram outros ouvintes para aquele culto o qual pareceu exercer forte influência sobre eles. Uns se converteram, outros ficaram impactados e outros nada sentiram, porquanto aqueles que se converteram perceberam e disseram: “Eu sei é tudo sem sentido”, referindo-se a efemeridade da vida. Ali começava um mover de Deus através das vidas de jovens rebeldes na paróquia da Piedade cujas vidas passaria por uma profunda transformação pelo Evangelho.
Neste momento, parte da “geração coca-cola” se rendeu a Cristo, tornando-se “Geração eleita e sacerdócio real”, enquanto os outros continuaram uma vida sem Cristo. Os convertidos foram discipulados pelo jovem pregador. Vinha ele trabalhar naquela localidade em razão de seu chamado. Deus o havia inspirado a sair de sua terra para ir a outra mostrada pelo Deus da glória. Nesta “nova terra”, semeou o Evangelho e logo fez sua primeira colheita. Os primeiros frutos foram “jóias brutas” cujos talentos necessitavam ser lapidados. De modo que aceitaram e confiaram suas vidas à instrução daquele jovem homem que dedicou muito de sua preocupação àqueles que considerou como filhos (sentimentos de saudades deste tempo, apesar de não ter participado deste momento).

Desta forma, a primeira “geração coca-cola” findou-se, começando, assim, Moriá...

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Essência da Reforma

Para muitos, a Reforma Protestante foi um movimento grandioso que atingiu países europeus na Idade Moderna. Levam em consideração a amplitude e os diversos efeitos que culminaram com o declínio do domínio católico e estabeleceram um novo momento histórico para a Europa. Mas, qual a essência da Reforma?
Acredito que a grande máxima de Lutero responde, sem dúvida, esse questionamento. A busca de alento para o sofrimento da alma pecadora em Lutero é apontado como marco. Através das angústias vivenciadas no claustro, inspiradas pelo anelo de certeza de salvação e pela plena liberdade dos grilhões do pecado, Lutero transmiti-nos as origens e os fundamentos do movimento. Afinal, sua intenção era modificar o quadro interior em trevas e somente pela orientação precisa das Escrituras abandonaria definitivamente aquela circunstância. Sentiu a pura e a celestial orientação quando teve a oportunidade de meditar nas Escrituras e assim poder livrar-se de tão horrendo fardo. O resultado? A descoberta da simplicidade do ensino de Cristo, incentivando Lutero a afirmar e a experimentar o texto paulino de que “o justo viverá pela fé!”. Sua reflexão o fez perceber a necessidade de retorno ao sentido primeiro para a salvação que é desprovida de obras e cerimônias, demonstrando, assim, a importância da Bíblia que nos assiste na necessidade fundamental de redenção.
Após o esclarecimento de que “o justo viverá pela fé”, Lutero passou pelo processo de regeneração. A regeneração produz salvação, mas é desenvolvida na efetivação diária da nova vida em Cristo, ocasionando uma visão mais apurada e verdadeira da realidade. Lutero depois de superar seus conflitos passou a ver com maior atenção as sugestões católicas de exploração do povo, afinando a pena para escrever criticamente contra aquelas ações contrassenso e contra Deus. Num primeiro momento não quis romper com a igreja apóstata, quis restaurá-la aos padrões neotestamentários. Por isso, com bom coração tentou ensinar o clero romano sobre a natureza da penitência, uma forma de atenuar sua crítica à venda de indulgências. Fixou na porta de Wittenberg suas 95 teses com a seguinte introdução:
Debate para o esclarecimento do valor das indulgências pelo Dr. Martin Luther, 1517
Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
Ademais, no singelo ato do reformador alemão percebe-se explicitamente a mudança de atitude que ele via como necessária, primeiramente para o Lutero indivíduo, pois a reforma do eu vem em primeiro lugar. A segunda reforma era para o coletivo, testemunhando sobre a necessidade de todos buscarem o que o próprio Martinho buscou para uma posterior realização do intento divino na vida interior geral.

Heládio Santos

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"Boom" de vendas das publicações de MORIÁ

Nos últimos meses estamos verificando um aumento significativo nas vendas dos livros publicados pela Moriá Editora. Livros de grande envergadura e de conteúdo profundos foram disponibilizados para venda em lojas e sites evangélicos para uma movimentação maior de nossa literatura. Com o aumento do interesse dos evangélicos pelo conhecimento doutrinário e bíblico, busca-se nos livros MANIFESTO CONTRA O MUNDANISMO e TEOLOGIA DO FOGO um amparo autêntico e sintonizado com os ideais neotestamentários. Em ambos os livros, poderíamos também chamá-los tratados, verificamos uma versatilidade bíblica com conhecimento lúcido e, acima de qualquer outra coisa, espiritual que chancela as obras. A Casa da Bíblia e Casa da Bíblia on line estão disponibilizando as últimas unidades das duas obras, a primeira já na 2ª edição e a outra na 1ª edição. O autor dos livros dispensa comentários, pois o Prof. Dr. e pastor Glauco Barreira Magalhães Filho tem se dedicado ao estudo doutrinário e bíblico do Cristianismo desde sua conversão, conseguindo incorporar esse conteúdo às suas diversas produções, sejam em livros, teses de mestrado e doutorado, artigos científicos, entre outros, tornando-se uma autoridade em matéria doutrinária e de História do Cristianismo.
Outra parceria foi firmada com a Editora Carisma que tem tido um empenho em nível elevado para divulgação de outra publicação da Moriá Editora: o livro MONTANISMO E OS PROFETAS CATAFRIGAS: UMA ANÁLISE CONTRA HEGEMÔNICA DA HISTÓRIA DO MOVIMENTO MONTANISTA. Neste livro, resgata-se o primitivismo cristão, associando-o ao primeiro grande movimento de despertamento espiritual ocorrido após a era apostólica: a Nova Profecia ou o Montanismo, como é mais conhecido. É um tratado histórico e de grande valia para estudiosos, seminaristas, historiadores e apaixonados pela História do Cristianismo. Como já é sabido, o livro é resultado de uma intensa pesquisa sobre o assunto, tendo o autor ingressado em um campo do saber teológico pouco explorado, principalmente porque muitos acham a Patrística muito mais atraente do que o movimento em questão. O autor, que é também sociólogo, desmistifica o movimento tentando retirar o estigma impregnado há muito, dedicando um novo olhar para Montano e seus seguidores, fazendo ganchos com um dos autores mais célebres dentre os Pais da Igreja, Tertuliano. Esse livro pode ser apenas uma primeira etapa da abordagem montanista, pois o autor continua suas pesquisas e traduções dos textos em latim de Tertuliano para tornar seu trabalho mais consistente. Heládio Santos desenvolve este trabalho em parceria também com o Instituto Pietista de Cultura onde leciona algumas disciplinas, entre as quais Patrística. Na próxima semana, a Editora Carisma (distribuidor exclusivo) estará recebendo uma centena de livros para dar continuidade à venda e sua divulgação.

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